Sabia que o livro “Uma lógica causa-efeito” tem um “cheirinho”, que por mais pequeno que seja é um “cheirinho” do famoso livro “The next trillion”?
Ora descubra!
Sabia que o livro “Uma lógica causa-efeito” tem um “cheirinho”, que por mais pequeno que seja é um “cheirinho” do famoso livro “The next trillion”?
Ora descubra!
Konstantinos Kavafis (Alexandria, Egipto, 1863 – 1933).
Apesar de ter nascido no Egipto, Kavafis era grego, pois pertencia à numerosa colónia helénica que vivia em Alexandria.
É um dos mais importantes poetas gregos modernos. A sua poesia é ensinada em Universidades de todo o mundo.
Palavras de Konstantinos Kavafis:
“Pouco me importa que ninguém concorde comigo.”
Candelabro
Num quarto pequeno e nu, quatro paredes somente,
recamadas de muitos verdes panos,
um belo candelabro brilha incandescente;
e em cada uma das chamas se acende
uma lúbrica paixão, um lúbrico ardor.
Na pequena alcova, que ilumina refulgente
a forte luz que vem do candelabro,
não é vulgar fogo esta luz ardente.
Não foi feita para corpos tementes
a volúpia que há neste calor.
Konstantinos Kavafis
Imagem: pintura de Joseph Beuys (Alemanha, 1921 – 1986).
Rainer Maria Rilke (Praga, República Checa, 1875 – Montreux, Suiça, 1927).Reconhecido como um dos maiores poetas da língua alemã do século XX, a sua obra foi influenciada pelo Expressionismo.
Palavras de Rainer Maria Rilke :
“Na vida não há aulas para principiantes, exigem-nos logo o mais difícil.”
Carta a um jovem poeta
Paris, 17 de Fevereiro de 1903
Prezadíssimo Senhor,
Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica.
Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do – que palavras de crítica, que sempre resultam em mal entendidos mais ou menos felizes. (…) Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, – seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.
Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com maior clareza no último poema, “Minha Alma”. (…)
Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem – usando da licença que me deu de aconselhá-lo peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, ninguém.
Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranquila de sua noite: “Sou mesmo forçado a escrever?” (…)
Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usuais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. (…)
Utilize, para se exprimir, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de suas lembranças. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas.
Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, essa esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? (…)
Mas talvez se dê o caso de, após essa descida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o senhor de renunciar a se tornar poeta. (…)
Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança.
Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.
Com todo o devotamento e toda a simpatia,
Rainer Maria Rilke
Rainer Maria Rilke, in “Cartas a um jovem poeta”
Tradução: Cecília Meireles
Henri Cartier-Bresson (Chanteloup-en-Brie, França, 1908 – Montjustin, França, 2004).
É considerado uma das figuras mais originais, influentes e admiradas da história da fotografia do século XX.
Esteve na Guerra Civil em Espanha, na Revolução Chinesa e na Segunda Guerra Mundial.
Foi o primeiro fotógrafo da Europa Ocidental a fotografar, sem controlo da censura, o quotidiano da União Soviética.
Fotografou Gandhi, Pablo Picasso, Paul Valéry, Jean Paul Sartre, Simone Beauvoir, Albert Camus, Paul Éluard, entre muitos outros,
Publicou, em 1952, o livro sobre fotografia intitulado: Images à la Sauvette,
Esteve em Portugal em 1955.
Palavras de Henri Cartier-Bresson:
“O reconhecimento é um fardo muito pesado para se carregar. Não quero ser fotografado, identificado, quero ser anónimo. A celebridade é horrível. Eu sou libertário. Tenho horror ao poder. A notoriedade como fotógrafo é uma forma de poder que recuso.”
Carlos Drummond de Andrade (Itabira, Brasil, 1902 – Rio de Janeiro, Brasil, 1987).
Foi o primeiro grande poeta posterior aos movimentos que inauguraram o modernismo brasileiro.
Palavras de Carlos Drummond de Andrade:
“Há duas épocas na vida, infância e velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons.”
A Máquina do Mundo
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,
a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel,
se cerrava semelhante a essas flores reticentes
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
Carlos Drummond de Andrade, in “Claro Enigma”.
Carta de Eça de Queirós a Oliveira Martins
(…) Antes que me esqueça: anuncia, peço-te, a aparição de “Os Maias”, que se devem pôr à venda a 15 ou a 20.
(…) E se for a tempo, podes transcrever um pedaço no Repórter.
Os Maias saíram uma coisa extensa e sobrecarregada, em dois grossos volumes! Mas há episódios bastante toleráveis. Folheia-os, porque os dois tomos são volumosos de mais para ler. Recomendo-te as cem primeiras páginas; certa ida a Sintra; as corridas; o desafio; a cena no jornal A Tarde; e, sobretudo, o sarau literário.
Basta ler isso, e já não é pouco. Indico-te, para não andares a procurar através daquele imenso maço de prosa. (…)
Bristol, 12 Junho 1888
A filha do lavrador
Era uma vez um príncipe; todas as vezes que vinha lavar-se à varanda do seu quarto, via defronte a filha de um lavrador, que era muito linda. Ora naquele tempo a verdadeira nobreza era a dos lavradores, e por isso o príncipe falava para ela, e dizia:
– Deus vos salve, filha de lavrador.
