Recordando os velhos amigos

A estreia literária de José Solá
( Recordando velhos amigos, transcrevo este artigo do jornalista e amigo da velha guarda, o Eurico José), publicado no jornal de língua portuguesa: Portuguese Times, de New Bedford.

Tenho o prazer de vos apresentar José Solá, meu amigo da adolescência e um
novo escritor português. Acaba de publicar a primeira obra aos 71 anos e não
deixa de ser uma boa idade para iniciar a carreira de escritor ou qualquer
outra carreira sonhada, desde que não seja maratonista.
Muitos autores começaram a carreira literária já com certa idade e, para a
brasileira Cora Coralina, Solá ainda vai muito a tempo. Considerada uma das
maiores poetisas e contistas de língua portuguesa do século XX, esta senhora
começou a publicar os seus livros aos 76 anos.
Portanto, não existe idade certa para escrever um livro. Basta, claro, ter
talento e criatividade. Muito menos existe uma idade para começar a ler e,
quanto a isso, o grupo de que o Solá e eu fazíamos parte era frequentador da
biblioteca das colectividades de recreio de Almada, a chamada Outra Banda,
onde nos criámos.
Naquele tempo, há 50 anos, a Outra Banda não era o actual prolongamento da
área metropolitana de Lisboa pela margem sul do estuário do Tejo. Eram
quintas e pequenas freguesias. Não havia a ponte 25 de Abril e quando íamos no
cacilheiro para Lisboa era como viajar para outro país. Em Almada todos nos
conhecíamos da escola, do autocarro, do barco, do café ou da colectividade a que
todos tínhamos que pertencer. Eu era da Academia Almadense, cuja biblioteca
foi criada por Romeu Correia e onde ganhei o gosto pelos livros, Solá
talvez fosse da Incrível Almadense, cuja biblioteca também foi reactivada pelo
Romeu, o responsável pelos interesses literários da minha geração.
Romeu Correia nasceu em Cacilhas em 1917, ano de muitas outras ocorrências,
desde a revolução soviética na Rússia à aparição da Virgem em Fátima,
segundo os pastorinhos Jacinta, Francisco e Lúcia. Era funcionário do Banco
Nacional Ultramarino em Lisboa, mas mais conhecido por ter sido campeão de boxe e
de atletismo do que propriamente como escritor, embora naquele tempo já
tivesse publicado meia dúzia de livros. O primeiro, o livro de contos Sábado
sem Sol, saiu em 1948, mas foi apreendido pela PIDE.
O curioso é que, apesar da PIDE manter a Academia Almadense e as outras
colectividades debaixo de olho, tive oportunidade de ler, por exemplo, as
proibidas traduções brasileiras do russo Mikhail Sholokhov e a trilogia
Subterrâneos da Liberdade, Jubiabá e outras obras de Jorge Amado.
A Censura portuguesa não era muito atenta e, já depois do 25 de Abril,
Romeu recordou um episódio ocorrido na Vértice, onde tinha colaborado. O director
desta revista literária de Coimbra, o poeta Joaquim Namorado, gostava de
brincar com a censura e durante alguns números publicou na contracapa a
tradução de pensamentos de Karl Marx, mas assinados com o pseudónimo Carlos
Marques. E um dia apareceu na revista um PIDE a prevenir Joaquim Namorado de que
andavam com o tal Carlos Marques debaixo de olho.
Romeu Correia tinha apenas a quarta classe e foi toda a vida funcionário do
Banco Nacional Ultramarino, em Lisboa (ia e vinha no cacilheiro), mas
faleceu em 1996 deixando uma obra de escritor e dramaturgo traduzida em chinês,
húngaro, checo, alemão, russo e Braille. Mas naqueles dias nem o Romeu
agradava ao nosso grupinho, que reunia à noite no Café Cadeal, sonhando
revolucionar a literatura portuguesa e cortando na casaca dos intelectuais em voga.
Nem Ferreira de Castro e Aquilino Ribeiro escapavam à crítica, embora a este
último eu reconhecesse o mérito de, por cada artigo publicado no jornal O
Século, ganhar 500 escudos, à época o salário mensal de muito chefe de família.
Além deste vosso criado, que ao tempo escrevinhava (à borla) no já
desaparecido Jornal de Almada, que o padre Manuel Marques lançara em 1954 e foi
escola de muitos jornalistas, faziam parte do grupo José Contreiras, que também
enveredou pelos jornais, mas nem ele nem eu publicámos o livro sonhado na
adolescência, embora tenhamos passado a vida a escrever. O Carlos Pena, talvez
