“JUNTOS PARA SEMPRE” – (19)

A Madre Superiora entra na sala de aula. Todas se levantam em simultâneo. Olha à sua volta, observando as raparigas como se fosse um Oficial a passar revista às tropas. Inicia a análise de cada trabalho, minuciosamente.

Após acabar o cerimonial que faz rejubilar a sua vaidade de exercer um poder vácuo e pacóvio, olha mais uma vez para o rosto das jovens que a enfrentam timidamente, de pé. Aponta para Maria, chamando-a para junto de si. Pede-lhe que traga o pano que bordara. Percebe que qualquer coisa de bom lhe vai acontecer. Embaraçada, dirige-se para a Madre Superiora. Esta, segurando no tecido que havia sido bordado por Maria, declara:

– Este é o trabalho distinguido por mim como o melhor do mês!

O tempo parece parar por segundos. As raparigas olham-se como se algo de estranho estivesse a acontecer. Pela primeira vez, alguém destronara Fernanda da sua posição de ininterrupta vencedora. Maria, eufórica, não se consegue controlar. Sente algo inexplicável que não pode transmitir por palavras, apenas através de um grito de alegria que ecoa pela sala. Subitamente, o ambiente gela. A Madre Superiora atira com brutalidade o bordado para cima de uma mesa próxima de si.

          – Ninguém, ninguém tem a ousadia de reagir de modo tão impróprio numa Casa de Deus! Retire-se imediatamente!

Maria observa Fernanda, ainda de pé como todas as outras. O seu olhar é cruel e parece atingir o de Maria como balas.

Pede perdão pelo sucedido e promete nunca mais reagir de modo tão impulsivo. Agradece ter sido escolhida como a melhor, pois trabalhara bastante para conseguir atingir este objectivo. A Madre Superiora ordena-lhe novamente que saia de imediato da sala, pois não está disposta a comentar com uma gaiteira as suas decisões. Maria dirige-se para a porta, humilhada com tal reprimenda. Mas no íntimo sente-se diferente e orgulhosa por ter conseguido o que tanto ambicionava.

          – Que pessoas esquisitas são estas freiras! Devem ter nascido numa noite de trovoada. Nunca nada está bem para elas! Que gente, chiça!

*************

As raparigas acordam em sobressalto. Ouvem vozes exaltadas e o pisar estridente dos tacões das freiras, que parecem martelar os seus ouvidos. Umas levantam-se, outras mantêm-se deitadas ou sentadas. Olham-se entre si tentando descodificar o motivo de tal alvoroço. Contudo, ninguém sai da camarata. Abruptamente, a porta abre-se. Todas se levantam, fixando os seus corpos junto às respectivas camas.

A Madre Superiora entra, impetuosa, liderando o séquito das obedientes freiras. A sua face exprime uma cólera diabólica. Os seus olhos faíscam através dos óculos, jorrando duas línguas de fogo que cegam a visão das jovens. Sentem os seus corpos afogueados de medo e perturbação.

– Alguém nesta camarata cometeu um crime gravíssimo! Um acto ignóbil de bradar aos céus! Exijo, em nome do Senhor, que a culpada se acuse imediatamente. Desapareceu o rosário que estava pendurado nas mãos de Nossa Senhora que se encontra no Oratório. Um rosário valioso, de contas em madrepérola com uma cruz cravada de diamantes, pertencente a Nossa Senhora, Mãe de Deus. Um pecado horrendo. Uma desobediência às leis de Deus e dos mandamentos da Igreja! A culpada será severamente punida. Não há perdão para tão repugnante acção praticada por uma desgraçada louca e miserável! Quem roubou o rosário? Quem roubou o rosário? Quem roubou o rosário?

Os berros da Madre Superiora contrastam com o silêncio penetrante da camarata que incute um medo generalizado pelas consequências que devem ocorrer de seguida. As raparigas entreolham-se disfarçadamente, cada uma à espera que outra se acuse.

