A Menina dos Olhos Tristes (CONTINUAÇÃO)

 

 

(…)

Para terra sobe-se por um portaló inclinado, fixando os pés em réguas de madeira dispostas na horizontal, que se substituem aos degraus. As pessoas firmam-se nas guardas metálicas que, de ambos os lados, lhes servem de apoio. É gente simples. Eles vestem-se de cotins e gangas, camisolões de gola alta feitos de uma lã grossa, uns trazem bonés ou chapéus de feltro para conter a friagem da madrugada, e casacos desbotados pelos anos de uso, elas de saias estampadas ou lisas, casacos velhos, xailes e lenços. Os rostos são de peles rugosas, de barbas mal escanhoadas, feridas por lâminas velhas; é como se mesmo os jovens fossem velhos e resignados, e as mulheres desconhecessem que algures, em um dia perdido nos anos, tiveram juventude.

Quando pisam terra as pessoas não saem do gradeamento que limita o espaço de acesso ao embarcadouro. Estão perplexas. Dispersam-se, formam pequenos grupos junto do pré-fabricado onde fica o pequeno bar que serve pequenos-almoços, a hora tão nova ainda encerrado; os portugueses têm um velho ditado que diz: “quando a esmola é grande o pobre desconfia,” e é o caso. Os anos da Ditadura foram tantos e tão longos que, se cada uma daquelas pessoas dispusesse, por mão de uma estranha magia, de liberdade para delinear para si um destino, não saberia como fazer; mais se parecem com escravos libertos que não se afastam muito do seu antigo senhor, para que este continue a prover às suas necessidades.

– Então, gente? Saem ou voltam para trás? É que vamos suspender as carreiras, o último barco para a Outra Banda sai dentro de dez minutos!

A voz grossa do responsável pelo cais de embarque fez-se ouvir ao cimo do portaló. Todos percebem que é hora de tomar uma decisão. Haverá transportes? – Perguntam uns tantos. Penso que não! – Diz alguém mais atrás. Perguntem ao homem do cais. Mestre, haverá eléctricos? Isso não sei, – responde o responsável pelo cais. Só me deram ordens, mesmo agora, para suspender as carreiras. Do resto não sei nada. Estou como vocês, não faço ideia de como vou para casa! Eu volto para trás, mais vale jogar pelo seguro! – Dizem outros. – Eu não sei, talvez fique para ver a revolução? Ver o quê? Isto? Alguém inquiriu alto, lá do fundo.

Não fora uns quantos carros do exército parados frente ao Ministério do Interior e pelas suas proximidades, grupos de militares armados a tomarem posição junto às arcadas, e Lisboa, vista dali, daquele pedaço de chão que a liga ao rio, não seria mais do que uma cidade aquietada no sono dos seus habitantes. Nem um civil, um mirone desses que se pespegam a ver a tropa que passa, ou dos que passam o tempo a ver as obras por entre os tapumes, nem um cão que se distraiu no seu passeio matinal e se atrasou no regresso a casa, ou seguiu o dono rua abaixo a caminho do trabalho. Nada, nem vivalma. Lisboa dorme, ou finge dormir, com o coração em sobressalto por pressentir que o seu amanhã depende dos grupos de militares que deambulam pelos pontos estratégicos da cidade.

Os passageiros na sua maioria regressam ao barco. Descem o portaló inclinado por mor de uma maré que não se vê a subir. Apenas quatro ou cinco homens hesitam.

– Então e nós, amigo? – Inquire o companheiro de viagem. – Nós, eu que trago aqui na lancheira o almoço, portanto já venho prevenido, vamos a cumprir o nosso trato, não acha? – É isso mesmo amigo, é de homem! Vamos então. Ainda não me disse o seu nome… – Diz João. – Eu? Sou Miguel! E você? Eu sou João! – Será que a tropa nos deixa atravessar pelo Terreiro do Paço? Não vejo porque nos vão a por impedimento. Não vejo por aí gente que me pareça beligerante… – Responde Miguel. – Isto é tudo gente pacífica. As nossas revoluções são assim, a modos que já combinadas… Pois então, vamos! Vamos lá! À cautela também se pode meter à direita e passar ali pelo largo da casa dos bicos; o que lhe parece? Para mim, amigo João, tudo bem, talvez tenha razão. Assim como assim tirou o dia por sua conta!

Passado o limiar do portão metálico, (que o mestre do cais se apressa a fechar com o auxilio de um dos marinheiros de apoio (no pontão) à atracação dos barcos, viraram para a direita, na direcção do Jardim do Tabaco. Um pouco mais à frente atravessaram para o passeio da frente dos edifícios ministeriais. Ao fundo viraram de novo, à vista da antiga Feitoria das Índias, entreposto onde se armazenaram as especiarias vindas do Oriente, e de novo viraram, mas desta vez para a esquerda, no sentido do Terreiro do Paço, assim chamado por acordo do povo, ciente da sua História e das velhas tradições, e não essa Praça do Comércio, por imposição da modernidade de uns tantos. Passaram frente à porta Manuelina da Igreja, essa maravilha do Barroco Religioso Português, mais à frente no local onde entronca a rua da Madalena, e mais uma dúzia de passos adiante, de fronte do café Martinho da Arcada, desembocaram no Terreiro. Lá estava a tropa, nas suas posições.

 Quando olhou para o lado do rio, Miguel sentiu um baque no coração. Não me digam que esta gente se vai a pegar! Olhe para ali, companheiro. João olhou. No rio a presença de um navio de guerra. O cinzento da sua cor a misturar-se com a cor suja da água do rio, meio azulada e um tanto cinzenta. O navio estava de proa no sentido da nascente, a mostrar-se de lado, com as suas torres e os canhões ainda quedos, recortados na manhã que já vai alta para os lados da foz. No Terreiro do Paço o exército toma posições de resguardo no interior das arcadas, rente às fachadas dos ministérios.

– Vamos a ver a nossa gente a matarem-se uns aos outros? – Inquire João.