o que tem mais que contar (vive em França e fez parte da célebre Legião
Estrangeira), mas nunca publicou nenhum livro e não consta que tencione fazê-lo
o. O meu primo Victor Mendes, o mais novo de todos, acabou por ser o mais
sensato, deixou-se de veleidades literárias e agarrou-se foi aos livros de
Direito. E o Zé Valente, que trabalhava no departamento administrativo do Estúdio
Cor, editora de que José Saramago foi editor literário de 1959 a 1971.
Valente era de todos nós o que tinha mais contactos no meio literário e
também falava em escrever o seu livro, mas não me parece que o tenha feito. Foi
despedido em 1966 e confidenciou-me que o seu amigo Saramago tinha
intercedido por ele.
Em 1999, já Nobel da Literatura, Saramago veio aos EUA receber um
doutoramento honorário na Universidade de Massachusetts em Dartmouth e tive a honra
de o entrevistar para o Portuguese Channel, mas a entrevista começou mal.
Saramago discursara na biblioteca Casa da Saudade, contava com cobertura
televisiva, não viu nenhuma câmara e ficou chateado com o Portuguese Channel.
Expliquei que a televisão portuguesa de New Bedford não era propriamente a CBS
ou NBC, mas o homem continuou irritado e, antes que se levantasse e abalasse,
tentei outra abordagem, lembrando-lhe o Valente.
“Temos um amigo comum. Lembra-se do Valente dos Estúdios Cor?”
“O Valente?!”, Saramago ficou perplexo. “É engraçado. Não sei dele há mais
de 40 anos e agora, nos EUA, estamos a falar dele”.
A recordação do amigo comum acalmou Saramago e fez-se a entrevista.
Mas, como dizia, nem mesmo o Valente, apesar da amizade com Saramago,
publicou o livro de que tanto falava e o único do nosso grupo que, até agora, o
fez foi Solá.
Nasceu a 25 de Julho de 1940, filho de uma família de comerciantes de
Lisboa pelo lado paterno e de uma família de pescadores algarvios pelo lado
materno. Trabalhou desde muito novo tendo exercido diversas profissões,
conseguindo firmar-se no ramo da construção civil, onde chegou à categoria de técnico
de obra, chefiando a secção técnica de uma empresa. Durante o dia, Solá
lidava com ferro, cimento e a brita, mas as horas livres eram dedicadas à
leitura e à escrita.
Principiou a escrever com onze anos e aos 14 conheceu a primeira recusa das
editoras aos seus originais, mas isso em nada beliscou a autoconfiança e,
já adulto, publicou contos no Diário de Lisboa e colaborou no Jornal da
Fundação Ricardo Espírito Santo. Depois deu prioridade às coisas práticas da vida
– o trabalho e a família. Continua a ser da Outra Banda, mas reside agora
no Montijo e, já na reforma, voltou a dedicar-se à literatura. Como os sonhos
nunca envelhecem, voltou a escrever com a energia dos tempos da juventude
e acaba de publicar o primeiro livro.
Ernest Hemingway costumava dizer que escritor é aquele que termina um
livro. Solá já concluiu quatro livros: dois romances, As agruras do Mal e
Ganância, e dois volumes de contos intitulados Contos Polémicos.
Optou pela publicação de Ganância, o mais recente, cuja distribuição é da
editora Sítio do Livro e pode ser adquirido pela internet
A ganância em causa vem a ser D. Ganância Maltesa, directora da Escola para
Aperfeiçoar Ricos, onde o dr. Doente Forreta é docente e uma das alunas a
menina Lucrécia Malquisto, filha de Vito Cícero Malquisto, o rei americano da
Associação das Casas de Penhores de Apoio Financeiro aos Países Pobres do
Terceiro Mundo.
A índole contestatária da prosa de Solá não é alheia às suas circunstâncias
de vida, nomeadamente chatices com a PIDE. Mas o desencanto com que vê
Portugal é pelo menos divertido.
Para Solá, o país vai à falência e o “imponente edifício onde funcionou
pelos anos fora a Assembleia da República” é comprado por uma empresa chinesa
de supermercados.
Um remate que, há 50 anos, talvez não tivesse ocorrido a nenhum dos
aspirantes a escritores que se reuniam no Café Cadeal, mas hoje os tempos são
outros e o final do romance do Solá faz-me lembrar uma velha anedota almadense: o
país chegou a um tal estado que o Cristo Rei desapareceu do Pragal e foi
pregar para o deserto, deixando os camelos em Belém.

