Quero esculpir o teu corpo no meu
Debruado de amor
Lágrimas e suor
Empedernido de dor
Rimas e ardor
in “Palavras por Dizer”, José Guerra (2012)
Brevemente disponível
in “Palavras por Dizer”, José Guerra (2012)
Brevemente disponível
Ruy Belo nasceu em S. João da Ribeira, Rio Maior, no dia 27 de Fevereiro de 1933 e viveu até 8 de Agosto de 1978.
Foi licenciado em Filologia Românica e em Direito pela Universidade de Lisboa. Doutorou-se em Direito Canónico na Universidade Gregoriana, em Roma, com uma tese intitulada “Ficção Literária e Censura Eclesiástica”.
Foi director literário da Editorial Aster e chefe de redacção da revista “Rumo”.
Participou na greve académica de 1962 e foi candidato a deputado, em 1969, pelas listas da Comissão Eleitoral de Unidade Democrática.
Foi leitor de Português em Madrid. Quando regressou a Portugal, o governo não permitiu que leccionasse na Faculdade de Letras de Lisboa, devido às suas actividades políticas como opositor do regime. Foi professor na Escola Técnica do Cacém, dando aulas no ensino nocturno.
Ruy Belo, apesar de breve período de actividade literária, foi um dos maiores poetas portugueses da segunda metade do século XX. As suas obras têm sido reeditadas várias vezes.
Os seus primeiros livros de poesia foram: “Aquele Grande Rio Eufrates” e “O Problema da Habitação”.
A sua obra que está organizada em três volumes sob o título “Obra Poética de Ruy Belo”, é considerada uma das mais importantes da poesia portuguesa contemporânea.
“Boca Bilingue” e “Homem de Palavras”, entre outras, são obras de temática religiosa e metafísica.
Obteve destaque como tradutor de escritores, tais como, Montesquieu, Jorge Luís Borges, Antoine de Saint-Exupéry e Frederico Garcia Lorca.
Em 1991 foi condecorado, a título póstumo, com o grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Sant´iago da Espada.
Citação de Ruy Belo:
“Escrevo como vivo, como amo, destruindo-me. Suicido-me nas palavras.”
Nesta pequena homenagem a Ruy Belo, apreciemos o seu poema:
E TUDO ERA POSSÍVEL
Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer.
Baptista Bastos nasceu em Lisboa no dia 27 de Fevereiro de 1934.
Frequentou a Escola António Arroio e o Liceu Charles Lepierre.
Começou a trabalhar na redacção do jornal “O Século”. Foi subchefe de redacção de “O Século Ilustrado”.
A sua actividade e profissionalismo foram o esteio para trabalhar noutros órgãos de informação, tais como “O Diário”, “Seara Nova”, “República”, “Gazeta Musical”, “Todas as Artes”, “Época”, “Sábado”, “Cartaz”, “Diário Popular”, “Jornal de Notícias”, “Tempo Livre”, “A Bola”, “Almanaque”.
Como crítico, colaborou com o “Artes e Ideias”, “Expresso”, “Jornal de Letras”, “Correio do Minho”, “Diário Económico”, “Jornal do Fundão”.
Foi correspondente da Agência France-Press, em Lisboa.
Colaborou na Rádio Comercial e na Antena 1, lendo as suas crónicas.
Na Sic, a convite do então Director Emídio Rangel, apresentou o seu programa “Conversas Secretas”, que obteve um grande êxito.
Baptista Bastos é, actualmente, um dos poucos jornalistas sérios e respeitados, quer pela sua integridade moral, quer pelo seu carácter. Mas, o seu talento não se fica só pelo jornalismo. A literatura é outra paixão que abraça com paixão. É considerado um dos maiores prosadores portugueses contemporâneos.
Possui uma vasta obra publicada, na qual se destaca “O Secreto Adeus”, “Elegia para um Caixão Vazio” , “As Palavras dos Outros”, “Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura”.
Recebeu os seguintes Prémios Literários:
– Prémio Literário Município de Lisboa, Prémio Pen Clube, Prémio da Crítica atribuído pelo Centro Português da Associação Internacional dos Críticos Literários, Prémio João Carreira Bom e Prémio Clube Literário do Porto.
As suas obras estão traduzidas em alemão, búlgaro, checo, russo, francês e castelhano.
