PARABÉNS, JOSÉ LUIS PEIXOTO !

José Luís Peixoto nasceu em Galveias no dia 4 de Setembro de 1974.

É poeta, dramaturgo e narrador.

Nesta homenagem no dia do seu aniversário, o poema:

 

                                   Amor

 

o teu rosto à minha espera, o teu rosto

a sorrir para os meus olhos, existe um

trovão de céu sobre a montanha.

as tuas mãos são finas e claras, vês-me

sorrir, brisas incendeiam o mundo,

respiro a luz sobre as folhas da olaia.

entro nos corredores de outubro para

encontrar um abraço nos teus olhos,

este dia será sempre hoje na memória.

hoje compreendo os rios. a idade das

rochas diz-me palavras profundas,

hoje tenho o teu rosto dentro de mim.

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PARABÉNS, JOSÉ LUÍS PEIXOTO !

José Luís Peixoto nasceu em Galveias no dia 4 de Setembro de 1974.

É poeta, dramaturgo e narrador.

Nesta homenagem no dia do seu aniversário, o poema:

 

                              Amor

 

o teu rosto à minha espera, o teu rosto

a sorrir para os meus olhos, existe um

trovão de céu sobre a montanha.

as tuas mãos são finas e claras, vês-me

sorrir, brisas incendeiam o mundo,

respiro a luz sobre as folhas da olaia.

entro nos corredores de outubro para

encontrar um abraço nos teus olhos,

este dia será sempre hoje na memória.

hoje compreendo os rios. a idade das

rochas diz-me palavras profundas,

hoje tenho o teu rosto dentro de mim.

José Luís Peixoto, in “A Casa, A Escuridão”

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“As agruras do mal” – continuação

Isto acontecia naquela manhã fria mas ensolarada, uma bela manhã para aquele mês, que tinha até àquele dia sido um mês para esquecer em termos climáticos, um mês de nevões intensos, de frios insuportáveis, daqueles que nos consomem até ao cerne da alma, um mês não apenas de nevões mas também de cheias, com estradas cortadas, batidas espectaculares entre carros, tremendas filas de trânsito parado ao longo das artérias movimentadas, a mundialmente conhecida Via Veneto, aquela que a bem dizer foi a capital da moda nos anos sessenta, onde àquela hora da manhã quem se deslocava para o trabalho em carro próprio por não ter outro caminho alternativo espera e desespera, e quem se passeia com carro alugado, mormente os turistas, maldiz a sorte porque Roma, por motivos óbvios de resguardo das maravilhas guardadas no subsolo, em camadas sobrepostas que se comportam como um maravilhoso livro aberto que nos transporta na lonjura dos séculos, dispor apenas de duas linhas de metro que formam um gigantesco X, uma que circula de Laurentina a Rebibbia, a outra que vai de Anagnia a Octaviano, e passa portanto relativamente perto da cidade do Vaticano.

O ICPAR, SA é uma organização que passa despercebida entre o estapafúrdio deslumbramento publicista das grandes empresas, em particular as que são de projecção mundial.

A empresa não necessita minimamente de qualquer tipo de publicidade, dessa que tão bem conhecemos, e que nos entra pela casa a dentro via televisão ou rádio.

A publicidade vinha apenas e somente da qualidade dos seus produtos que comercializava e por isso mesmo, e por outras razões que mais adiante veremos, quanto menos se badalasse melhor seria para a esplêndida forma dos negócios. E por isto tinha a sua sede naquele palacete situado à vista do lago, dos jardins e da Villa Borghesse. Um palacete discreto o quanto possível, de acordo com os parâmetros previamente definidos que foram para a sua aquisição. Todavia, antigo, como tudo ou quase tudo o que constitui o lado notável em Roma, estava extremamente bem conservado, dispunha de amplos salões, um maravilhoso e amuralhado jardim, – amuralhado para sem dúvida se subtrair aos olhares indiscretos – um recheio de obras de arte, autênticas relíquias produzidas e assinadas pelo punho dos grandes mestres, aqueles que ainda maravilham o mundo, que ainda não foram igualados, como Bernini, Borromini, Bramante, Frei Angélico, Rafael, Caravaggio…