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A Era da Inteligência

O Mundo em que vivemos está a avançar, a passos largos, para uma Era Inteligente onde um número significativo de Seres Humanos possui níveis elevados de Inteligência multifacetada. De acordo com o Dr. Nelson S. Lima: “O mundo está em movimento e numa mudança irreversível. Vivemos agora na “noosfera” – a sociedade da mente – onde um número crescente de actividades e profissões são puro exercício intelectual.”

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A internet veio, seguramente, dar um contributo importante para esta nova realidade, quer na difusão global do conhecimento como na capacidade de percepção das diferentes culturas e dos Povos. Por outro lado, a integração de conceitos e procedimentos está a tornar-se uma realidade crescente e promissora.

Em termos evolutivos o Homem encontra-se mergulhado na Era do Antropoceno (do Grego, Homem Novo). Esta designação introduzida por Paul Crutzem (Prémio Nobel da Química) no ano 2000, significa segundo os especialistas, a era da história terrestre em que as atividade humanas começaram a ter um impacto global significativo nos ecossistemas do Planeta. Podemos dizer que o Antropoceno começou com a Revolução Industrial no século XVIII.

Todos temos conhecimento dos efeitos nefastos desta industrialização desenfreada que conduziu aos desequilíbrios ambientais que todos já experimentámos (infelizmente para alguns nos nossos semelhantes com perda da própria vida). No entanto, o Homem está progressivamente a tomar consciência desta realidade e a encontrar as soluções para a resolução dos problemas. Por vezes, com um ritmo algo lento, tendo em consideração os ganhos em inteligência, conhecimento integrado e processamento informático dos dados.

Neste momento, já se verifica um nível de consenso Internacional que nos permite ter alguma esperança para novos equilíbrios ambientais. Resta saber, quais foram os desequilíbrios ambientais que se tornaram irreversíveis e qual o impacto que terão no futuro da agricultura, na redução das espécies vivas e na vida dos Seres Humanos. Seria muito positivo que o Homem conseguisse sair desta Era do Antropoceno com o Planeta, ainda, com o vigor suficiente para nos transportar para uma nova Era. Para tal, temos de utilizar, com muita eficiência, toda a nossa inteligência e sobretudo saber encontrar os consensos, ou, plataformas de entendimento, suficientemente sólidas para garantir uma boa consolidação da resolução dos muitos problemas que temos que ultrapassar. Os desafios são grandes, tão grandes quanto a dimensão Humana.

Mas o Homem, na sua senda constante do Futuro já perspetiva uma nova era. A Era do Sofoceno.

O Sofoceno ainda está em ‘construção’ mas as mentes Humanas já encontraram uma plataforma ideológica para esta nova era. De acordo com uma notícia publicada (em 20 de Junho de 2012) num Boletim do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de S. Paulo (Brasil), na sequência das perspetivas a longo prazo para as decisões da Conferência Rio+20, considera-se que: É preciso superar o Antropoceno e ir além, para chegarmos a uma nova era: o Sofoceno. Um novo momento baseado na sabedoria e na busca da autocompreensão da finitude e da transcendência, no domínio da vontade, que se realiza ao mesmo tempo em respeito aos outros e ao planeta“. Ou seja, o Homem em equilíbrio consigo mesmo, com a Natureza e com o Planeta.