A seguir podemos reflectir sobre alguns excertos de crónicas publicadas em diversos jornais:
– “O egoísmo, a insensibilidade, a frieza de espírito, nascidos de um sistema que liquida os laços sociais de que a humanidade é fundamento, determinam e talvez expliquem este nosso amargo tempo.”
– “Morre-se de amor. Também se morre dessa doença cruel e implacável, que a sociedade moderna criou e parece não estar muito preocupada em exterminar – o desprezo pelos outros.”
– “Um país sem memória, ou que não cultiva a recordação das coisas, está irremediavelmente condenado.”
– “A Imprensa precisa sempre de vítimas e de carrascos, de santos com defeito e de heróis evasivos. Uns e outros fazem as primeiras páginas e alvoroçam os leitores. A vida dos jornalistas é uma triste configuração do Sísifo mitológico. A vida dos leitores é uma melancolia privada. Ambos rejubilam com um escândalo, por modesto que seja, ou com uma frase que passeie, desgarrada, por aqui ou por ali. Durante vinte e quatro horas, o bulício anima-os.”
– “A insistência doentia, quase hora a hora, no futebol, nos comentários, nas previsões, nas análises remove do português comum qualquer reflexão acerca da sua própria situação social. As agendas dos jornais, os alinhamentos e as opções das televisões e das rádios merecem uma vigilância crítica dos próprios profissionais. O que não existe. Manifesta-se uma total subserviência aos imperativos do que dizem ser as exigências do público. É uma velha pecha e uma desculpa fatigante de quem abdicou do dever mais sagrado da comunicação social: informar e esclarecer para formar.”
Nesta pequena homenagem a Baptista Bastos, no dia o seu nascimento, ficamos com um excerto da sua obra: “As Bicicletas em Setembro”:
– “Aos sábados e aos domingos, longas e longas horas sozinha. Andava pela casa, de um para o outro lado, arrumando o que estava arrumado, limpando o que estava limpo. Nesses taciturnos furores, bebia copos de vinho tinto, ficava toldada e deitava-se a dormir: ressonava e a vizinhança escutava e comentava. Animava-se mais quando havia enterros. Se fosse mais do que um, então, preenchia com curiosidade a sua tenebrosa inquietação. Não saía da janela que dava para o largo, e benzia-se à passagem das carretas. Os acompanhantes observavam aquela mulher tão volumosa, cuja cabeça rapace e ásperas feições exprimiam beligerância.»
Parabéns! Baptista Bastos.
José Eduardo Taveira
Rita Ferro nasceu em Lisboa a 26 de Fevereiro de 1955.
Frequentou o “Instituto de Artes Visuais, Design Marketing”, onde estudou design de interiores.
Como criativa de publicidade, viajou até ao Brasil, E.U.A., Reino Unido e Espanha, onde frequentou estágios na área do Marketing.
Leccionou publicidade no IADE. Foi redactora de publicidade nas Selecções do Reader´s Digest.
Colabora em diversas revistas e jornais e tem participação assídua na rádio e na televisão.
Aos 35 anos publica o primeiro livro intitulado “Nó na Garganta”, que foi um sucesso de vendas, tal como “O vestido de Lantejoulas”.
Estimulada pelo êxito destas duas obras, Rita Ferro decide continuar na ficção. E surgem livros como “O Vento e a Lua-História de uma Vagabunda”, “Uma mulher não Chora”, “Os Filhos da Mãe”, “A Menina Dança? “Responde se és Homem”, etc.
Participou em algumas antologias, destacando-se “O Mistério de Lisboa”.
Tem obras publicadas no Brasil, Espanha e Croácia.
Em 2011, edita o romance autobiográfico “A menina é Filha de Quem?”
A seguir, algumas frases relevantes da personalidade da escritora:
– “Não tenho paciência para histórias felizes nem para pessoas felizes”.
– “O amor encerra este paradoxo, este absurdo doentio e insolúvel: podemos querer bem a quem nos quer mal. Ou fazer mal, a quem nos quer bem”.
– “Há alturas na vida em que a dor é tamanha e tão insuportável que até o amor nos parece imprestável”.
– “A indiferença não passa de uma atitude, pois ninguém é imune a insultos, reparos ou desconsiderações.”