O genial gosto do administrador delegado, do mestre presidente administrador fundador e principal accionista, sempre ausente de corpo mas presente em espírito, e dos restantes administradores responsáveis pelos vários e diversos pelouros do governo e da gestão, desde a produção dos artefactos e dos símbolos, até aquele que carregava nos ombros largos a área das finanças e aquele outro que se responsabilizava pelas relações públicas internacionais e intercontinentais, o gosto pelo belo, pela arte, pela requintada mas também austera decoração que por todo o lado se notava, desde os gabinetes pessoais até à majestosa sala de reuniões da assembleia magna. O superior gosto estava bem patente naqueles quadros, nas esculturas, na qualidade impar daquele jardim que maravilhava quem quer que o pudesse ver.

O palacete estava situado bem perto do topo de uma das colinas que servem de leito à cidade. Espraiando a vista através das vidraças amplas via-se um pouco da Piazza del Campidoglio, que foi desenhada pelo incomparável Miguel Ângelo, e onde se situaram os templos pré-cristãos dedicados a Júpiter e Juno. E era um regalo para os olhos a estatuária, que, avulsa e dispersa no cimo das coberturas dos edifícios, muitos cheios de história, ilustra a sensibilidade que corria no sangue que enchia as veias dos escultores romanos, e aquelas esculturas que se avistavam dali, daquele privilegiado topo da colina, polvilhavam de beleza os telhados naquela cidade universal que na verdade não é apenas dos romanos nem só italiana, a Roma universal e única, a inigualável, acaba sendo de todos nós, prioritariamente daqueles europeus que receberam a dádiva da sua cultura, da sua universalidade, assim como da Grécia o pilar, o farol da Civilização do ocidente que, junto com a já tecnicista Roma com o seu direito, as suas construções e os seus exércitos vinculou-nos no seu mundo, contribuiu para a nossa desmedida ânsia de saber cada vez mais.

É certo que foram civilizações construídas com base na escravatura, base principal e de maior importância do sistema económico vigente na época, – e não só, se pensarmos bem, nos dias que correm de igual modo nos escravizam de alguma forma, ou pelo dinheiro que não enche os bolsos de todos por igual, e se fosse ao contrário o desastre seria de gravidade impensável, ou enchem-nos as cabeças com as ideologias mais estapafúrdias que imaginar se possa, sem perceberem que nós, homens e mulheres afinal de contas somos o que somos, a força da natureza é imensa e tanto nos dá os maus como os bons – logo, neste nosso século e apesar das idas e vindas à lua e ao fundo dos mares, e embora se respeitem as ideias de todos, foram as ideias que fizeram avançar o mundo, na verdade a escravatura tal como a falta de escrúpulos são os meios sempre utilizados para alcançar os fins. Não interessa saber o que aconteceu primeiro, se o ovo ou a galinha, o que importa é que estão ambos por cá e não conseguem subsistir um sem o outro.

Pois naquela manhã gélida mas ensolarada, naquele amplo salão de paredes forradas a madeira preciosa, com os tectos trabalhados em estuque, repartidos em uma espécie de mosaicos contidos por dentro das réguas de estuque, qual quadricula, pintados mostrando anjos e querubins, figuras de homens de idade indefinida com longas barbas brancas e cabelos igualmente brancos, soltos como que esvoaçando ao vento, envoltos em vestes que não se percebe se são túnicas, nem uma natureza morta, nada de paisagens, nada de figuras representando animais. Um tecto pintado de cores suaves que traziam uma tranquila paz de espírito. O administrador delegado do ICPAR, SA, totalmente vestido de branco, um facto de bom corte, uma camisa e uma gravata brancas, sapatos a condizer e uma espécie de quipá colocado no alto da cabeça, no local preciso e exacto onde os padres têm a tonsura, sentava-se na cabeceira da enorme e larga mesa, voltado para a ampla janela que mostra as cores e a grandeza de Roma, banhada pelo ténue Sol de inverno que não consegue vencer o gelo trazido pela noite e por aquele tempo desaustinado onde as chuvas e os nevões têm sido o timbre do dia-a-dia, desde o inicio do mês.

Ao longo da enorme mesa dispostos segundo uma devida ordem, sentados nas cadeiras com espaldares altos, suficientemente grandes para lhes ocultar as cabeças, se situavam os restantes administradores, mas estes vestidos de negro e ostentando quipás de cor vermelha.

