“PARABÉNS! LUÍSA DACOSTA

LUÍSA DACOSTA nasceu no dia 16 de Fevereiro de 1927 em Vila Real.

É formada em Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras, em Lisboa. Foi professora do antigo Ciclo Preparatório nas escolas Ramalho Ortigão e Francisco Torrinha, até se reformar por limite de idade.

Foi colaboradora de vários jornais e revistas, tais como: O Comércio do Porto, O Jornal de Notícias, Diário Popular e A Capital, Seara Nova, Vida Mundial, Vértice, Raiz e Utopia, Gazeta Musical e Colóquio de Letras.

A sua obra inclui romance, crónicas, poesia, autobiografia, diários e participação em várias antologias.

Luísa Dacosta conheceu intensamente a vida das mulheres de A-Ver-o-Mar que a inspiraram para tema de vários livros, como “Morrer a Ocidente”, “Nos Jardins do Mar”, entre outros.

A condição da mulher é também abordada no romance “Corpo Recusado”.

A sua sensibilidade levou-a a publicar alguns livros dedicados às crianças.

Em 1975 esteve em Timor requisitada pelo governo de então, para prestar serviço na Comissão encarregada de fazer a remodelação dos programas de ensino.

Luísa Dacosta recebeu vários prémios, dos quais se destacam: Prémio Máxima de Literatura, Prémio Gulbenkian, Prémio “Uma vida, uma obra” da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, Prémio Vergílio Ferreira atribuído pela Universidade de Évora.

Em 1997 a Câmara Municipal do Porto condecorou-a com a medalha de prata de Mérito da Cidade e em Junho de 2004 recebeu a Medalha de Cidadã Poveira (grau prata). Também neste ano a Cooperativa Árvore distinguiu-a com o Prémio para a área do ensino.

Nesta singela homenagem no dia do seu aniversário, apreciemos este poema de Luísa Dacosta:

Se…

Se eu tivesse um carro
havia de conhecer
toda a terra.
Se eu tivesse um barco
havia de conhecer
todo o mar.
Se eu tivesse um avião
havia de conhecer
todo o céu.
Tens duas pernas
e ainda não conheces
a gente da tua rua.

José Eduardo Taveira

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O tempo passa, apesar de nos parecer que cada dia apenas se sucede a um outro. Foi hoje que, no âmbito das comemorações do dia de São Valentim, fui falar de amor ao Liceu de S. João do Estoril em cujos corredores, à distância dos muitos anos que nos separaram, recordei com saudade a adolescente que fui, os primeiros ensaios da escrita e da vida.

Num dia em que se celebra e lembra o amor fui falar do “Diário de uma paixão monologada” a jovens que se encontram agora a descobrir, ou a redescobrir à sua maneira, o que é isto de amar outra pessoa, coisa difícil, intrincada, para que nem os nossos pais nos sabem dar manual de instruções.

Quanto a mim, o amor é indecifrável, é algo que não explica, não se decanta, não se racionaliza. Existe ou não, demonstra-se ou não, consoante o espírito que o sente seja mais ou menos afoito.

Ficou-me a pergunta de se já não se ama como antigamente, no tempo em que os poetas perseguiam as musas e elas se deixavam desmaiar, ou apanhar, nos braços dos poetas.

O amor é o mesmo, nós é que somos outros. Esquecemo-nos de respirar, de parar, de sentir o instante, de ficar nesse abraço que esquece lá fora o frio e a vida e as rotinas e as preocupações do trabalho e dos relatórios que ficaram por fazer e por entregar.

Apesar de todos os dias, cada dia da nossa vida, ser um propósito para relembrar ao outro que o amamos e que o escolhemos como companheiro de vida e de aventuras, ao menos hoje, esqueçam o relógio e lembrem esses primeiros instantes de enamoramento que estão lá, sempre que os quisermos evocar.

