AUGUSTO GIL – Luar de Janeiro

AUGUSTO GIL - LUAR DE JANEIRO

AUGUSTO GIL

(Lordelo do Ouro, Portugal, 1873 – Guarda, 929)

Poeta

LUAR DE JANEIRO

Luar de Janeiro,
Fria claridade

À luz dele foi talvez
Que primeiro
A boca dum português
Disse a palavra saudade…

Luar de platina;
Luar que alumia
Mas que não aquece,
Fotografia
De alegre menina
Que há muitos anos já… envelhecesse.

Luar de Janeiro,
O gelo tornado
Luminosidade…
Rosa sem cheiro,
Amor passado
De que ficou apenas a amizade…

Luar das nevadas,
Àlgido e lindo,
Janelas fechadas,
Fechadas as portas,
E ele fulgindo,
Límpido e lindo,
Como boquinhas de crianças mortas,
Na morte geladas
-E ainda sorrindo…

Luar de Janeiro,
Luzente candeia
De quem não tem nada,
-Nem o calor dum braseiro,
Nem pão duro para a ceia,
Nem uma pobre morada…

Luar dos poetas e dos miseráveis…
Como se um laço estreito nos unisse,
São semelháveis
O nosso mau destino e o que tens;

De nós, da nossa dor, a turba – ri-se
– E a ti, sagrado luar… ladram-te os cães!

Deixe um comentário

VINICIUS DE MORAES – Minha Mãe

Vinicius de Moraes

VINICIUS DE MORAES

(Rio de Janeiro, Brasil, 1913 – 1980)

Poeta, cantor e compositor

                  Minha Mãe

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora.  Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fonte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.

Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: — Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão. que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu

Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.

 

in  “Vinicius de Moraes – Poesia completa e prosa”.

 

 

Deixe um comentário

EUGÉNIO DE ANDRADE – Último Poema

EUGENIO DE ANDRADE - ULTIMO POEMA

EUGÉNIO DE ANDRADE

(Póvoa de Atalaia, Portugal, 1923 — Porto, 2005)

Poeta

          ÚLTIMO POEMA

É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os dióspiros ardendo na sombra.
Quem assim tem o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.

in “Rente ao Dizer”

1 Comentário

FERNANDO PESSOA – Como a noite é longa!

FERNANDO PESSOA

FERNANDO PESSOA
(Lisboa, Portugal, 1888 – 1935)
Poeta, filósofo, dramaturgo, tradutor

COMO A NOITE É LONGA!

Como a noite é longa!
Toda a noite é assim…
Senta-te, ama, perto
Do leito onde esperto.
Vem p’r’ao pé de mim…

Amei tanta coisa…
Hoje nada existe.
Aqui ao pé da cama
Canta-me, minha ama,
Uma canção triste.

Era uma princesa
Que amou… Já não sei…
Como estou esquecido!
Canta-me ao ouvido
E adormecerei…

Que é feito de tudo?
Que fiz eu de mim?
Deixa-me dormir,
Dormir a sorrir
E seja isto o fim.

 

1 Comentário

ARY DOS SANTOS – Quando um homem quiser

ARY DOS SANTOS - QUANDO

ARY DOS SANTOS

(Lisboa, Portugal, 1937 – 1984)

Poeta

 QUANDO UM HOMEM QUISER

Tu que dormes à noite na calçada do relento
numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que dormes só o pesadelo do ciúme
numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
e sofres o Natal da solidão sem um queixume
és meu irmão, amigo, és meu irmão

Natal é em Dezembro
mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
é quando um homem quiser
Natal é quando nasce
uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto
que há no ventre da mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
tu que inventas bonecas e comboios de luar
e mentes ao teu filho por não os poderes comprar
és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei
pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
és meu irmão, amigo, és meu irmão

 

Deixe um comentário

NATÁLIA CORREIA – Balada para um Homem na Multidão

NATALIA CORREIA

NATÁLIA CORREIA

(São Miguel, Açores, Portugal, 1923 – Lisboa, 1993)