O conselho de administração ia dar inicio à sessão destinada à avaliação dos resultados alcançados no ano transacto. Os documentos criteriosamente arrumados na frente de cada participante. A ICPAR, SA – Investimentos Comerciais de Produtos e Artefactos Religiosos, Sociedade Anónima de Responsabilidade Lda., – reunida na sua sede privada, no salão nobre do palácio a que modestamente se referiam como o palacete, onde uma réplica pintada em quadro de grandes dimensões representava Francisco Barberini, e, no lado oposto, esculpida em mármore, outra réplica mostrando Enéas, Anquise e Ascâneo, ambas obras de Bernini, ladeavam com quadros e estatuetas da autoria de autores clássicos também e indubitavelmente célebres. Todos aqueles homens eram afinal altas figuras do clero católico, apostólico e romano, incluindo o papa, Inocente I, e o que lhes escondia as tonsuras não se tratava de quipás mas sim de solidéus. Depois de uma breve oração, o reverendo cardeal administrador responsável pela área das finanças e autor do relatório de apresentação, um livro razoável no seu numero de páginas, tais como trezentas e catorze, encadernado a pele gravada com letras douradas que, em tamanho de caixa numero dezoito, diziam exactamente, na primeira linha, em destaque, ICPAR e por baixo, Investimentos Comerciais de Produtos e Artefactos Religiosos, e, na linha seguinte, por baixo, Sociedade Anónima de Responsabilidade Lda., e ainda mais abaixo, na linha seguinte, Relatório e Contas Referente ao Exercício do ano de 2009.

A ladainha dos números decorria em voz monocórdica, sempre no mesmo tom, nunca nem mais para baixo nem mais para cima, e todos os restantes administradores seguiam o conteúdo lendo em silêncio os livros que, para o efeito, previamente algum padre menor havia disposto frente a cada cadeira.

Raramente a leitura ficava interrompida para uma análise mais detalhada e esclarecedora pretendida pelo Sumo Pontífice, prontamente atendida pelo cardeal administrador responsável pelo pelouro das finanças. Não é que qualquer dos presentes não pudesse de igual modo pedir esclarecimentos e por tanto interromper a sessão; para o efeito bastava-lhe pigarrear um pouco, chamando a atenção, enquanto que ao Sumo Pontífice bastava agitar levemente uma minúscula sineta, mas a sociedade daqueles homens não se limitava a uma modesta democracia, nada de ilusões, as regras herdadas da velha Grécia são lindas mas no papel, o milenar espírito que preside à organização lupina nas mesuras e nas vénias, nas expressões inexpressivas, no acentuar a cada momento o poder do chefe, o segredo da estabilidade eterna.

Terminada que foi a leitura e depois de um breve acto de contrição rezado em surdina porque haviam tratado e discutido coisas relacionadas com dinheiro, quanto rendeu o exercício da venda dos rosários, os por benzer e os já benzidos, pouco mais caros porque poupam tempo ao comprador, por norma umas castas senhoras mães de família, a perca de tempo gasto na deslocação à igreja a ter com o senhor padre, quanto se realizou na venda dos crucifixos, os pequenos, os médios e os grandes, os benzidos e os por benzer, qual a receita com a venda das medalhinhas com as feições dos santos gravadas, como ficou a receita dos frasquinhos da água benta, em que pé ficamos com a dificílima tarefa de atribuir um valor correcto à colheita das caixas das esmolas, – cujo conteúdo no antigamente se dizia que se destinava para as alminhas, – para a partir daí calcularmos com exactidão a percentagem que cabe à sede, de ano para ano e à medida que aumenta a separação entre o poder politico e o divino, com a carestia de vida que vai por esse mundo fora e que os padres sentem porque também são gente, o que fazer com a necessária protecção para a segurança dos tesouros guardados nas igrejas e que tanta cobiça despertam nos ladrões internacionais que rondam os lugares sagrados por esse mundo adiante.

E enfim, toda a imensa gama de produtos de outra espécie e género, os milagres que se originam nas peregrinações aos santuários Marianos, que são muitos, espalhados pelos quatro cantos da terra. As leituras litúrgicas, as bíblias, as biografias dos santos, as mais célebres homilias dos santos padres, os luxuosos trabalhos feitos em marfim pelos mais hábeis dos crentes africanos, de tudo se vende nos santuários Marianos.