Deixo-vos com estas palavras, resultantes da inteligência Humana, que nos devem levar a refletir nas mudanças importantes e urgentes que devemos proceder nas nossas vidas e na nossa mente para lá chegarmos sãos e salvos.

 Alfredo Sá Almeida                                                         12 de Fevereiro de 2013

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SARAH BERNHARDT – “A Divina Sarah”

SARA BERNARD

Sarah Bernhardt, nasceu em Paris, França. (1844-1923)

Considerada uma das mais famosas actrizes da história do teatro, foi também pintora, escultora, escritora e mulher de negócios.

Ao longo da sua carreira, interpretou muitos papéis clássicos, tais como: Marguerite Gautier, em “La Dame aux Camélias”, de Alexandre Dumas, filho; Cordélia, no “Rei Lear”, de Shakespeare; trovador Zanettto, na peça “La Passant”, de François Coppée; Aricie, em “Phèdre”, de Racine; Jeanne D´Arc, em “Jeanne D´Arc”, de Jules Barbier; Hamlet em “Hamlet”, de Shakespeare.

O dramaturgo Victorien Sardou escreveu, propositadamente para a actriz, as peças: “Fedora”, “Théodora”, “La Tosca” e “Cléopâtre”.

Sarah Bernhardt foi a primeira actriz-empresária do mundo do espectáculo. Em 1899, alugou, por 25 anos, o enorme “Theâtre des Nations”, em França, onde actuaria, exclusivamente, durante os últimos 24 anos de sua vida.

Em 1907 publicou a autobiografia, intitulada: “Ma double vie”.

Em 1914 foi condecorada, pelo governo francês, com a “Légion d´Honneur.”

No final do século XX, recebeu uma estrela na “Calçada da Fama”, em Hollywood.

Mark Twain, escritor americano, escreveu: “Há cinco classes de actrizes: as boas, as más, as regulares, as grandes actrizes e … Sarah Bernhardt.”

Um excerto do seu livro: “L´Art du Théâtre”, publicado em 1924:

“Os moralistas, e em particular os moralistas religiosos, cobrem de vergonha os actores em geral, e consideram o teatro lugar de perdição.

Assim, na maioria das cidades da América em que tenho feito representações no decurso da minha “tournée”, os bispos lançam, “ex cathedra”, raios destinados a reduzirem a cinzas os meus camaradas e a mim mesmo.

A respeito de um sermão semelhante, o meu “manager”, o senhor Henry Abbey”, escreveu ao bispo a seguinte carta:

– “Monsenhor, quando venho à sua cidade costumo gastar em publicidade quatrocentos dólares. Mas como desta vez a fez por mim, envio-lhe duzentos dólares para os seus pobres.” Henry Abbey

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O QUE PENSAM OS POETAS SOBRE A POESIA?

QUE PENSAM OS POETAS SOBRE A POESIA

O que pensam os poetas sobre a poesia?

FEDERICO GARCÍA LORCA – Poeta espanhol

“Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas.”

EUSTACHE DESCHAMPS – Poeta francês

“A poesia é uma pintura que se move e uma música que pensa.”

OCTAVIO PAZ – Poeta mexicano

“A poesia é o ponto de intersecção entre o poder divino e a liberdade humana.”

GIOVANNI PASCOLI – Poeta italiano

“ A lembrança é poesia, e a poesia é apenas lembrança.”

 ALEXANDER PUSCHKINE – Poeta russo

“Nunca encontrareis a poesia se não a tiverdes dentro de vós.”

JOHN KEATS – Poeta inglês

“Se a poesia não surgir tão naturalmente como as folhas de uma árvore, é melhor que não surja mesmo.”

PABLO NERUDA – Poeta chileno

“A poesia é um acto de paz. A paz entra dentro da composição de um poeta tal como a farinha entra na composição do pão.”

OVÍDIO – Poeta romano

“A poesia nasce simples de uma mente serena.”

EDGAR ALLAN POE – Poeta americano

“Defino a poesia das palavras como Criação rítmica da Beleza. O seu único juiz é o Gosto.”

