Crescendo Constroem-se os Sonhos (II)

Tenho-me interrogado acerca desta questão, perguntando a mim mesmo se a realidade que vivemos em cada fase da nossa vida não poderia ser vivida de modo diferente, se não poderia ser ao menos reforçada pela presença permanente de laços de ternura e sentimentos de espera por uma presença que queremos e que não deveria acabar nunca. Compreendo que não podemos ser sempre donos do nosso tempo e da nossa vontade; sei que um dia, quando somos maiores e mais velhos, temos de aprender a tomar conta de nós e até da comunidade a que pertencemos. Sei que é necessário o exercício da libertação e da responsabilidade que a Escola e a Sociedade nos iniciam no tempo próprio, pois não podemos viver sempre na dependência dos outros. Mas não compreendo que não possamos ser acompanhados eternamente de laços de ternura e de espera, pela chegada ao lugar e ao coração do que a nossa existência nunca deixou de sentir e desejar. Sei que são muitos aqueles em que as condições humanas são muito pobres e o aconchego não é senão desespero, mas não creio que isso tenha de ser assim. Julgo que muitas vezes essas realidades vivenciais são a expressão final e dolorosa de um mundo desumano que a sociedade prepara sem se lembrar que o que vê nos outros é a imagem do seu próprio sofrimento.

Se a Sociedade fosse capaz de entender que um bocadinho de ” pão”, com a alegria do afecto e a estima do sentimento pode dar força para enfrentar os grandes obstáculos, não sentiria tanta dor em tantas pessoas nem os grupos tentariam a fuga para um mundo que não estará completo, se lá não estivermos todos. Se a sociedade fosse, não apenas a expressão do grupo, mas o seu verdadeiro valor, que vale pelas qualidades e capacidades das pessoas e, sobretudo, pela força que dispõe para resolver os problemas do mundo em que é basicamente responsável. Se a sociedade fosse assim, ela seria um valor que todos queriam e não um valor que é por muitos rejeitado dadas as falsas qualidades, que são em grande parte as mais evidentes. A sociedade terá que entender cada vez mais que serão as qualidades verdadeiras que a tornarão coesa e elevada, serão esses valores que farão elevar o homem aos sentimentos mais profundos do valor da vida.

Falo de ternura, da presença e da espera, falo de qualidades do afecto e do coração, mas também outras devem começar muito cedo a serem evidentes para a criança. A justiça, a coragem, a rectidão, a liberdade, a amizade e outros valores vão-se descobrindo pela experiência, mas os adultos não podem demonstrar às crianças a sua importância, pela exemplificação das falsas qualidades. Não se podem resolver os problemas do mundo se não se melhorarem as nossas atitudes, os nossos actos e os nossos pensamentos. Tenho ainda presente o que ouvia contar sobre alguns acontecimentos que marcaram positivamente a nossa história nos domínios da conquista e da expansão, mas fundamentalmente nos domínios da coragem e da sinceridade dos vários exemplos humanos que ficaram para sempre gravados na minha memória de criança. A personalidade de uma criança, a sua memória e a sua imaginação têm que ser construídas com conteúdos sinceros, acontecimentos com alguma heroicidade e factos que criem plasticidade. Também guardo com carinho algumas passagens de que foram exemplos pessoas das mais diversas origens – o seu carácter, a sua sinceridade e a convicção com que praticavam os seus actos, servem-me, ainda hoje, de reforço para o equilíbrio emocional e social, especialmente nos momentos em que na sociedade actual não encontro senão um ambiente desconexo e vazio de sentido. É nestes valores que se formam as maneiras da sensibilidade e os diversos pensamentos que muito cedo serão repartidos na caminhada da nossa vida e no valor da expressão que lhe vamos dando à medida que crescemos e nos tornamos homens.

Quem não se lembra de alguns dos momentos da sua meninice? Daqueles momentos que facilitaram a abertura da nossa memória pelas traquinices consentidas e pelas brincadeiras atordoadas de emoção. Era menino e gostava tanto de pescar, que me esquecia do comer e da promessa de chegar cedo, que tinha feito a minha mãe. Depois da escola ou aos fins de semana pegava numa cana com linha e anzol, metia um bocado de pão no bolso e lá ia a procura do melhor pesqueiro que houvesse próximo de onde morava. Atirava algumas pedrinhas aos peixes, brincava com eles, sem ter consciência disso! Depois, gostava de os atacar com todas as minhas habilidades, com pedras maiores afastava-os uns dos outros, a água formava círculos concêntricos e uma certa ondulação que os confundia. Esperava que esta voltasse a normalidade e à sua limpidez, fazia uma bolinha de pão e colocava-a no anzol a servir de isco. Como precedente, atirava à água bastantes bocadinhos de pão para os atrair, e como consequência não tardava a trazer para cima uma “boga”, um “escalo” ou um “barbo”, que manifestavam tanta vida como aquela que é própria de uma natureza pura. Foram momentos que tive e que devem ser semelhantes a todas as crianças, senão nos factos, pelo menos nos desejos e na vontade de experimentar. Momentos que temos num certo tempo que são bons quando realizados ou são tristes quando insatisfeitos ou irrealizáveis por qualquer razão, mas que nem por isso deixaremos de estar alegres e de ser crianças sadias.