Nesta singela homenagem a Rita Ferro, um excerto do seu livro “Desculpe lá, mãe”, escrito em parceria com a sua filha Marta:
“Querida Mariana:
Fiquei a pensar no que escreveste o outro dia sobre a importância dos amigos na tua idade. É claro que eles também são importantes na minha, mas, na tua, é natural que pareçam mais.
Na minha, as pessoas tornam-se presunçosas e acham que já não precisam tanto de amigos, mas de interlocutores.
O que são interlocutores? Boa pergunta.
De um ponto de vista interesseiro, um interlocutor pode ser alguém mais lúcido do que nós, ou capaz de nos dar outras perspectivas da realidade, e que além de nos compreender nos obriga a repensar nalgumas noções viciadas.
Talvez seja estúpido, porque sempre que há problemas graves quem aparece são mesmo os amigos, esses amigos feitos na infância que às vezes nada têm para nos oferecer além de um abraço apertado ou de um beijo sentido.”
Parabéns! Rita Ferro.
José Eduardo Taveira
Cesário Verde nasceu em Lisboa no dia 25 de Fevereiro de 1855 e viveu até 1886.
Frequentou durante poucos meses o Curso Superior de Letras da Universidade de Lisboa. Desistiu e foi trabalhar para uma loja de ferragens propriedade de seu pai, na Rua dos Bacalhoeiros.
No entanto a sua vocação poética impedia-o de estar intelectualmente inactivo. Começou a publicar os seus poemas no Diário de Notícias e noutros jornais.
Quando adoece com tuberculose, muda-se para casa de família em Linda-a-Pastora.
O seu grande amigo Silva Pinto, que fora seu colega na Universidade, publicou a título póstumo “O livro de Cesário Verde”, que reúne as poesias do autor.
Sobre a sua estética literária e as características temáticas da sua poesia não cabe neste pequeno texto referi-las. No entanto podemos tomar conhecimento do seu pensamento através dos seguintes depoimentos:
– Eduardo Lourenço: “O universo de Cesário não é um universo pensado, crítico, à maneira de Eça (…), é um mundo sentido, palpado e ao mesmo tempo transcendido pelo sonho, que é desejo de um lugar outro, de uma humanidade outra que inconscientemente o conforta na sua admiração pela força, pela saúde e energia que a memória e o sangue lhe denegam.”
– Jacinto do Prado Coelho: “Poeta do imediato, Cesário é também um poeta da memória…”
– Óscar Lopes: “ É, porém, em «O Sentimento dum Ocidental» (…) que o poeta ultrapassa com maior fôlego estrutural o seu naturalismo positivista, no mesmo momento em que parecia, aliás, consumá-lo em poesia. (…) Cesário não se desprende da imanência aos dados da percepção sensível, mas articula-o com um modo inteiramente novo, precursor do Cubismo ou Interseccionismo. Para Cesário, como depois para Pessoa, o eu, o tu, o nós, o tempo irreversível e as dimensões reversíveis do espaço, as coisas mais simples constituem problemas e despertam ânsias que a poesia apreende antes mesmo de se formularem em teoria.”
– Mário Cesariny presta homenagem a Cesário Verde neste poema:
Aos pés do burro que olhava o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas
Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país
Pensamentos e frases de Cesário Verde:
– “Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.”
– “Não me sinto bem em parte nenhuma e ando cheio de ansiedade de coisas que não posso nem sei realizar.”
– “Eu não sou como muitos que estão ao meio dum grande ajuntamento de gente completamente isolados e abstractos. A mim o que me rodeia é o que me preocupa.”
– “Os caluniadores são como o fogo que enegrece a madeira verde, não podendo queimá-la.”
– “O céu já foi azul, mas agora é cinza . E o que era verde aqui já não existe mais.”
Nesta singela homenagem a Cesário Verde, recordemos o poema:
“Cinismos”
Eu hei-de lhe falar lugubremente
Do meu amor enorme e massacrado,
Falar-lhe com a luz e a fé dum crente.
Hei-de expor-lhe o meu peito descarnado,
Chamar-lhe minha cruz e meu Calvário,
E ser menos que um Judas empalhado.
Hei-de abrir-lhe o meu íntimo sacrário
E desvendar a vida, o mundo, o gozo,
Como um velho filósofo lendário.