– Muito bem. Fizeram a vossa escolha! – vocifera em tom ameaçador.

Avança em direcção à primeira cama. A rapariga treme de medo. Os seus olhos estão arregalados como se tivesse visto um fantasma. Abre a gaveta da mesa-de-cabeceira e despeja-a sobre a cama, repetindo este acto sucessivamente. Todos os olhares se concentram naquela cena, incluindo os das outras freiras. Aproxima-se da cama de Maria. Fixa atentamente os objectos espalhados no cobertor. Uma cruz de diamantes refulge entre as bugigangas.

– Aqui está o rosário que prova o roubo perpetrado por ti. Tu és uma ladra! Não tens vergonha nessa cara de sonsa, sua desgraçada?

– Não fui quem pôs o rosário na minha gaveta. Eu não sou ladra! Eu não sou ladra! Eu só quero o que é meu, que é nada. Eu não sou ladra. – grita revoltada com o rosto banhado em lágrimas.

A Madre Superiora beija o rosário com fogosidade, ergue-o, supostamente exibindo-o a Nossa Senhora, e proclama com altivez:

– Milagre! Milagre! Milagre!

De seguida encosta-o ao peito, reza três Ave-Marias em posição genuflexa, persigna-se e levanta-se, com a ajuda de duas freiras que estavam de mãos postas e olhos cerrados. Titubeia algumas palavras imperceptíveis, de cabeça baixa. Depois desta representação de teatro medieval inspirada nas mediações milagrosas da Virgem Santa, a Madre Superiora muda de estilo, vira as costas a Maria e ordena:

– Segue-me, pecadora sem perdão.

No trajecto até ao gabinete, Maria, em camisa de dormir, descalça, com aspecto desolador, sente o suor invadir a sua testa, lambendo as pontas dos seus desgrenhados cabelos negros. Está de pé, em frente à secretária, chorando silenciosamente. A Madre Superiora olha-a com repugnância. Prepara-se para transmitir o castigo que lhe será imputado. Maria sente-se injuriada e incapaz de conseguir provar a sua inocência. Pede a Deus que a leve para junto de si, já, sem demora, porque não quer viver mais neste eterno sofrimento. 

Alguém bate à porta. A Madre Superiora dá permissão para entrar. Uma freira, idosa e anafada, entra, acompanhada por Fernanda. Esta olha para o chão. A sua face está vermelha, como se tivesse sido pintada com uma cor embebida em vergonha.

– O que a traz aqui? – pergunta com voz toante.

– Posso afirmar, em nome de Deus, que Maria está inocente. Foi Fernanda quem colocou o rosário na sua mesa-de-cabeceira. – declara a freira.

– Como soube isso?

– Escutei uma conversa entre a Fernanda e outra rapariga. Achei que se justificava transmitir à Madre Superiora a não observância e incumprimento dos sétimo, oitavo e décimo mandamentos da Lei de Deus, que são, respectivamente: não roubar, não levantar falsos testemunhos e não cobiçar as coisas alheias. Que Deus seja louvado! Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo! Ámen!

A Madre Superiora faz um sinal a Fernanda para se aproximar, juntando-se a Maria. Olha para ambas com desprezo e indignação. Tanto a inocente como a culpada vão sofrer castigos adequados à gravidade dos actos praticados.

– Durante uma semana ficareis sem jantar e ireis rezar o terço sem parar, cinco horas por dia, recolhidas no Oratório. E agora, desapareçam daqui imediatamente, suas desprezíveis criaturas.

José Eduardo Taveira

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Sobre José Eduardo Taveira

Nasci no Porto. Trabalhei em diversas empresas nacionais e multinacionais, exercendo cargos directivos. Actualmente estou liberto de compromissos profissionais, usufruindo a liberdade de viver como gosto e quero. Publiquei três livros intitulados: "Juntos para Sempre","Histórias de Pessoas que Decidi Divulgar" e "Viagem ao Princípio da Vida". Os dois primeiros em Portugal e o último no Brasil.
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