Em qualquer canto do mundo, México, Brasil, Portugal, Polónia, Itália, – seria inevitável, quase absurdo se não existisse um santuário, seria como se a Itália, – segundo berço da fé cristã, onde se destronou o maquiavélico império dos Césares, – fosse nos primórdios da era cristã esquecida por Deus, – Rússia, Índia, Vietname, Japão, Costa do Marfim, Algéria, Alemanha, Inglaterra, França, da modesta aldeia de Nazaré da Galileia, berço natal onde o Anjo Gabriel anunciou a Maria a Boa Nova, a adoração à Mãe de Cristo se dilatou graças à sentida libertação que empresta a todos os que sofrem e são espezinhados pelos outros. Pena é que tudo se projecte para depois da vida, para a além vida, para o outro lado. Bem-aventurados sejam os pobres de espírito pois deles será o Reino do Céu.

Como em tudo o que o homem faz, raramente se programa ou prevê a longo prazo as consequências, nos dias que correm muitos pobres de espírito chegam ao topo da política e chefiam países. Será que o Reino dos Céus é só para os restantes, que são milhões de milhões, ou também se estende a estes? Se a resposta engloba todos, não seria de excluir a ideia de perguntar aos milhões de milhões se têm mesmo de aceitar o benefício divino de habitarem o Reino do Céu…

Escutando os crentes, eles dizem que do Céu nunca vieram ventos de revolta, mas sim paz e contemplação. Quando a sagrada bíblia nos descreve a ira de Nosso Senhor Jesus Cristo contra os vendilhões que no templo em Jerusalém desrespeitavam o sagrado recato indispensável à comunicação com o divino, – ou à tentativa de a estabelecer, – desnecessária a meu ver, porque o poder divino deve de atender os homens por igual, e sempre que os homens, pobres ou ricos, santos ou pecadores, não invoquem o Seu Nome em vão, foi porque o templo é o local próprio para o dito recato, a oração e o fervor da fé, e não porque alguma vez lhe tivesse passado pela razão privar os homens de ganharem o sustento de cada dia com o suor do rosto. Não há, portanto, negócios que

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A Paixão que Veio do Frio – Livro do Mês

A Livraria Dharma, em Mem – Martins, elegeu o meu romance “A Paixão que Veio do Frio” como livro do mês. O destaque foi dado no Jornal Cidade Viva, Jornal mensal do Concelho de Sintra, edição nº 92.

Desde já um imenso obrigado e um abraço literário a todos!

José Guerra

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EXTRAÍDO DO ROMANCE “AS AGRURAS DO MAL.”

PEQUENO TEXTOJULGO DE INTERESSE A COMPARAÇÃO ENTRE A SOCIEDADE LUPINA E A NOSSA, POBRES ANIMAIS COM APENAS DUAS

PATAS…

(…)

O administrador delegado da ICPAR, S A, com sede na cidade de Roma, capital de Itália, essa milenar cidade fundada por Rómulo e Remo, os irmãos que sobreviveram graças às atenções e boas vontades de uma loba condoída que lhes forneceu o precioso alimento do seu leite. Este fenómeno que a lenda nos conta estabelece o primeiro e talvez o único pacto entre animais lupinos e homens, e foi a segunda coisa boa que lhes sucedeu no dia em que o malvado do tio os lançou às águas do rio Tibre, de onde foram salvos graças a um momentâneo ataque de miopia que terá levado as águias a uma tremenda confusão entre crianças e peixes.

Que nos perdoem os italianos por esta intromissão nas lendas da sua terra, e também do ajuizar das consequências, os pactos entre animais e homens, mas parece-nos, sem saber ao certo porquê, um pacto entre lobos e homens mais viável do que entre homens e águias.

As águias são animais alados independentes, majestosas e sós, vivem nos píncaros olhando de cima para baixo – o que significa orgulho e altivez, – ao passo que os lobos não, vivem como nós, em alcateias submissos e obedientes, olhando de baixo para cima em sinal de eterno respeito.

