Instantes de Movimento e Vida

Fixara da agenda os assuntos a tratar naquele dia, abrira sem ansiedade o seu computador e lera seletivamente as mensagens que entretanto chegaram à sua caixa de correio. Passara rapidamente os olhos pelas notícias dos jornais diários, sublinhara os acontecimentos mais importantes e preparara-se um pouco melhor para sair até ao primeiro local donde habitualmente entrava para entre o sabor de uma xícara de café dar azo aos primeiros desabafos sociais; o proprietário do café era um homem simpático e gostava da asserção das coisas da bola, principalmente do seu clube desportivo, de que era um grande fã.

Nestes gestos de cordialidade e de registo social, verificava-se uma espécie de interlúdio para os Instantes da composição de mais um dia e que, nos acontecimentos mais gerais, se previa complexo e sempre algo imprevisível.

Assumia-se numa mistura de ingredientes plasmada de movimento e vida, que com o intercalar dos diversos trechos sociais se tornava na origem de uma composição complexa a ser narrada pela história da pegada humana.

Ataviara-se melhor e com um aprumo mais rigoroso descera até à garagem do seu andar para pegar no seu automóvel de cor preta e já usado mas muito limpo, e ainda com uma aparência de sinal bastante positivo; o automóvel não era apenas o seu meio de transporte, também representava um pouco do valor económico da sua riqueza conseguida na honra e dignidade do trabalho.

Naquele dia o café não estava tão cheio como de costume, era um tempo de férias escolares e a escola que ficava próxima, apesar de ser um lugar para os mais pequeninos, dava-lhe uma garantia de maior trabalho, não só os pais das crianças como também funcionários e professores acorriam durante esse período formando a maior parte das vezes uma enchente de pessoas.

Mesmo assim, aquele homem que servia no café de forma lesta e atenciosa estava com um ar sorridente para todos os que iam chegando, quer para ocuparem as mesas, quer para ficarem de pé pregados no balcão durante um tempo que não se alongava para além do saborear o paladar aconchegante que tem em Portugal uma xícara de café.

Fizera o mesmo, cumprimentara e sorrira de igual modo para os presentes, havia entre ambos uma amizade gerada pela convivência que depressa se estendia num ambiente de carinho, mesmo aos mais estranhos; o ambiente social urbano será certamente um pouco diferente daquele que decorre de uma matriz de envolvência campesina, é de crer que só o ato de tomar café se apresenta como uma realidade de sentido transversal, in actu.

Naquele dia o espaço, que estava mais vazio do que o habitual, não lhe seria vantajoso para aligeirar o momento da saída. Não dispunha de grande satisfação nem de grande tempo para poder tagarelar sobre as realidades mais simples ou então complexas pelas confusões muitas vezes reinantes em cada situação, como são as dos encontros desportivos e dos resultados do futebol, que na maior parte das vezes são sentidos apenas como expressão do resultado da vitória, do resultado do neutro ou do resultado da derrota, numa atividade social desportiva que acima de tudo deverá ter como finalidade a convivência entre pessoas, o seu recreio e o seu lazer.

De qualquer forma, mesmo assim, esta será sempre uma realidade agradável e não terá em nenhuma situação, por muito complicada que seja, nada de grave ou de tamanha insatisfação que não possa ser compensada por outras realidades sociais; não será como a realidade da fome e da miséria humanas, que destroem e matam a vida sem lhes darem nenhuma compensação nem lhes permitirem qualquer retorno.

Sem demonstrar desencanto nem dar sinal de tédio, despedira-se com um “Até à próxima”, misturando-se entre os demais nas despedidas agradáveis e de bom senso; há nestes lugares e nestes locais de natureza rural uma certa simbiose na amizade, que fraquejará no seu encanto quando se esquecem os pormenores da simpatia, do respeito e da elegância na conduta; o ser humano aqui torna-se mais transparente.

Entrara no carro e com delicadeza mantivera por alguns segundos o motor a trabalhar sereno e sem pressa, assinalara depois o pisca na direção a seguir e pusera-se a caminho. Com o rádio ligado em tom suave, deixara-se embalar levemente por uma linda canção a que, sem grande força, não resistira a trautear na intermitência alguns dos versos da melodia.