 

Ana Brilha

www.intermitenciasdaescrita.wordpress.com

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Portugal, Alemanha, e um nadinha de História

No dia 11, sábado passado, ia eu metido na manifestação, ali por meio da rua do Ouro, quando me veio à cabeça o insólito argumento de um tal senhor ministro (ou lá o que o homem seja) alemão, sobre a nossa falta de europeísmo, demonstrada com a venda da cota que o Estado tinha na EDP, à China. Insólito, chamo-lhe eu, para não dizer ingerência nos assuntos internos de um Estado Soberano.
Depois pensei, “Zé, não te precipites como de costume. Não ponhas o coração assim, em três tempos, ao pé da boca,” e enquanto a rapaziada de trás me pisava os calos para me fazerem andar mais depressa, fui tentando encontrar uma explicação aceitável para o dito do senhor. Sinceramente, só quando pensei na História é que o meu azimute me mostrou um rumo. Isso, a razão é uma razão de confiança, e de mútuo respeito.
Quando, quinhentos anos atrás, nós firmámos um contrato com a China e o cumprimos a contento de ambas as partes, estabeleceu-se a confiança, e nós recebemos um justo preço pala qualidade dos serviços que prestámos. Nunca abusamos da confiança que em nós foi depositada. Nunca impusemos, pela força dos nossos canhões, (como outros o fizeram), o consumo de estupefacientes, (como o ópio), ao povo chinês, e, durante quinhentos e bons anos, até hoje, de ambos os lados, fomos gente civilizada e de paz.
Isto, nesta vida, cada qual joga com as armas que tem. E porque não dizer também, com as armas com que a História o premiou. Nós tivemos estas armas, as da decência e da honestidade, e os outros, têm sem duvida outras, ou também terão estas, pois, como Povo, não queremos só o bem para o nosso lado.
Mas agora eu penso: “ E então um Povo que tem, como mostruário da sua seriedade, uma mala cheia de horrores para presentear o Mundo?”
Fico perplexo. Entre o pára e anda da manifestação, plena de civismo, com que nos estamos hoje a mostrar ao mundo, e em especial a esse acima referido senhor alemão, que esperaria berreiros e pancadaria, pilhagens e incêndios, o que sem duvida o deixaria felicíssimo, e com argumentos vexatórios e demonstrativos da proverbial selvajaria dos povos do sul, vou pensando, que terá um Povo com duas guerras mundiais a pesarem-lhe nos ombros, com milhões e milhões de mortos na consciência, um Povo que se considera como Raça Superior, um Povo que fez experimentação médica em crianças vivas, (claro, de outra “raça,” já se vê), para aferir da sua excelência cientifica, mais de diferente para dar ao mundo, senão mais do mesmo? Eu vejo sim, isso vejo, uns pobres coitados que mais uma vez vão sofrer com a sua soberba, com o seu pecado da superioridade. Na verdade, e pelo menos para nós, portugueses, superioridade é sim uma coisa bem diferente, uma coisa verdadeiramente humana, que dá calor e bem-estar, que nos trás amigos de longa data, e não as cinzas das ruínas das cidades bombardeadas, o fumo nauseabundo dos fornos crematórios onde se sacrificam pessoas pela única e simples razão de terem outra cor, outra religião, de serem diferentes.
Finalmente o Terreiro do Paço, hoje, (afinal tal como ontem), o Terreiro do Povo. Por ali temos um pouco de tudo, numa de crítica saudável à mistura com um dedo de política.
Logo no inicio, se ensina às senhoras receitas de boa culinária. Prato do dia: Coelho à Caçador. É fácil de aprender, (dizem as alunas e os alunos), e mais fácil será de fazer, quando chegar o devido tempo.
Adiante, mais acolá, no centro a envolver a estátua equestre do rei, um mar de gente coalhado por cabelos brancos, os cabelos das mulheres e homens que construíram com as mãos calejadas um País, que depois o ergueram do chão, e que estão aqui, espoliados dos seus direitos, da sua dignidade, prontos para o erguerem de novo, e quantas e quantas vezes mais for necessário. É que somos um Povo teimoso. Temos a mania de querer ter Pátria e pertencer a uma Europa de pátrias, e nos recusamos terminantemente a obedecer a racistas, sejam eles nacionais ou estrangeiros.
Está um tempo frio. Sinto-me gelado. Não estou bem. Quando uma leve brisa passa, os cabelos brancos se agitam como espuma de mar, e por entre esse movimento vejo a nossa gente nova que teima em ficar. Por muito que tentem não os conseguem expulsar de todo. Eles ficam, para receberem esta terra (ainda que desfeita) como a pequena grande herança que é deles por direito.
Agora é tempo de dispersar, de forma ordeira, como sempre.
Dois dias que estão passados, enquanto me distraio, entre comprimidos para vencer o resfriado, de novo me espantam com a insanidade com que a nova Adolfa alemã fala da nossa Madeira. Paro por momentos de escrevinhar esta história. É que só quem não conhece aquela jóia que é a nossa ilha de Porto Santo, é que não a ama, e por isso dirá assim, tamanha asneira. Se a Grande Governante dos Extintos Fornos Crematórios viaja-se um pouco para aqueles lados, pela certa que se renderia a tamanha beleza. Ficava fascinada, embora a visse apenas com os seus tristes olhos de mal querer ao mundo. Só aquela praia, onde ela se imaginaria deleitada com as lambidelas do seu querido caniche francês. Que esplêndido campo de concentração o povo de raça superior não edificaria na ilha, para grandeza de um Reich renascido das cinzas do mal…
José Solá