Hei-de mostrar, tão triste e tenebroso,
Os pegos abismais da minha vida,
E hei-de olhá-la dum modo tão nervoso,
Que ela há-de, enfim, sentir-se constrangida,
Cheia de dor, tremente, alucinada,
E há-de chorar, chorar enternecida!
E eu hei-de, então, soltar uma risada.
– Mas o que esperavam num país que bateu no fundo? Que o ditador rebuscasse nos bolsos os tostões suficientes para erguer do chão uma terra descapitalizada, faminta, analfabeta, onde encontrar homens honestos é o mesmo que descobrir agulha em palheiro? Milagres? Só em Fátima, e é preciso pagá-los a peso de ouro, ou então com o coiro, como criados, ou criadas para todos os fins, às ordens de um alto dignitário eclesiástico! Não, meus amigos, quando os países batem mesmo no fundo, ninguém de fora os vem a salvar, e até nem mesmo os de dentro, que suam as “estopinhas” para levar a água a bom porto. Os homens, em particular os latinos, raramente são benfeitores da pátria! Servem-se sim, o melhor possível, à custa da Pátria!
– Então, de concreto, diga-nos o que o Salazar fez de bom por esta terra. – Perguntou-lhe João.
– Tudo!
– Tudo? Mas especifique!
– Sanou as finanças, criou condições para que florescessem as nossas manufacturas, as nossas indústrias, e fez-nos como somos hoje, quando nos doutrinou assim, – e Baltazar fez uma voz esganiçada, – “Não podemos discutir Deus nem a sua Igreja, não podemos discutir a Pátria nem a sua História,” e nós, como não se podia discutir nada, ficámos assim, quietinhos, num remanso desta santa paciência sem limites! Hoje somos ainda um espelho onde se reflecte a santa imagem do salvador da Pátria. Nós nunca conseguimos ter a força anímica necessária para contestar os nossos líderes, na hora certa da História, e a coisa, para se complicar ainda mais, é de tal ordem, que também se pode dizer que fomos nós quem fez o Salazar! Vejam lá vocês se conseguem entender bem este nosso povo, que eu, para lhes ser franco…
– O homem foi um santo, está visto! Não sacrificou ninguém!
– Bom, fez tudo à custa do sacrifício das pessoas, está bem de ver, e como não podia deixar de ser. E estes agora, como pensam vocês que vão a resolver a situação? É que quem galinhas e cabras não tem…
– Bem, – disse o Miguel a encarar João, – na verdade o tipo deixou os cofres a abarrotar de dinheiro…
– Que estes gastaram num ápice!
– Baltazar, – disse Miguel, – gastaram porque as pessoas estavam necessitadas de tudo…
– Meu amigo, as pessoas estão sempre a necessitar de muita coisa, e só pela via do trabalho é que podem chegar ao que necessitam. É só pela via do trabalho que se consegue satisfazer necessidades, sejam elas básicas ou não…
– Mas quando não há trabalho…
– Sim, é certo que o trabalho não cresce nas árvores como os figos. Mas quantos postos são possíveis criar a partir dos milhões que o velho deixou? Essa a questão pertinente. Os meios de produção, em dada altura, são o melhor pão que se pode dar aos carenciados e aos famintos. Uma caridadezinha extraída da caixa das esmolas que é finita é um bem temporário. Um meio de produção bem oleado e afinado é uma fonte de receita para a vida toda. Necessitamos mais de inteligência, esforço e engenho do que de caridade…
– E para haver esforço e engenho são necessários empresários, que é o que pouco ou nada abunda nesta terra… – Atalhou João.