Os homens passam a vida a estabelecer alianças com os mais fortes, ainda que no consciente saibam que estão apaparicando uns quantos filhos da puta, refugiam-se na máxima de que há mentiras de compor vidas que são perdoadas por nosso senhor Jesus Cristo através do padre durante a confissão, e logo que rezados uns quantos Pai Nossos. Os lobos bajulam o animal alfa e quando são fracos e sem contactos sociais de monta na esfera hierárquica comem os restos, – ou seja roem os ossos, – das carcaças já comidas até ao tutano pelo animal alfa e os seus acólitos. E quando, por mau carácter ou péssimo feitio, são expulsos e tornam-se solitários, seguem a alcateia para todos os lados, sacrificam a vida pelo todo, tal como nós.

Assim se compreende as semelhanças entre a sociedade humana e a forma de vida dos lobos, eles socializando em alcateia, nós na nossa sociedade tentando socializar. Tirando esta coisa dos carros, dos aviões, dos restaurantes e das cadeias, até me parece mais saudável a maneira de viver dos lobos, pelo menos é, no mínimo mais ecológica, menos poluente, mais amiga do ambiente, e por conseguinte mais prestigiante para a raça.

O administrador delegado presidia ao conselho de administração naquele dia do final do mês de Dezembro do ano de 2010, para ser mais preciso no dia 31, uma sexta-feira, pela manhã, com o objectivo – e de acordo com a ordem de trabalhos – de analisar o relatório e contas do ano transacto. (…)

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Blogue – José Guerra

José Guerra – Trovador dos Mares

Um blogue de Poesia e Prosa Poética, com novidades editoriais

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PARABÉNS, ANTÓNIO LOBO ANTUNES !

António Lobo Antunes nasceu em Lisboa no dia 1 de Setembro de 1942.

É escritor e psiquiatra.

Nesta homenagem no dia do seu aniversário, o poema:

 

A GRIPE E OS HOMENS…

 

Pachos na testa, terço na mão,

Uma botija, chá de limão,

Zaragatoas, vinho com mel,

Três aspirinas, creme na pele

Grito de medo, chamo a mulher.

Ai Lurdes que vou morrer.

Mede-me a febre, olha-me a goela,

Cala os miúdos, fecha a janela,

Não quero canja, nem a salada,

Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.

Se tu sonhasses como me sinto,

vejo a morte nunca te minto,

Já vejo o inferno, chamas, diabos,

anjos estranhos, cornos e rabos,

Vejo demónios nas suas danças

Tigres sem listras, bodes sem tranças

Choros de coruja, risos de grilo

Ai Lurdes, Lurdes fica comigo

Não é o pingo de uma torneira,

Põe-me a Santinha à cabeceira,

Compõe-me a colcha,

Fala ao prior,

Pousa o Jesus no cobertor.

Chama o Doutor, passa a chamada,

Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.

