Fotografia: Dorothea Lange, in “Revista Bula”.
Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, Portugal, 1919 – Lisboa, Portugal, 2004) é uma das poetisas e escritoras mais importantes da Literatura Portuguesa.
Autora de uma vasta e diversificada obra que inclui poesia, conto, teatro, ensaio e histórias para crianças, notabilizou-se também na tradução de Shakespeare, Dante, Eurípedes, Claudel.
É nos quatro elementos essenciais – terra, água, ar e fogo – que Sophia procura não só a beleza poética, mas a evocação dos objectos, dos seres, dos tempos, dos mares, dos dias.
A sua obra, várias vezes premiada, está traduzida em várias línguas.
Palavras de Sophia de Mello Breyner Andresen: “As coisas que passam ficam para sempre numa história exacta.”
Pranto pelo Dia de Hoje
Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas
Sophia de Mello Breyner Andresen, in “Livro Sexto”
O 29° Salão do Livro e da Imprensa de Genebra realizar-se-á de 29 de Abril a 3 de Maio no Palexpo, route François-Peyrot 30, Le Grand-Saconnex, em Genebra, e teria o maior gosto de me encontrar com os leitores que quiserem dar-me o prazer da sua visita.
As minhas sessões de autógrafos serão nos dias 29 de Abril, às 14 horas e 2 de Maio às 12 horas, no estande A150 (Varal do Brasil). Estarei também presente nas tardes dos restantes dias do evento. Os dois novos livros infanto-juvenis que apresentarei são:
Há Festa no Céu, publicado em Portugal pela editora Sinapis
Le Ciel est en Fête, publicado em França pela editora BoD
Alguns dos meus outros livros estarão igualmente disponíveis, nomeadamente os livros em português e francês, como Era Uma Vez… Uma Casa (conto premiado no 2013 Hollywood Book Festival).

Regozijo-me antecipadamente deste (re)encontro.
O Salão do Livro e da Imprensa de Genebra é o ponto de encontro incontornável na Suíça romanda e acolhe durante cinco dias, todos os anos na Primavera, cerca de 100.000 amantes das palavras, permitindo assim o convívio de autores e leitores, editores e livreiros, assim como meios de comunicação, num agradável ambiente de partilha e descoberta.
O Varal do Brasil é um projecto cultural e literário de Jacqueline Aisenman, um poema de amor à escrita que pretende divulgar o idioma Português além das suas próprias fronteiras.
José Cardoso Pires (São João do Peso, Castelo Branco, Portugal, 1925 – Lisboa, Portugal, 1998).
Foi o autor do livro Histórias de Amor apreendido pela Censura Portuguesa em 1952.
É considerado um dos mais importantes escritores portugueses contemporâneos.
Excerto da carta de José Cardoso Pires ao Director dos Serviços de Censura:
Por ordem de V. Exa. foi o meu livro HISTÓRIAS DE AMOR proibido de circular. Por ordem, ao que creio, do Ministério do Interior e em complemento da decisão de V. Exa. sobre a citação da obra, foi encarregada da apreensão a PIDE.
A intervenção inesperada desta Polícia Especial num assunto de índole exclusivamente literária é de todo o ponto injustificada e veio dar à questão um significado que lhe é totalmente alheio, podendo, em síntese, definir-se como atitude abusiva de direito policial.
Em verdade, não vejo eu – nem a Censura, ao que parece – que em HISTÓRIAS DE AMOR se atente por qualquer forma contra a segurança do Estado. Tão-pouco me parece motivo de polícia a atitude de um escritor português que se debruça sobre aspectos reais e concretos da realidade portuguesa, condenando, por exemplo, o adultério (Week-end), a vadiagem de pior extracção (Ritual dos Pequenos Vampiros), o amor clandestino (Rapariga dos Fósforos), etc. – aspectos da realidade quotidiana que qualquer moral consequente ataca. Muito pelo contrário, entendo que tal atitude é meritória e vem em abono dos mais elementares princípios morais. Nunca, seja em que caso for, ela seria objecto de Polícia e muito menos de Polícia Especial.
Não é meu propósito fixar-me aqui em considerandos que com justiça viessem sublinhar a ilógica intromissão da PIDE no caso. Permito-me apenas trazer ao conhecimento de V. Exa. este meu necessário protesto, certo de que, como Director de um organismo destinado expressamente a tratar de direito de assuntos literários, não deixará de lhe dar a merecida atenção. Isto porque cuido que os Serviços de Censura, sob a Direcção de V. Exa., não são de modo algum instrumento activo de política sectária mas um «meio de harmonizar o trabalho dos escritores com a lei e os superiores interesses da Nação».
