A AMBIÇÃO SUPERADA

                    

Certo dia uma rica senhora viu, num antiquário, uma cadeira que era uma beleza. Negra, feita de mogno e cedro, custava uma fortuna. Era, porém, tão bela, que a mulher não titubeou – entrou, pagou, levou para casa.
A cadeira era tão bonita que os outros móveis, antes tão lindos, começaram a parecer insuportáveis à simpática senhora. (Era simpática).
Ela então resolveu vender todos os móveis e comprar outros que pudessem se equiparar à maravilhosa cadeira. E vendeu-os e comprou outros.
Mas, então a casa que antes parecia tão bonita, ficou tão bem mobilada que se estabeleceu uma desarmonia flagrante entre casa e móveis. E a senhora começou a achar a casa horrível.
E vendeu a casa e comprou uma outra maravilhosa.
Mas dentro daquela casa magnífica, mobilada de maneira esplendorosa, a mulher começou, pouco a pouco, a achar seu marido mesquinho. E trocou de marido.
Mas mesmo assim não conseguia ser feliz. Pois naquela casa magnífica, com aqueles móveis admiráveis e aquele marido fabuloso, todo mundo começou a achá-la extremamente vulgar.

 Este texto é de autoria de Millôr Fernandes, publicado no livro “Pif-Paf”.

Nascido no Brasil em 16 de Agosto de 1923, Millôr Fernandes foi um importante humorista, dramaturgo, desenhista, jornalista, escritor e dramaturgo.

 

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Retalhos da vida de uma Mulher
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Naquela amurada de prata…

Hoje vi-te naquela amurada de prata

eras céu de Janeiro

já lá vai tanto tempo que fomos mar e céu

estavas linda como aquela manhã de Outono

o teu andar voava elegante

como se não tivesse chão

era poesia nos teus cabelos

que de vento eram feitos

os sonhos não cabiam em nós

nem neste mundo

amei-te sem saberes

que a lua também chora à noite

José Guerra (2012)

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PARABÉNS, FERREIRA DE CASTRO.

Ferreira de Castro nasceu em Ossela, Oliveira de Azeméis, no dia 24 de Maio de 1898 e viveu até 29 de Junho de 1974.

Escritor e jornalista, é um dos autores com mais obras traduzidas em todo o mundo. A sua escrita manifesta uma inquietação humanista e social, sendo considerado o fundador do neo-realismo literário. Foi opositor ao regime ditatorial e defensor dos direitos humanos.

Com 12 anos de idade emigrou para o Brasil. Passou a viver no Seringal Paraíso, na Amazónia, onde trabalhou durante 4 anos, em pleno período da borracha, fixando-se depois em Belém do Pará.

A experiência vivida na Amazónia inspirou-o a escrever “A Selva”, a sua obra-prima, traduzida para diversas línguas e adaptada ao cinema.

Publicou o primeiro livro “Criminoso por Ambição”. Colaborou em alguns jornais locais. Fundou o semanário “Portugal”.

Regressou a Portugal em 1919. Fundou a revista “A Hora” e o magazine “Civilização”. Colaborou no “ABC”, “O Século”, “O Tempo”, “Imprensa Livre”. Foi director do jornal “O Diabo”.

Algumas das suas obras publicadas: “Emigrantes”, “Alma Lusitana”, “Rugas Sociais”, “Carne Faminta”, “O Êxito Fácil”, “Sangue Negro”, “A Boca da Esfinge”, “A Epopeia do Trabalho”, “O Drama da Sombra”, “Sendas de Lirismo e de Amor”, “Terra Fria”, “A Volta ao Mundo”, “A Tempestade”, “Os Fragmentos”, “A Curva da Estrada”, “O Instinto Supremo”, etc.

“As Maravilhas Artísticas do Mundo”, publicadas em dois volumes, foram uma das mais importantes obras de Ferreira de Castro, ocupando-o durante oito anos.

