“A Paixão que Veio do Frio”

“A Paixão que Veio do Frio” na feira setecentista em Queluz. Uma obra que se enquadra num espaço que, traduz ao vivo e a cores o que era sociedade no Séc. XVIII e todo o glamour a ela associada.
Um especial agradecimento à Cristina Alcantara que teve a gentileza de pousar para a foto.

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PARABÉNS, MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE !

 

Manuel Maria Barbosa du Bocage nasceu em Setúbal no dia 15 de Setembro de 1765 e viveu até 21 de Dezembro de 1805.

Nesta homenagem no dia do seu aniversário, o soneto:

 

 

Liberdade querida e suspirada

 

Liberdade querida e suspirada,

Que o Despotismo acérrimo condena;

Liberdade, a meus olhos mais serena,

Que o sereno clarão da madrugada!

 

Atende à minha voz, que geme e brada

Por ver-te, por gozar-te a face amena;

Liberdade gentil, desterra a pena

Em que esta alma infeliz jaz sepultada;

 

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,

Vem, oh consolação da humanidade,

Cujo semblante mais que os astros brilha;

 

Vem, solta-me o grilhão da adversidade;

Dos céus descende, pois dos Céus és filha,

Mãe dos prazeres, doce Liberdade!

 

 

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PARABÉNS, NATÁLIA CORREIA !

Natália Correia nasceu em Fajã de Baixo, São Miguel, Açores, no dia 13 de Setembro de 1923 e viveu até 16 de Março de 1993.

Foi poetisa, dramaturga, ensaísta, romancista, tradutora, deputada.

Nesta homenagem no dia do seu aniversário, o poema:

Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete

E uma alma para ir à escola

E um letreiro que promete

Raízes, hastes e corola.

 

Dão-nos um mapa imaginário

Que tem a forma duma cidade

Mais um relógio e um calendário

Onde não vem a nossa idade.

 

Dão-nos a honra de manequim

Para dar corda à nossa ausência.

Dão-nos o prémio de ser assim

Sem pecado e sem inocência.

 

Dão-nos um barco e um chapéu

Para tirarmos o retrato.

Dão-nos bilhetes para o céu

Levado à cena num teatro.

 

Penteiam-nos os crânios ermos

Com as cabeleiras dos avós

Para jamais nos parecermos

Connosco quando estamos sós.

 

Dão-nos um bolo que é a história

Da nossa história sem enredo

E não nos soa na memória

Outra palavra para o medo.

 

Temos fantasmas tão educados

Que adormecemos no seu ombro

Sonos vazios, despovoados

De personagens do assombro.

 

 

Dão-nos a capa do evangelho

E um pacote de tabaco.

Dão-nos um pente e um espelho

Para pentearmos um macaco.

 

Dão-nos um cravo preso à cabeça

E uma cabeça presa à cintura

Para que o corpo não pareça

A forma da alma que o procura.

 

Dão-nos um esquife feito de ferro

Com embutidos de diamante

Para organizar já o enterro

Do nosso corpo mais adiante.

 

Dão-nos um nome e um jornal,

Um avião e um violino.

Mas não nos dão o animal

Que espeta os cornos no destino.

 

Dão-nos marujos de papelão

Com carimbo no passaporte.

Por isso a nossa dimensão

Não é a vida. Nem é a morte.

 

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PARABÉNS, AQUILINO RIBEIRO !

Aquilino Ribeiro nasceu em Carregal da Tabosa no dia 13 de Setembro de 1885 e viveu até 27 de Maio de 1963.

É considerado o maior prosador português do século XX.

Opiniões sobre Aquilino Ribeiro:

– “Conheci em Aquilino Ribeiro, de quem me prezo de ter sido amigo e de quem continuo, cada vez mais, com o passar dos anos e as sucessivas leituras, rendido admirador”. (Mário Soares).

– “A força plástica e musical do mundo aquiliniano é admirável.
A serra portuguesa, a aldeia patriarcal, o rebanho transumante, vivem nos seus livros como a vida flamenga e holandesa nos quadros dos grandes pintores dos Países Baixos”. (Vitorino Nemésio).

– “É um inimigo do Regime. Dir-lhe-á mal de mim; mas não importa: é um grande escritor.” (António de Oliveira Salazar).

