..Uma alma evadida…

Hoje a noite descansou-me no olhar
Adormeceu, porque de uma lágrima
Se fez silêncio e do sonho
uma alma evadida
Nada mais me resta para além de uma vela queimada
Tacteio o vento e ouço as árvores
Despem-se num bailado tocado pela noite
Sinto-te amiúde pelo crepitar das folhas
Mas és pó e utopia, como eu
Nada que me lembre…

José Guerra (2012)

Etiquetas , , , | Deixe um comentário

Naquela mesa….

….Na quela mesa de café, voltei a ser eu, a outra partiu, foi embora com os pensamentos e deixou-me… O livro fechado nas minhas mãos, deixou de ser um estranho. Entrou em mim, e eu nele. E por instantes, reparei que o livro era dele…. Esqueceu-se dele e foi embora. Pensei. E por fim, eu fiquei no livro e nas recordações…(Sandra Araújo- Romance)

Deixe um comentário

PARABÉNS, MÁRIO DIONÍSIO !

Mário Dionísio nasceu em Lisboa no dia 16 de Julho de 1916 e viveu até 17 de Novembro de 1993.

Foi escritor, poeta, ensaísta, romancista, crítico de arte, tradutor, professor e pintor.

Nesta homenagem no dia do seu aniversário, o poema:

               Memória dum Pintor Desconhecido

Os presos contam os dias
eu as horas
nesta prisão maior onde um olhar ficou boiando
e uma voz um som de passos perseguidos
na sombra perseguindo a segurança
fugidia

Na cidade que amo e a sós comigo
é talvez só futuro ou já saudade
com alma bem nascida entre o fragor de máquinas, cimento e energia
atômica indefeso entre irmãos de cárcere demando
a voz que foge os irmãos que não vejo
o brando olhar que guarda o meu desejo
e só consigo
ver o gomoso arrastar das horas e das horas
tantas horas
à baioneta marcadas por uma sentinela
aos quatro cantos da janela
gradeada
do dia-
a-dia onde não há
mais nada

Que nada são os dias e os anos
para um tão grande amor que vou pintando
com o próprio sangue os meus e teus enganos
que há de nascer que há de florir que há de
e há de e há de
quando?   

 

Deixe um comentário

PARABÉNS, ANTÓNIO QUADROS !

António Quadros nasceu em Lisboa no dia 14 de Julho de 1923 e viveu até 21 de Março de 1993.

 Foi escritor, professor universitário, filósofo, poeta e tradutor.

 Nesta homenagem no dia do seu aniversário, um excerto do Livro “Fernando Pessoa – Vida, Personalidade e Génio”:

 (…) “Podemos observar, na obra de Fernando Pessoa, três modos de aproximação daquele Mistério ou daquela realidade oculta que foi sempre uma presença, um desafio e uma atracção irresistível ao longo de toda a sua vida.

 O primeiro é, por assim dizer, gnósico; corresponde às capacidades apreensoras do seu ser, organum sensível, que pela imaginação, pela intuição, pelo sonho, pela mediunidade, pela reminiscência anamnésica, pela permeabilidade ao inconsciente colectivo ou arcaico, ou ainda por iluminações, inspirações ou contactos de ordem mística, terá tido experiências de apercepção e de visão supranormal.

 Este modo de conhecimento gnósico e de atavismo gnóstico, indissociável dos restantes porque está na sua origem e constitui o seu mais substancial alimento, é decerto contestado pela crítica numa sociedade como a nossa, fundamentando aliás      facilmente a sua refutação na própria psicologia e estética de fingimento que o poeta noutros níveis reivindicou e afirmou.

Estamos convictos, porém, de que, se Pessoa foi um simulador, não foi nunca, contudo, um insincero ou um mentiroso. (…)

(…) Pessoa foi um poeta esotérico, mas jamais um poeta insincero. Nele a simulação, os heterónimos, os versos cifrados formam um sistema, onde nada é aleatório. (…)

(…) O segundo modo de aproximação do oculto é, digamos, sófico, constituindo-se como uma revelação metafísica e a posteriori, apoiada na cultura erudita. (…)

 (…) Quanto ao terceiro modo, será o iniciático, onde de algum modo o poeta se desindividualiza, para assumir o saber tradicional de determinadas sociedades secretas, que se reclamam de origens históricas muito antigas.