Escritora e poetisa

BALADA PARA UM HOMEM NA MULTIDÃO

Este homem que entre a multidão
enternece por vezes destacar
é sempre o mesmo aqui ou no Japão
a diferença é ele ignorar.
Muitos mortos foram necessários
para formar seus dentes um cabelo
vai movido por pés involuntários
e endoidece ser eu a percebê-lo.
Sentam-no à mesa de um café
num andaime ou sob um pinheiro
tanto faz desde que se esqueça
que é homem à espera que cresça
a árvore que dá dinheiro.
Alimentam-no do ar proibido
de um sonho que não é dele
não tem mais que esse frasco de vidro
para fechar a estrela do norte.
E só o seu corpo abolido
lhe pertence na hora da morte.

 

Deixe um comentário

ANTÓNIO NOBRE – Enterro de Ofélia


antonio nobre

ANTÓNIO NOBRE

(Porto, Portugal, 1867 -Foz do Douro, 1900)

Poeta

ENTERRO DE OFÉLIA

Morreu. Vai a dormir, vai a sonhar… Deixá-la!

(Falai baixinho: agora mesmo se ficou…)

Como Padres orando, os choupos formam ala,

Nas margens do ribeiro onde ela se afogou.

 

Toda de branco vai, nesse hábito de opala

Para um convento: não o que Hamlet lhe indicou,

Mas para um outro, horror! que tem por nome Vala,

De onde jamais saiu quem, lá, uma vez entrou!

 

O doce Pôr-do-Sol, que era doido por ela,

Que a perseguia sempre, em palácio e na rua,

Vede-o, coitado! mal pode suster a vela…

 

Como damas de honor, Ninfas seguem-lhe os rastros,

E, assomando no Céu, sua Madrinha, a Lua,

Por ela vai desfiando as suas contas, Astros!

Deixe um comentário

LUÍS DA CÂMARA REYS – Homenagem da “Seara Nova”

LUIS DA CAMARA REYS

LUÍS DA CÂMARA REYS

(Lisboa, Portugal, 1885 – Estoril, 1961)

Professor e jornalista

De há muito que se impunha prestar uma homenagem ao Seareiro que foi o principal sustentáculo da revista e da editorial Seara Nova durante quarenta anos. Referimo-nos a Câmara Reys fundador da Seara Nova e seu enorme obreiro e impulsionador, depois da morte de Raul Proença e afastamento de António Sérgio.

Luís da Câmara Reys mereceria que se divulgasse a sua obra, reeditando as inúmeras publicações em livro ou em artigos de imprensa, aqui com destaque para a Seara Nova, pesquisando e estudando esta mesma obra e até dedicando-lhe uma grande homenagem pública.

O dossier “90 Anos Seara Nova” deste número da revista é quase na totalidade dedicado a Câmara Reys, constituindo, despretenciosamente , uma forma de evocar e homenagear o Seareiro de quem muito convictamente se pode dizer que sem Câmara Reys a Seara Nova não teria subsistido em alguns dos períodos de muitas dificuldades financeiras e políticas que teve de enfrentar durante o fascismo.

Luís da Câmara Reys foi um incansável orientador da Seara, com uma determinação enorme nos trabalhos de gestão da revista: dinamizando a procura de colaboradores qualificados para integrarem a redacção ou para prestarem uma colaboração graciosa com os seus escritos; promovendo a angariação de publicidade e lançando excelentes campanhas publicitárias em números especiais; dirimindo os naturais conflitos entre colaboradores; supervisionando os trabalhos administrativos e, certamente muito desgastante, a gestão financeira e a resolução dos múltiplos estrangulamentos financeiros com que a Seara Nova muitas vezes se defrontou (e de que bastas vezes terá sido salva com os meios financeiros pessoais ou familiares de Câmara Reys).