– Não sei o que lhe dizer, amigo! Talvez que não cheguem a tanto…

Miguel é homem de estatura média, atarracado, de braços musculados feitos nos trabalhos árduos da construção naval. Deixa transparecer uma energia que parece que contagia quem dele está próximo. Pela fala parece gente que teve “letras” por força de vontade, de saber mais da vida, do que um operário modesto dedicado à limpeza dos tanques dos petroleiros tem o direito de saber. É o género de gente que incomoda os doutores… – pensa João, a olhar o seu companheiro de ocasião. Miguel puxa-o pela manga do casaco. É melhor sairmos daqui, porque isto pode dar para o torto. Venha! Ambos se apressam a atravessar para o passeio do outro lado. Um pequeno grupo de militares protege-se atrás de um velho camião do exército, com uma metralhadora fixada por cima, junto à cabine. Está desprovida de atirador. A nossa gente é pacífica! – Diz João. – Nunca fiando, amigo, nunca fiando! E Miguel obriga-o a apressar o passo. Quando passam na frente dos soldados um graduado faz-lhes sinal com a mão para que se apressem, num gesto imperativo, de comando, e os dois homens esquivam-se, passando, acelerados, na frente da porta do Martinho da Arcada, e encaminham-se no sentido da Praça da Figueira, contigua ao Martim Moniz.

– A revolução ficou para trás! – Exclama João. As revoluções nunca ficam para trás; ou são decapitadas à nascença, ou se estendem até aos confins dos países que as fazem! Como sabe você isso? Ainda não há muito tempo me disse que nunca tinha visto nenhuma, tal como eu. E continuo a não ver, amigo. Então o que é aquilo ali para trás? Soldados, camarada, apenas soldados. Sim, vieram tomar o pequeno-almoço ao Terreiro do Passo. À falta da relva de jardim para se sentarem no chão para o piquenique, vão sentar-se nos bancos de pedra do Cais das Colunas! E é que não têm mau gosto, não senhor! Não brinque, amigo, não brinque! Você é que diz que isto não é uma revolução! E digo bem! Então o que lhe falta? O Povo, falta-lhe o Povo! Vê mais alguém na rua, a não sermos nós? Ainda é cedo, amigo. As pessoas das cidades não são todas como nós, os operários, levantam-se tarde e más horas! Então e os operários, não são Povo? Claro que sim! Então, se somos Povo, porque estamos apenas os dois nesta sua “revolução?” Porque poucos sabiam! Não sabiam como, se a rádio não tem feito outra coisa que não seja por no ar música marcial e o comunicado do comando das forças armadas? É que, sabe, as pessoas que se levantam cedo dormem à noite, e não ouvem rádio; temos de convir que é um bom e saudável hábito! Eu, para lhe dar um exemplo, só soube no barco quando você me disse. Mas, se não é uma revolução, o que acha que é, afinal? Um golpe de Estado. Uma saída para a guerra de África! A única saída possível, quanto a mim…

Os dois homens caminham uns metros adiante no sentido da Praça da Figueira, até que o Miguel propõe que virem para a esquerda, no sentido da rua Augusta, e que se encaminhem depois para a rua do Ouro. Porquê? – Questiona João. – Porque me parece que por aí se vê mais movimento. Porque pensa você isso? Não sei, chame-lhe palpite, se quiser, mas como é a rua que liga o Rossio ao Terreiro do Paço, e lá desemboca na esquina do ministério do Interior, as coisas, por essa banda, devem de estar mais movimentadas!

Na rua do Ouro já se avistam uns quantos grupos de civis, três ou quatro ou cinco pessoas por grupo. Alguns espreitam no sentido do rio, com os pés no limite dos lancis do passeio, pescoços esticados para a faixa de rodagem. Vocês vêm de onde? Nós? Do barco, dos cacilheiros! Os barcos estão a trabalhar? Fecharam há um bocado, ainda não fez meia hora!

Do lado do rio um blindado começa a avançar, subindo a rua. Da escotilha um militar de capacete, está atento à progressão. Então, outro blindado vem no sentido contrário. Visível, saindo meio corpo da escotilha, um militar envergando fardamento azul e com o bivaque posto na cabeça, também observa o caminho. Os carros de assalto estancam. As torres movimentam-se. Os que vêm do Rossio são da Guarda Republicana! – Grita alguém. – Mau, são capazes de abrir fogo! – Diz outro. – Se estão em lados opostos é muito possível que sim. No meio disto tudo ninguém sabe quem combate quem! – Diz um rapaz alto e magro. Tem razão, amigo! Vamos mas é encostar-nos aos prédios, ou metermo-nos numa escada, se descobrirmos uma porta aberta! E Miguel puxa o companheiro para a parede do prédio. As pessoas cozem-se com as fachadas dos edifícios e ficam em silêncio. Um ou outro desatam em correria para encontrarem uma protecção mais eficaz. Alguém deita-se no chão junto à parede e protege a cabeça com ambas as mãos. De ambos os lados da rua, a enfrentarem-se, os blindados estão imóveis. É como se o tempo parasse. Os tanques começam a avançar, com lentidão, um frente ao outro. É agora! Grita um homem. Calma, tenham calma! Os tipos não são doidos, a esta distância vão desfazerem-se, um ao outro! Se abrirem fogo atirem-se ao chão! Grita outro, falando para todos. Nisto o carro de combate que vem do sentido do Rossio vira à direita e começa a subir por uma rua perpendicular, e o carro que vem de baixo vira à esquerda noutra rua perpendicular. Os rostos dos poucos civis rasgam-se em sorrisos. Respira-se fundo, de alívio. Foi por pouco! Exclama alguém. Eu não lhes disse? Fala o rapaz alto, meio desengonçado, e contínua: Somos todos bons rapazes, somos portugueses, as coisas vão só com o olhar, os tiros não fazem falta para nada. É, nem mesmo nas nossas revoluções são necessários tiros, com jeitinho e boa vontade tudo se vai resolver, vão ver. Os rostos desanuviam-se, abrem-se em sorrisos, as palmadas nas costas que dão uns nos outros são expressão de contentamento. Desde que nos consigam livrar destes tipos sem mortos nem feridos, tudo bem. É isso, amigo, o nosso povo é sereno. Sereno é dizer pouco. Temos passado a vida a dormir! É verdade. – Dizem de mais adiante, e continuam. – Ou então têm-nos drogado com doses maciças de estupidez!

As pessoas dispersam-se pela rua; uns vão no sentido do Rossio, outros caminham para o Terreiro do Paço.