Recebeu os seguintes prémios: Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa; Prémio Catenacci da Academia de Belas Artes de Paris, pela publicação de “Maravilhas Artísticas do Mundo”; Prémio Internacional Águia de Ouro do Festival do Livro de Nice; Prémio da Latinidade, atribuído pela Academia do Mundo Latino. Foi homenageado em Paris pela Societé des Gens de Lettres.

Em 1939 fez uma viagem à volta do mundo.

Em 1968, a União Brasileira de Escritores apresentou a candidatura ao Prémio Nobel de Ferreira de Castro juntamente com Jorge Amado.

Foi presidente da Direcção da Sociedade Portuguesa de Autores.

Em Oliveira de Azeméis foi erguido um monumento em sua honra.

Em Sintra está situado o Museu Ferreira de Castro, onde se encontra o seu espólio, doado ao Povo de Sintra.

                  Texto autobiográfico de Ferreira de Castro:

Quando vinha com minha mãe ao mercado de Oliveira de Azeméis, passava por uma meia porta e via lá uma máquina a trabalhar, a tirar o jornal; aquilo parecia-me uma obra de Deus e o meu sonho todo, tinha 9 anos, seria escrever umas coisas para aquele jornal, para a «Opinião». Se alguém podia ter feito a felicidade de uma criança, seria aquele jornal.” (…)

“…Na minha aldeia fiz a instrução primária; no seringal, lia todos os livros que conseguia encontrar, o que estava muito longe de ser suficiente. Eu sou autodidacta. Não posso mesmo dizer que estudei no que isto significa de disciplina, pois tudo o que aprendi, desde as línguas que me permitissem conhecer o espírito dos outros povos, até à Sociologia e a Filosofia, que tanto me interessavam, o fiz sem esforço… e graças a isso, todas as minhas incursões no mundo do conhecimento humano foram agradáveis em vez de penosas”.

Nesta homenagem no dia do seu aniversário, um excerto do livro “A Selva”:

“E por toda a parte o silêncio. Um silêncio sinfónico, feito de milhões de gorjeios longínquos, que se casavam ao murmúrio suavíssimo da folhagem, tão suave que dir-se-ia estar a selva em êxtase.

Às vezes, era certo, uma imprevista e pânica restolhada de folhas e asas levava Alberto a parar e a agarrar-se, instintivamente, ao braço do companheiro.

– É uma inhambu – explicava Firmino, sorrindo.

Mais adiante, um lagarto, correndo repentinamente sobre a folhagem morta, de novo o galvanizava.

Mas o silêncio volvia. E, com ele, uma longa, uma indecifrável expectativa. Dir-se-ia que a selva, como uma fera, aguardava há muitos milhares de anos a chegada de uma presa maravilhosa e incognoscível.” (…)

“O mal não está apenas no que a censura proíbe
mas também no receio do que ela pode proibir.”

Ferreira de Castro

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PARABÉNS, EDUARDO LOURENÇO.

Eduardo Lourenço nasceu em São Pedro do Rio Seco, no dia 23 de Maio de 1923.

Professor universitário, ensaísta e filósofo, é uma das personalidades mais destacadas da cultura portuguesa contemporânea.

Frequentou durante cinco anos o curso no Colégio Militar. A seguir foi admitido na Faculdade de Ciências, que abandonou ao fim de um ano. Decidiu prestar provas para admissão ao curso de Ciências Históricas e Filosóficas, que completou com elevada classificação.

Foi Assistente de Filosofia na Universidade de Coimbra; Leitor na Universidade de Hamburgo; Leitor na Universidade de Heidelberg; Leitor na Universidade de Montpellier; Professor convidado na Universidade da Baía; Leitor na Universidade de Grenoble; Professor na Universidade de Nice; Professor na Universidade Nova de Lisboa; Conselheiro Cultural junto da Embaixada Portuguesa em Roma.

É administrador não executivo da Fundação Calouste Gulbenkian.

Recebeu doutoramentos Honoris Causa pelas seguintes Universidades: Rio de Janeiro, Coimbra, Nova de Lisboa, Bolonha.