– É essa a questão de fundo. Falta-nos gente credível nos negócios. Os séculos em que vendemos espelhinhos e missangas aos pretinhos da África caparam-nos massa encefálica com qualidade. Foi tudo feito lá, fora de portas Não houve, não há, nem vai haver nunca, salvo se fizermos um grande esforço, gente nessa área à altura da situação, com excepção para um escasso grupo de pessoas que evoluíram e que são bem formadas. Nós desenvolvemos um comércio fácil e individual, através das facilidades da exploração dos africanos. As bestas de carga dos pretos fazem tudo. Aos senhores basta saberem segurar o chicote! Nada de criatividade, ainda que essa coisa ande a rodos pelas ruas. Que se danem os criativos! Cá por casa, uma cuspidela e um esfregar de mãos, antes de pegar na enxada. A cavar a vinha se dá de comer a um milhão ou mais de portugueses! E quando vocês pensam que são as ideologias que vão resolver tudo, estão muito enganados. É a qualidade do material humano a única coisa que conta. E para que esse material seja bom, é indispensável o conhecimento e a especialização. Não necessitamos de uma Pátria de doutores e engenheiros, em exclusividade, mas sim de gente esclarecida que saiba desenvolver trabalho com produtividade e qualidade. Claro que, com isto, não estou a negar o conhecimento científico, e sei que a nossa escassez de licenciados é gritante. Só que acabar com os cursos profissionais que a ditadura criou foi uma aberração saída de cabeças que são tudo menos pensantes! E depois, a proliferação de universidades e de cursos inúteis, paridos por cabeças de oportunistas. É como se Portugal se pudesse dar ao luxo de ter licenciados especializados para aferir o tamanho dos tomates, ou o comprimento dos pimentos, ou para confirmarem se as cebolas fazem chorar muito ou pouco os olhos. Um mundo de disparates sem qualquer utilidade para satisfazer as necessidades das nossas poucas empresas, desenvolvido sem a menor intervenção do Estado. É o deixa andar puro e simples! Nesta orquestra nacional o maestro tem pouca ou nenhuma importância, porque cada instrumentista toca o que sabe e até dispensa a pauta da música, toca de ouvido!
– Você traça um quadro negro que desmotiva, só de o ouvir falar a gente se assusta! – Interpõe João. – E daqui para a frente, como pensa que vai ser o futuro deste nosso paraíso, melhor, pior, assim a sim?
– O nosso amigo hoje está em dia não! – Disse Miguel. – Não vai sair nada de bom, você vai a ver, João…
– Pois, vocês parecem que são adivinhos. Até aqui temos falado do passado, e o passado tem uma justificação, a guerra, ou as guerras, para ser mais preciso. A primeira, a segunda, e a quixotesca, a guerrinha pessoal que o ditador moveu ao mundo inteiro. Mas hoje, meus amigos, é que não existem desculpas possíveis! A verborreia fanática e sem sentido, saída do irredutível fanatismo ideológico, feito com estilos de pompa e circunstância, numa linguagem que nem os mais entendidos nestas coisas percebem, no hemiciclo de uma Assembleia da Republica, pretensamente democrática…
– Aí, alto, meu caro – Interrompe Miguel. – Nós hoje somos mesmo um Estado de Direito, uma democracia!
– De certeza?
– Há, isso, meu caro, de certeza!
– Como é que pode existir democracia sem justiça?
– Mas nós temos justiça, com muitas falhas, é certo, mas é uma justiça!
– Você contenta-se com pouco Miguel! O seu princípio é o que justifica a frase “quem não tem cão caça com gato.” Ora, meu amigo, ou se tem cão ou, pura e simplesmente, não se caça! Os gatos serviram no Egipto para caçar, mas isso foi há milhares de anos. Hoje estão inaptos para essa actividade. É que se libertaram dos homens, agora só fazem o que bem lhes apetece…
– Não falta muito para você gritar, os gatos ao poder! – Disse João, em tom de troça.
O sol está quase a pino, naquele céu sem nuvens, de um azul claro tão intenso que fere os olhos de quem o encara. Baltazar Antunes sorri do comentário de João. Espreguiça-se, estendendo ao alto os dois braços. Depois ajeita-se no banco. Agora o astro bate-lhes de frente, com a intensidade do quente que satisfaz e dá prazer aos corpos, aquietados na modorra de um certo torpor, onde um nadinha de felicidade lhes confere o direito de relaxar.
No rio, olhando para o lado da foz, o paquete azul e branco já não mora por lá. Perdeu-se na curvatura do horizonte e ganhou assim outros tempos, na grandeza de um oceano que daquele longe parece calmo. A outra margem lá está, coalhada de verdes que se abrem e se deixam beijar pelo sol.
– Vocês o que sabem dos deuses da mitologia grega? – Pergunta Baltazar.
– O que é que isso tem a ver com justiça? – Inquire o Miguel.
– Porquê?
– Você não estava, ou ia a falar de justiça?
