“JUNTOS PARA SEMPRE” – (22)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Três dias depois, Maria recebe ordens para se sentar no banco existente no hall de entrada e esperar que a chamem. Ouve passos suaves no corredor que produzem o ranger melódico e vibrato característicos do soalho de madeira centenária.

A Madre Superiora aproxima-se, acompanhada de Celeste.

Maria levanta-se.

A Madre inicia a sua comunicação com um tom de voz sereno e afável, aliado a uma postura física de humildade que dramatiza quando se encontra em presença de pessoas estranhas:

– Maria, sairás agora mesmo desta Casa de Acolhimento que te recebeu de braços abertos. Esta bondosa senhora, de confirmada elevação moral e religiosa, pediu autorização para assumir a responsabilidade tutelar até seres maior de idade.

De mãos postas, deixando cair entre elas o terço, representa a última cena retórica:

– Deus quer que soframos em seu louvor. Nunca vos esqueçais que a sua omnipresença vigiará os vossos comportamentos. Vivei sempre com os Dez Mandamentos no vosso coração e não entreis em pecado. Rezai todos os dias dando graças ao Senhor por terdes o privilégio de serdes suas servas. Ide na companhia do Senhor Santo Deus, Pai de Jesus.

– Que Deus seja louvado. Ámen!

Maria, ignorando a figura e as palavras da Madre Superiora, olha para Celeste e, com voz emocionada, diz:

– Vou sair daqui com a pessoa mais maravilhosa que conheci nesta minha triste vida! Obrigada minha querida Celeste.

* * * * * * * * *

Descem os degraus que dão acesso à rua e param. Maria olha para o céu como se o infinito lhe transmitisse a sensação de liberdade que tanto ansiava. As casas, as lojas, as crianças. Tudo lhe parece fantasia. Celeste assiste a esta integração num mundo diferente, rememorando a sua saída do Orfanato há muitos anos, quando a tia Amélia a adoptou como sobrinha.

– Vais conhecer a minha Tia. Para te dizer a verdade ela não é minha Tia verdadeira. Chamo-lhe Tia porque foi ela quem se responsabilizou por mim para eu sair do Orfanato. Olha, foi o que eu acabei de fazer por ti. Estás a ver como as coisas são? A vida dá muitas voltas.

– Então também quero passar a chamar-lhe Tia Celeste, pode ser, Tia Celeste?

– Fico muito contente com a tua ideia, mas não quero aceitá-la. Para nós só há uma Tia. Ela representa, especialmente para mim, um símbolo de amor tão forte que nunca seria capaz de admitir que alguém me tratasse por tia, estás a perceber? Era como estivesse a ocupar o seu lugar, e a Tia Amélia é insubstituível. Compreendes o que eu quero dizer?

– Compreendo, sim… Celeste.

– Gosto muito da Tia Amélia. Devo-lhe tanto, tanto, que gostaria chamar-lhe Mãe. Mas habituei-me a tratá-la por Tia e ela gosta. Anda um pouco adoentada e tem algumas dificuldades em fazer as tarefas da casa, mas espero que seja por pouco tempo. Com a nossa ajuda há-de melhorar, não concordas?

– Tenho a certeza que vão ficar satisfeitas com o meu trabalho, tenho a certeza absoluta. Ou eu não me chame Maria. Olari!

Param em frente a uma moradia humilde, cercada por um quintal bem tratado. É a casa da Tia Amélia.

Entram.

A primeira divisão é a cozinha, pintada de paredes brancas. Junto ao lava-loiça e ao fogão, quatro faixas de azulejos coloridos com motivos alusivos à culinária. Um pequeno frigorífico, dois armários, uma bancada com gavetas e uma mesa redonda coberta com um pano bordado com diversos frutos, o qual atraiu a atenção de Maria. Um vaso de barro pintado de verde com flores de papel ornamenta a mesa, onde habitualmente Amélia e Celeste tomam as suas refeições. Duas cadeiras e um banco tripé completam o mobiliário.

A seguir, o quarto onde dorme a Celeste. É pequeno, onde apenas cabem um divã, uma mesa-de-cabeceira e uma cómoda rústica, decorada com uma fotografia de Amélia e um jarro com flores silvestres. Tem janela para o quintal, pela qual adora contemplar o nascer do sol, imaginando ver crescer as couves, as ramas das batatas, as laranjas, os limões, e os figos lampos que fazem as delícias de Amélia.

Ao lado, uma saleta mobilada com uma estante repleta de livros, um divã coberto com uma colcha florida e várias almofadas, que é usado como sofá e onde Maria irá dormir, e uma mesa quadrada com quatro cadeiras pintadas de castanho-escuro. Vários quadros feitos com fotografias de paisagens retiradas de revistas e calendários decoram as paredes, além de uma moldura com a estampa da Ceia de Cristo, de Leonardo da Vinci. Amélia considera aquela salinha como o espaço nobre da modesta habitação. Está sempre impecavelmente limpa e arrumada, pronta para receber alguma visita inesperada. O seu quarto, mais espaçoso que o de Celeste, transmite a sensação de uma atmosfera carregada de recordações vividas durante a sua longa existência, no decorrer da qual ganhou e perdeu a felicidade da companhia do marido e dois filhos. As fotografias de todos eles ocupam o tampo sepulcral da cómoda. Uma lamparina de azeite em latão alumia ininterruptamente os três rostos mais queridos da sua vida. Todas as noites, antes de adormecer, reza para que se encontrem cheios de luz ao lado do Senhor. A cama de casal, onde passa agora parte do dia, tem sido a confidente das suas alegrias, dos seus dramas e desgostos. Em cima da mesa-de-cabeceira, além de um candeeiro e o telefone, está um pequeno rádio, que lhe proporciona o prazer de ouvir música portuguesa. Para ela, os artistas portugueses são os melhores do mundo. Uma cruz de Jesus crucificado, pendurada numa parede, transmite a mensagem da sua fé e religiosidade.

José Eduardo Taveira

 

 

 

 

 

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Sobre José Eduardo Taveira

Nasci no Porto. Trabalhei em diversas empresas nacionais e multinacionais, exercendo cargos directivos. Actualmente estou liberto de compromissos profissionais, usufruindo a liberdade de viver como gosto e quero. Publiquei três livros intitulados: "Juntos para Sempre","Histórias de Pessoas que Decidi Divulgar" e "Viagem ao Princípio da Vida". Os dois primeiros em Portugal e o último no Brasil.
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