BILLY COLLINS – Tu, Leitor

BILLY COLLINS

Billy Collins (Nova Iorque, EUA, 1941).

Em 2002, foi convidado a escrever um poema para comemorar o primeiro aniversário da queda das Torres Gêmeas do World Trade Center, em 11 de Setembro.

Palavras de Billy Collins:

“Considero que a poesia é, na verdade, a casa de ambiguidade, ambivalência e incerteza.”

Tu, Leitor

Pergunto-me como te vais sentir
quando descobrires
que fui eu que escrevi isto em vez de ti,

que fui eu que me levantei cedo
para me sentar na cozinha
e mencionar com uma caneta

as janelas ensopadas pela chuva,
o papel de parede com heras,
o peixe-dourado circulando no aquário.

Vá lá, dá a volta,
morde o lábio e arranca a página,
mas, escuta – era só uma questão de tempo

até que um de nós casualmente
reparasse nas velas apagadas
no relógio murmurando na parede.

Para além disso, nada ocorreu nessa manhã –
uma canção na rádio,
um carro assobiando na estrada lá fora –

e eu simplesmente pensando
no saleiro e no pimenteiro
colocados lado a lado num mantel individual.

Perguntei-me se se haviam feito amigos
depois de todos estes anos
ou se ainda eram estranhos um para o outro

como tu e eu
que conseguimos ser conhecidos e desconhecidos
um para o outro ao mesmo tempo –

eu a esta mesa com uma fruteira de pêras,
tu encostado algures na entrada de uma casa
junto a umas hortênsias azuis lendo isto.

Billy Collins

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Leituras e tema do mês no sítio infanto-juvenil Barry4Kids

Já estamos na Primavera e os animais da quinta são o tema deste mês no Barry4Kids.
O conto do mês é sobre uma marota de uma Galinha carijó que vivia numa quinta e tinha por amigos e vizinhos muitos outros animais. É uma estória sobre amizade e partilha.
Quanto ao livro, aconselho ERA UMA VEZ… UMA CASA. A versão original em francês foi premiada em França, e a versão em inglês recebeu Menção Honrosa no 2013 Hollywood Book Festival. Encontra este livro (papel) no Sítio do Livro e o respectivo e-book agora também em todos os sítios da Amazon.
O que podem as crianças LER e FAZER ainda no Barry4kids? Deixe-as procurar que elas logo encontrarão!

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LILI MARLENE – Uma história de amor

LILI MARLENE

                                         

Lili Marlene

Em frente ao quartel, diante do portão
havia um poste com um velho lampião
Se ele ainda lá estiver
Queremo-nos reencontrar
Queremos junto à sua luz ficar
Como outrora, Lili Marlene.

Nossas duas sombras pareciam uma só
Todos percebiam o amor que tínhamos
E toda a gente ficava a contemplar
Quando estávamos junto ao lampião
Como outrora, Lili Marlene.

Gritou o sentinela para avisar
Que soou o toque de recolher
Um atraso pode- te custar três dias
Companheiro, já estou indo
E então dissemos adeus
Como gostaria de ir contigo
Contigo, Lili Marlene

O lampião reconhece teus passos
Teu belo caminhar
Ele ilumina tudo na noite
Mas há tempos esqueceu-se de mim
E, se algo de mau me acontecer
Quem vai estar junto ao lampião
Contigo, Lili Marlene?

Do alto céu, das profundezas da terra
Surge-me como em sonho teu rosto amado
Envolto na névoa da noite
Será que voltarei para o nosso lampião
Como outrora, Lili Marlene?

Lili Marlene: letra de Hans Leip e música de Norbert Schultze

Hans Leip era soldado e escreveu a letra em 1915, na Alemanha, durante a Primeira Guerra Mundial, inspirado na despedida da sua namorada Lili, duvidando da possibilidade de se voltarem a encontrar.
A interpretação de Marlene Dietrich popularizou a composição, traduzida para mais de 40 idiomas.

Imagem: Marlene Dietrich (1901-1992), pintura de Nara Rocha, Porto Alegre, Brasil.