Da sua extensa bibliografia, destacam-se, aleatoriamente, as seguintes obras: “Heterodoxia”, “O Desespero Humanista na Obra de Miguel Torga e o das Novas Gerações”, “Sentido e Forma da Poesia Neo-Realista”, “Fernando Pessoa Revisitado”, “Água”, “Os Militares e o Poder”, “O Fascismo Nunca Existiu”, “O Labirinto da Saudade”, “o Complexo de Marx ou o Fim do Desafio Português”, “Fernando, Rei da Nossa Baviera”, “Nós e a Europa ou as Duas Razões”, “O Canto do Signo – Existência e Literatura”, “O Esplendor do Caos”, “Le Poète dans la Cité”,”O Outro Lado Da Lua”, “Poesia e Metafísica”, etc.

A Fundação Calouste Gulbenkian, o Núcleo de Investigação em Ciência Política e Relações Internacionais, a Universidade de Évora e Eduardo Lourenço, trabalham em conjunto no projecto editorial de 38 volumes, intitulado “Obras Completas”, cujo primeiro volume “Heterodoxias”, já foi publicado.

Eduardo Lourenço recebeu diversos prémios, tais como: Prémio Nacional da Crítica, Prémio D.Dinis, Prémio Europeu do Ensaio “Charles Veillon”, Prémio Camões, Prémio António Sérgio, Prémio Vergílio Ferreira, Prémio Extremadura para a Criação, Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura.

Em Maio, deste ano, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa de 2011, pelo seu trabalho de reflexão crítica ao longo de mais de cinquenta anos de actividade.

Recebeu várias condecorações, como: Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique; Chevalier de L´Ordre des Arts et des Lettres; Cavaleiro da Legião de Honra de França; Encomienda de Numero de la Orden del Mérito Civil pelo Rei de Espanha; Prémio Europeu de Ensaio Charles Veillon.

Eduardo Lourenço nunca se submeteu a qualquer corrente de pensamento ou escrita, sendo a sua obra vincadamente personalizada.

Algumas das suas reflexões:

-“A morte é um limite da nossa capacidade de decidir e de agir, é o obstáculo não concreto com o qual estamos defrontados.”

        – “Quem não tem existência mediática (por boas ou más razões) hoje, não existe.”

        – “O rir é não é só a expressão humana por excelência, mas qualquer coisa que nos permite distanciar daquilo que nos ameaça, resistir.”

        – “O verdadeiro crítico é aquele que não compreende a obra e antevê (um pouco) as razões por que não pode compreendê-la.”

        -“A Europa real é uma colecção de identidades que já não têm a capacidade de se viver plenamente como nações, nem a força de querer e de imaginar a futura Europa como uma nova espécie de nação”.

        – “Em princípio, todo o português que sabe ler e escrever se acha apto para tudo, e o que é mais espantoso é que ninguém se espante com isso.”

        – “A lógica não é tudo. Nascemos num país sem lógica.”

Nesta homenagem no dia do seu aniversário, um excerto do livro: “Labirinto da Saudade”:

– “A consciência da nossa fragilidade histórica projecta os seus fantasmas simultaneamente para o passado e para o futuro. Já noutra ocasião, a propósito do Frei Luís de Sousa o tentámos mostrar. O drama de Garrett é fundamentalmente a teatralização de Portugal como povo que só já tem ser imaginário (ou mesmo fantástico) – realidade indecisa, incerta do seu perfil e lugar na história, objecto de saudades impotentes ou pressentimentos trágicos. (…) Lembro-me, eu, se não será tudo, ainda hoje, a continuidade do destino português?”

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Livro — Retalhos da Vida de Uma Mulher

No domingo dia 20, foi o lançamento do meu 1º livro “Retalhos da Vida de uma Mulher” em Silvalde, Espinho.

Uma história de encontros e desencontros. Uma história onde a coragem, a determinação e o perdão foram sendo (re)construídos numa magnífica luta contra o tempo…

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PARABÉNS, MARIA TERESA HORTA.