José Cardoso Pires, in “Histórias de Amor”
Charles Simic (1938) poeta sérvio-americano.
Palavras de Charles Simic:
“Poesia é um órfão do silêncio. As palavras nunca são completamente iguais à experiência atrás delas.”
Laranja cor de Sangue
Está tão escuro que o fim do mundo pode estar próximo.
Convenço-me que vai chover.
Os pássaros no jardim estão silenciosos.
Nada é o que parece,
Nem nós mesmos.
Na nossa rua há uma árvore tão grande
Que podemos esconder-nos todos nas suas folhas.
Nem precisaremos de roupas.
Sinto-me tão velho como uma barata, disseste.
Imagino-me passageiro de um navio-fantasma.
Agora nem um suspiro lá fora.
Se alguém abandonou uma criança no nosso patamar,
Deve estar a dormir.
Tudo está a vacilar na borda de tudo
Com um sorriso polido.
É porque há coisas neste mundo
Sem qualquer solução, disseste.
Nesse instante ouvi a laranja cor de sangue
Rebolar pela mesa e com um baque
Cair no chão rachada ao meio.
Charles Simic, in “Previsão de Tempo para Utopia e Arredores”.
Tradução: José Alberto Oliveira
Charles Simic, in “Previsão de Tempo para Utopia e Arredores”.
Tradução: José Alberto Oliveira
Pierre de Ronsard (Couture-sur-Loir,França,1524 – Saint-Cosme-en-Isle, França,1585).
Grande humanista e poeta renascentista, foi o principal representante da “La Pléiade”, grupo de poetas cujos principais modelos foram os líricos greco-romanos e italianos, que tiveram grande importância na renovação da literatura francesa.
Após as suas Odes, imitadas de Píndaro, praticou uma poesia mais pessoal nos Amores e encontrou o tom épico nos Hinos.
Palavras de Pierre de Ronsard:
“A poesia é um fogo cuja chama faz arder o espírito de quem ama.”
Soneto a Helena
Quando fores bem velha, à noite, á luz da vela
Junto ao fogo do lar, dobando o fio e fiando,
Dirás, ao recitar meus versos e pasmando:
Ronsard me celebrou no tempo em que fui bela.
E entre as servas então não ha de haver aquela
Que, já sob o labor do dia dormitando,
Se o meu nome escutar não vá logo acordando
E abençoando o esplendor que o teu nome revela.
Sob a terra eu irei, fantasma silencioso,
Entre as sombras sem fim procurando repouso:
E em tua casa irás, velhinha combalida,
Chorando o meu amor e o teu cruel desdém.
Vive sem esperar pelo dia que vem;
Colhe hoje, desde já, colhe as rosas da vida.
Pierre de Ronsard
Tradução: Guilherme de Almeida
Reinaldo Ferreira (Barcelona, Espanha, 1922 – Lourenço Marques, Moçambique, 1959).
A sua poesia enquadra-se na tendência presencista, notando-se também elementos que a ligam ao simbolismo e ao decantismo.
A colectânea dos seus poemas, publicada, postumamente, em 1960, com o título Poemas, mereceu elogios de vários poetas.
José Régio, escreveu sobre Reinaldo Ferreira: “é a revelação de um grande poeta português, uma obra que, mesmo chegando até nós fragmentada, pela sua densidade substancial e a sua beleza formal já entrou como peça de rara qualidade no tesoiro da nossa poesia.”
Uma casa portuguesa
Numa casa portuguesa fica bem
pão e vinho sobre a mesa.
Quando à porta humildemente bate alguém,
senta-se à mesa coa gente.
Fica bem essa franqueza, fica bem,
que o povo nunca a desmente.
A alegria da pobreza
está nesta grande riqueza
de dar, e ficar contente.
Quatro paredes caiadas,
um cheirinho a alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera…
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!
No conforto pobrezinho do meu lar,
há fartura de carinho.
A cortina da janela e o luar,
mais o sol que gosta dela…
Basta pouco, poucochinho pra alegrar
uma existéncia singela…
É só amor, pão e vinho
e um caldo verde, verdinho
a fumegar na tijela.
Quatro paredes caiadas,
um cheirinho a alecrim,
um cacho de uvas doiradas,
duas rosas num jardim,
um São José de azulejo
sob um sol de primavera,
uma promessa de beijos
dois braços à minha espera…
É uma casa portuguesa, com certeza!
É, com certeza, uma casa portuguesa!