João e Miguel dirigem-se para o Rossio. Eu já bebia qualquer coisa quente, um cafezito com um chiripiti. E você, João? Eu também. É capaz de já haver para aí uma ou outra casa aberta. Que horas tem? João espreita o visor do relógio de pulso. Eu tenho quase sete! Como o tempo passa! É verdade, parece que ainda agora saímos do barco! É, perdemos muito tempo em hesitações, em especial para sair do cais. Tem razão. Afinal os tipos não se pegaram, senão ouvia-se daqui os disparos. Ainda bem. Pois claro, ainda bem, é gente nossa! Afinal, aonde vamos? Talvez que a tendinha do Rossio já esteja aberta, pelo menos é costume abrirem cedo. – Diz Miguel. – Se não for aí, ali para os lados da Praça da Figueira, ou naquela rua que liga a Praça à rua da Madalena. Aí? Aí não! Para essas bandas são as pastelarias das putas, e essas abrem tarde e más horas. É capaz de ter razão. Ali por trás da Tendinha, passando o arco, perto do cinema, há por aí umas tascas que abrem cedo! Vamos a ver… – Responde o Miguel.

No Rossio estava a Tendinha ainda encerrada. Pelos vidros via-se gente que se atarefava por detrás do balcão. Passaram o arco e desceram a rua; um pouco mais abaixo deram com um pequeno café já com as portas abertas. Pudemos? – Perguntaram ao homem que ainda retirava cadeiras de cima das mesas. – Podem, sim senhor. São os primeiros fregueses do dia. Façam favor? – Pediram dois cafés bem quentes, acompanhados com um cálice de aguardente velha para o Miguel. Você começa cedo, amigo. Não é hábito beber álcool assim tão cedo. Isto é da excitação, sabe… Pois, percebo; eu também ainda não caí bem em mim! Com que então isto não é uma revolução, diz você? E repito, sim senhor, isto não é uma revolução. Então e as pessoas que começam a aparecer por aí em correria, cada vez mais gente… São pessoas, olhe, são as tais pessoas das cidades, as que gostam de se levantar mais cedo nos dias das revoluções para não chegarem com atraso! Lá está você… É, amigo. A revolução tinha hora marcada. Era para começar só às nove e meia, com tolerância de meia hora por causa dos transportes e do trânsito, mas o raio da coisa começou antes. Algum parvo pensou que, só começando às dez, ia a acabar muito tarde, o que obrigaria todos a deitarem-se logo a seguir ao jantar, e então começou mais cedo com a coisa, sem dizer patavina a ninguém! Sabe, – continuou Miguel, – Quem manda é porque pode, lá dizem os que apoiam o que foi o grande mentor da Pátria. É, – responde João, – e obedece quem deve… Isso, quem não tem outro remédio…

Um rapaz bastante novo veio de dentro do estabelecimento com os cafés e o cálice e colocou o serviço sobre o tampo de mármore da mesa. Tomaram o café em silêncio. Depois do primeiro trago de aguardente, Miguel perguntou:

– Você tem plena consciência do que afinal quer dizer revolução? É que às vezes as pessoas não sabem bem o que certas e determinadas palavras querem dizer. Não se chatei comigo, amigo, por lhe fazer esta pergunta…

– Bom, não sendo muito letrado, de livros, tenho muito pouco, tenho mais experiência da vida, eu julgo que sei, mas talvez aprenda alguma coisa consigo…

– Revolução é assim a modos do que revolver, passar de baixo para cima, misturar; misturar não será bem o termo, o mais certo é revolver, passar o que está em cima para baixo e o de baixo passar para cima, não sei se me está a entender…

– É assim como o cão que tem muitas pulgas e se sacode para as atirar para os outros…

– É isso, boa comparação! Acertou, amigo João. Os parasitas estão em cima a sugar-lhe o sangue, e ele tem de os expulsar! Bem visto, sim senhor.

– Parece que não sou, de todo parvo…

Pois não. Nem eu disse isso. Mas sabe, com as pessoas é bem diferente do que com os cães. Nós, os humanos, não agimos por instinto, tomamos as decisões difíceis por razões de consciência. Foi por consciência e por sentirem na pele os efeitos da fome, que os franceses fizeram a sua revolução, sacudiram os seus parasitas, e impulsionaram o mundo para a frente. Foi também por passarem fome que, em mil novecentos e dezassete, os russos definitivamente conquistaram a liberdade, passados anos de luta. Em mil novecentos e cinco, na frota do Mar Negro, os que tripulavam o Potemkin, revoltaram-se porque passavam fome, e vai ser por passar fome que os portugueses, apesar de eternamente acomodados nas suas misérias, nas suas tristes fominhas, vão a acordar dos sonhos da grande Pátria espalhada pelos quatro cantos do mundo, da conquista para dilatar a Fé e o Império, e vão perceber que mais vale uma Pátria pequena mas próspera, onde todos tenham o que comer, onde exista trabalho para todos, antes e depois dos trinta e cinco anos de idade, esse limite que nos impõem para ter direito ao trabalho, e peguem na força das suas mãos para se livrarem em definitivo dos seus parasitas. O que, pelos vistos, ainda não vai acontecer desta vez! – Interrompeu-o João. – É evidente que não! – Respondeu o Miguel. – Nós estamos a assistir apenas a um golpe de Estado, como saída para uma guerra inglória provocada pelos mesmos de sempre. Quem faz o golpe? Espero que um grupo de militares conscientes e bem esclarecidos quanto ao empreendimento a que meteram os ombros. Da parte do Povo? Espero que saibam aproveitar a ocasião para seguirem a onda. Espero, mas não alimento grandes esperanças, apesar dos estropiados, dos mortos, da sangria dos braços válidos dos Homens mais novos, aplicados para matar outros seres humanos que apenas querem ser livres, iguais aos outros, os demais, brancos, pretos, mestiços, amarelos ou o que sejam; afinal, a grande família humana, passe as culturas diferentes, os deuses feitos à medida das sensibilidades dos povos, é toda uma só.