Nesta homenagem no dia do seu aniversário, um excerto do livro “VOLFRÂMIO”:

(…) “As aldeias esvaziavam-se, mal nascia o dia, por montes e vales em busca de volfro, como é de supor que andassem os hebreus no deserto, em busca de maná. Eram substâncias análogas no transcendente e no destino; caíam imprevistamente do céu e vinham matar a fome a multidões igualmente famintas. Todas as canseiras eram dadas por muito bem empregadas se à noite a sombra vágula, dobrada para terra, trouxesse na cova da mão duas areias de oiro negro. Num plano superior, todas as poucas-vergonhas eram desculpadas dado que conduzissem ao enriquecimento. Formava-se uma moral nova com a nova indústria. Dolo, roubo, mentira, falsidade, desde que constituíssem processos de promover o negócio do volfrâmio, tornavam-se ordinários, por conseguinte de prática corrente, discutível ainda, mas admitida. Resultava de tal consenso que procuravam todos empulhar-se uns aos outros o mais conspicuamente possível, e que falsificar o minério, fritando-o, desencantando-lhe substitutos falaciosos, era um recurso industrial como outro qualquer”. (…)

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Retalhos da Vida de uma Mulher

 

 

 

Um Livro que continua e entrar no coração dos leitores. Obrigado a todos os que me enviaram de todo o lado as suas opiniões e críticas.

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Exultação do direito à Indignação, ao Ódio e à Revolta

Exultação do direito à Indignação, ao Ódio e à Revolta

O PRETO E O VERMELHO

O PRETO

Na tarde solarenga do Outono, ali por altura do inicio da avenida da Liberdade, na esplanada, um velho amigo poeta escrevinhava versos num pedaço de papel; pelo “rabo do olho” espreitava a insistência do jovem esguio que não lhe tirava os olhos de cima, e da jovem bonita e magra, mesmo escanzelada, de olhar choroso, que a seu lado falava baixinho, tipo súplica, e que, de igual modo, também não lhe tirava o olhar de cima. O jovem passeou-se uns tempos de cá para lá, afastado da companheira, e continuava a olhar. Depois, num rasgo de decisão, pediu licença e, sem esperar permissão, sentou-se na mesa, à sua frente. De olhos encharcados de água das lágrimas, disse-lhe: “O amigo parece-me uma pessoa decente, por isso o escolhi. Eu e a minha mulher estamos desempregados e não comemos há cinco dias. Não nos resta outra decisão: Ou isto ou a morte à fome. Não quer ir para a cama com ela, a troco de algum dinheiro ou de comida?”

O Zé remoeu para dentro de si um nó que lhe apertou na garganta; por segundos, apenas olhou o moço. O Poeta não é um fingidor. Tem dignidade e sofre com a dor dos outros. Por vezes até se mete na pele da dor alheia, se é que a dor não é de todos. Disse-lhe: “Nunca, meu amigo! Eu não me aproveito do infortúnio de quem sofre! Fazemos assim, – continuou o Zé, – dou-lhe metade do dinheiro que trago comigo. Vai dar para algumas refeições. Apareça por aí se não conseguir resolver o seu problema, continuarei a ajudar no que puder.” O outro respondeu-lhe: “Obrigado, meu amigo: O senhor nem parece português!”

Isto aconteceu pouco tempo passado o fim da noite escura dos nossos tormentos; faz umas dezenas de anos, quando, num rasgo de despertar da consciência, o Sol drapejou os seus raios dourados sobre a terra portuguesa, como se Deus nos pedisse perdão por nos ignorar tantos e tantos anos. Foi quando o Altíssimo percebeu enfim, que quem Invocou o Seu Nome em Vão, não foi o Povo, mas sim quem mandou no Povo.

Por esse tempo eu calcorreava terras alentejanas, com este meu mau feitio, este jeito (que ainda me sobra), de querer endireitar o Mundo à força de pernas; ainda hoje não entendo porque não pode ser assim, desta maneira. Cavalga-se o Mundo e, pronto, com força de pernas, e mesmo sem estribo onde a gente se firme, dá-se um torçãozinho para a esquerda e pronto, a coisa lá se compõem a contento…

Existiam desaforos lá em baixo, não é exagero ou mentira dizer; e muitos, de mistura com o vento Suão a chegar cansado dos desertos do Norte de África; desaforos de arrepiar a espinha a qualquer um.