BIRGER SJÖBERG – Poeta sueco

“E nunca o tormento acha um céu e nunca o desejo acha uma terra. É por isso que a poesia existe.”

JOSÉ MARTÍ – Poeta cubano

“Um grão de poesia basta para perfumar todo um século.”

EUGÉNIO DE ANDRADE – Poeta português

“É possível que a poesia seja ficção, mas eu prefiro pensá-la como Goethe: inseparável da verdade.”

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PABLO NERUDA – “O Pai”

Pablo neruda

Pablo Neruda nasceu no Chile. (1904-1973)

Foi um dos mais importantes poetas da língua castelhana do século XX.

Do livro “Crepusculário”, o poema:

                          O Pai

Terra de semente inculta e bravia,

terra onde não há esteiros ou caminhos,

sob o sol minha vida se alonga e estremece.

 

Pai, nada podem teus olhos doces,

como nada puderam as estrelas

que me abrasam os olhos e as faces.

 

 Escureceu-me a vista o mal de amor

e na doce fonte do meu sonho

outra fonte tremida se reflecte.

 

Depois… Pergunta a Deus porque me deram

o que me deram e porque depois

conheci a solidão do céu e da terra.

 

Olha, minha juventude foi um puro

botão que ficou por rebentar e perde

a sua doçura de seiva e de sangue.

 

O sol que cai e cai eternamente

cansou-se de a beijar… E o outono.

Pai, nada podem teus olhos doces.

 

Escutarei de noite as tuas palavras:

… menino, meu menino…

 

E na noite imensa,

com as  feridas de ambos seguirei.