E ela respondia:
– E a vós, príncipe e real senhor.
Ele conversava para ela, e perguntou-lhe se não queria encontrar-se na grande feira do ano, que se fazia? Ela disse que não, mas pediu licença ao pai, foi adiante e meteu-se no quarto da estalagem onde havia de pernoitar o príncipe. Quando disseram ao príncipe que estava ali uma mulher, ele respondeu:
– É o mesmo.
Entrou para o quarto; viu uma moça muito linda, mas não a conheceu. Apagou a luz e ficaram toda a noite juntos. Pela manhã muito cedo ela arranjou-se para partir, e o príncipe perguntou-lhe o que é que ela queria em lembrança daquela noite; ela pediu-lhe a espada. O príncipe não teve remédio senão dar-lha. Passados dias, o príncipe fez os mesmos cumprimentos:
– Deus vos salve, filha de lavrador.
– E a vós também, real senhor.
– Então a menina não vai amanhã à romaria, para se encontrar lá comigo?
Ela disse que não, mas foi adiante e com tal jeito que ficou no lugar onde o príncipe tinha de dormir aquela noite. Ora já se tinha passado muito tempo, e a filha do lavrador tinha tido às escondidas um menino, que estava a criar e era o retrato do príncipe. Desta vez as coisas passaram-se como da outra, e quando foi pela manhã cedo, o príncipe disse-lhe que pedisse o que queria, e ela disse que só queria o cinto que ele usava.
Já se sabe, veio a ter outro menino. Foi ainda uma terceira vez convidada para um grande arraial, e ela lá se encontrou com o príncipe sem ele saber que era a filha do lavrador. Desta vez também lhe perguntou o que é que ela queria, e a moça pediu-lhe o relógio. Passado o tempo também teve uma menina, que pôs a criar com os outros dois filhos do príncipe.
Um dia disse ele:
– Filha de lavrador, vou-me casar. Não queres vir à minha boda?
Ela disse que não; mas no dia do casamento entrou pelo palácio dentro com os três meninos, um com a espada, outro com o cinto, e a menina com o relógio. Deixaram-na entrar, e ela foi para a mesa. O príncipe conheceu aquelas três prendas que dera, sem saber a quem, e viu que os meninos eram o seu retrato. No fim do jantar disse que cada um havia de contar a sua história, e que ele é que começaria. Disse então:
– Um dia um homem perdeu uma chave de ouro, e arranjou uma de prata para servir-se; mas aconteceu achar outra vez a chave que tinha perdido, e agora quero que os senhores me digam de qual delas se deve servir daqui em diante, da de ouro ou da de prata?
Disseram todos:
– Da chave de ouro! Da primeira.
O príncipe levantou-se, e foi buscar a filha do lavrador, que estava a um canto da mesa, e disse:
– A esta é que tomo por mulher; e estes infantes são os meus filhos, que eu tinha perdido.
A festa continuou muito alegre, e dali se foram a receber com grandes alegrias.
Contos Tradicionais do Povo Português por Teófilo Braga
Ferreira Gullar (São Luís, Maranhão, Brasil, 1930).
Poeta, dramaturgo, tradutor e ensaísta recebeu, numa cerimónia realizada no Rio de Janeiro, Brasil, o Prémio Camões.
Instituído pelos governos português e brasileiro em 1988, o Prémio Camões distingue, anualmente, um autor que, pelo conjunto da sua obra, tenha contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua portuguesa.
Gullar foi um dos subscritores do “Movimento Neoconcreto”, que surgiu como reacção ao concretismo ortodoxo.
Foi o autor de dois dos maiores poemas brasileiros: Poema Sujo e Uma Fotografia Aérea.
Palavras de Ferreira Gullar:
“Somos todos irmãos, não porque dividamos, o mesmo teto e a mesma mesa: divisamos a mesma espada, sobre nossa cabeça.”
Não há vagas
O preço do feijão
não cabe no poema.
O preço do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão nas oficinas escuras
– porque o poema, senhores,
está fechado: “não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede nem cheira
Ferreira Gullar
Gago Coutinho (Lisboa, Portugal, 1869 – 1959) foi geógrafo, navegador, historiador e oficial da Marinha Portuguesa.
Sacadura Cabral (Celorico da Beira, Portugal, 1881 – Mar do Norte, Oceano Atlântico, 1924) foi aviador e oficial da Marinha Portuguesa. Faleceu quando voava em direção a Lisboa, pilotando um avião que se despenhou.
Para comemorar o Centenário da Independência do Brasil, Gago Coutinho e Sacadura Cabral partiram de Lisboa, a 30 de Março de 1922, no hidroavião monomotor “Lusitânia”, para a primeira travessia aérea do Atlântico, rumo ao Rio de Janeiro, onde chegaram a 17 de Junho.
Foram aclamados entusiasticamente pelos brasileiros e portugueses que os esperavam na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro.
Ficou provada a importância e a eficácia do sextante, aperfeiçoado por Gago Coutinho com a ajuda de Sacadura Cabral.
Percorreram mais de 4.527 milhas marítimas, perfazendo um tempo de voo total de 62 horas e 26 minutos.
“Lusitânia” à partida para a travessia do Atlântico Sul”