QUE SABEMOS SOBRE A VIDA?

“A vida já é curta, mas nós tornamo-la ainda mais curta, desperdiçando tempo”.

Victor Hugo

“A vida é uma criança que é preciso embalar até que adormeça”

Voltaire

“A vida é o pânico num teatro sem chamas”.

Jean-Paul Sartre

“Os homens dizem que a vida é curta, e eu vejo que eles se esforçam para a tornar assim”.

Jean Jacques Rousseau

“Viver é envelhecer, nada mais.”

 Simone de Beauvoir

“Antes, a questão era descobrir se a vida precisava de ter algum significado para ser vivida. Agora, ao contrário, ficou evidente que ela será vivida melhor se não tiver significado”.

Albert Camus

“A vida dá lições que só se dão uma vez”.

Winston Churchill

“O que viveu mais não é aquele que viveu até uma idade avançada, mas aquele que mais sentiu na vida”.

Jean Jacques Rousseau

“Muitas pessoas estragam a vida com a imaginação da infelicidade que as ameaça”.

André Maurois

“A vida é como uma sala de espectáculos; entra-se, vê-se e sai-se”

Pitágoras

“Somos feitos de carne, mas temos de viver como se fôssemos de ferro.”

 Sigmund Freud

“Quem não estima a vida não a merece”.

Leonardo da Vinci

“A vida é a hesitação entre uma exclamação e uma interrogação. Na dúvida, há um ponto final”.

 Fernando Pessoa

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PARABÉNS, ADOLFO CASAIS MONTEIRO !

Adolfo Casais Monteiro nasceu no Porto no dia 4 de Julho de 1908 e viveu até 24 de Julho de 1972.

Foi poeta, crítico literário, novelista, tradutor, editor e professor.

Nesta homenagem no dia do seu aniversário, o poema:

Ode ao Tejo e à Memória de Álvaro de Campos

E aqui estou eu,
ausente diante desta mesa –
e ali fora o Tejo.
Entrei sem lhe dar um só olhar.

Passei, e não me lembrei de voltar a cabeça,
e saudá-lo deste canto da praça:
“Olá, Tejo! Aqui estou eu outra vez!”
Não, não olhei.
Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado
me lembrei que estavas aí, Tejo.
Passei e não te vi.
Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!

Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa em que Fernando
Pessoa se sentava,
contigo e os outros invisíveis à sua volta,
inventando vidas que não queria ter.
Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.

Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo,
tudo indiferença e falta de resposta.
Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória,
e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados,
Tejo que não és da minha infância,
mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável,
majestade sem par nos monumentos dos homens,
imagem muito minha do eterno,
porque és real e tens forma, vida, ímpeto,
porque tens vida, sobretudo,
meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado…
Eu que me esqueci de te olhar!

 

 

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Sou de mar e vento feito…

Sou de mar e vento feito
linho bordado em vela solta
nasci naquela nau feita de céu
onde os dias eram noites
e o meu rosto não tinha nome
naquele abraço descalço
numa tela sem memória
renasço das cinzas perdidas
e pinto-as de poemas cantados

José Guerra (2012)

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AQUILO EM QUE SE TEM MAIS VAIDADE É O CORPO

“Aquilo em que se tem mais vaidade é o corpo. Mesmo que aleijado, há sempre um pormenor que nos envaidece. Compô-lo. Arranjá-lo. O careca puxa o cabelo desde o cachaço ou do olho do cú para tapar a degradação. O marreco faz peito. O espelho é para todos o grande dialogante. Passa-se a uma vitrina e olha-se de soslaio a ver como se vai. Uma mulher perfeita (e um homem) não inveja o intelectual, o artista. O inverso é que é. Muitas mulheres (e homens) cultivam a excepcionalidade do seu espírito ou engenho por complexo ou vingança. Quando se não tem já vaidade no corpo, está-se no fim. Mas mesmo num leito de morte nos queremos “compostos”. “Não me descomponhas” — disse a marquesa de Távora ao carrasco, uns momentos antes de ser decapitada. Tomam-se providências para como se há-de ir no caixão. A degradação do corpo é a última coisa que se aceita. Hoje lavei o carro e vesti um calção para me não molhar. Dei uma vista de olhos ao espelho. Grumos, tumefacções pelas pernas. Não gostei. Não muito tempo. Lembrou-me um certo professor. Tinha a bossa da oratória. E então contava: escrevia um discurso e lia. Parecia-lhe péssimo. Lia outra vez e outra. E a certa altura, sem emendar nunca uma vírgula, já lhe não parecia tão mau. A realeza em nós é um inatismo. Como no Menon de Sócrates, o que há é que descobri-la.

Vergílio Ferreira, in “Conta-Corrente 1”.