 É duvidoso que Pessoa tenha chegado a pertencer militantemente a uma sociedade maçónica, muito embora como se sabe as tenha defendido pública e polemicamente”. (…)

 

Deixe um comentário

FERNANDO PESSOA – ” Pia, Pia, Pia “

Pia, Pia, Pia

Pia, pia, pia
O mocho.

Que pertencia
A um coxo.

Zangou-se o coxo
Um dia
E meteu o mocho
Na pia, pia, pia…

Fernando Pessoa

1 Comentário

PARABÉNS, MARIA ISABEL BARRENO !

Maria Isabel Barreno nasceu em Lisboa no dia 10 de Julho de 1939.

      Romancista, tradutora, ensaísta, novelista, contista, jornalista e artista plástica, pertenceu ao Movimento Feminista de Portugal do qual faziam parte Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa.

     Nesta homenagem no dia do seu aniversário, um excerto do livro “ Célia e Celina”:

(…) Era uma vez uma menina. Vivia com os pais, numa bela casa, junto a uma grande cidade. A casa ficava numa colina, e daí via-se a cidade toda. Atrás da colina começava uma enorme floresta. A menina ia passear à cidade, ia ao mercado, ia à escola. E passeava também na floresta. Gostava muito de andar sozinha no meio das árvores das flores e dos animais. Conversava com eles. Um dia, viu uma fada. A fada não lhe disse nada, olhou-a e sorriu. A menina também não disse nada, não ficou admirada nem fez perguntas. Ela sabia que existiam fadas, embora ninguém falasse nisso. Naquela terra as pessoas não falavam nas coisas mais importantes, porque essas as coisas que existiam mesmo, e falando nessas coisas eles podiam sumir: ficariam escondidas debaixo das palavras, esquecidas.

        A menina ficou olhando a fada, e ficou feliz, completamente feliz. Sentiu que a visão da fada seria sempre um sol na sua vida.

        O pai da menina era um comerciante abastado, e viajava muito por causa dos seus negócios. Não era muito rico, mas ganhava bastante dinheiro, e todos viviam bem naquela casa.

        Um dia em que o pai da menina deveria voltar de uma das suas viagens, não voltou. A mãe e a menina esperaram-no toda a noite e ele não apareceu. No dia seguinte soube-se na cidade que andava um bando de salteadores atacando quem passava na estrada – na estrada por onde deveria ter regressado o pai da menina. (…)

Deixe um comentário

Globalização, Europa e… fantasia.

Globalização, Europa e… fantasia.

 

Eis aqui, quase cume da cabeça

                                              de Europa toda, o reino lusitano

                                              onde a terra se acaba e o mar começa

 

 

Parado, de olhar medroso, o Homem Sem Nome olha o topo das colinas onde ainda existe o desconhecido. Na sua esquerda as águas turbulentas de um rio largo, espartilhado entre praias que se situam nas margens planas, onde árvores dispersas se perdem na distância, a caminho das terras altas das colinas.

Na sua direita, um povoado, protegido por toscas cercas feitas de ramos entrelaçados, atados com tiras de peles de animais.

Dentro do cercado, habitações circulares feitas de materiais que abundam na natureza, pedras toscas sobrepostas, protegidas com coberturas de colmo; mulheres, crianças, animais de porte médio.

Na distância movem-se em bando animais pequenos, de caudas caídas e corpos cobertos de pelagem grossa e suja, olhos frios; são lobos que tacitamente se foram aliando aos homens; de um lado uns restos de comida, do outro, os uivos que alertam do perigo iminente. Uns quantos, (poucos) estão com os homens. São crias que perderam as progenitoras e foram amamentadas por mulheres que perderam os filhos. A mão da sábia natureza que é mãe de todos os seres das muitas espécies que criou.

Faz frio. O Homem Sem Nome aconchega-se nas peles que o protegem. Nada sabe de nomes de terras, de continentes. Muito menos de poetas e de Pátrias. E, se de nomes não entende, nem de continentes, nem de poetas e, muito menos de Pátrias, e se ele é o Homem, (o que ainda ignora), então é porque nada mais para além dele existe. Descobriu o conforto do fogo, saiu da protecção das cavernas, aprendeu a caçar, a construir casebres, descobriu que verte lágrimas quando sofre, mas ainda não sabe que sofre. Ama e não sabe. Apenas percebe que gosta dos seus. Age por instinto, mas, no seu eu que é como se alguém lhe intuísse de dentro coisas que não entende, vê-se pequeno, insignificante, com medo desse desconhecido que teme, e que vislumbra para lá das colinas, nesse além que fica fora do vale e do rio. No rudimento do seu intelecto em ascensão, sente que se predestina para avançar mais e mais, mas que nada, (ou pouco), fez.