– Sim, concordo em parte consigo, – Disse João, – apesar de perceber que as culturas e as religiões fazem toda a diferença. É que eu já vi uma parte substancial do mundo. E, não sendo muito letrado, li algumas coisas e tive conversas como esta nossa, que por vezes foram de horas. As cores das pessoas são diferentes e não apenas. A natureza é complexa, amigo Miguel, o que parece nem sempre é. A comida de uns não agrada aos outros. O Mundo, afinal, é feito de complexidades e de diferenças. Somos alegremente desiguais, até mesmo no Amor. Uns gostam de mulheres brancas, outros gostam de pretas ou mestiças, ou outras quaisquer; uns amam e casam com uma só mulher de cada vez, outros não, casam com três ou quatro, ou com quantas posam sustentar. Mas quanto às necessidades básicas indispensáveis à vida, ai sim, temos pleno acordo. Somos iguais e temos direitos iguais, e isso pode implicar que as soluções políticas sejam semelhantes, o que conduz à Universalidade dos Ideais…

– Então estamos de pleno acordo, embora por caminhos diferentes chegamos a uma só conclusão, é que sendo desiguais, somos mais iguais do que diferentes… (…)

 

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Do romance a “Menina dos olhos tristes”

 

UM PEDAÇO DA ESPERANÇA QUE NASCEU EM ABRIL QUE NOS QUEREM ROUBAR.

É QUE, DIZEM,” VIVEMOS ACIMA DAS NOSSAS POSSIBILIDADES”

 NEM DE FELICIDADE SE PODE TER UM NADINHA DE RIQUEZA  

(…)

Um mar feito de gente que acorre às ruas como se fosse torrente de rio caudaloso. Chega e engrossa por todos os lados, parece que não tem fim. “É um rio imenso e eterno que corre da terra para a terra.” – Diz de si para si, de sorriso a enfeitar-lhe o rosto que, de tão gretado, parece, (no hábito de todos os dias), ser feito de tristeza.

 Depois, de novo, pensa: “Não existe tanta gente assim. Este caudal humano é maior do que a cidade. Onde já se viu, mais gente do que cidade, do que terra, do que sitio, até do que País. E assim ele acaba pensando que as portas dos cemitérios se escancararam para que os mortos saiam das tumbas e também venham a festejar. A alegria que transborda de dentro dos vivos é tanta e tão intensa que contagiou os mortos. Erguem-se das covas para verem o que nunca viram em vivos, (ou será que sempre estiveram mortos?)

 João Boa Brisa enche os pulmões daquela brisa feita dos frescos do mês das águas mil, expele-o, e volta a encher novamente os pulmões. “Sabe bem respirar assim, engolir estas golfadas do nosso ar, sentir os cheiros da terra de mistura com as neblinas que estão chegando do rio ali em baixo, e que começam a amarinhar pela cidade a dentro.” As gentes sobem a avenida agora da Liberdade e vão de parede a parede dos prédios. É uma massa compacta que se destina a andar em frente, a caminho de um destino que é de todos, que se fez da vontade de alguns como oferta para todos.

 Na sua frente surge, quieto, imóvel, um tanque de guerra. Um de três. Os outros estão mais à frente, imobilizados e cercados pelos rostos que sobressaem, sorridentes, da massa imensa de gente que os parece abraçar num amplexo de fraternidade. Que ideia, abraçar um pedaço da guerra. Mas não. Aquilo ali, não é um tanque, nem os outros, um pouco mais por adiante; são como vasos gigantes de flores a fundirem-se na multidão. E aqueles tubos não são canhões. Apontam ao céu a indicar um rumo, uma vida, uma nova razão de ser para milhões de pessoas, seres humanos que, não sendo iguais, na friagem daquele dia que vem nascendo se sentem irmãos.

 É um daqueles raros momentos em que nos sentimos uma família feita de milhões de pessoas, diferentes em tudo, mas iguais na certeza de que queremos ser livres. Como se a liberdade não fosse a miragem que sempre foi. Quem pode, quem se atreve a ser livre na desumanidade de um mundo feito de tantas e injustas incertezas? Para os homens e as mulheres deste País as únicas certezas da vida limitam-se a saber que existe a morte, que os espera, para muitos como um prémio de consolação para as misérias passadas em vida.

João descobriu que decorria uma revolução quando, no barco das cinco da manhã, um companheiro de viajem lhe perguntou: Para onde vai vossemecê, homem? Ora, para onde quer você que vá, se não, como sempre, para o calvário do trabalho? E você, vai para onde? Eu vou para casa, mas, sabe, anda por aí uma revolução, pelo que, desde as tantas estão a dizer pela rádio. Ó meça, uma revolução, diz você? Sim. Estive a ouvir as notícias no transístor. Trabalhei toda a noite, no estaleiro da Lisnave! Boa casa, essa; sempre me disseram que pagam bem, que se ganha bom dinheiro. Depende, sabe, depende do trabalho que se faça. O seu é um trabalho duro? Nem lhe digo, amigo. Trabalho na limpeza dos tanques dos petroleiros, onde transportam a nafta. Estoira-nos com os pulmões, e até se arrisca a vida. Porquê? – Inquiriu João. – Ora, amigo, por causa dos gases. Quando são nocivos fica-se logo ali, que nem um passarinho! Assim, sem mais nem menos? É como lhe estou a dizer! Então e vocês arriscam a vida sem protecção alguma?! Não. Sem protecção não. Temos os químicos. Os químicos? Sim, os técnicos, que fazem descerem aos tanques uns aparelhos que acusam os gases que causam a morte. Mas sabe, há dias maus. Os que se descuidam e descem antes da intervenção dos químicos, podem não subir…

– Uma revolução, diz você, – disse João, como se falasse para si mesmo. – É isso, amigo, uma revolta. É o que toda a gente está a falar. Não é amigo? – O homem interpelou outro passageiro, que se apressou a confirmar com um aceno de cabeça, enquanto dizia: Pode crer que é verdade. Pergunte aos outros. É a tropa que se revoltou. Já não era sem tempo, com toda essa mortandade que tem havido pela África…

– Uma revolução – voltou a murmurar, como se falasse apenas para si. E como vai ser em Lisboa? Vamos a ver. – Disse o outro.

A viagem foi durando uma eternidade. João soube pelo companheiro de ocasião que desde a madrugada a rádio só transmitia marchas militares. Diziam:”Aqui, comando das forças armadas” e mais coisas que aquele amigo de ocasião lhe ia contando. Mesmo uma revolução à seria, diz você? Sim, pelo que dizem, que ainda não vi; mesmo uma revolução.