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“DOBRADA À MODA DO PORTO”

 

           

          DOBRADA À MODA DO PORTO

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram-me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram-se comigo.
Nunca se pode ter razão, nem num restaurante.
Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta,
E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo…

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele.
E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram-mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

Álvaro de Campos, in “Poemas”
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

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“A HIPOCRISIA DO AMOR AO POVO”.

“Estes amam o povo, mas não desejariam, por interesse do próprio amor, que saísse do passo em que se encontra; deleitam-se com a ingenuidade da arte popular, com o imperfeito pensamento, as superstições e as lendas; vêem-se generosos e sensíveis quando se debruçam sobre a classe inferior e traduzem, na linguagem adamada, o que dela julgam perceber; é muito interessante o animal que examinam, mas que não tente o animal libertar-se da sua condição; estragaria todo o quadro, toda a equilibrada posição; em nome da estética e de tudo o resto convém que se mantenha.

Há também os que adoram o povo e combatem por ele mas pouco mais o julgam do que um meio; a meta a atingir é o domínio do mesmo povo por que parecem sacrificar-se; bate-lhes no peito um coração de altos senhores; se vieram parar a este lado da batalha foi porque os acidentes os repeliram das trincheiras opostas ou aqui viram maneira mais segura de satisfazer o vão desejo de mandar; nestes não encontraremos a frase preciosa, a afectada sensibilidade, o retoque literário; preferem o estilo de barricada; mas, como nos outros, é o som do oco tambor retórico o último que se ouve.
Só um grupo reduzido defende o povo e o deseja elevar sem ter por ele nenhuma espécie de paixão; em primeiro lugar, porque logo reprimiriam dentro em si todo o movimento que percebessem nascido de impulsos sentimentais; em segundo lugar, porque tal atitude os impediria de ver as soluções claras e justas que acima de tudo procuram alcançar; e, finalmente, porque lhes é impossível permanecer em êxtase diante do que é culturalmente pobre, artisticamente grosseiro, eivado dos muitos defeitos que trazem consigo a dependência e a miséria em que sempre o têm colocado os que mais o cantam, o admiram e o protegem.
Interessa-nos o povo porque nele se apresenta um feixe de problemas que solicitam a inteligência e a vontade; um problema de justiça económica, um problema de justiça política, um problema de equilíbrio social, um problema de ascensão à cultura, e de ascensão o mais rápida possível da massa enorme até hoje tão abandonada e desprezada; logo que eles se resolvam terminarão cuidados e interesses; como se apaga o cálculo que serviu para revelar um valor; temos por ideal construir e firmar o reino do bem; se houve benefício para o povo, só veio por acréscimo; não é essa, de modo algum, a nossa última tenção”.

Agostinho da Silva, in “Considerações”.

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PARABÉNS, MARIA VELHO DA COSTA !

Maria Velho da Costa nasceu em Lisboa no dia 26 de Junho de 1938.

É ficcionista, ensaísta e dramaturga.

É licenciada em Filologia Germânica pela Universidade de Lisboa. Tem o curso de Grupo-Análise da Sociedade Portuguesa de Neurologia e Psiquiatria.

Leccionou no ensino secundário. Foi leitora do Departamento de Português do King´s College em Londres.

Foi Adida Cultural em Cabo Verde, adjunta do Secretário de Estado da Cultura em 1979. Participou na Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses.

Dirigiu a revista literária “Loreto 13”.

Colaborou em diversos argumentos cinematográficos.

Foi Presidente da Associação Portuguesa de Escritores.

Da sua bibliografia, destacam-se, aleatoriamente: “Novas Cartas Portuguesas” (em co-autoria com Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta), “Maina Mendes”, “O Lugar Comum”, “Casas Pardas”, “Lúcialima”, “Missa in Albis”, “Dores”, “Madame”, “Irene ou o Contrato Social”, “Da Rosa Fixa”, “Corpo Verde”, “O Amante do Crato”, etc.

Recebeu as seguintes consagrações: Prémio Vergílio Ferreira, da Universidade de Évora, pelo conjunto da sua obra, que está traduzida em diversas línguas; Prémio Camões 2002; Prémio Cidade de Lisboa; Prémio D. Dinis, da Fundação da Casa de Mateus; Prémio de Ficção do PEN Clube; Prémio da Crítica da Associação Internacional dos Críticos Literários; Prémio do Conto Camilo Castelo Branco.