Entretanto começara a pensar na primeira coisa que deveria tratar naquele dia, a situação em que se encontrava não era nada agradável e daí evidenciar alguma perturbação no seu ânimo. Precisava de encontrar o gerente do banco a quem ia recorrer a um empréstimo, necessitava que este se mantivesse atencioso e humano para lhe conceder um pedido de crédito, em situações especiais de idade, pois tinha uma prestação global vencida no tribunal da casa de habitação que comprara, ainda como inquilino e que, numa razão inesperada e bastante posterior, pois no momento da sua promessa de compra acreditara que não teria de ir até uma situação daquelas e já tão avançado na idade para o crédito à habitação, pois por razões de incompreensão e de injustiça de algumas pessoas levaram na contenda a que o caso fosse resolvido sem prévio conhecimento do inquilino nos termos da Justiça por venda em hasta pública no Tribunal da Comarca.

Necessitava de encontrar naquele momento alguém que compreendesse a aflição, que confiasse na honra e na seriedade da pessoa e estivesse disposto a correr algum risco aparente perante a administração do banco no entendimento que poderiam fazer da sua competência e zelo na defesa do dinheiro da instituição.

Como se procurasse no movimento a resposta que procurava, olhara desinteressadamente para as realidades que avistara naqueles instantes, uma mulher com uma criança ao colo anunciando um quadro de maternidade que lhe lembrara a mãe quando caminhara com ele a gritar para pedir socorro perante a gravidade do ferimento que lhe abrira a água fervente quando era ainda pequenino e a sua mãe dormitava sobre a mesa. Lembrara-se de que ela fora buscar forças sem saber onde para sulcar as águas que, alvoroçadas, naquele dia de inverno corriam barrentas e enchiam com uma força medonha o carreiro que a mãe com ele a gemer de dor e abraçados na tragédia tivera de percorrer até à primeira povoação.

Um pouco mais adiante, reparara num enorme camião carregado de troncos de madeira que rasgava a estrada sem piedade na alegria expressiva do condutor que parecia segurar o volante como se este fosse a rédea de um cavalo que teria de domar num certo tempo e entre uma certa distância; aquele homem dera-lhe força e coragem para acelerar a velocidade e ir sem tibieza ao encontro de um pouco de felicidade no dinheiro que procurava e na casa que passaria a ser definitivamente sua; tornara-se de repente um jovem repleto de loucura e de sonho.

Na azáfama do caminho a percorrer misturara a emoção com alguma lucidez; sentira-se turvo por instantes, mas depressa fora acordado por um taxista que procurava na distância alguém para transportar, sabe-se lá quem! Talvez uma pessoa como eu, que procurasse naquele instante os sonhos, mesmo que não pudesse revelá-los por não lhe conhecer rigorosamente a origem, uma casa, um carro, um curso para um filho, um emprego para a filha ou, simplesmente, que o levasse até um lugar sagrado onde pudesse encontrar a paz para uma desavença havida no seu lar.

Entrara no banco possuído de uma coragem e de uma força que jamais certamente algum gerente sentira; decidido, fora expedito na explicação do que pretendia, e ao cabo de pouco tempo o gerente estava a colocar-lhe condições de pegar ou largar. Respirara fundo, ouvira a sua mulher e lembrara-se num ímpeto de surpresa de que o que lhe acontecera não fora senão mais um acontecimento para o pôr à prova perante outras circunstâncias ainda mais difíceis.

Aquela mulher que segurava a criança ao colo não era nenhuma gigante, mas parecia ter uma força que não emanava da sua doçura; era a vida agreste que pulsava nela e naquela ocasião.

O condutor não era um domador de cavalos, mas encarnava a luta da natureza para conseguir os seus fins.

O taxista não era intolerante, naquele momento era o guia que, em certo desencanto da vida, vai buscar dentro da alma um dito de espírito para alegrar na solidão humana ou no corpo por um grito de buzina para acordar aquele que adormece desencantado pelo peso do sofrimento e da amargura nos caminhos ásperos da vida.

Assim somos os seres humanos, e em cada instante que vivemos há um movimento e um acaso a experimentarem a nossa vida.

Macedo Teixeira

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Sobre macedoteixeira

Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. É professor do ensino secundário (aposentado), tendo leccionado em várias escolas ao nível do ensino secundário público e cooperativo. É autor das seguintes obras literárias e filosóficas: Sementes da Verdade, Entre o Sol e as Ocupações, Crescendo Constroem-se os Sonhos, Quando as Estrelas Acordam e Caminho de Luz e Sombra. É também autor da obra dramática: Uma Dança na Escuridão. Colabora com jornais, fóruns e revistas, e é autor do blogue: www.partilharsaberes.webnode.pt
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