Reinaldo Ferreira
Martha Medeiros (Porto Alegre, Brasil, 1961).
É poetisa, jornalista, cronista e escritora.
Trabalhou na área da publicidade como redactora e directora de criação em várias agências do sector.
A partir de 1993 dedicou-se à poesia.
Alguns dos seus livros: Divã, Fora de mim, Strip-tease, De cara lavada, Feliz por nada.
Muitas as suas obras foram adaptadas para o cinema, teatro e televisão.
Palavras de Martha Medeiros:
“Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande, é a sua sensibilidade sem tamanho.”
Puxei a manga da camisa
puxei a manga da camisa um pouco pra cima
perto do cotovelo, e abri o botão calmamente
como se fizesse isso todo dia na tua frente
não te olhei como amiga nem professora
e não liguei para a pouca idade que tinhas
eu era mais madura e você mais coerente
tinha certeza de tudo mas não se mexia
passei a mão no teu cabelo
te beijei na testa, no queixo
beijei tua nuca e tua boca
e fui a primeira mulher nua da tua vida
Martha Medeiros
Gil Vicente (Portugal, 1466-1536). Não existe informação exacta sobre os locais onde nasceu e morreu.
Foi dramaturgo, poeta, actor, encenador, músico e ourives, tendo sido um dos impulsionadores da cultura renascentista em Portugal.
A sua primeira peça, escrita em castelhano, Monólogo do Vaqueiro, data de 1502.
Escreveu 44 peças, umas em português, outras em castelhano, outras bilingues, entre autos, tragicomédias, farsas, comédias e moralidades.
Entre os autos religiosos, são mais famosos os que perfazem a trilogia das Barcas (Barca do Inferno, Barca do Purgatório, Barca da Glória), Auto da Alma, Auto de Mofina Mendes, Auto da Índia, Auto da Feira.
Luís Vicente, seu filho, editou em 1562, cinco volumes com o título: Compilaçam de todalas obras de Gil Vicente.
Marcelino Menéndez y Pelayo, (1856-1912) consagrado historiador e crítico literário espanhol escreveu sobre Gil Vicente: “é a figura mais importante dos primitivos dramaturgos peninsulares, não havendo quem o excedesse na Europa do seu tempo.”
Pois Casei Má Hora
Pois casei má hora, e nela,
e com tal marido, prima…
Comprarei cá üa gamela,
par’ò ter debaixo dela,
e um grão penedo em cima.
Porque vai-se-me às figueiras,
e come verde e maduro;
e quantas uvas penduro
jeita nas gorgomeleiras:
parece negro monturo.
Vai-se-me às ameixieiras,
antes que sejam maduras.
Ele quebra as cereijeiras,
ele vendima as parreiras,
e não sei que faz das uvas.
Ele não vai à lavrada,
ele todo o dia come,
ele toda a noite dorme,
ele não faz nunca nada,
e sempre me diz que há fome!
Jesu! Jesu! Posso-te dizer,
e jurar e tresjurar,
e provar e reprovar,
e andar e revolver,
que é milhor pera beber,
que não pera maridar.
O demo que o fez marido!
Que assi seco como é
beberá a torre da Sé:
então arma um arruído
assi debaixo do pé!…
Gil Vicente, in “Auto da Feira”
Eliseo Diego (Havana, Cuba,1920 – Cidade do México, México, 1994).
Foi escritor, poeta, ensaísta e tradutor.
Na década de 1950, fez parte do influente grupo literário chamado “Origens”, que publicou uma revista do mesmo nome, na qual Eliseo Diego divulgou a sua poesia e alguma prosa.
Traduziu os mais importantes autores de literatura infantil.
Palavras de Eliseo Diego: “Um dos grandes enigmas do universo é o sofrimento. O mal e o sofrimento dos inocentes.”
Testamento
Tendo chegado o tempo em que
a penumbra já não me consola mais
e reduzem meus presságios pequenos;
tendo chegado este tempo;
e como a borra do café
abre de repente agora para mim suas redondas bocas amargas;
tendo chegado este tempo;
e perdida já toda esperança de alguma merecida ascensão, de ver o mar sereno da sombra;
e não possuindo mais do que este tempo; não possuindo mais, enfim,
que minha memória das noites e sua vibrante delicadeza enorme;
não possuindo nada mais
entre céu e terra do que
minha memória, do que este tempo; decido fazer meu testamento.
É este: deixo-lhes
o tempo, todo o tempo.
Eliseo Diego, in “Os dias da tua vida”.
Tradução: Luizete Guimarães Barros.