Maria Teresa Horta nasceu em Lisboa no dia 20 de Maio de 1937.

Estudou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Ficcionista, dramaturga, poetisa e jornalista de profissão, Teresa Horta colaborou em diversos jornais e revistas, tais como: “Diário de Lisboa”, “Jornal de Letras e Artes”, “Diário de Notícias”, “A Capital”, “República”. Chefiou a redacção da revista “Mulheres” e dirigiu o “ABC Cineclube”.

Foi militante do Movimento Feminista de Portugal.

Escreveu, com as suas companheiras de Movimento, Maria Velho da Costa e Isabel Barreno, o livro “Novas Cartas Portuguesas”, cuja temática (a exaltação do corpo, a libertação feminina e as repressões sociais), lhes causou um processo em tribunal, pela ousadia da desobediência dos códigos morais que dominavam a sociedade da época. Este livro teve larga difusão a nível internacional.

Da sua obra, destacam-se os livros: “Espelho Inicial”, “Cidadelas Submersas”, “Tatuagem”, “Amor Habitado”, “Candelabro”, “Verão Coincidente”, “Jardim de Inverno”, “Minha Senhora de Mim”, “Ambas as Mãos sobre o Corpo”, “Poesia Completa”, “Minha Mãe, Meu Amor”, “Antologia Política”, “A Mãe na Literatura Portuguesa”, “As Luzes de Leonor”, “Constança H.”, etc.

Fez parte do grupo “Poesia 61”, no qual participavam Gastão da Cruz, Fiama Hasse de Pais Brandão, Casimiro de Brito, Luiza Neto Jorge. Este movimento “Poesia 61” foi importante na descoberta de jovens talentos que viriam a ter destaque no panorama poético português.

Em 2011 recebeu o “Prémio Literário D. Dinis”, pelo romance “As Luzes de Leonor”. Este romance demorou treze anos a escrever devido à intensa pesquisa sobre a aventurosa vida de Leonor de Almeida, Condessa de Oyenhausen e Marquesa de Alorna, cuja importância na História e Cultura portuguesas foi incontestável.

Nesta homenagem a Maria Teresa Horta no dia do seu aniversário, o poema:

     A VOZ

Da tua voz
o corpo
o tempo já vencido

os dedos que me
vogam
nos cabelos

e os lábios que me
roçam pela boca
nesta mansa tontura
em nunca tê-los…

Meu amor
que quartos na memória
não ocupamos nós
se não partimos…

Mas porque assim te invento
e já te troco as horas
vou passando dos teus braços
que não sei
para o vácuo em que me deixas
se demoras
nesta mansa certeza que não vens.

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A Terra e o ambiente em Pagwagaya

Capa do Livro PagwagayaA acção continuada da Humanidade tem seguido sempre no sentido de prejudicar o meio ambiente ou de o moldar aos seus interesses imediatos. Mas até o interesse imediato é por norma prejudicial, ainda que não intencional, ao interesse da própria humanidade quando encarado a médio ou a longo prazo.

Como grupo, a Humanidade evolui largamente alheia aos próprios problemas que causa. Como grupo não é capaz de os identificar, e mesmo quando, por demais óbvios, os identifica, não é capaz de tomar as decisões necessárias para os resolver ou no mínimo para deixar de ser a causa.

Apesar da capacidade de recuperação que a Terra e a Natureza por vezes apresentam, a degradação do mundo natural é por demais evidente e não parece próximo o tempo em que o Homem realmente faça alguma coisa para inverter a situação.

A capacidade de recuperação da Terra assenta em mecanismos de retroacção que são na maior parte das vezes desconhecidos da ciência. Mas não deixam de ser mecanismos naturais.
Se apenas a Humanidade deixasse a Terra seguir o seu rumo…

É essa situação que é proposta em Pagwagaya.
No século XXVII a Terra está em fase adiantada de recuperação. Livre da influência hu- mana, recuperou para um estado quase pristino, como não acontecia há vários milhares de anos. Florestas frondosas, animais selvagens, rios abundantes e montanhas intocadas.
E o Homem é continuadamente impedido de exercer novamente a sua influência.