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DIA DE SÃO VALENTIM

Um poema te faço nos lábios
Nos olhos te digo mil e uma cores
Na pele cheiro o teu sabor
Num beijo te faço amor
Por ti daria a vida assim
Sou apenas, o teu Valentim

José Guerra (2012)

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O elixir da cura ( de Danilo Pereira )

Quando tudo parecer perdido e quando a cor perder seu brilho, a Deusa da cura Eir sempre envia uma fada que procura por aqueles que possuem muita fé.

Wolfgang, em uma de suas aventuras pelas escuras florestas de Alfheim, quase fora morto por elfos malignos, que conheceram a morte através do aço conduzido por um nórdico. Em Alfheim, um guerreiro deve estar sempre alerta, pois a escuridão e a magia negra estão sempre rondando aqueles que não possuem um espírito forte.

Um guerreiro dotado de muita força e esperança, pode encontrar sobre as folhagens escuras o elixir da cura, que devolve a vitalidade a quem o toma. O liquido é abençoado pelas sagradas mãos de Eir, que o derrama sobre frascos, baús e vasos, que são cuidadosamente espalhados pelas fadas por todo mundo nórdico.

 

 

Personagens e contos inspirados na obra, Wolfgang, o guerreiro nórdico.

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“A Paixão que Veio do Frio”

Uma prenda cheia de paixão para qualquer dia do ano, porque todos os dias é dia dos namorados. Disponível através do Sitio do Livro e na livraria Leya na Barata na Av. Roma em Lisboa. (Autor José Guerra – clicar na capa do livro)

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De um poema se faz a noite…

De um poema se faz a noite
Ao perto vejo o silêncio
Que nos teus lábios me lembrou
Queria ser ontem
E pintar memórias de tempo
De beijos teus
Debruados de amor
Em versos meus

José Guerra (2012)

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Texto encontrado no meu sótão

ENTRE AS MUITAS COISAS QUE TENHO ESCRITO E QUE NUNCA VÃO SER PUBLICADAS (POR FALTA DE INTERESSE COMERCIAL, COMO DESCRIÇÃO DAS MAMAS DE UMA QUALQUER AMANTE DE UM IMPORTANTE PRESIDENTE DE CLUBE DE FUTEBOL, POR EXEMPLO), PARTILHO COM VOCÊS ESTE BREVE TRECHO.
RELATOS DA VIDA DA ALTURA, (NÃO TÃO DISTANTE), SITUAÇÕES A QUE ASSISTI, OU MESMO PORQUE PASSEI.
E PORQUE VIVI O DESCONFORTO DE TAMANHAS INJUSTIÇAS E DESPREZO PELOS DIREITOS MAIS SAGRADOS DO SER HUMANO, NÃO ME CONSIGO CALAR HOJE, QUANDO, COM LÁGRIMAS DE CORCODILO, NESTE TRISTE E MISERÁVEL PAÍS, OS DESCENDENTES DOS MANDANTES DE ENTÃO TENTÃO MONOSPREZAR E HUMILHAR QUEM TRABALHA