Não é assim; sem que o perceba, a sobrevivência obrigou-o a vencer o medo e a descobrir o mundo. Ele e os seus congéneres já iniciaram a grande aventura da globalização do planeta.

As migrações, (ou por razões de clima, ou porque escasseia a caça, ou porque as lutas pela posse das terras expulsam e derrotam os mais fracos, (assim como hoje sucede), obrigam o homem a um esforço colectivo. Somos o que conseguirmos fazer em conjunto, e, como colectivo, somos a força do mundo, a mais poderosa depois da Natureza.

Então o Homem, pelo simples facto de existir, (vindo não se sabe de onde, pela mão de um Deus maior ou menor, ou pela evolução das espécies), descobriu pela necessidade dois factores de primordial importância para a Humanidade: Globalizou, (ou atirou-se de cabeça na vertigem do desconhecido, como queiram), e percebeu que o colectivo é mais importante do que o individual. Para vencer a turbulência do caudal de um rio damos as mãos; pode haver percas pontuais de vidas, mas a maioria salva-se. O individuo só por si raramente se salva…

O Homem Sem Nome perde-se na voragem dos milénios. Os seus descendentes continuam a missão de dar ao mundo cada vez soluções mais amplas.

E ali, no exacto sitio onde a terra acaba e o mar começa, quando o clima aqueceu e as florestas se renovaram sobre si mesmas, pelo aço da força de querer, pelo punho erguido de uma mão cheia de homens, pela força da vontade de ser livre, porque ter casa própria com o nome de Pátria é ser gente, por tudo isso, e porque a Alma que nos enche de vida é imensa, nasceu um País.

Nasceu de parto difícil. “Não deu a volta por completo.” Diria um médico. E, numa época onde nada se sabia de anestesias, o jovem robusto foi arrancado a “ferros” ao ventre sagrado da terra mãe.

Corria o ano de 1139; a nova Pátria, (depois da conquista possível), é um rectângulo com oitocentos quilómetros na sua maior extensão, e uma largura média, digamos, de uns escassos cento e setenta quilómetros, e só a partir da tarde do dia 14 de Agosto do ano de 1385, decorridos 246 anos, é que consegue espreguiçar-se ao Sol e sonhar, recostado no seu colchão de falésias, aninhar-se no conforto macio das areias das suas muitas praias a ver o mar e a pensar: “Que raio haverá por ali?”

É um País, digamos, pouco provável, face à sua localização geográfica; de um lado uma poderosa Castela a quem acabou de dizer, pela força das armas, “Nós somos uma força de vontade inquebrável,” do outro, um mar sem fim, fascinante e, em simultâneo, tenebroso.

A terra Lusa não evolui como os países cercados por outros. A terra Lusa não tem que competir. A terra Lusa mora numa península gigante que se limita do continente por altas e poderosas montanhas, e os dois países que coabitam nessa península, (Portugal e Espanha), cultivam salamaleques como devaneios de circunstância, enquanto sorrisos de falso amor lhes iluminam os olhos. “Temos que nos entender.” – Pensam, – no sossego do seu silêncio, enquanto olham a gigantesca e imponente molhe dos Pirenéus, e cogitam: “São as grilhetas que nos prendem.”

Como Saramago diz na Jangada de Pedra, “só soltos, à deriva nas águas do Oceano, nos vamos entender… “

E o dócil Portugal, ainda catraio, fez-se de peito às águas do Mar; um vádio errante que tomou o gosto das andanças por aqui e por ali. Conquistou, venceu em batalhas e foi vencido; fez amigos e inimigos.

Assim, coisa dita pelo alto, Portugal andou pelo Norte de África e, mais para o sul, pela Guiné, pelas ilhas de Cabo Verde, por Angola, Moçambique, Madagáscar e muito mais; desbravou as terras entre as fronteiras de Angola e as de Moçambique, (o tão falado mapa cor de rosa), que nos levou à prática do regicídio, visitou as terras do preste João, China, Japão, Índia, de onde os nossos missionários terão dado um salto até ao Tibete. Um português, Fernão de Magalhães, circum-navegou o globo ao serviço de Castela; e outro, a partir dos ensinamentos dos seus mestres açorianos na arte de marear, encontrou a América do Norte.