De um modo metafórico, em Pagwagaya, a Terra tem meios próprios de defesa. É uma realidade paralela ao Homem que este não consegue ver, do mesmo modo que não consegue perceber ou resolver os problemas que causa. Mas esta outra realidade não é de todo passiva e, uma vez tendo assumido o controlo, vai forçar a Humanidade a aprender, a ver com outros olhos tudo o que a rodeia e a desistir do tipo de comportamento que teve durante todos os séculos anteriores.

Lançamento do livro Pagwagaya no dia 26 de Maio, pelas 17h, na Livraria Barata da Av. de Roma – Lisboa
Website oficial: http://pagwagaya.armandofrazao.com
facebook: http://facebook.com/pagwagaya

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PARABÉNS, MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO.

 

 

 

Mário de Sá-Carneiro nasceu em Lisboa no dia 19 de Maio de 1890 e decidiu separar-se da vida no dia 26 de Abril de 1916, em Paris.

Foi poeta e ficcionista, um dos nomes mais relevantes do modernismo em Portugal.

Em 1911, matriculou-se na Faculdade de Direito, em Coimbra, mas desistiu alguns meses depois. Foi para Paris com a intenção de frequentar as aulas na Sorbonne, mas também por pouco tempo.

A sua incapacidade de adaptação social e psicologicamente inseguro, levaram-no a viver situações desesperantes.

No entanto, é entre 1912 e 1916, que escreveu a maior parte da sua obra poética. Durante esse período manteve correspondência assídua com o seu grande amigo e confidente Fernando Pessoa.

Com Pessoa, Almada Negreiros, Luís de Montalvor, Alfredo Guisado e Armando Cortes-Rodrigues, fundou a revista “Orfheu” que teve um papel essencial na renovação literária do século XX.

Apesar de ter uma curta produção literária, é considerado um dos maiores nomes da literatura portuguesa.

Da sua obra, destacam-se os livros: “Amizade”, “Princípio”, “Memórias de Paris”, “Dispersão”, “A Confissão de Lúcio”, “Céu em Fogo”, “Indícios de Oiro”.

Publicou muitos trabalhos literários nas revistas “Orfheu” e “Portugal Futurista”.

Em 1958 e 1959 as cartas dirigidas a Fernando Pessoa foram reunidas em dois volumes.

Nesta homenagem no dia do seu aniversário, o poema “Além-tédio”.

               Além-tédio

Nada me expira já, nada me vive

Nem a tristeza nem as horas belas.

De as não ter e de nunca vir a tê-las,

Fartam-me até as coisas que não tive.

 

Como eu quisera, enfim de alma esquecida,

Dormir em paz num leito de hospital…

Cansei dentro de mim, cansei a vida

De tanto a divagar em luz irreal.

 

Outrora imaginei escalar os céus

À força de ambição e nostalgia,

E doente-de-Novo, fui-me Deus

No grande rastro fulvo que me ardia.

 

Parti. Mas logo regressei à dor,

Pois tudo me ruiu… Tudo era igual:

A quimera, cingida, era real,

A própria maravilha tinha cor!

 

Ecoando-me em silêncio, a noite escura

Baixou-me assim na queda sem remédio;

Eu próprio me traguei na profundura,

Me sequei todo, endureci de tédio.

 

E só me resta hoje uma alegria:

É que, de tão iguais e tão vazios,

Os instantes me esvoam dia a dia

Cada vez mais velozes, mais esguios…

 

 

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Desabafos

Numa mesa de café partilham-se histórias esquecidas no tempo. Partilham-se estados de alma, devaneios e incertezas. Esquecemos a nossa identidade, mascaramos os nossos rostos… Fingimos estar sem estar, fingimos ver sem ver, fingimos ouvir sem ouvir e logo regressámos… com os olhos que se enganam na ânsia de se encontrarem.

 

 

 
 

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