Portugal continua a jeito hoje, como sempre…

Portugal continua a jeito hoje, como sempre…

Recordo-me quando, nos tempos de técnico incorporado nas Brigadas para Apoio Técnico às Autarquias Locais, sediada então na Junta Distrital de Beja, fui destacado com mais dois colegas, para auxiliar o director da Direcção de Hidráulica de Beja, ao tempo a funcionar no Governo Civil da cidade, a localizar e actualizar um projecto de saneamento básico destinado a uma das terras do concelho.

O grupo de profissionais que faziam funcionar a Direcção de Hidráulica, era constituído pelo engenheiro director, cinco ou seis dactilografas, (o numero exacto já se me varreu da memória), e, salvo erro, três guarda-rios; não existia arquivista, pelo que os projectos estavam pelo chão do amplo gabinete do director, atados em molhos.

O engenheiro não se deslocava a fiscalizar as várias obras de hidráulica em curso pelo Distrito, que na sua dimensão geográfica, tem maior área do que o distrito em si, porque, não tendo carro de serviço distribuído, deslocava-se em carro próprio, mas o pagamento dos quilómetros estava em falta para mais de três anos, os guarda-rios não guardavam os rios, pela simples razão de o único jipe de serviço se encontrar para mais de um ano avariado, e não existir verba para a reparação, e as cinco dactilografas, como o serviço não era suficiente para ocupar uma a cem por cento, passavam o tempo em intrincados e elaborados trabalhos de rendas, talvez para aumentarem um pouco o seu parco pecúlio mensal…

Esta, pois, a sábia organização que vigorava por todo o País, e de um modo, ou grau, maior ou menor, se multiplicava pelas restantes Direcções dos Serviços Públicos, Governos Civis, ou Câmaras Municipais.

Esta, a terra governada pouco pela duvidosa inteligência dos ministros, e muito pelo esforço dos terceiros oficiais das Repartições Públicas.

Se a anarquia significasse progresso, eu seria forçado a dizer que, o Portugal de então estaria muitas décadas avançado em relação ao resto do mundo. Mas como a anarquia não é mais do que o erro que resulta da falta de método, ou critérios, ou seja do que for, eu digo antes que fico perplexo, sempre que me questiono quanto ao País que fomos e ainda conseguimos ser.

Assim, o tempo foi passando. Hoje, a situação é substantivamente diferente; pelo simples passar dos anos as coisas mudam, ainda que nada de importante se faça ou se altere. É a evolução natural das coisas. Mas, será que mudaram tanto assim? Esta a questão pertinente. Posso, modestamente, dar apenas a minha insignificante opinião. Penso que, para mal dos pecados dos “pequenos políticos” que mais me parecem uma continuação dos de antes, as coisas não se alteraram assim, tão substantivamente quanto possa parecer.

Na minha perspectiva, a “estratégia” gizada pelos governos, (antes socialista, hoje social democrata, coadjuvado pelos centristas), assenta essencialmente num constante “enxotar as moscas” para fora da casa. E quem são essas moscas? São exactamente as dactilógrafas, os guarda-rios, os engenheiros responsáveis pelo funcionamento dos departamentos, das secções, ou seja, pessoas cujo único crime foi, em dada altura da vida, aceitarem um trabalho que calhou ser no Estado.

Herdamos, portanto, um Estado construído a partir das “cunhas” de umas tantas pessoas importantes, (pelo menos na aparência dos títulos pomposos), que resulta num caos sem nexo, onde ninguém consegue medrar pela competência, pela simples e única razão de fazer o que lhe parece que está certo, ou então aquilo que um chefe que foi promovido em consequência dos anos de modorra atrás de uma secretária, os manda fazer.

Incompetência das pessoas? Não me parece que a anarquia seja propícia a permitir que os competentes sobressaiam, e que os incompetentes se ofusquem; é que, em anarquia, pura e simplesmente não existe competência!

O governo anterior, de duvidosa origem socialista, (a meu ver o socialismo há muito que está defunto, bem enterrado sete palmos de terra abaixo de nós), perseguiu os professores; não os protegeu dos maus alunos, porque esses sim, têm direitos humanos; simplesmente os desclassificou, humilhou e calcou aos pés. Objectivo: a economia de uns cobres, a redução dos custos.

O governo de hoje, também ele portador de uma filosofia que simplesmente já não existe à face da terra, esmera-se na prática da crueldade, tornando-a extensiva a toda a sociedade. Subtraí subsídios. Congela salários e reformas. Paralisa o País. Impede as pessoas, sem ter limites ou decência, de minimamente alcançarem uma felicidade, por minúscula e inexpressiva que seja. Serve-se do nome da chamada Troika para defraudar os direitos constitucionais das pessoas, para financiar as suas parcerias públicas – privadas, que são o sangrar cada vez mais acelerado desta terra. E sempre que a raiva transparece na indignação justa da sociedade civil, logo surgem duas ou três pessoas bem-falantes nos televisores com uma conversa mole, dessa do estilo de adormecer criancinhas à noite. E isso, meus senhores, é prática que se deve denunciar!

Há dias, num programa televisivo, um senhor bem conhecido disse que a esquerda parece, (ou lhe parece a ele), um intrincado trabalho de ourivesaria. Dias depois, uma senhora também bem conhecida de todos nós, falando da reorganização dos serviços de saúde, disse que os portugueses não compreendem que os bons e eficientes serviços de saúde não estejam à dita mão de semear, ou seja, a bem dizer por ali, ao sair da porta de casa, ou ao virar da esquina.

Ao primeiro senhor, (e não sendo eu mandatado por qualquer partido de esquerda), me apraz dizer-lhe apenas o que penso, ou seja, que os três partidos que estão situados à esquerda na nossa Assembleia da Republica, ou seja: os Verdes, os bloquistas e os Comunistas, aceitaram as regras da Democracia, e isso porque são efectivamente organizações democráticas; mas isso não os obriga a qualquer tipo de colaboração ou aceitação das práticas e métodos utilizados pelos partidos da ala direita, ou seja: socialista, social-democrata e centrista. É que os ideais são muito diferentes, sobre todos os pontos de vista. De um lado, a Humanidade e o Homem são, digamos, o centro de tudo porque vale a pena lutar; do outro, é o vil metal sonante quem salva o Homem e a Humanidade, e portanto, se lhe sobrepõe em importância.

Quanto à senhora doutora, é simples esclarece-la: nós, os portugueses, ficamos desnorteados, quanto às questões da saúde, sempre que o socorro está a dezenas de quilómetros de distância, simplesmente porque sabemos que o mau pagador que se chama governo, (para não dizer o caloteiro do governo), ao não liquidar o que deve aos bombeiros, impede o País de dispor de uma razoável rede de serviços de urgência que permita fazer o melhor pela vida humana, que pode bem calhar ser a de qualquer um dos cidadãos…

José Solá

 

 

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Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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