“JUNTOS PARA SEMPRE” – (18) – José Eduardo Taveira

          As vinte e duas raparigas que estão internadas na Casa de Acolhimento vivem sozinhas, porque não há espírito de grupo, nem tão pouco actividades colectivas que estimulem o contacto entre elas. Ali não há espaço para amizades ou simpatias. Cada uma faz o seu trabalho, nenhuma conhece a história de vida de ninguém. São blocos imunizados a qualquer movimento ou palavra do exterior.

Que reflexos terão estes conceitos de comportamento social quando estas jovens tiverem de enfrentar a realidade do dia-a-dia fora da Casa, certamente abençoadas por Deus, mas carentes de afectos e ignorantes das práticas de vivência em sociedade? Como será a sua inserção na comunidade egoísta e competitiva, quase sempre sem escrúpulos?  O olhar da Igreja Católica sobre o mundo e os seus desafios está desfasado da realidade. Os métodos utilizados em algumas instituições que tutela são, por demais, caducos e até atentatórios à dignidade humana. A repressão, o autoritarismo fútil e gratuito, emanados de um poder que dizem outorgado por um Deus, caso exista, não pactua com esta gente que, dizendo Servi-lo, apenas O infamam.

Maria compreendeu que o tempo será o seu maior inimigo. Mas lutará contra ele acreditando que sairá vencedora. Escreveu uma carta à enfermeira Celeste e já obteve resposta. A correspondência é permitida, mas controlada pela Madre Superiora que lê tudo o que é enviado e recebido pelas raparigas.

Está confiante que Celeste será uma amiga a quem possa recorrer em caso de necessidade e sente-se estimulada por ter alguém que goste dela. Dorme bem, até porque o trabalho durante o dia lhe assegura o cansaço suficiente para descansar à noite. Todas as tarefas da Casa estão a cargo das raparigas, excepto a preparação das refeições.

O compartimento que funciona como sala de aula é desconfortável e frio. Numa das paredes está um retrato de Salazar e outro do Cardeal Cerejeira. Todos os dias as alunas recitam em coro a tabuada, os rios, os afluentes, as serras, os caminhos-de-ferro e tudo o mais que for presumível de declamar.

Na opinião da Madre Superiora, a frequência da Instrução Primária é considerada uma imposição governamental para o cumprimento da escolaridade obrigatória de quatro anos. As aulas são ministradas pelas freiras que patenteiam enorme ignorância em relação a várias matérias. Talvez por isso, não admitem perguntas ou pedidos de esclarecimento.

Além das aulas de Instrução Primária, frequentam a classe de costura e bordados. No final de cada mês há uma avaliação efectuada pela Madre Superiora, fundamentada na análise dos trabalhos elaborados pelas alunas em cada uma das duas especialidades.

Fernanda, uma rapariga de dezassete anos de idade, tem sido a única a conquistar mensalmente a distinção do bordado mais bem executado. A Madre Superiora nunca a felicitou. Limita-se a afirmar que é o seu dever perante Deus dedicar-se com empenho às artes que lhe são ensinadas.

Maria dedica o pouco tempo livre ao aperfeiçoamento das técnicas que as freiras lhe transmitem com inexorabilidade. Quer surpreender, mostrar que é capaz de aprender e ser a melhor. É o seu grande desafio. Enquanto idealiza a concretização desse momento, os seus olhos repousam no tecido bordado que tem nas mãos. Observa-o com orgulho.           Começa a sentir-se estimulada pelos objectivos que impõe a si própria.

– Quero ganhar o primeiro lugar! E vou conseguir! Nem que me esfalfe toda. Ou eu não me chame Maria! Olari!

José Eduardo Taveira

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Sobre José Eduardo Taveira

Nasci no Porto. Trabalhei em diversas empresas nacionais e multinacionais, exercendo cargos directivos. Actualmente estou liberto de compromissos profissionais, usufruindo a liberdade de viver como gosto e quero. Publiquei três livros intitulados: "Juntos para Sempre","Histórias de Pessoas que Decidi Divulgar" e "Viagem ao Princípio da Vida". Os dois primeiros em Portugal e o último no Brasil.
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