Uma Mãe que não serei capaz de imaginar

Sentimo-nos às vezes estranhos, às vezes até tristes e muitas vezes fascinados com uma ou outra mulher, mulher jovem, mulher adulta ou mulher mais velha.

E é verdade, pois penso que não é só por ser o nosso género diferente, muitas vezes difícil de compreender, ou por ter um corpo que exala beleza e nos compromete por encanto a contemplá-la, como se por instantes nos esquecêssemos de que é um ser igual e a quiséssemos adorar.

Não sei se neste momento seria capaz de falar só da mulher em geral, falar daquela que um dia nos fascinou e nos acompanha pela vida fora, nos atrai no olhar e nos deixa por instantes perdidos no sonho intemporal, ou falar da irmã que amamos incondicionalmente através da sua alma, ou falar simplesmente da mãe que nos dá colo e aconchego eternamente; pois sei que medito num ser que é das mais belas criaturas do Mundo que Deus criou.

Às vezes, fico a meditar no tempo que tenho vivido, com a alma em que medito nos meus sonhos impossíveis, a alma que me aconchega na semelhança da mãe que me deu à luz, quem sabe se através de reflexos daquela Mãe que se transforma e ganha imensos rostos, tão proporcionais à nossa inteligência quanto ao nosso sentimento humano?!

Reconheço que, em cada homem, há uma constelação de surpresas e de forças, umas boas e outras más; reconhecendo por isso que homem e mulher justificam em parte a Paixão com que Deus Se multiplicou na Essência e continua a jogar os dados para manter a multiplicação e nos surpreender entre a nossa Caminhada.

Mas hoje queria ser moderado a dissertar sobre o estranho, não queria colocar palavras onde ainda gravitam algumas lágrimas. Queria, por isso, falar-vos de uma mãe que vi de modo ocasional há uns tempos e que não pude deixar de a olhar durante muito tempo, tempo em que cheguei a contemplá-la até ela desaparecer no horizonte, levando consigo aquele menino, que eu tive ao colo, embrulhado num xale e bem preso, para não cair pelos movimentos bruscos que ainda fazia naquela ocasião, os nossos caminhos desde a altura em que chegámos à última estação andaram noutro sentido.

Sentada numa daquelas carruagens antigas, bancos mais duros e espaços apeados de gente, num daqueles comboios vindos do Alto Alentejo e que demoravam mais de seis horas a chegar à estação do Entroncamento, vinha sentada uma mulher que segurava ao colo um menino ainda bebé, lindo, aliás, como são todas as crianças, mas a gritar em altos sons e a rejeitar o biberão de leite que aquela mãe insistia em dar-lhe a beber desesperadamente.

Sem saber como, supliquei-lhe para que me deixasse pôr um pouco de água a correr sobre o recipiente, parecera-me que este estaria quente e daí os seus gritos de dor, julgara eu!

Olhou-me de modo aflitivo, mas, sem mostrar nenhuma dúvida, consentiu que eu fosse a correr pelo corredor até à fonte do comboio, para ali abrir a torneira da água até refrescar um pouco o biberão, refrescar o suficiente para não ficar frio.

Voltei rápido, dei-lho para a mão, e ela borrifou algumas gotas sobre o rosto da mão procurando-lhe com grande certeza a boquinha da criança e continuar a dar-lhe o alimento.

Não resultou, o meu pequeno gesto de ajuda não resultou melhor: o menino permanecia em altos gritos, apressei-me a pensar que certamente seriam de alguma dor momentânea, e a mãe, já com algumas lágrimas nos olhos e o rubor das faces muito alteradas, ia olhando em agradecimento, reforçando lá nos seus botões a confirmar em silêncio que ela não falhara, não era a temperatura do leite que estaria em questão.

De repente, fiquei imensamente nervoso e, num gesto de pai, supliquei-lhe que me deixasse pegar naquele anjinho, sem lhe dar tempo, e quase roubando-lho dos braços, peguei nele ao colo e, de pé, com firmeza, comecei a embalá-lo num gesto de afeto para o tentar distrair enquanto em simultâneo empurrava para a sua boquita o bico do beberão, mas com um pouco de mais energia, para ele sentir no paladar o seu precioso alimento e começar a beber.

Mas nada, nada o fizera calar e não fora capaz de beber uma gota. Fiquei triste, frustrado, mas bastante meditativo. Não demorara muito mais tempo a chegarmos à última estação da linha; entretanto, reparei que ela continuava a insistir sem resultado.

Depois, ainda mais chocado, reparei que, quando nos apeámos na estação e eu me dirigi para a estação do Entroncamento, para poder regressar ao Porto, aquela mãe arrastava-se lá mais longe com a criança ao colo e, ainda entre gemidos, suportava entre aquele tormento o peso de um saco ao ombro e puxando colado a si ainda um outro que rolava a esmo.

Tudo isto me ficou gravado na memória, mas muito mais ainda é que, entre aquele sofrimento, ela continuava a olhar na minha direção; eu jamais esquecerei aquele olhar, de tal forma que ainda hoje me subiu aos pensamentos a minha fé, pois acredito que o menino, entre aquele soro de desespero e os aconchegos de ternura, acabou certamente por adormecer até ser capaz de beber o leite que entre os nossos sonhos e pesadelos ficara à espera dele.

Não sei o que aquela mulher viu em mim, mas na viagem para casa interroguei-me bastante como fora possível ela subir tanto até à Mãe, não ter tido medo que fizesse mal ao seu menino, que confiasse em mim como se eu fosse o seu próprio marido, que acredito que será abençoado por ter aquela mulher, esposa, mãe. Sabe-se lá qual a diferença entre ela e a Senhora da Paz, que em todos os momentos nos socorre, principalmente na aflição humana.

Macedo Teixeira,António

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Sobre macedoteixeira

Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. É professor do ensino secundário (aposentado), tendo leccionado em várias escolas ao nível do ensino secundário público e cooperativo. É autor das seguintes obras literárias e filosóficas: Sementes da Verdade, Entre o Sol e as Ocupações, Crescendo Constroem-se os Sonhos, Quando as Estrelas Acordam e Caminho de Luz e Sombra. É também autor da obra dramática: Uma Dança na Escuridão. Colabora com jornais, fóruns e revistas, e é autor do blogue: www.partilharsaberes.webnode.pt
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