Nesta homenagem no dia do seu aniversário, um excerto do romance “Myra”:

“Era noite cerrada. O camionista Kleber segue pela faixa da direita. As traves de madeira estralejam por detrás da cabine. Ora se vê, ora não se vê bem o perfil hirsuto, ruivo, de Kleber. A miúda vai sentada ao seu lado com o cinto de segurança por cima da manta de que só tira uma das mãos para afagar a cabeçorra do cão aos pés. E para ter comido o hamburger que Kleber lhes comprou na estação de serviço.
Os antigos egípcios acreditavam que era um deus-cão, Anubis, que os conduzia na barca dos mortos, diz Kleber.
Eu queria que este se chamasse Tzar, mas eles não deixaram. Que era falta de respeito. Ficou César.
Vem a dar ao mesmo, Sónia. Um nome é um destino. E depois?
Não é não, senão a pessoa mudava de destino cada vez que mudasse de nome. E depois, já lhe contei, só que comecei pelo fim, quando o Senhor Kleber me apanhou na berma, toda encharcada, com o César neste estado.
Myra continuou a bela narrativa. Kleber não parecia espantado, nem incrédulo. Como se tudo na vida fosse possível.
Depois eles fizeram-me vir de lá tinha eu seis anos para eu não ficar ladra como os meus irmãos. A minha avó chorou muito. Eu vim de carrinha em carrinha. Ninguém tinha papéis, mas os que me iam trazendo tinham sempre dinheiro e onde ficar. Quando cheguei aos meus pais não os conheci. Eles também choraram muito mas eu chorava mais com saudades de casa da avó, que era muito pobre mas tinha um quintal e às vezes lá conseguia que eles lhe dessem dinheiro para comprar um ganso que ela engordava com sobras de pão seco e couves do quintal. Isto no Verão porque no Inverno passávamos muito frio a pedir na neve à porta de S. Basílio e das entradas quentes do Metro, até nos enxotarem por causa dos turistas. Escumalha russa, diziam, escumalha russa.
Santa mãe Rússia, disse o Sr. Kleber, abrandando para deixar passar uma carrinha com um carregamento de fardos de palha. Para lá cortiça, para cá palha e betoneiras. Santa mãe Mundo. O cão vai vivo?
Vai sim, agora que comeu e bebeu água da chuva. E vai quente.
E Myra afagou o que não seria mais Rambo.
Vais bem, César?
E o cão agitou a cauda.
Bom, bom, também sabia mentir.
E depois? disse o Sr. Kleber. Como foi cá? Desamarra-lhe a corrente. Há para aí um cinto, o bicho no estado em que está não precisa de levar tanto ferro no cachaço.
Tantos cuidados, pensou Myra. Se eu tiver que fugir deste, como é que faço?
E continuou com a sua narrativa mirífica pela noite e estrada dentro. Clareava. Havia plainos e sobreiros descarnados e casas caiadas, com os pés, as portas e as janelas em azulão. Casas caiadas. Já não estavam na auto-estrada mas num ramal bordejado de mimosas em flor. Pode-se ser morto e esquartejado em qualquer lugar, mas Myra, ladina, não tinha muito por onde escolher. Nem que ele lhe pedisse uma mamada e isso ela tinha aprendido a fazer.
Falta muito? perguntou Myra, no desvio do descampado deserto, agreste de árvores cinza na madrugada, rebanhos de ovelhas e bois com a cabeça descida à terra ocre, de fome, de sono.
Falta o que falta da tua história. E o Sr. Kleber sorriu.
Não tenhas medo, miúda. Em todas as histórias há sempre uma ponta do paraíso, um véu de clemência que estende uma ponta, fugaz que seja.
O Sr. Kleber é professor?
Não, mas fui bem ensinado. Não como crianças e muito menos carne de cão. Ora diz lá, que até chegarmos há tempo.
O que é uma herdade, senhor Kleber?
É aquilo que se herda, mas também se compra e vende.
É sua, a casa?
São várias casas, como cogumelos aos pés de um castanho, que é a patroa, na Casa Grande. É para lá que vais. E depois? Há quanto tempo tens o cão, Sónia?
Há cinco anos, mentiu Myra mais.”

 

                                    

 

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Na noite sinto-me

No calor da noite sinto o teu perfume,
Onde estás?
Perto de mim te sinto,
Mas não te vejo,
Onde estás?

Agora que te sinto, preciso de te ver,
Já me puseste em alerta,
Já não consigo deixar de pensar,
Já não consigo deixar de imaginar,
Onde estás?

Preciso do teu abraço, 
Do teu beijo,
Do teu amor,
Preciso de ti,
Mas onde estás?

Finalmente me apercebo,
Não te tenho comigo,
Não é o teu corpo que está presente,
É a saudade que está ardente.

Sinto a tua falta…

Beijinhos e abraços e essas coisas todas.