Para as bandas do grande oceano, o vermelho do Sol inundava de luz as nuvens mais de névoas esfarrapadas a destapar um azul que ressuscita num céu sem fim. O barco vai lento, sem que se saiba porquê. Os passageiros conversam uns com os outros, conhecidos ou desconhecidos, e o tema é o mesmo: uma revolução, em Portugal, na capital, em Lisboa, terra onde os anos passam a dormir numa sequência de tempo que não parece ter fim; o tempo e as pessoas, que aos poucos, (quando chega a sua hora), é como se morressem sem nunca terem vivido.

Os portugueses por essa época, não viviam, apenas sonhavam o que gostariam de ser; o sonho é fácil e sem custos. É permitido sonhar, desde que não se fale durante o sonho. Falar nunca. É um costume antigo de séculos, desde que as caravelas recolhiam as suas velas latinas para fundearem a meio do rio, na espera que os homens do Rei passassem a revista ao barco, fizessem relatórios, guardassem nas arcas fechadas a cadeado os mapas desenhados a bordo pelos cartógrafos. O que somos e o que fazemos só a nós diz respeito. Guardamos, (desde esses tempos), a dor que sentimos mais as alegrias que gostaríamos de ter na arca da alma, e só os mais chegados podem partilhar um pouco do nosso Eu. Daí a pobreza envergonhada que fez de nós arremedos de gente, que se mostra ao mundo dentro de um fatinho coçado, cerzido e engomado, camisa de popelina barata com os colarinhos esboroados pelo uso, olhos de gente que aparenta não ser triste, gente que quer viver. E vivemos, apesar de tudo vivemos. Não sabemos como, mas o certo é que se vive, um dia de cada vez, dentro do nosso universo feito de sonhos, as glórias de uma História inundada de lágrimas e de sorrisos porque o Rei se veste com o ouro e as jóias, as sedas e os brocados que tiramos ao mundo só para ele, pouco ou nada ficou para nós.

João vê pela amurada do barco uma Lisboa que se aproxima, ainda enregelada pela frieza da noite que se fez de alegria, uma noitada que adivinhou feita de vultos de soldados apressados e cansados pela pressa de fazer uma revolução.

 Na frente o pontão do cais de acostagem. Os marítimos que se ajeitam para lançar os cabos. Então amigo, você volta para trás no mesmo barco? Eu? Não, que ideia! Sabe, em toda a minha vida nunca vi uma revolução, e, que me lembre, não me recordo de gente da minha família que se recorde de alguma vez ter visto uma. Então desembarca, é? Sim! Bem, vamos os dois, se você não se importar da minha companhia! Então você depois de uma noite de trabalho não vai para casa? Sabe, também nunca vi uma revolução! Pois, tem razão, quantos de nós podem dizer que viram uma? Mas, e a família que o espera em casa não fica preocupada? O companheiro de viagem encolheu os ombros. Sabe, a mulher vai pensar que estou a fazer mais horas…

O cacilheiro encostou no pontão entre o ranger dos cabos esticados. O som das máquinas decresceu, começou a perder-se entre os ruídos daquele dia diferente. Foram colocadas as pranchas e aquele mar pequeno de gente encheu o pontão, baixo, por via da maré que ainda não teve tempo de subir para espreitar a terra naquele dealbar de dia ainda com pouco sol. (…)

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PARABÉNS, MÁRIO DE CARVALHO !

Mário de Carvalho nasceu em Lisboa no dia 25 de Setembro de 1944.

É advogado, romancista, dramaturgo e contista.

Nesta homenagem no dia do seu aniversário, um excerto do livro:

“Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina”:

“Assola o país uma pulsão coloquial que põe toda a gente em estado frenético de tagarelice, numa multiplicação ansiosa de duos, trios, “ensembles”, coros. Desde os píncaros de Castro Laboreiro ao Ilhéu de Monchique fervem rumorejos, conversas, vozeios, brados que abafam e escamoteiam a paciência de alguns, os vagares de muitos e o bom senso de todos. O falatório é causa de inúmeros despautérios, frouxas produtividades e más-criações.

Fala-se, fala-se, fala-se, em todos os sotaques, em todos os tons e decibéis, em todos os azimutes. O país fala, fala, desunha-se a falar, e pouco do que diz tem o menor interesse. O país não tem nada adizer, a ensinar, a comunicar. O país quer é aturdir-se. E a tagarelice é o meio de aturdimento mais à mão.

(…) Telefones móveis! Soturna apoquentação! Um país tagarela tem, de um momento para o outro, dez milhões de íncolas a querer saber onde é que os outros param, e a transmitir pensamentos à distância.
Afortunados ventos que batem todas as altitudes e pontos cardeais e levam as mais das palavras, às vezes frases inteiras, parágrafos, grosas delas, para as afogar no mar, embeber nos lameiros de Espanha, gelar nos confins da Sibéria, perder nas imensidades do éter. É um favor de Deus único e verdadeiro. O país pereceria num sufoco, aflito de rouquidões, atafulhado de vocábulos, envenenado de sandices, se a Providência caridosa lhos não disseminasse por desatinadas paragens.”

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O que é o Povo?

O que é o Povo?

RECORDO O NOSSO GENIAL E SAUDOSO MÁRIO VIEGAS E O SEU MANIFESTO ANTI-CAVACO; ELE, E ZECA AFONSO, COM AS SUAS EXCELENTES CANÇÕES DE PROTESTO, FORAM EXPOENTES DA NOSSA LUTA PELA LIBERDADE.

QUE ESTEJAM EM DESCANSO E, SE LÁ DO ALTO NOS VÊM, QUE, POR FAVOR, NOS GUARDEM NESTA TÃO DIFICIL HORA!

 

O que é o Povo, pergunto, e a resposta, sendo transversal no raciocínio de toda e qualquer pessoa de bem, envereda por muitas formas de expressão, segundo a sensibilidade de cada inquirido; o Povo, para mim, é a seiva da árvore, (no meu imaginário um gigantesco e sólido carvalho), que morre, se a sangramos até ao limite.