Faz-me tisanas e pão-de-ló,

Não te levantes que fico só,

Aqui sozinho a apodrecer,

Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

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Tenho resistido, não sem algum pudor pessoal, a escrever como mandam as modas. Sou um bicho de rotinas, defendo-me, e não concebo que, de uma penada, se mude a língua por decreto, tornando o certo em errado, o académico em iletrado.
De nada serve tal defesa, bem sei, mas gosto das letras que não se lêem e que a nossa mão herdou dos tempos em que as palavras eram maiores e mais complicadas e traziam no seu seio o travo das origens primevas, carregadas de história e mistério, tal como trazemos no corpo, sem o sabermos, a informação genética que também se não lê mas lá terá a sua função (se aceitarmos que a natureza tem sábios desígnios e não que seja uma tola analfabeta).
Há já quase cinco lustros que me ensinaram a escrever e não me acomodo bem a estas mudanças bruscas que quase me fazem escrever a língua dos nossos compatriotas.
Até a leitura se me torna penosa tarefa de esquecer que ora se escreve outra língua e que não são erros aquilo que peja as folhas das últimas reedições dos clássicos ou dos espetáculos que têm os seus espetadores, que é como quem diz pessoas que espetam coisas.
Já Saramago foi brindado com o acordo ortográfico e sangra-me o peito sobre os seus Cadernos de Lanzarote o não conseguir acompanhar estas mudanças que não entendo e que não julgo necessárias.
Talvez seja saudosista, talvez seja anacrónica. Enfim, lá me hei-de render um dia, mas gostava da maneira como escrevíamos.
Se não me falha a memória, houve já três acordos ortográficos, todos eles vocacionados para as publicações oficiais e para o ensino, que é como quem diz que isso há-de dar frutos daqui a vinte anos, mas logo os periódicos abraçam as modas, logo as empresas se revelam pressurosas em estar na frente das novas tecnologias e literacias, e o desgraçado do escritor descobre que, enfim, o Estado lhe trocou as voltas e afinal já não sabe escrever.
Houve tempos em que era o povo que impulsionava a evolução da língua. Era um processo lento, fermentado e pouco uniforme. Hoje, essas mudanças fazem-se por decreto e são rápidas, brutais, inexoráveis. É a lei que nos ensina a escrever, enchendo-nos de vergonha se não acompanhamos esta moda cheia de boas intenções e que é vocação universalista da língua pátria e a sua difusão.
Confesso que tenho ainda resistido, já cheia de dúvidas, de angústias, de vacilações, mas ainda com os dedos presos a rejeitar seguir o que já é definitivo.
A verdade é que não consigo ensinar as minhas mãos a serem obedientes, elas rejeitam esta uniformidade que lhes castra a poesia de (quem sabe?) inventar palavras novas.
Não sei até quando resistirei, não tão só como pareço, nesta teimosia de escrever como me ensinou a professora Florinda, petrificada na minha memória como a figura da mestre-escola que tudo sabe.
Onde estiver deve balançar a sua cabeça em sinal de incredulidade e prometer reguadas a quem fez tamanha marotice aos pobres coitados que, como eu, deixarem de saber escrever.
 
Ana Brilha
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De Braços Levantados – Um livro colaborativo

De Braços Levantados é um livro colaborativo, um projecto a decorrer no momento em que cada escritor cria um capítulo a continuar a estória que outros começaram.

Estão escritos até agora 11 capítulos e os últimos têm claramente elevado a fasquia da qualidade da escrita e da narrativa levando o enredo a pontos impensáveis por muitos mas que não deixam de demonstrar uma coerência assinalável para algo escrito por pessoas tão diferentes.

A minha colaboração foi no capítulo VI e a ideia que eu tinha sobre como a estória poderia evoluir foi completamente ultrapassada. Que boas surpresas 🙂

A equipa que promove este projecto (join2write) pediu a divulgação do mesmo e precisam de escritores para dar continuidade à narrativa.

Aqui fica o link:http://www.join2write.pt

Leiam, apreciem, participem se puderem e quiserem contribuir.

Armando Frazão | www.armandofrazao.com

 

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O TRIUNFO DOS IMBECIS

“Não nos deve surpreender que, a maior parte das vezes, os imbecis triunfem mais no mundo do que os grandes talentos. Enquanto estes têm por vezes de lutar contra si próprios e, como se isso não bastasse, contra todos os medíocres que detestam toda e qualquer forma de superioridade, o imbecil, onde quer que vá, encontra-se entre os seus pares, entre companheiros e irmãos e é, por espírito de corpo instintivo, ajudado e protegido. O estúpido só profere pensamentos vulgares de forma comum, pelo que é imediatamente entendido e aprovado por todos, ao passo que o génio tem o vício terrível de se contrapor às opiniões dominantes e querer subverter, juntamente com o pensamento, a vida da maioria dos outros.
Isto explica por que as obras escritas e realizadas pelos imbecis são tão abundante e solicitamente louvadas – os juízes são, quase na totalidade, do mesmo nível e dos mesmos gostos, pelo que aprovam com entusiasmo as ideias e paixões medíocres, expressas por alguém um pouco menos medíocre do que eles.

Este favor quase universal que acolhe os frutos da imbecilidade instruída e temerária aumenta a sua já copiosa felicidade. A obra do grande, ao invés, só pode ser entendida e admirada pelos seus pares, que são, em todas as gerações, muito poucos, e apenas com o tempo esses poucos conseguem impô-la à apreciação idiota e ovina da maioria. A maior vitória dos néscios consiste em obrigar, com certa frequência, os sábios a actuar e falar deles, quer para levar uma vida mais calma, quer para a salvar nos dias da epidemia aguda da loucura universal!

Giovanni Papini, in “Relatório Sobre os Homens”

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