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Reflexões

Reflectindo sobre a lei das rendas
A senhora ministra Assunção “deu à luz” uma lei das rendas, novinha em folha, feita a preceito e a rigor, sem falhas, a palavra da Lei para suprir a todas as necessidades de inquilinos e senhorios, (ao que diz esta jovem ministra, a quem eu, delicadamente, chamo pelo nome ternurento de menina Assunção).
À minha memória acorrem factos do antigamente, de quando, – ainda menino, – morava lá pelo alto da rua Morais Soares e, pelas manhãs, frio ou calor fizesse, vinha pela mão da minha mãe a caminho de uma ama onde ficava, enquanto a mãe, no trabalho, ganhava o pão-nosso de cada dia.
Certa manhã deparei com um senhor deitado numa cama encostada na fachada de um prédio, então perguntei a minha mãe, na ingenuidade própria das crianças: “Mãe, este senhor dorme aqui?” E ela respondeu-me: “Não! Sabes, como fez muito calor esta noite, o senhor veio dormir para a rua!” Fiquei então a saber que as pessoas, em noites de muito calor, podem dormir nas pedras das calçadas, ou talvez onde calhe; até ao dia em que a maleita nos bateu na porta. Primeiro o dono da casa que alugava quartos e partes de casa, que foi despejado por não pagamento das rendas ao senhorio, depois nós, os locatários dos quartos e das partes de casa. O primeiro conto que publiquei no Diário de Lisboa diz do meu espanto e do meu medo, quando, naquele casarão vazio, com um daqueles pés direitos altos, imenso, assustador, próprio das casas antigas, me vi, puxando um cavalito de cartão com rodas e preso a um fio, olhando as paredes nuas, as portas altas, as imensas janelas, e então me encontrei com a realidade horrenda da vida dos pobres. É que eu, sem o saber, na época, ainda que filho de um empresário rico, por ter uma mãe pobre, também era pobre!
Da guerra entre pobres e ricos, desse combate onde não existe compaixão, onde se geram ódios, rancores e sofrimento, onde a razão se perde num labirinto de sentimentos indescritíveis, nasce um medo de viver, de não ter, que toca a uns, e um enorme desprezo e incompreensão que agudiza a raiva dos outros. Quem tem a verdade consigo? E o que afinal é a verdade? E como sanar o mal social que a todos incomoda? Com a feitura de uma simples, insignificante, modestíssima e medíocre lei das rendas? Não, menina Assunção! Só conseguindo que o dinheiro circule pelas pessoas, como resultado da valorização e da dignificação do trabalho. Essa a via, esse o milagre ao alcance dos homens honestos, dos homens de bem porque, dos outros, dos pequenos e insignificantes homens, das meninas Assunção e das virtudes das suas patéticas leis, daí, nada de bom resulta. Um inquilino faltoso não pagou a renda ao senhorio? Bem, se o dinheiro circular pelas mãos de quem trabalha, se existir justiça social, se os homens forem considerados Homens, este caso é um simples e mero caso de polícia, apenas e simplesmente isso. Mas, se menosprezamos, ou desvalorizamos os agentes que manufacturam a produção, se lhes atribuímos uma ínfima parcela da riqueza que geram com o labor das suas mãos, se e quando os ignoramos como gente de bem, útil à sociedade e ao todo que faz o País, se lhes destinamos a miséria de uma caridadezinha mesquinha e obsoleta, então, cavamos um fosso intransponível entre os seres humanos que, fatalmente, num futuro mais ou menos distante, acaba por afectar tanto os pobres como os ricos. É como se privatizássemos o ar que as pessoas respiram, como se, por cada suspiro, lhes impuséssemos o pagamento de um imposto, com a desculpa de que lhes estamos a garantir uma excelente qualidade do ar.
Menina Assunção, veja o mundo e a sua verdade por outro prisma; pense, faz quantos anos, séculos mesmo, que o intelecto dos Homens exorciza e esconjura os bruxedos e os maus-olhados, as crendices, os desméritos resultantes da ignorância, a mediocridade anacrónica dos dogmas que justificam os deuses que nunca se mostram; resultados desse constante esforço são frutuosos e visíveis, sim, ainda que frustrantes por pouco compensadores, já que este mundo de bruxedos e estupidez congénita é, teimosamente, de compreensão e lenta evolução, o que provoca desmotivação e cansaço nos homens de boa vontade; se, ainda por cima, os homens e as mulheres de bem, se vêm a braços com a necessidade de também exorcizar os demónios que chegam ao mundo da decência, por via das leis das rendas, da autoria das meninas Assunção, não lhe parece um esforço desnecessário? É como o Poder dizer que, em 2015, ano de eleições, enfim, se ameniza o calvário da nossa miséria, por alívio da austeridade que nos é imposta por um governo esquizofrénico!
José Solá
O PIOR QUE NOS PODE SUCEDER É SOFREMOS O MAIS NEFASTO DESASTRE HUMANO DA NOSSA HISTÓRIA; O MELHOR, È RECUPERARMOS A NOSSA SOBERANIA E INDEPÊNCIA, FACE A ESTA, HOJE, INSIGNIFICANTE EUROPA!

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O JUIZ E AS BATATAS

O JUIZ E AS BATATAS

A história que se segue contava-se na Alemanha nos anos sessenta, nos meios frequentados por magistrados. Supõe-se ter uma origem mais antiga:

        “Um juiz foi passar férias a casa de um primo, que era lavrador. Ao terceiro dia o juiz, invadido por um princípio de tédio e vendo o seu primo muito ocupado, propôs-se ajudá-lo:

– Que sabes fazer? – Perguntou-lhe o lavrador.

O juiz reflectiu por momentos e não soube dar qualquer resposta satisfatória. O lavrador reflectiu por sua vez e encontrou um trabalho fácil. Levou o juiz a uma arrecadação cujo soalho estava inteiramente coberto de batatas que acabavam de arrancar.

– Aqui tens o que vais fazer – disse ele. – Vais separar estas batatas em três categorias. Grandes, pequenas e médias. Até logo.

O lavrador partiu e trabalhou todo o dia nos campos. Quando voltou, era quase noite, abriu a porta da arrecadação e viu que as batatas estavam exactamente como as tinha deixado de manhã.

O juiz estava no meio da arrecadação com um ar abatido, o rosto coberto de suor, o cabelo em desalinho. Tinha na mão uma batata.

– Que se passou? – Pergunta o lavrador.

O juiz estendeu-lhe a batata e perguntou-lhe com voz alquebrada:

– Esta é grande, pequena ou média?