Mas se este trabalho incansável e duro teve resposta na enorme dedicação de Luís da Câmara Reys, não se pense que se quedou por aqui a sua participação na Seara Nova; é não menos importante a extensa colaboração nas páginas da revista, onde, naturalmente com maior vocação e apetência para textos literários, Câmara Reys escreveu sobre inúmeros temas e assegurou a continuidade de certas colunas.

Em inúmeros textos sobre literatura, com destaque para frequente crítica literária e muitas notas de leitura. Em notas e crítica teatral. Em vários interessantes artigos sobre canção popular por esse mundo fora. Em textos sobre ensino. Sobre jornalismo. Mas também em comentários sobre política interna e sobre acontecimentos internacionais: nestes campos verifica-se que Câmara Reys redigiu bastantes editoriais da revista e muitas posições em nome da Seara Nova.

O Conselho Redactorial da Seara Nova recorda, com um sentimento misto de gratidão e de respeito, o Seareiro Luís da Câmara Reys recordando o muito que a Seara Nova lhe deve.

 

in “Seara Nova” – nº 1720 – por  “O Conselho Redactorial” (excertos)

Deixe um comentário

Poema de JOSÉ TERRA dedicado a MATILDE ROSA ARAÚJO – Descoberta

DESCOBERTA

Sinto-me livre, fresco, auroreal,

neste rio de sombra e de silêncio.

 

Nele descubro a força e as origens

inevitáveis origens dos meus passos.

 

Nele me encontro total e verdadeiro

com meus claros olhos de animal

parentes das estrelas e dos limos.

 

Nele navega a minha noiva astral

toda coroada de flores carnais

num barco à imagem de minha alma.

 

Nele a beleza brinca, e precipito-me

no rastro da efémera flor

que tremula nos dedos da verdade.

 

No centro dele o coração liberta-se

e transborda das margens do meu corpo.

 

No centro dele um deus primaveril

com um diadema de flores de água

guarda a flauta, a irreal flauta,

onde assobiarei o hino da manhã.

 

No centro dele espera-me uma corça

– talvez a minha noiva, incompreendida

e aniquilada sobre o continente.

 

Nos seus líquidos olhos a amizade

é uma flor de orvalho que tremula.

 

No centro dele rio, choro, canto

e acaricio o dorso da ternura.

No centro dele o teu retrato, Mãe!

múltiplo e uno, é onde me liberto

e parto em pássaros para os quatro mundos!

 

JOSÉ TERRApoeta, filólogo, historiador e professor catedrático (Prozelo, Arcos de Valdevez, Portugal, 1928 – Paris, França, 2014)).

MATILDE ROSA ARAÚJOescritora e poetisa (Lisboa, Portugal, 1921-2010).

 

1 Comentário

VIRGÍNIA VITORINO – Amor

virginia

VIRGÍNIA VITORINO

(Alcobaça, Portugal, 1895 – 1967)

Professora, poetisa e dramaturga

Trabalhou na Emissora Nacional onde dirigiu o teatro radiofónico. Publicou vários livros de versos e peças teatrais, muitas das quais foram levadas à cena no Teatro Nacional D. Maria II. Recebeu o prémio Gil Vicente do SNI pela peça Camaradas. Tem vasta colaboração espalhada por jornais e revistas portuguesas e brasileiras.

in “Biblioteca Nacional de Portugal” (excerto)

***

                      AMOR

O amor! O amor! Ninguém o definiu.
É sempre o mesmo. Acaba onde começa.
Quem mais o sente menos o confessa,
e quem melhor o diz nunca o sentiu.

Conhece a todos mas ninguém o viu.
Se o procuramos, foge-nos depressa.
Se o desprezamos, todo se interessa,
só está presente quando já fugiu.

É homem feito sendo criança.
E quanto mais se quer menos se alcança,
ninguém o encontra, e em toda parte mora.

Mata a quem dele vive. É sempre assim.
Só principia quando chega o fim,
morreu há muito e nasce a cada hora.

Deixe um comentário