Foram sensibilidades da inocência e da pureza do nosso espírito; foram elas que nos deram força, nos alimentaram de ternura e até nos guindaram da solidão das tristezas ou das alegrias quando não tínhamos grupo para as manifestarmos. Foram o prémio de um valor que exaltava a nossa alma de pequeninos e nos abria os sonhos das ilusões passageiras que, apesar de tudo, tinham uma graça especial.

Quem não se lembra de pouco ter dormido na noite em que lhe tinham dado alguma coisa para calçar ou vestir, jogar ou passear? Quem não sentiu que a noite era demasiado longa e o dia tardava a nascer, para podermos ver e mostrar o que nos tinham dado? Fossem umas botas de cabedal duro e forte para atestarem alguma humildade económica, fossem uns belos sapatos de verniz para estrearmos em cerimónia ou prendarmos os valores materiais da vida de quem tinha um pouco mais para gastar e podia viver do luxo. Quem não se lembra destas palpitações nervosas pela causa de uma realidade que era necessária, mas que para nós era uma prenda que fazia notar e, ao mesmo tempo, nos fazia dizer: “Vês o que eu tenho novo, não é bonito?”

Todos se lembram com certeza, mas a maior parte de todos nós, nas grandes ocasiões da vida, esquecem esse sentimento de pertença dado pelos valores vividos que não “ilustram na sua recordação”, mais pela origem económica do que pelos factos, pois os meninos são sempre desculpáveis! Esquecem estes sentimentos por julgá-los pobres e tornam-se sobranceiros em relação a estas “meninices”, julgando-se muito certos e muito mais crescidos como adultos.

Grande erro em que caímos, que poderá ser desculpável quando resulta da nossa ignorância, do desconhecimento do valor cultural que tem origem e riquezas diversas ou do desconhecimento do valor dos valores. Mas já não poderá ter desculpa se esta atitude for de elevação social, sem ter substrato real nem o valor cultural da humildade, em virtude da negação dessas vivências, querendo-se ser arrogante e ter mais que os outros, mesmo através dessa distinção falsa. Estaremos numa atitude baixa, porque negamos a nossa sensibilidade de crianças e mostraremos um adulto que ainda não somos nem nunca seremos se não mudarmos. Será uma atitude sem exemplo, porque todos devemos ser mentores de exemplos comparativos de um mundo de valores com partilhas diferentes e origens diversas; o nosso mundo de crianças é um mundo mais semelhante e comum que os mundos seguintes.

As maneiras da sensibilidade são várias e serão tanto mais ricas quanto mais história factual tiverem. A todos sem excepção é reconhecida a sua vida e a qualidade igual que esta deve ter; se diferenças houver, serão naturais, e por qualquer razão que não será da nossa conta. Essas qualidades não criarão sentimentos de abaixamento social em quem as viveu e experimentou; se forem pobres os objectos com que brincáramos, terão o sabor da recordação de como foram experimentados no efeito da diversão e não pelas capacidades tecnológicas ou culturais que possuíam. Se os objectos forem materialmente ricos e muito sofisticados, trarão à recordação o mesmo sentimento de alegria, porque as crianças brincam mais pelo gosto do prazer do que pelo gosto do ter. A afirmação pelo ter objectos valiosos em adultos é uma noção social de poder que tem uma raiz mais dominadora do que humana. E é bom que se diga, que são as experiências de criança e a riqueza do mundo em que esta vive e é educada, que permitem o equilíbrio, mais tarde, entre a ordem do poder social e a ordem do dever humano.

Não se sabe, com pormenor, a força da sensibilidade que recebemos em cada fase ou ocasião da nossa vida, mas é específico da ordem natural, que sejamos estimulados por forças e tensões para a criação de atitudes cada vez mais originais. Emergem, por efeito destas riquezas, as maneiras da sensibilidade que criarão o nosso mundo que, sendo natural, se tornará cada vez mais humano e, por isso, perfeito como as nossas vontades o querem. O nosso mundo terá que ser cada vez mais sensível e imaginário, terá que ter uma história rica de acontecimentos, especialmente da nossa infância, acontecimentos que sejam simples e que permaneçam sempre na nossa memória, para que possamos ser mais tarde como pessoas e adultos muito mais elevados.

Macedo Teixeira

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Sobre macedoteixeira

Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. É professor do ensino secundário (aposentado), tendo leccionado em várias escolas ao nível do ensino secundário público e cooperativo. É autor das seguintes obras literárias e filosóficas: Sementes da Verdade, Entre o Sol e as Ocupações, Crescendo Constroem-se os Sonhos, Quando as Estrelas Acordam e Caminho de Luz e Sombra. É também autor da obra dramática: Uma Dança na Escuridão. Colabora com jornais, fóruns e revistas, e é autor do blogue: www.partilharsaberes.webnode.pt
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