Comentário televisivo (já em tempo publicado no meu site)

Como subtítulo, talvez, PORTUGAL E A CULTURA NO SÉCULO XXI
É raro me dispor a um serão de televisão. Só quando, por informação antecipada, a programação me agrada. Mas, às vezes lá calha. Há uns tempos atrás calhou. Liguei o aparelho e fui correndo os canais, na vã tentativa da descoberta de um programa que desperta-se essa gula de saber cada vez mais, e é quando dou por mim a ver o canal MOV, e fico preso ao televisor pelo inédito que os meus olhos transmitiam para os neurónios do meu cérebro. Sobre uma cama majestosa, dois homens. Bom, até aqui nada de especial, dirá quem estiver a ler estas modestas linhas, só que os ditos homens, (um de idade madura, o outro um jovenzito ainda com modestos pelos no rosto), estavam em pelota, nus, sem roupa, nem umas cuequitas que fosse, dessas a que os modernos dão o nome de fio dental. Nada. Um nu apropriado a modelo de pintor, desses que estão desesperados para pintar um simples e modesto nu, seja senhora ou cavalheiro. Mas, ficando mais atento, (estas cenas aguçam sempre a necessidade de ver mais, por um lado, um sentimento de repudio, por outro, um de morbidez), tomei consciência que os homens tinham uns enormes dentes caninos. Vampiros! Pensei. E nisto, o homem com mais idade, que estava deitado ao lado do jovem, de barriga para baixo, enquanto o seu companheiro estava de barriga para cima, (nestas cenas as posições tem importância relevante), deu uma ordem peremptória ao jovem. Disse: Vira-te! Alto. Paremos o filme, (como se tal fosse possível), só para um comentário de estrita natureza cultural. Até aquela cena eu já tinha acumulado vários conhecimentos novos, de alguma relevância, a saber, primeiro, os vampiros também andam por aí durante o dia, o que é razão para cautelas redobradas da parte de todos nós, por outro, e porque aquele Vira-te! Me aguçou a perspicácia, subentendi, e bem, como adiante se verá, que entre os Vampiros a homossexualidade é uma realidade. Coisa nova para mim. É que nos filmes da especialidade, o Vampiro é sempre um machão que, por portas e travessas, consegue sempre endrominar a pobre menina prendada e indefesa, para além de pura e ingénua. Voltemos ao filme, Que recomece a rodagem da fita. O rosto do jovem enche todo o ecrã. Um rosto onde se lê a antevisão de prazeres infinitos. Volta-se. O mais velho cobre-o com o seu corpo. É certo que não se vê os sexos de qualquer deles. Mas subentendesse. E então, num rompante de malvadez, o vampiro de cima morde desalmadamente, no pescoço, como é hábito antigo dos vampiros, (nisso, pelo menos, temos de os considerar conservadores), o vampiro de baixo, e este morre, desfazendo-se em muitas e belas estrelinhas doiradas que sobem ao céu.
Fiquei atónito. Inteirei-me mais tarde e fiquei a saber que as cenas pertencem a uma série de episódios que se chama “Sangue Fresco”.
Estranho este silêncio da moralidade Lusa, que se insurgiu contra a telenovela “Chuva na Areia”, da autoria do saudoso Stau Monteiro, que nos tentava retratar, a nós, portugueses, tal como na verdade somos, com as nossas fraquezas e as nossas virtudes, e permite que, nos tempos que correm, em horário nobre, os dignos decisores que seleccionam os programas das várias grelhas televisivas, de maneira impune, prepotente, a pensar em audiências obtidas a qualquer preço, nos atirem com estes bafos de não cultura para os olhos, a chafurdar os cérebros dos adultos e dos pequenos, com uma impunidade só possível em sistemas onde o deus dinheiro prevalece sobre todos os princípios. Que frágil que é esta nossa democracia em que os deputados não são capazes de parar cinco escassos minutos, para, olhando em seu redor, se inteirarem do mundo que se está a construir?

José Solá

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Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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