– Há, tem razão. Esqueci-me. É que apeteceu-me ser gato por um instante e aproveitar melhor este sol quentinho. Os bichanos são uns sortudos, sabem, os tipos relaxam mesmo, é que de parvos têm muito pouco. Aparentemente nada. É que dá que pensar a forma como eles distribuíram as responsabilidades pelos seus deuses.
– Quem? – Perguntou Miguel. – Os gatos?!
– Responsabilidades? Deuses? – Inquire João, quase em simultâneo.
– Sim, homem! Os deuses não tinham tanto trabalho assim, como os de hoje. Parece que a polivalência só foi inventada mais tarde…
– Por algum capitalista! – Interrompeu o Miguel.
– Não estou a perceber! – Exclama João. – Mas quais deuses, os dos gatos?
– Pousa, não homem, os dos gregos!
– Esperem aí um instante! Mas não falávamos de democracia? – Diz João. – Então a que propósito é que vem esta conversa toda? Que grande confusão!
– Calma, amigo, que já vai perceber. – Responde-lhe Baltazar. – A seguir eu perguntei-lhes o que sabiam sobre os deuses gregos, não está lembrado?
– Sim, uma coisa dessas. Só não entendo porquê…
– Então, democracia, Grécia, deuses gregos. É que não sendo hoje santos, refiro-me aos gregos claro…
– Isso, nem os gregos, nem os outros…
– Deixa-o lá terminar, Miguel, ou ainda fazes mais confusão…
– Pronto, Diz lá, então…
– Isto já parece um desses debates interessantíssimos que nos pregam embasbacados ao televisor, para depois comentar, falando daquilo que, nem nós, nem os que debateram, percebem… – Ironizou João.
– Não sendo hoje santos, estava eu a dizer, já foram bastante úteis para o mundo, porque o fizeram pensar, claro, isto, muito antes da excelsa inteligência dos mercados nascer, para nos conduzir pela mão para a Civilização!
– Que triste e doloroso caminhar, para desembocar num beco sem saída que são esses mercados, ora porra!
– Vá, então, não avacalhem mais a conversa e deixem-me terminar o raciocínio!
– Pronto, o pessoal cala-se!
– No seu sentido prático, os gregos de então, querendo deuses eficientes e operacionais, úteis portanto, não os quiseram muito sobrecarregados com trabalho, e foi assim que lhes atribuíram tarefas. Para Atena, as guerras e a lucidez, onde eu presumo que também parasse a justiça, porque, para ser justo a contento de todos, é fundamental ser lúcido. Para Hades, a responsabilidade dos Infernos e dos Tesouros da Terra.
– Esse era de certeza mais político do que deus…
– Psiu! – Fez Miguel para João, enquanto Baltazar Antunes o encarava sério.
– Pronto, desculpa! – Disse João.
E Baltazar continuou. – Para Poseidon, as tempestades e a água fecundante, e finalmente, para Hermes, os negócios e os ladrões, vejam só!
– O que significa… – Disse João.
– Que já por época tão recuada, entre os negócios e a justiça existia deuses de distância, mas os ladrões, esses, mais ou menos, já ficavam bem na mesma fotografia…
– E os políticos, – atalhou Miguel, – nada mal pensado. Os Infernos e os Tesouros da Terra, exactamente o que eles fazem melhor, ainda hoje, as guerras com as suas taras ideológicas, infernizando a vida dos outros, só com o fito de meterem eles os cacaus, ou graveto, como queiram, nos bolsos, deixarem uma fatia para os seus apaniguados, e umas migalhas, quando e só quando lhes convier, para o povo. É sempre mais do mesmo. Então, esse tal de Hermes, já por essa altura seria apelidado de “Deus grande filho da puta”?
– Possivelmente, João, – disse Baltazar – ao certo não sei. E por outro lado, as guerras e a lucidez, é complexa a estrutura da cabeça dos homens, não é? Parece que uma barreira de pedras talha enviusada pelo labirinto dos miolos, não acham?
DAVID MOURÃO FERREIRA nasceu a 24 de Fevereiro de 1927 e viveu até 16 de Junho de 1996.
Licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras em Lisboa, onde foi professor em 1957.
Foi o fundador da revista “Távola Redonda”. Colaborou na Seara Nova, nas revistas Graal, Vértice e no Diário Popular. Foi secretário – geral da Sociedade Portuguesas de Autores e após o 25 de Abril foi presidente da mesma Sociedade. Dirigiu o jornal “A Capital” e foi director-adjunto do jornal “O Dia”.