O Povo é tudo, sem limites, tudo. É quem produz a riqueza, que alimenta a Pátria no seu todo; é quem pensa os métodos mais apropriados para gerar essa riqueza, os empresários, é quem pensa e cria Arte e Ciência, quem gera o bom e o mau. Agredir o Povo, ignorá-lo, maltratá-lo, despreza-lo, empobrece-lo, é desfazer e voltar as costas à Pátria, vende-la. Não pode existir Pátria sem Povo. São indissociáveis. E, se o Povo tudo gera, então o Povo é a principal e única riqueza de que a Pátria dispõe. E o Povo, meus amigos, o Povo são pessoas, nada mais e nada menos: PESSOAS. Não podem, não devem, ignorar as PESSOAS, porque, isso sim, é gerar ódios que são vendavais de revolta. Os extremos das várias formas de Ideais políticos que por aí pululam, saem do imaginário das pessoas individuais ou colectivas (os grupos), e exactamente por isso, podem possuir maior ou menor margem de erro, individual e colectivo; mas as pessoas, enquanto Povo, enquanto todo, são unas e indivisíveis; os grupos não. Os grupos podem, num dado momento, adoecer, e então são cancros sociais que se devem estripar, pois é desses cancros que se geram as tiranias, as ditaduras, os enviados de um deus superior, o Grande Pastor que leva as ovelhitas ao Calvário.

Na verdade, a força do Povo tem a dimensão do infinito. O Povo, quando se manifesta, é uma força avassaladora que amedronta os tiranos, os ditadores, a hipocrisia daqueles que, em seu nome, se apoderam do puder e por nada o querem largar; o Povo, a custo zero, coloca numa manifestação uma orquestra composta pelos melhores músicos, um coro divinal de vozes inesquecíveis, escultores, pintores, actores, escritores que, embora sem editores que os avaliem, existem, e estão prontos a servir a sociedade; ao dispor do Todo social, e nunca da parte, temos cientistas e investigadores. Por favor, pelo bem de todos, não cuspam no Povo, porque, e enquanto parte do Todo, estão a cuspir em vós próprios.

E o Povo que saiu à rua, que se manifestou frente ao palácio de Belém, ficou pasmado, quando o feriram com a ostentação e a utilização dada à riqueza que gerou com o seu labor árduo. Carros de luxo de alta cilindrada pagos com o dinheiro de todos, do colectivo, conduzidos por motoristas pagos pelo todo, num desfile monstruoso, a ferir a dignidade e a sensibilidade da gente séria que hoje passa fome e não tem futuro; a juventude que o geniozinho bafiento, encafuado no seu palácio de cristal, fechado no seu país das maravilhas, ignora, ou ocasionalmente contempla, com um esgar que quer ser um sorriso, mas a quem nunca estende uma mão amiga. É vergonhoso. Uma cosmética feita por inconscientes que fere a sensibilidade de quem quer trabalhar e não sabe onde.

A mendicidade intelectual que defende a tenebrosa teia gerada no seio paupérrimo dos partidos, (chamados da área da governação), reuniu-se, qual majestosa montanha. Teve o seu orgasmo de sapiência. Aconteceu a gravidez e, no final, apenas pariu um…rato! Nobres Conselheiros: julgo que, desta vez, o Povo não se dispõe a pagar a conta da maternidade. CHEGA!

Digo à juventude do meu País que, (compreendendo a vossa justa revolta e o ódio que se agiganta dentro de vós), a forma como o libertais nos actos tresloucados de violência contra a policia, são a exacta maneira que satisfaz esta gente; justifica a repressão e o aparato bélico policial crescente. São as manifestações, por princípio, o exclusivo local apropriado para dar vazão à revolta? Não. A revolta deve subordinar-se sempre à inteligência. A inteligência origina a organização que, por sua vez, produz os métodos. A inteligência, a organização, e os métodos, são a única arma dos pobres.

E finalmente lembro, a quem manda que, em Democracia, o contrato estabelecido entre os reformados e o Estado, tem o mesmo valor que o contrato estabelecido entre o Estado e as Parcerias Publicas Privadas. Ambos os contratos devem merecer do Estado tratamento de igualdade; o contrário, significa ROUBO. Mais, no caso dos reformados, (em particular, porque é sobre eles que é exercido roubo), o não cumprimento do contrato significa a maior afronta aos direitos humanos que ocorre num País que se diz civilizado. Particularmente digo que não tenho a menos simpatia por LADRÕES!

José Solá

 

 

 

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O HOMEM NÃO DESEJA A PAZ

“Que estranho bicho o homem. O que ele mais deseja no convívio inter-humano não é afinal a paz, a concórdia, o sossego colectivo. O que ele deseja realmente é a guerra, o risco ao menos disso, e no fundo o desastre, o infortúnio. Ele não foi feito para a conquista de seja o que for, mas só para o conquistar seja o que for. Poucos homens afirmaram que a guerra é um bem (Hegel, por exemplo), mas é isso que no fundo desejam. A guerra é o perigo, o desafio ao destino, a possibilidade de triunfo, mas sobretudo a inquietação em acção. Da paz se diz que é “podre”, porque é o estarmos recaídos sobre nós, a inactividade, a derrota que sobrevém não apenas ao que ficou derrotado, mas ainda ou sobretudo ao que venceu. O que ficou derrotado é o mais feliz pela necessidade iniludível de tentar de novo a sorte. Mas o que venceu não tem paz senão por algum tempo no seu coração alvoroçado. A guerra é o estado natural do bicho humano, ele não pode suportar a felicidade a que aspirou. Como o grupo de futebol, qualquer vitória alcançada é o estímulo insuportável para vencer outra vez.