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PAUL ÉLUARD – O Amor é o Homem Inacabado

PAUL ELUARD

Paul Éluard (Saint-Denis, França, 1895 – Charenton-le-Pont, França, 1952).

É mundialmente conhecido como “O Poeta da Liberdade”.

Palavras de Paul Éluard: “Muito antes é poeta aquele que inspira do que aquele que é inspirado.”

                      O Amor é o Homem Inacabado

Todas as árvores com todos os ramos com todas as folhas

A erva na base dos rochedos e as casas amontoadas

Ao longe o mar que os teus olhos banham

Estas imagens de um dia e outro dia

Os vícios as virtudes tão imperfeitos

A transparência dos transeuntes nas ruas do acaso

E as mulheres exaladas pelas tuas pesquisas obstinadas

As tuas ideias fixas no coração de chumbo nos lábios virgens

Os vícios as virtudes tão imperfeitos

A semelhança dos olhares consentidos com os olhares conquistados

A confusão dos corpos das fadigas dos ardores A imitação das palavras das atitudes das

ideias Os vícios as virtudes tão imperfeitos

O amor é o homem inacabado.

 

Paul Eluard, in “Algumas das Palavras”

Tradução: António Ramos Rosa

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RENÉ DESCARTES – As Regras do Método

RENE DESCARTES -AS REGTRAS

René Descartes (La Haye en Touraine, França, 1596 – Estocolmo, Suécia, 1650).

Palavras de René Descartes: “Viver sem filosofar é o que se chama ter os olhos fechados sem nunca os haver tentado abrir.”

As Regras do Método (excerto)

(…) em vez desse grande número de preceitos que constituem a lógica, julguei que me bastariam os quatro seguintes, contanto que tomasse a firme e constante resolução de não deixar uma só vez de os observar.

O primeiro consistia em nunca aceitar como verdadeira qualquer coisa sem a conhecer evidentemente como tal; isto é, evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção; não incluir nos meus juízos nada que se não apresentasse tão clara e tão distintamente ao meu espírito, que não tivesse nenhuma ocasião para o pôr em dúvida.

O segundo, dividir cada uma das dificuldades que tivesse de abordar no maior número possível de parcelas que fossem necessárias para melhor as resolver.
O terceiro, conduzir por ordem os meus pensamentos, começando pelos objectos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir pouco a pouco, gradualmente, até ao conhecimento dos mais compostos; e admitindo mesmo certa ordem entre aqueles que não se precedem naturalmente uns aos outros.

E o último, fazer sempre enumerações tão complexas e revisões tão gerais, que tivesse a certeza de nada omitir.
René Descartes, in “Discurso do Método”

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JORGE DE SENA – Génesis

jorge de sena genesis

Jorge de Sena (Lisboa, Portugal, 1919 – Santa Bárbara, Califórnia, EUA, 1978).

Palavras de Jorge de Sena:

“Esta é a ditosa pátria minha amada. Não. Não é ditosa, porque o não merece. Nem minha amada, porque é só madrasta. Nem pátria minha, porque eu não mereço a pouca sorte de ter nascido nela.” (…)

                         Génesis

De mim não falo mais: não quero nada.
De Deus não falo: não tem outro abrigo.
Não falarei também do mundo antigo,
pois nasce e morre em cada madrugada.

Nem de existir, que é a vida atraiçoada,
para sentir o tempo andar comigo;
nem de viver, que é liberdade errada,
e foge todo o Amor quando o persigo.

Por mais justiça…- Ai quantos que eram novos
em vão a esperaram porque nunca a viram!
E a eternidade…Ó transfusão dos povos!

Não há verdade: o mundo não a esconde.
Tudo se vê: só se não sabe aonde.
Mortais ou imortais, todos mentiram.

Jorge de Sena, in “Coroa da Terra”

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PRÉMIO CAMÕES – 1989 – MIGUEL TORGA

miguel torga desenho

O Prémio Camões é o maior galardão literário dedicado à Literatura em Língua Portuguesa.

Foi instituído em 1988, pelo Protocolo Adicional ao Acordo Cultural entre os Governos da República Portuguesa e da República Federativa do Brasil.