Foi Secretário de Estado da Cultura no período 1976-1978,tendo sido responsável pela criação da Companhia Nacional de Bailado.
Também foi autor de alguns programas culturais na rádio e na RTP.
A partir de 1981 foi responsável pelo Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi director da revista Colóquio/Letras da mesma Fundação.
A sua carreira literária iniciou-se em 1945 com a publicação de alguns poemas na revista Seara Nova.
David Mourão Ferreira foi poeta, romancista, crítico e ensaísta.
A sua poesia tem a mulher e o amor como temas privilegiados do seu talento. O erotismo está presente na sua obra poética de forma inegualável.
É sem dúvida um dos grandes poetas contemporâneos do século XX.
Amália Rodrigues cantou alguns poemas de David Mourão Ferreira, que ficaram na nossa memória: Maria Lisboa, Fado Peniche, Nome de Rua, Sombra e o celebérrimo Barco Negro.
Ao longo da sua vida de escritor, recebeu inúmeros prémios e consagrações, dos quais se destacam:
– Grau de Grande Oficial da Ordem de Santiago da Espada.
– Prémio de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores. Recebe no mesmo ano a Grã-cruz da Ordem de Santiago da Espada.
– Prémio Nacional de Poesia.
– Prémio da Critica da Associação Internacional dos Críticos Literários
– Grande Prémio de Romance da APE (Associação Portuguesa de Escritores)
– Prémio de Narrativa do Pen Clube Português.
Nesta singela homenagem a David Mourão Ferreira, fiquemos com a ternura deste lindo poema:
Ternura
Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada…
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio…
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo…
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
Na era medieval existiu um homem de cabelos dourados que em vida tinha sido um guerreiro notável. Ele ficou conhecido por ser um profundo conhecedor do aço e por destroçar os seus inimigos no campo de batalha.
Certo dia, como capitão do exército de Odin, ele liderou o seu exército rumo à vitória na batalha contra os Jotnar, gigantescas criaturas com força sobrehumana, que sempre se manifestavam em oposição aos Deuses. O seu exército era pequeno e não contava com mais do que cinquenta homens. E então o que parecia ser impossível aconteceu; eles venceram a batalha e Wolfgang tornou-se um líder ambicioso sedento de sangue. Não havendo adversário que chegasse para ele, todos eram aniquilados. Os seus homens mais pareciam seus escravos, pois não havia descanso e muitos deles sucumbiram face aos seus aterrorizantes actos. Eles tinham-se cansado dele.
Numa certa noite, nas encostas das montanhas geladas do norte, ele foi traído pelo seu próprio pai que, não suportando mais as suas atitudes insanas, lhe armou uma emboscada onde acabou por ser morto pelo seu próprio exército. Odin enfureceu-se, baniu-os para o Niflheim e ordenou às Valquírias que levassem Wolfgang até Valhala, onde permaneceu durante anos, guerreando em nome dos Deuses e sacrificando a sua vida miserável a troco de nada. Aquilo tudo tinha-se tornado um pesadelo para ele que, depois de se cansar daquela tortura, implorou aos Deuses que lhe dessem uma segunda chance.
O mundo mudara. Loki, o senhor das trevas, tinha encontrado uma maneira de atravessar as grandes raízes de Yggdrasil, a colossal árvore que ligava os mundos. A grande mãe, como era chamada, tinha enfraquecido com a maldição posta sobre ela por Loki que, como vingança após ter sido aprisionado por Tyr, enviou à terra quatro colossais demónios que cobriram o mundo nórdico com a sua maldade.
Odin tinha falhado e após um longo tempo sem interferir no mundo dos mortais, decidiu recrutar, em Valhala, o único homem capaz de andar sobre a terra carregando a espada das Almas, uma espada cuja lâmina tinha sido forjada pelos Vanir sobre o poço de Urd, e que no passado fora usada para aprisionar os espíritos malignos que ameaçavam o universo. Wolfgang tinha sido o escolhido, a sua alma pecadora iria caminhar mais uma vez sobre aquele mundo perdido onde o seu pesado fardo, imposto pelos Deuses, lhe poderia conceder a tão sonhada segunda chance.
Obra, Wolfgang, o guerreiro nórdico.