Imaginar o mundo pacificado em aceitação e contentamento consigo é apenas o mito que justifique a continuação da guerra. A paz é insuportável como a pasmaceira. Nas situações mais vulgares, nós vemos a imperiosa necessidade de desafiar, irritar, provocar, agredir, sem razão nenhuma que não seja a de agitar a quietude, destruir a estagnação, fazer surgir o risco, a aventura. É o que leva o jogador a jogar, mesmo que não necessite de ganhar, pelo puro prazer de saborear o poder perder para a hipótese de não perder e ganhar. A excelência de nós próprios só se entende se se afirmar sobre o que o não é.
Numa sociedade de ricaços ninguém era feliz. Seria então necessário que por qualquer coisa houvesse alguns felizes sobre a infelicidade dos outros. O homem é o lobo do homem para que este possa ser o cordeiro daquele. Nenhuma luta se destina a criar a justiça, mas apenas a instaurar a injustiça. O homem é um ser sem remédio. Todo o remédio que ele quiser inventar é só para sobrepor a razão ao irracional que de facto é. Toda a história das guerras é uma parada de comédia para iludir a sua invencível condição de tragédia. A verdade dele é o crime. E tudo o mais é um pretexto para o disfarçar. A fábula do lobo e do cordeiro já disse tudo. A superioridade do homem sobre o lobo é que ele tem mais imaginação para inventar razões. A superioridade do homem sobre o lobo é que ele tem mais hábitos de educação. E a razão é uma forma de sermos educados.”

Vergílio Ferreira, in “Conta-Corrente IV”

 

 

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A CEGUEIRA DA GOVERNAÇÃO

“Príncipes, Reis, Imperadores, Monarcas do Mundo: vedes a ruína dos vossos Reinos, vedes as aflições e misérias dos vossos vassalos, vedes as violências, vedes as opressões, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as fomes, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assolação de tudo? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Príncipes, Eclesiásticos, grandes, maiores, supremos, e vós, ó Prelados, que estais em seu lugar: vedes as calamidades universais e particulares da Igreja, vedes os destroços da Fé, vedes o descaimento da Religião, vedes o desprezo das Leis Divinas, vedes o abuso dos costumes, vedes os pecados públicos, vedes os escândalos, vedes as simonias, vedes os sacrilégios, vedes a falta da doutrina sã, vedes a condenação e perda de tantas almas, dentro e fora da Cristandade? Ou o vedes ou não o vedes. Se o vedes, como não o remediais, e se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Ministros da República, da Justiça, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra: vedes as obrigações que se descarregam sobre vosso cuidado, vedes o peso que carrega sobre vossas consciências, vedes as desatenções do governo, vedes as injustiças, vedes os roubos, vedes os descaminhos, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes as potências dos grandes e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores e gemidos de todos? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos?”

Padre António Vieira, in “Sermões”

 

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Então, e agora?

Então, e agora?

O governo do senhor Passos Coelho justifica a miséria a que nos condenou com a baixa das taxas de juro que se tem verificado nos empréstimos externos. É como se a economia fosse uma religião suprema à qual tudo e todos vale a pena sacrificar. As crianças passam fome para a economia prosperar? Sim! É um desígnio divino. Os velhos ficam sem uma parte importante dos seus proventos, quando estão no ocaso da vida e já não se podem defender, porquê? Porque a Pátria assim o exige! É como a sábia regra do Estado Novo, quando os fanáticos do sistema gritavam em coro: “Quem manda? Salazar! Salazar! Salazar! Quem pode, manda, e obedece quem deve!

Não sou doutor, nada percebo de finanças ou economia. Fui um técnico bem sucedido que, no exercício da sua profissão, teve êxito. Fui um escritor que se encolheu, em dado momento da vida, com medo de represálias pela parte do sistema, digo, feudal, que nos castrou enquanto Povo? Sim! O que hoje sou? Talvez um escritor que retorna à vida, num momento extremamente difícil da nossa Democracia. Encontro a Pátria de alguns, (os mesmos de sempre), que faz negaças à Pátria que a maioria não tem; os que dantes sacrificaram a vida para manter as loucuras do sistema, hoje são os mesmos que esmolam o direito à vida e ao bom nome como pessoas de bem; os que antes impunham a sua mediocridade à maioria, são os mesmos que hoje impõem as regras do jogo. Na verdade nada mudou. Somos os mesmos de sempre, ao longo dos séculos.

Mas, basta de lamúrias; se num dado momento nos convenceram ao abandono de uma moeda adaptada e calculada para a nossa realidade produtiva, e hoje dispomos de uma moeda mais de duzentas vezes superior à nossa actual capacidade, (que me parece inferior à que antes tivemos), e se a coesão da Europa, enquanto máquina produtiva com a maior pujança que alguma vez o mundo viu, se envergonha no fracasso e se desfaz, qual o caminho? Não me cabe a resposta, nem sou habilitado com os conhecimentos necessários para tal; mas perece-me que alguém, (pela primeira vez nas suas vidas os mesmos de sempre), tem a obrigação de responder! Não é suicídio a continuação na zona Euro? E como nos podemos desligar deste sistema? Arrisco dizer que, (e sempre), pela via do costume, a da miséria, da fome, não a da fominha secular que sempre nos consumiu), mas sim a fome plena, a grande fome, a que termina nas valas comuns dos cemitérios, e só aí, onde os esperançosos de sempre, enfim, podem pela primeira vez na vida sorrir e descansar, onde a tuberculose mais uma vez e de novo é vencida por falta de alimento vivo para os bacilos, a paz plena sossega os espíritos dos que descansam na terra os ossos que sustentaram corpos que nunca viveram.

O que eu faria se tivesse que decidir? Simples: Mantinha a minha dignidade como homem e respeitava a dignidade do Povo a que pertenço; o que isto quer dizer? Resume-se a viver do que somos capazes de produzir! Arrancar as flores e o relvado dos nossos jardins e parques e plantar alimentos. Regressar à actividade da pesca e expulsar os estrangeiros das nossas águas. Isto, e o regresso ao seio da cultura que pelo mundo espalhámos. Não estamos sós. Uma parte substancial do mundo sabe que existimos e que o sangue dos nossos avós lhes corre nas veias.

Quando, em Setembro de 2011 tirei da gaveta do fundo o romance Ganância, o revi e o publiquei, aterei para o pequeno mundo português o que previ. A venda do País a retalho, a desorientação, o sabor da derrota, a vergonha, a não imortalidade de ser Português; a gente pequena que obedece, e a ainda menor que manda. Que, eternamente, manda!