O Prémio Camões é atribuído, anualmente, a um autor de Portugal, do Brasil e dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, pelo conjunto da sua obra e pelo contributo prestado ao enriquecimento do património literário e cultural do universo lusófono.

Miguel Torga (1907-1995) foi o primeiro autor galardoado com o Prémio Camões.

Palavras de Miguel Torga: “A desgraça dos verdadeiros poetas de Portugal, é que cada livro seu tem de ser desenterrado de uma avalanche diária de pseudo-poesia.”

                           

                        Camões

Nem tenho versos, cedro desmedido,
Da pequena floresta portuguesa!
Nem tenho versos, de tão comovido
Que fico a olhar de longe tal grandeza.

Quem te pode cantar, depois do Canto
Que deste à pátria, que to não merece?
O sol da inspiração que acendo e que levanto,
Chega aos teus pés e como que arrefece.

Chamar-te génio é justo, mas é pouco.
Chamar-te herói, é dar-te um só poder.
Poeta de um império que era louco,
Foste louco a cantar e louco a combater.

Sirva, pois, de poema este respeito
Que te devo e professo,
Única nau do sonho insatisfeito
Que não teve regresso!

Miguel Torga, in “Poemas Ibéricos”.

Imagem: desenho de Marco Moura

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AL BERTO – Mais Nada se Move em Cima do Papel

AL BERTO  -MAIS NADA SE MOVE EM CIMA

Al Berto (Coimbra, Portugal, 1948 – Lisboa, Portugal, 1997)

Palavras de Al Berto:
“A eternidade não é lerem-me dentro de 50 ou 60 anos ou ficar na história da literatura portuguesa. Só espero que meia dúzia de doidos me leiam agora e isso os toque.”

Mais Nada se Move em Cima do Papel

mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo

os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta ânfora alucinada

desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração

Al Berto, in “O Medo”

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POEMAS SÃO COMO VITRAIS PINTADOS

JOHANN GOETHE - POEMAS SAO COMO VITRAIS

Poemas são como vitrais pintados

Poemas são como vitrais pintados!
Se olharmos da praça para a igreja,
Tudo é escuro e sombrio;
E é assim que o Senhor Burguês os vê.
Ficará agastado? — Que lhe preste!…
E agastado fique toda a vida!

Mas — vamos! — vinde vós cá para dentro,
Saudai a sagrada capela!
De repente tudo é claro de cores:
Súbito brilham histórias e ornatos;
Sente-se um presságio neste esplendor nobre;
Isto, sim, que é pra vós, filhos de Deus!
Edificai-vos, regalai os olhos!

Johann Goethe, in “Poemas”
Tradução de Paulo Quintela

Imagem: Vitrais da Catedral medieval de Chartres, situada na região do Vale de Loire, em França.

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Deus…também É assim!

                         

                                          Deus… também É assim!

                                                                                                                               Macedo Teixeira

— Ora, ora, ninguém me tira da ideia que isto de Deus foi tudo uma invenção. O povo, para poder resistir à vida, precisa de acreditar em alguma coisa, e alguém inventou a existência de algo superior para o homem se poder iludir.

— Que está a dizer, senhor Pedro?! Então o senhor também acredita que alguém pode inventar fantasias e que estas se mantenham para sempre?!

— É como lhe digo, amigo João: quando a gente lê a História, vê que os deuses foram inventados pelos homens, dava-lhes prazer identificarem-se com algo superior e assim justificavam todo o tipo de atrocidades e glórias, que mais não eram do que fantasias para as suas vaidades.

— Não é bem assim, senhor Pedro: olhe que mesmo esses tinham temor pelas tempestades, secas, doenças, e por isso imitavam os deuses na honra, mas também na beleza, na justiça e até nas guerras e na morte os invocavam para triunfarem na terra e para no fim das suas vidas serem conduzidos aos Céus e libertados dos Infernos.

— Ora, ora, balelas é o que isso é! Pois não é verdade que os reis, os imperadores e os chefes das tribos se justificavam nas suas loucuras e fantasias com esses seres que inventaram; matavam, pilhavam, divertiam-se nos circos a verem os escravos a lutarem uns com os outros, quase sempre até à morte, para gáudio dessa gente que se intitulava na conformidade dessas divindades, que diziam estar escondidas nos céus?