 

http://www.sitiodolivro.pt/pt/livro/chuva-miudinha/9789892030203/

http://www.chuva4miudinha.blogspot.pt/

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Fui passear o vento…

É tarde, já se calou a voz
O pensamento vagueia-me
O silêncio corta-me o respirar
Um de mim saiu por ai
Fui passear o vento
nesta noite de meia lua
Cheira a passado, fico tolhido
Nesta aragem sonolenta
Sinto que as estrelas conversam
De tão alto falam que nem as ouço
Mas posso-lhes tocar
porque são o meu Mar

José Guerra (2012)

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PARABÉNS, ISABEL DA NÓBREGA !

Isabel da Nóbrega nasceu em Lisboa no dia 26 de Junho de 1925.

É escritora, jornalista, tradutora e cronista. Escreveu mais de três mil crónicas para a imprensa e a rádio.

Traduziu autores ingleses e franceses.

Fez parte do grupo fundador do jornal “A Capital”. Para além deste, escreveu para o “Diário de Lisboa”, “O Primeiro de Janeiro”, “Jornal do Fundão”, “Casa e Decoração” e “Vida Mundial”.

Colaborou, na RTP, na Antena 1, Antena 2 e RDP Internacional. Nesta última apresenta o programa “O Prazer de Ler”, transmitido de segunda a sexta-feira.

Algumas das suas obras publicadas: “Os Anjos e os Homens”, “O Filho Pródigo ou O Amor Difícil”, “Viver com os outros”, “Quadratim”, “Rama, o Elefante azul”, “Cartas de Amor de Gente Famosa”, “Solo Para Gravador”, “As Magas”. Publicou antologias de Fernando Pessoa e Luís de Camões.

Fez parte da direcção da Associação Portuguesa de Escritores.

Criou o “Prémio Cidade de Lisboa” para romance.

Fundou o “Instituto de Apoio à Criança”.

Recebeu as seguintes distinções: Prémio Camilo Castelo Branco, Prémio Consagração de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores, Grande-Oficial da Ordem de Mérito. Foi condecorada com a medalha de Mérito Cultural.

Nesta homenagem a Isabel da Nóbrega no dia do seu aniversário, um excerto do livro “Viver com os Outros”:

“Aquecer a água para o Henrique tomar de manhã. Tanto copo, senhores! Mas correu tudo bem. Ainda no outro dia era o calor do quarto do hospital. Que bom poder festejar o teu regresso a casa, ao trabalho, à vida. Aqueles longos, intermináveis, dias e noites, o teu rosto suado, emaciado, interrogativo. Hoje rodeado da “equipe de choque”. É bom receber à nossa mesa, dar um jantar cozinhado por nós com alegria – oh, a alegria… Em dada altura parecias ter desistido de lutar, parecias resvalar devagarinho para o outro lado. Eu gritava-te como em sonhos, sem ouvir a voz, que não me deixasses, que não me deixasses. Agora foram-nos de novo entregues as nossas noites, os nossos dias. A água ao lume. Se me faltasses, tu que és o meu esteio, que seria de mim? E a outra angústia, que nunca sei descrever-te, ou que nunca sabes ouvir, porque brincas com ela. Onde estou, que sou eu, para onde vou? Três planos de realização, o plano pessoal, o plano social mundano e o plano social-social. Eu sinto-me humanamente realizada, mas sem uma vocação, que me defina nem uma profissão que me justifique, qual a minha contribuição no plano social? Nem todos podem intervir na vida do seu tempo, mas todos têm obrigação de contribuir. Ainda não ferve. Que seria hoje a Mariana sem o seu diploma. Está apta para assumir responsabilidades, uma carreira. Mas, coitada, quantos mal-entendidos. Mal-entendido. Malentendu. Camus. O Camus explica na peça que para evitar mal-entendidos é preciso não usar artifício. “Se o homem quiser que o reconheçam, diga simplesmente quem é”. – Isso era bom, era. Mas nunca ninguém nos reconhece. Mesmo quando dizemos quem somos. Tu próprio, Henrique…desconfiaste, descreste de um amor que se te oferecia em bloco… Ferveu. Thermos. Copo. Frasco. Colher de chá. Tudo na bandejinha. Permanente esta interrogação. Não me agarro a certezas. Estou sempre pronta a rever as minhas ideias. Mas não me integro em nenhum meio. Não lhes pertenço. Porquê? A sensação, por vezes, de me desintegrar…Oh, Henrique…”

– Pronto. A bandejinha. Afasta o candeeiro.

– Lá fora, apagaste a luz, amor?

– Apaguei.

– E fechaste o gás, meu amor?

– Sim, fechei.

-Mas há uma porta que range… Tinha de ser…

– Eu vou fechá-la, amor, eu vou já ver. – Era a porta da varanda. Abri-a de par em par. A fresca noite entrou. É noite. É Junho, amor, e estamos vivos. E não estamos sozinhos. Oh, esta alegria de não estarmos sós”.

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