Pelas recentes descobertas feitas na Austrália, também por lá andámos a ver as vistas, e o Canadá, a Gronelândia, pouco apetecível por falta de convenientes agasalhos.

E o Brasil! Esta minha cabeça, essa jóia rara a que, na nossa eterna mania de sonhar, chamámos Terras de Vera Cruz; nos céus brasileiros se cruzaram flechas índias com flechas nossas, entrecruzadas, sobrepostas.

E ombro com ombro, os rapazolas das naus, esses nossos mariolas, e os morenos e musculados Índios, afinados nas forças, ergueram ao alto a gigantesca cruz onde se consubstanciava a (na época), marca de todo o Ocidente…

Existe no mundo lugar onde um português não tenha botado faladora, dito as suas sentenças, e confraternizado com novos amigos? Sinceramente, penso que não! Somos apenas uns escassos dez milhões na nossa terra saloia, mas somos a sesta língua mais falada no mundo!

Mas hoje, minha gente, nestes tempos de grandes saberes, pelo esclarecimento de uma Ciência infalível, feita na medida suficiente para salvar o mundo, nós, os Gregos e os Troianos, (como é uso dizer-se), os espanhóis, os italianos, os franceses e, (porque não dize-lo), toda a Civilização Latina, Uns já, (é o nosso caso e o dos gregos), outros para breve, (segundas núpcias ainda ao lume), somos, LIXO! É isso, meus caros: LIXO!

É evidente que, para tamanho desaforo, a sapiente intelectualidade vinda da Civilização, tem utilizado alguns recatados Condes Andeiros, que, (como sucedeu em 1640), se arriscam a saltar pelas janelas para as mãos da populaça, ainda que se escondam debaixo das camas ou dentro dos armários.

Mas, e por mera curiosidade, ainda que um pouco mórbida, eu interrogo-me: “Lixo, mas de que tipo?” É que, como é do conhecimento universal, existem vários e diversos tipos de lixo: biodegradável, (o orgânico, ao que julgo, pois sou pouco entendido na matéria), também utilizável nas manifestações organizadas pelos sindicatos, e o outro, o inorgânico (não manipulável pelos perigosíssimos sindicatos), que de igual modo também circula por manifestações mas por sua própria conta e risco; e, nesta segunda hipótese, é evidente que, sendo lixo, nos podem (quando assim o entenderem), reciclar, o que, (a meu ver), é estupendo, porque mais tarde voltaremos a ver a luz do Sol, talvez na forma de pneu para automóvel…

Hoje estou agradecido ao meu intelecto, pois me sinto mais confortado. Afinal, quando o Governo da Nação gasta trinta e quatro mil milhões com os especialistas em tipos e qualidades de lixo, que dão pelo nome de Troika, o faz, só e apenas, porque pensa no nosso bem-estar!

José Solá

 

 

Deixe um comentário

“É IMPOSSÍVEL QUE O TEMPO ACTUAL NÃO SEJA O AMANHECER DOUTRA ERA”

“É impossível que o tempo actual não seja o amanhecer doutra era, onde os homens signifiquem apenas um instinto às ordens da primeira solicitação. Tudo quanto era coerência, dignidade, hombridade, respeito humano, foi-se. Os dois ou três casos pessoais que conheço do século passado, levam-me a concluir que era uma gente naturalmente cheia de limitações, mas digna, direita, capaz de repetir no fim da vida a palavra com que se comprometera no início dela. Além disso heróica nas suas dores, sofrendo-as ao mesmo tempo com a tristeza do animal e a grandeza da pessoa. Agora é esta ferocidade que se vê, esta coragem que não dá para deixar abrir um panarício ou parir um filho sem anestesia, esta tartufice, que a gente chega a perguntar que diferença haverá entre uma humanidade que é daqui, dali, de acolá, conforme a brisa, e uma colónia de bichos que sentem a humidade ou o cheiro do alimento de certo lado, e não têm mais nenhuma hesitação nem mais nenhum entrave”.

Miguel Torga, in “Diário”

1 Comentário

Pensamentos

O que não importa já foi… perdeu o seu tempo no tempo, dentro de um tempo maior…: ( Sandra Araújo)

Deixe um comentário

Pensamentos

…”Quero grandes histórias, quero o amor e o ódio; quero o mais, o demais ou o nada. Não me importa o que é de verdade ou o que é mentira, mas tem que me convencer, extrair o máximo do meu prazer e me fazer crêr que é para sempre quando eu digo convicto que “nada é para sempre.”   Gabriel García Márquez

Deixe um comentário