— Bem, se pensarmos por esses maus exemplos, o senhor tem muita razão, mas mesmo assim não é verdade que no meio de todas essas loucuras havia algo que eles adoravam e a que prestavam culto, prometendo obedecer, condenando cegamente seres em sacrifício de morte como oferenda às divindades e implorando depois, por meio dos religiosos do tempo, que os deuses lhe dessem os triunfos nas guerras, as abundâncias nas colheitas, a riqueza da saúde, da força e da inteligência?

— Ó amigo João, eu já vi que consigo não adianta: o amigo é crente nessas coisas, mas eu não acredito, para mim isso são balelas, pois nós somos como qualquer animal, nascemos e vivemos conforme nos deixa a Natureza, a sociedade e o dinheiro, depois acabamos na terra comidos pelos bichinhos que antes comêramos nós.

— Não seja assim, senhor Pedro, você sabe que eu lhe tenho amor, que fico triste quando você está triste, fico feliz quando você está feliz e que ficamos saudosos quando estamos distantes, por isso acreditamos um no outro, e olhe que nós não somos deuses!

— Tem razão, amigo João, eu exaltei-me. O nosso amor é muito mais forte do que qualquer querela.

— Vê… como o senhor lá chegou?

— Como, não entendo?

— Pois, se o amor é mais forte do que nós, então isso quer dizer que há algo que nos supera, e se o amor é algo que nos supera, então Deus é amor!

— Não estou a entender a sua lógica!

— Eu explico:

Sabe? Os homens foram descobrindo e chegaram à conclusão de que esses deuses eram aceções sensíveis de um Deus Único, que, sendo Único, só pode ser Amor.

— Está a dizer-me que Ele não tem designações?!

— Isso mesmo!

— Eu explico melhor:

Não é verdade que o senhor é único, e que fica feliz quando vê os seus filhos e eles ficam durante algum tempo consigo, e, por amor, às vezes até ficam por mais tempo do que aquele que podiam?

— Sim, é verdade!

— E não fica ainda mais feliz quando, sem que eles lhe peçam, você lhes fala e os ouve nas suas aflições, para que com o seu amor, préstimos e inteligência os possa ajudar a serem mais felizes?

— Sim, é verdade, mas continuo a não entender aonde o amigo João quer chegar!

— Então se é assim, pela mesma ordem de razões, poderemos concluir que quando eles, sem motivo algum, não lhe falam nem vão a sua casa, o senhor Pedro ficará triste?!

— Sim, com certeza!

— Mas não deixa de os amar?

— Não!

— Então imagine algo mais simples:

Quando os seus filhos estão consigo e depois se retiram, mas dizem “Até logo” ou “Até amanhã”, o senhor fica contente?

— Sim!

— E se eles, além disso, o beijarem?

— Fico ainda mais contente!

— E se eles saírem e nem sequer se despedirem?

— Fico triste!

— E porquê?

— Porque os amo incondicionalmente, não posso exigir que se lembrem, mas confesso que só no seu amor me sinto um verdadeiro pai!

— E isso só será para si, ou espera que eles procedam também com amor para os outros?

— Será para mim e também para os outros; não só eu, como os meus e como os demais semelhantes!

— Pois bem, sendo assim poderemos concluir das suas palavras que o amor se manifesta na nossa sensibilidade, e não apenas em nós, mas também nos outros, e que este amor vai do mais simples para o mais complexo, e como seres únicos que somos, somos também no limite absolutos?

— É verdade!

— Então Deus… também é assim!

E já agora, na nossa modesta opinião, poderemos concluir com razão que Deus é Amor, uma vez que Ele contém todo o amor que cada um partilha com os outros e parece captar como Seu e senti-lo incondicionalmente nos seus limites, pois sendo o Amor a mesma essência para todos, este tanto se poderá assemelhar a um pequeno grão ou ao tamanho todo sem que nenhuma das grandezas perca o valor de ser uma totalidade.

— Quero acreditar no que diz, amigo João! Pelos vistos você parece ter razão! Mas sabe-se lá se Deus também será assim!

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