A caça às bruxas – Crónicas da Brilha

Às vezes assalta-me um sentimento de inquietação súbito e sem porquê. Não sei de onde vem, não é trazido pela mão de algum pensamento mais profundo. Assalta-me e pronto.
Em que é que se deve acreditar verdadeiramente hoje em dia?
Em Deus? Nos Homens? Em nós mesmos?
Por que é que se deve lutar hoje em dia?
Para ter um carro? Uma casa? Conforto, formação ou satisfação pessoal?
É difícil esta dualidade entre bens materiais e o alimento do espírito. É certo que nem só de pão vive o Homem, mas onde reside a verdadeira felicidade que tantos lutamos por alcançar? Mais, o que é essa ideal felicidade?
Não tenho respostas, aliás, não tenho tão-pouco uma resposta. Somos seres complexos, queremos e descremos com a mesma facilidade com que se arranca uma flor bravia.
Hoje, no limiar de ter atingido tudo por quanto lutei durante toda uma vida, não sei o motivo de toda esta luta, diria, esta ânsia de chegar lá – seja lá onde quer que isso seja!
Chega a um ponto na vida, realizados de tudo, deixamos substituir os sonhos, as canções, o “um dia”, por olhar para as nossas mãos e perguntar porquê, o porquê de tudo isto.
Houve tempos em que se acreditava e vivia para deus, por um amor, pela liberdade de expressão ou pelo pão da boca, mas tudo isto parece hoje muito distante. Acorda-se de manhã porque o despertador toca, mas somos vazios de verdadeiras convicções, de verdadeira luta para fazer algo mais com as nossas vidas do que ser apenas normal.
Será que se deixou de acreditar?
Será que somos inundados por tantos estímulos que temos a vontade e o espírito embotados e passivos?
Não creio no egocentrismo que nos define. Deve haver algo mais que faça tudo o resto valer a pena, seja qual for o seu nome ou o seu símbolo.
Esta inquietação em mim que não tem nome, é a semente que alguém plantou há quase 20 anos, a semente de nunca me conformar, de querer sempre mais da vida do que um simples passeio entre estações sem sentir verdadeiramente a paisagem.
Se alguém souber a resposta a este meu desassossego que mo mande dizer, porque mesmo o escrever já não basta para encontrar o que os nossos antepassados não puderam transmitir-nos, o segredo de estar no instante, de ser inteiro.
É por isso que lembro, nestes dias, com mais apego, a feiticeira cotovia que do alto do seu palanque nos gritava que seria como uma chama a consumir-nos, geração após geração, enchendo-nos desta vontade de sermos grandes, maiores que a vida, de deixarmos o nosso nome impresso nos livros da memória dos Homens, por termos sido mais, por ter valido a pena.
Que não acredito em bruxas, é verdade, mas lá diz o ditado, que as há, há!
 
Ana Brilha
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Nota | Esta entrada foi publicada em Opiniões, testemunhos. ligação permanente.

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