Os juros dos empréstimos externos baixam? Não, meus amigos. Como não temos produção, o que esta gente prepara é a nova divida que nos vai mergulhar em mais crise daqui a alguns anos. Crise, e crise atrás de crise, que, tudo indica, irá durar até ao consumir dos séculos; travar a miséria passa por terminar com as Parcerias Publico Privadas, com as fundações que se verifique inúteis, com os carros de luxo, com os assessores, com os excessos de uma Assembleia da triste Republica, (a mais moderna do mundo), e, acima de tudo o mais, acabar com esta gente medíocre que cresce como cogumelos nessas juventudes partidárias que em tudo se assemelham ao fanatismo hitleriano ou aos ideais fascistas! Travar a crise é perder de vez a soberba e a sobraçaria dos que se julgam superiores, e assumir a postura da humildade e da simplicidade dos seres humanos que, na verdade, são gente moral e civicamente superiores.

Escutei parte da entrevista do secretário-geral do partido socialista. Às tantas senti vómitos; desliguei o televisor.  A insensatez de um homem que se pretende agora arvorar de paladino salvador, mas que, na verdade, é sim parte activa do problema! Que Deus de poderes supremos nos pode valer, estripando do seio da sociedade estes parasitas aldrabões que nos banham com a sua verborreia, a sua vergonhosa banha da cobra?

O Conselho de Estado vai reunir, o espectáculo da triste comédia da política que não nos serve vai continuar; a cosmética embeleza as faces dos mesmos de sempre. O Fazedor de Sonhos Líricos, depois de escutar os seus (ao que dizem, quinhentos assessores), vai, enfim, dizer de sua justiça.

Compatriotas, só nós somos os donos do nosso destino colectivo! A Pátria é NOSSA! Não somos mais basbaques sentados no chão, qual rebanho enfraquecido pela fome, que se contenta em escutar a melodia enganosa do Mau Pastor! Somos MULHERES E HOMENS que queremos viver, que temos o direito à felicidade e que exigimos de volta o nosso bem mais precioso, a Pátria!

Trinta e cinco anos desta gente a governar destruiu-nos o país; venderam-nos, inclusive, o idioma, pisaram-nos com as suas botas ferradas, gostaram, e querem continuar. BASTA!

Ponderem. Permanecer na zona euro significa caminhar para a escravatura e a miséria impostas pela Alemanha de sempre; a mesma que, por duas vezes, gentilmente ofertou o mundo com centenas de milhões de mortos servidos em bandeja de ouro, com uma cereja de ódio no topo. Regressar ao escudo, significa tomar de volta a nossa independência, mas ficar a pagar uma divida de dimensão incomensurável, cujo montante desconhecemos. De todas as maneiras o que nos espera é dor, miséria e fome, sangue, suor e lágrimas, uma noite tenebrosa sem fim à vista!

Mas, a quem cabe decidir o caminho é ao Povo, e nunca aos três partidos do governo e da corrupção, o PS, o PSD, e o CDS-PP! Ponderem, compatriotas, e façam a mais difícil escolha das nossas vidas!

José Solá

 

 

 

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PARABÉNS, MARIA JUDITE DE CARVALHO !

Maria Judite de Carvalho nasceu em Lisboa no dia 18 de Setembro de 1921 e viveu até 1998.

Foi poetisa, cronista, jornalista, tradutora, romancista, dramaturga.

Nesta homenagem no dia do seu aniversário, um excerto do livro “Tanta Gente Mariana”:

(…) “Uma noite dos meus quinze anos dei comigo a chorar. Não sei já qual foi o caminho que me conduziu às lágrimas, tudo vai tão longe, perdido na fita branca do passado. Só me recordo de que o pai me ouviu e se levantou. Sentou-se ao de leve na borda da minha cama, pôs-se a acariciar-me os cabelos, quis saber o que eu tinha.

– Estou só, pai. Não é mais nada. Dei porque estava só e isso pareceu-me… Que parvoíce, não é? Estou agora só! E tu então?

Tentei rir-me a tapar-me, já arrependida da franqueza, mas ele não colaborou e isso salvou-o da raiva que eu havia de lhe ter na manhã seguinte. Não se riu e a sua voz, quando veio, era muito doce, quase triste.

– Também deste por isso – disse brandamente – Também deste por isso. Há gente que vive setenta e oitenta anos, até mais, sem nunca se dar conta. Tu aos quinze… Todos estamos sozinhos, Mariana. Sozinhos e muita gente à nossa volta. Tanta gente, Mariana! E ninguém vai fazer nada por nós. Ninguém pode. Ninguém queria, se pudesse. Nem uma esperança.

– Mas tu, pai…

– Eu… As pessoas que enchem o teu mundo não são diferentes das do meu… No fundo é muito provável que algumas delas sejam as mesmas, mas aí está, se fosse possível encontrarem-se não se reconheciam nem mesmo fisicamente…

Como havemos de nos ajudar? Ninguém pode, filha, ninguém pode…

Ninguém pode…

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PARABÉNS, GUERRA JUNQUEIRO !

Guerra Junqueiro nasceu em Freixo de Espada à Cinta no dia 17 de Setembro de 1850 e viveu até 7 de Julho de 1923.

Foi poeta, escritor, jornalista e deputado.

Nesta homenagem no dia do seu aniversário, o poema:

 

 A Minha Filha

(Vendo-a dormir)

 

Que alma intacta e delicada!

Que argila pura e mimosa!

É a estrela d’alvorada

Dentro dum botão de rosa!

 

E, enquanto dormes tranquila,

Vejo o divino esplendor

Da alma a sair da argila,

Da estrela a sair da flor!

 

Anjos, no azul inocente,

Sobre o teu hálito leve

Desdobram candidamente,

Em pálio, as asas de neve…

 

E eu, urze má das encostas,

Eu sinto o dever sagrado

De te beijar— de mãos postas!

De te abençoar — ajoelhado!

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PARABÉNS, JOSÉ RÉGIO !

José Régio nasceu em Vila do Conde no dia 17 de Setembro de 1901 e viveu até 22 de Dezembro de 1969.

Foi poeta, romancista, jornalista, ensaísta, dramaturgo e historiador.

Nesta homenagem no dia do seu aniversário, o poema:

                             Cântico negro

“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: “vem por aqui!”

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:

Criar desumanidades!

Não acompanhar ninguém.

— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde

Me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde

Por que me repetis: “vem por aqui!”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí…

Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?…

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tetos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

 

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: “vem por aqui”!

A minha vida é um vendaval que se soltou,

É uma onda que se alevantou,

É um átomo a mais que se animou…

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

Sei que não vou por aí!

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