(…) – Eu falo por mim, Miguel. – Atalhou o Baltazar. – O que eu gosto mesmo de fazer é mesmo de escrever, mas como isso é uma actividade para ricos, nesta nossa terra, e como a rapaziada tem de comer, vamos fazendo de tudo um pouco.
Baltazar Antunes ficou um momento calado, a olhar em frente. Mas logo continuou. – Na Lisnave as coisas comigo deram muito para o torto. Você, João, percebe alguma coisa de barcos?
– A minha vida é a vida do mar. Fui embarcado. Fui homem de convés e maquinista. Fui náufrago durante a guerra…
– E de petroleiros, percebe?
– Desses não. Desses, só de vista, a vê-los passar ao largo…
– Pois, entendo. Deixe-me continuar.
O Baltazar Antunes encostou-se para trás, no banco. Olhou em frente. Comparado com eles era homem novo. Aí na casa dos sessenta, talvez nem tanto. Tinha feições esguias e uns olhos imprecisos, perdidos no tempo, talvez a ver-se por dentro, ou a idealizar acontecimentos perdidos em distâncias inatingíveis, inalcançáveis para os homens mais normais.
Depois de um tempo assim, com voz imprecisa, mas firme, começou a falar: Nos petroleiros, no fundo, a nafta infiltra-se pelos tanques do lastro. Você deve saber como são. Um labirinto, onde um homem não cabe. Só um rapaz, e bastante novo. Eu era um puto franzino, assim como hoje, enquanto homem maduro. Não era fracalhote. Sempre que agarrava, pode crer que era meu. Voluntarioso, embora do tipo sonhador, e como tal distante. Esse tipo de rapaziada que parece que está sempre ausente, e na verdade, na realidade, está. Como o navio tinha de zarpar um dia depois, fiz a noite. Na altura trabalhar toda a noite dava uma boa maquia. Dava a jorna de uma semana, se bem me lembro. Não era, Miguel?
– Sim. Quase uma semana, mais o dia seguinte, que, por lei, se tinha de descansar…
– É isso. – Continuou o Baltazar. – A nafta, não sei se sabem, come-nos a roupa toda. Aquela coisa pegajosa, preta, com um cheiro penetrante que nos vai comendo os pulmões aos poucos, nos transforma em gente morta, dá cabo de tudo que se lhe chegue, só a pele dos homens é que dura mais tempo. E mesmo essa, que tem de se esfregar com sabão macaco por imenso tempo, debaixo da água bem quente do chuveiro. Como estávamos no verão, num ano quente, eu trabalhei em cuecas. Lembro-me bem. De madrugada, depois do trabalho, um prolongado duche bem quente no balneário e ficava como novo!
– Eu lembro-me disso. – Interrompeu o Miguel. – Mesmo no inverno, de madrugada, sempre que um homem caía ao mar…
– Caía ao mar?! – Exclamou João Boa Brisa.
– Sim, homem. Os que trabalhavam nos baileis, pendurados nas amuradas, a picar a pintura velha do costado. Segundo as normas, quem caísse ao rio ia para casa com o dia ganho. E mesmo com a água gelada, em pleno inverno, muitos lá caíam, de propósito!
– De propósito?! – Sim João. É que valia bem a pena. Estava ganho o dia… E também havia quem ferrasse martelada no dedo, para ir para o seguro e não perder o trabalho!
– O quê?!
– É como lhe digo, amigo João. Quem tinha família a cargo, quando sabia que ia haver balão, para não ficar sem trabalho, pedia ao colega do lado que lhe batesse com o martelo de bola no polegar! Sabe o que era o balão, não sabe?
– Se sei!
– Mas continua, camarada Baltazar. Desculpa a interrupção…
E Baltazar Antunes continuou. Nessa noite o trabalho não correu lá muito bem. Com os rodos fomos puxando a nafta para fora, para zonas com acesso aos baldes, onde os homens adultos a removiam à pá. O grupo de moços estava cansado, ou o cheiro seria mais intenso do que o do costume, ou seria impressão do grupo. Não sei. O que sei é que, do lado dos miúdos, a disposição era francamente má. Miúdos, quero dizer, é força de expressão. Homens, pela imposição da vida. Homens pequenos o bastante para caberem no cavername do navio e puxarem aquela merda para fora. Moços que pela miséria da vida já foram paridos homens feitos! Seria umas três e meia da madrugada quando subi ao convés porque tinha de respirar um pouco de ar puro. Era frequente. Que diacho, não se pode deixar a condição de humano só porque quem manda quer. Vinha preto de nafta. Seria uma figura ridícula, ou patética, não sei, a escorrer a trampa pelo corpo, e foi quando, da ponte do navio, alguém gritou, tirem o tipo daí! Treta de vida. Não me contive, gritei-lhe de volta, Seu filho da puta, seu cabrão de merda, venha você limpar este esterco com a ponta dos cornos. Bom, meus amigos, foi a última vez que trabalhei na Lisnave!
– Quem era o tipo? – Perguntou João.
E o Miguel respondeu-lhe: Um desses comendadores importantes que lucram com a miséria humana mas não gosta de a presenciar…
– Tal como hoje. O que interessa é apenas o lucro. Na época, Portugal era o único país na Europa que prestava semelhante serviço. – Disse Baltazar. (…)
CONSIDERAÇÕES
TEMO QUE O SAUDOSISMO DA FRANJA DOS MANDANTES QUE CONTINUAM A VIVER NO PASSADO NOS ARRASTE NOVAMENTE PARA ESTES TRISTES TEMPOS.
NA ÉPOCA SABIA-SE QUE, DEZ ANOS SERIA O LIMITE PROVÁVEL DE VIDA NESTA ACTIVIDADE.
MESMO ASSIM, EM PORTUGAL, CRIANÇAS ERAM UTILIZADAS NESTA BARBARA ACTIVIDADE.
HOJE, ENCONTRO NAQUELES SÁBIOS (TANTO EUROPEUS COMO NACIONAIS), QUE NOS EMPOBRECEM COMO FORMA DE REDENÇÃO PARA NOS REDIMIRMOS DO PECADO DITO DE “VIVER ACIMA DAS NOSSAS POSSIBILIDADES” OS CONTINUADORES DOS CRIMES DE ONTEM.
José Solá