 

Nota: Este conto está incluído no livro “Tertúlia de Mentirosos” de Jean-Claude Carrière.

 

 

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Apresentação do livro Chuva Miudinha

Apresentação do livro Chuva Miudinha

Apresento-vos o video da apresentação do meu livro, espero que apreciem.

O livro se encontra a venda em, Sítio do Livro:
http://www.sitiodolivro.pt/pt/livro/chuva-miudinha/9789892030203/

Apresentação realizada em, Morocco house of tea
http://www.facebook.com/pages/Morocco-house-of-tea/150497921648540

Vitor Pacheco, autor do livro:
http://www.facebook.com/alexandre.pacheco.969

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SIMONE VEIL – Discurso em defesa da igualdade das mulheres

SIMONE VEIL

Simone Veil, nasceu em Nice, França, no ano de 1927.

É uma política e jurista francesa, que dedicou a vida às causas das mulheres, dos idosos, dos imigrantes e das crianças adoptadas. Foi a responsável pela lei francesa de despenalização do aborto, em 1975, enquanto Ministra da Saúde.

Simone Veil é uma sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, onde viu morrer todos os seus familiares.

Em 1979, foi eleita como a primeira mulher a Presidir ao Parlamento Europeu, cargo que ocupou até 1982.

É membro da Academia Francesa desde 18 de Março de 2010 e Presidente da Fundação para a Memória da Shoah.

Aos 80 anos, decidiu escrever o seu livro de memórias: “Uma vida”.

Excerto do discurso proferido por Simone Veil, no Senado Francês, em 1974:

“Se tantas mulheres correram o risco de uma pesada condenação judicial, se tantos médicos foram contra a lei e explicaram porquê, foi porque a opinião pública já percebeu como é iníqua uma lei que nunca atingiu os objectivos que dizia perseguir, o de impedir os abortos. Mas, para além da ineficácia, há outras fortes razões para mudar a nossa legislação. Razões tão sérias que são na realidade bem poucos os que desejam a sua manutenção ou que ainda acham a sua aplicação possível.

A primeira razão é a desigualdade insuportável das mulheres frente a uma gravidez indesejada. Tal desigualdade resulta evidente não só das estatísticas judiciais — são sempre as mulheres de meios mais modestos que estão envolvidas — mas também daquilo que todos podemos ver hoje sem margem para dúvidas: para quem tem meios, a angústia e a solidão são muito menos difíceis.

O sofrimento — porque se trata sempre de um sofrimento para qualquer mulher — é suavizado pela segurança que oferece uma clínica em França ou no estrangeiro. Para as outras, que não tiveram acesso a estas soluções ilegais mas apesar de tudo mais seguras, abrem-se então as soluções bem conhecidas e cuja mera evocação é dificilmente suportável. Elas acabam por conduzir essas mulheres aos serviços hospitalares, permanentemente ocupados por quem recorreu a tais procedimentos de mutilação. Algumas hão-de pagar com a vida este gesto de desespero, muitas outras serão atingidas por uma esterilidade ou uma deficiência que marcará todo o resto da sua vida.

É uma injustiça insuportável que a vida, a saúde, a futura maternidade de uma mulher estejam assim ligadas ao seu nível socioprofissional. A maioria dos cidadãos sabe-o. Não podemos continuar a tolerá-lo porque o sentido do esforço social dos nossos dias é reduzir as desigualdades perante o sofrimento e a adversidade.”

Nota: Muitas mulheres, ao longo da História, lutaram e lutam pelos seus direitos, tais como: Elizabeth Cady Stanton, Susan B. Anthony, Voltairine de Cleyre, Margaret Sanger, Lucy Stone, Frances Willard, Betty Friedan, Kate Sheppard, Liesl Gerntholz, etc.etc.

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Quero em mim
O possível da eternidade do tempo
O amanhecer  da primavera fora do meu corpo
O  anoitecer  que  invade a alma
na madrugada dos invernos
O descanso do corpo que se eleva
A esperança adormecida no espaço que existo
A inspiração alucinada reflectida em prosas
e mais sonhos inventados
Sandra Araújo (2013)https://www.facebook.com/#!/sandraautora 

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