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Amor já viste a lua hoje?

Amor já viste a lua hoje?
Ela brilha porque o nosso amor existe
Porque assim eu lhe disse
Para que o céu deixasse de ser triste

In “Palavras por Dizer” (José Guerra, 2012)
Brevemente disponível

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“JUNTOS PARA SEMPRE” – (19)

A Madre Superiora entra na sala de aula. Todas se levantam em simultâneo. Olha à sua volta, observando as raparigas como se fosse um Oficial a passar revista às tropas. Inicia a análise de cada trabalho, minuciosamente.

Após acabar o cerimonial que faz rejubilar a sua vaidade de exercer um poder vácuo e pacóvio, olha mais uma vez para o rosto das jovens que a enfrentam timidamente, de pé. Aponta para Maria, chamando-a para junto de si. Pede-lhe que traga o pano que bordara. Percebe que qualquer coisa de bom lhe vai acontecer. Embaraçada, dirige-se para a Madre Superiora. Esta, segurando no tecido que havia sido bordado por Maria, declara:

– Este é o trabalho distinguido por mim como o melhor do mês!

O tempo parece parar por segundos. As raparigas olham-se como se algo de estranho estivesse a acontecer. Pela primeira vez, alguém destronara Fernanda da sua posição de ininterrupta vencedora. Maria, eufórica, não se consegue controlar. Sente algo inexplicável que não pode transmitir por palavras, apenas através de um grito de alegria que ecoa pela sala. Subitamente, o ambiente gela. A Madre Superiora atira com brutalidade o bordado para cima de uma mesa próxima de si.

          – Ninguém, ninguém tem a ousadia de reagir de modo tão impróprio numa Casa de Deus! Retire-se imediatamente!

Maria observa Fernanda, ainda de pé como todas as outras. O seu olhar é cruel e parece atingir o de Maria como balas.

Pede perdão pelo sucedido e promete nunca mais reagir de modo tão impulsivo. Agradece ter sido escolhida como a melhor, pois trabalhara bastante para conseguir atingir este objectivo. A Madre Superiora ordena-lhe novamente que saia de imediato da sala, pois não está disposta a comentar com uma gaiteira as suas decisões. Maria dirige-se para a porta, humilhada com tal reprimenda. Mas no íntimo sente-se diferente e orgulhosa por ter conseguido o que tanto ambicionava.

          – Que pessoas esquisitas são estas freiras! Devem ter nascido numa noite de trovoada. Nunca nada está bem para elas! Que gente, chiça!

*************

As raparigas acordam em sobressalto. Ouvem vozes exaltadas e o pisar estridente dos tacões das freiras, que parecem martelar os seus ouvidos. Umas levantam-se, outras mantêm-se deitadas ou sentadas. Olham-se entre si tentando descodificar o motivo de tal alvoroço. Contudo, ninguém sai da camarata. Abruptamente, a porta abre-se. Todas se levantam, fixando os seus corpos junto às respectivas camas.

A Madre Superiora entra, impetuosa, liderando o séquito das obedientes freiras. A sua face exprime uma cólera diabólica. Os seus olhos faíscam através dos óculos, jorrando duas línguas de fogo que cegam a visão das jovens. Sentem os seus corpos afogueados de medo e perturbação.

– Alguém nesta camarata cometeu um crime gravíssimo! Um acto ignóbil de bradar aos céus! Exijo, em nome do Senhor, que a culpada se acuse imediatamente. Desapareceu o rosário que estava pendurado nas mãos de Nossa Senhora que se encontra no Oratório. Um rosário valioso, de contas em madrepérola com uma cruz cravada de diamantes, pertencente a Nossa Senhora, Mãe de Deus. Um pecado horrendo. Uma desobediência às leis de Deus e dos mandamentos da Igreja! A culpada será severamente punida. Não há perdão para tão repugnante acção praticada por uma desgraçada louca e miserável! Quem roubou o rosário? Quem roubou o rosário? Quem roubou o rosário?

Os berros da Madre Superiora contrastam com o silêncio penetrante da camarata que incute um medo generalizado pelas consequências que devem ocorrer de seguida. As raparigas entreolham-se disfarçadamente, cada uma à espera que outra se acuse.

– Muito bem. Fizeram a vossa escolha! – vocifera em tom ameaçador.

Avança em direcção à primeira cama. A rapariga treme de medo. Os seus olhos estão arregalados como se tivesse visto um fantasma. Abre a gaveta da mesa-de-cabeceira e despeja-a sobre a cama, repetindo este acto sucessivamente. Todos os olhares se concentram naquela cena, incluindo os das outras freiras. Aproxima-se da cama de Maria. Fixa atentamente os objectos espalhados no cobertor. Uma cruz de diamantes refulge entre as bugigangas.

– Aqui está o rosário que prova o roubo perpetrado por ti. Tu és uma ladra! Não tens vergonha nessa cara de sonsa, sua desgraçada?

– Não fui quem pôs o rosário na minha gaveta. Eu não sou ladra! Eu não sou ladra! Eu só quero o que é meu, que é nada. Eu não sou ladra. – grita revoltada com o rosto banhado em lágrimas.

A Madre Superiora beija o rosário com fogosidade, ergue-o, supostamente exibindo-o a Nossa Senhora, e proclama com altivez:

– Milagre! Milagre! Milagre!

De seguida encosta-o ao peito, reza três Ave-Marias em posição genuflexa, persigna-se e levanta-se, com a ajuda de duas freiras que estavam de mãos postas e olhos cerrados. Titubeia algumas palavras imperceptíveis, de cabeça baixa. Depois desta representação de teatro medieval inspirada nas mediações milagrosas da Virgem Santa, a Madre Superiora muda de estilo, vira as costas a Maria e ordena:

– Segue-me, pecadora sem perdão.

No trajecto até ao gabinete, Maria, em camisa de dormir, descalça, com aspecto desolador, sente o suor invadir a sua testa, lambendo as pontas dos seus desgrenhados cabelos negros. Está de pé, em frente à secretária, chorando silenciosamente. A Madre Superiora olha-a com repugnância. Prepara-se para transmitir o castigo que lhe será imputado. Maria sente-se injuriada e incapaz de conseguir provar a sua inocência. Pede a Deus que a leve para junto de si, já, sem demora, porque não quer viver mais neste eterno sofrimento. 

Alguém bate à porta. A Madre Superiora dá permissão para entrar. Uma freira, idosa e anafada, entra, acompanhada por Fernanda. Esta olha para o chão. A sua face está vermelha, como se tivesse sido pintada com uma cor embebida em vergonha.

– O que a traz aqui? – pergunta com voz toante.

– Posso afirmar, em nome de Deus, que Maria está inocente. Foi Fernanda quem colocou o rosário na sua mesa-de-cabeceira. – declara a freira.

– Como soube isso?

– Escutei uma conversa entre a Fernanda e outra rapariga. Achei que se justificava transmitir à Madre Superiora a não observância e incumprimento dos sétimo, oitavo e décimo mandamentos da Lei de Deus, que são, respectivamente: não roubar, não levantar falsos testemunhos e não cobiçar as coisas alheias. Que Deus seja louvado! Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo! Ámen!

A Madre Superiora faz um sinal a Fernanda para se aproximar, juntando-se a Maria. Olha para ambas com desprezo e indignação. Tanto a inocente como a culpada vão sofrer castigos adequados à gravidade dos actos praticados.

– Durante uma semana ficareis sem jantar e ireis rezar o terço sem parar, cinco horas por dia, recolhidas no Oratório. E agora, desapareçam daqui imediatamente, suas desprezíveis criaturas.

José Eduardo Taveira

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