O boi de cobrição que a comissão de trabalhadores da herdade ocupada considerou um “facho” de primeira, que passava a vida sem trabalhar e só pensava em vacas. Quando lhe assentaram a canga no lombo lustroso, pouco tempo durou; terá sido um AVC? Quem sabe, os maus hábitos são como as disciplinas, ou vêm de longa data, ou são intragáveis. Vinham ciganos espanhóis para receber rendimentos mínimos, e os ciganos portugueses e os seus primos da Espanha dedicavam-se ao desporto da ocupação de casas, mesmo habitadas por velhotes que toda a vida trabalharam, e até nós, os da brigada técnica, demos às de” Vila Diogo” com o taquímetro às costas, quando uma vasta mão cheia de populares nos saiu ao caminho, quando trabalhávamos junto à muralha do Castelo, a gritar que “estávamos a tomar decisões nas costas do Povo” que é sempre quem mais ordena, (à época, claro). Pois, tudo isto deu má nome à terra e ao Povo. Gente danada, a gastar à “barba longa” o dinheiro que a ditadura levou tantos anos a amealhar, deixando o Povo na miséria. E até nas herdades da Reforma Agrária os trabalhadores se insurgiam contra as comissões de dirigentes, porque lhes pagavam muito menos do que recebiam com os antigos proprietários. De tudo eu dou conta e considero como certo. Foi assim, meus caros, sem tirar nem pôr, verdade verdadinha!

Nunca alguém pensou na imbecilizarão forçada imposta pela ditadura; o ensino, meus caros, o ensino em que se aprendia o nome de Salazar antes de saber escrever pai ou mãe, a história aldrabada das grandes vitórias, as tretas dos heróis que matam todos só com o mostrar dos dentes, (podres, claro, como marca registada da imensa Pátria portuguesa); minha gente, eu ficava sim espantado se, na altura, naquele pedaço do Alentejo profundo, suado de Estios escaldantes, os homens fossem mais esclarecidos e mais humanos; os homens de então eram o que deles fizeram, e ainda hoje as coisas se passam dessa maneira!

Até que, no princípio das manhãs quentes, trazidas pela luz primordial do Sol, àquela terra selvagem chegou a razão das MENTES BRILHANTES; vieram no silêncio pouco importante de quem se mostra de mansinho, de quem se insinua, de quem prega certezas indiscutíveis, mas nunca provadas.

Hoje, passados que são trinta e cinco anos de domínio a bom dizer perto do absoluto, dessas mentes, (e ainda que reconheça a crise que afecta o mundo), é chegado o momento de fazer o ponto da situação.

Bill Clinton pôs o “dedo na ferida” quando, em defesa de Obama, fez uma simples pergunta aos americanos: “Hoje, estamos a viver melhor ou estamos a viver pior?” Esta a questão que é primordial fazer aos cidadãos eleitores; sim, porque, no meu entender, quando somos chamados às urnas, e, (independente das crises), o objectivo dos eleitores são sempre melhorar de vida, e nunca escutar uma ladainha infindável de choramingas a reclamar vingança contra os que governaram na anterior legislatura. Aumento de impostos e carestia de vida, pela simples razão que recebemos, sem o saber, um País endividado até ao tutano do osso. Como é possível? Então eles, como oposição por obrigação bem informada, não sabiam minimamente o estado das contas? E como é possível que, de eleição para eleição, o argumento de quem sobe ao poder é sempre o mesmo? Afinal, o brilhantismo dessas mentes, que se consubstanciam nos partidos hoje ditos da área da governação, os Socialistas, os Sociais-democratas e os Centristas, ou está embaciado e anquilosado pela estupidez, ou se baseia apenas e somente na necessidade que resulta da incompetência, de, na sua qualidade única de sanguessugas, viverem sempre à custa do trabalho árduo do Povo, através das suas Parcerias Publicas Privadas, das suas Fundações, das esmolas que recebem pelos favores feitos aos bancos, da venda do património nacional ao estrangeiro, dos jogos na bolsa, e de todo tipo de alarvidades que ao seu espírito doentio ocorrem.

Hoje somos governados por um ASNO que é entendido em NADA, e que se apoia num bando de IDIOTAS que exibem títulos académicos que não têm; vivemos a noite tenebrosa da nossa mediocridade.

Lembro-me de, tempos atrás, numa conversa de rua, quando dizia a uma cidadã que, para ter mais disto era preferível não votar, ela responder-me: “como não votar? Se não voto nos meus os outros votam nos deles!” Bom, esta mentalidade primária, demonstra que em Portugal se vê nos partidos, não sistemas ideológicos diferentes mas com um objectivo comum, o bem da sociedade, mas sim clubes de futebol e, pior, o clube lá da terra a que se pertence por mera tradição!

Quantos mais rapazes, (que podem bem ser os nossos filhos ou netos), se vão chegar ao Poeta pobre a oferecer-lhe a mulher a troco de moedas, (trocos) ou de pão? E quantos poetas Ricos não vão aproveitar-se da miséria alheia?

A tenebrosa noite da nossa miséria moral começou quando alguém, (hoje sem dúvida importante), vendeu os nossos meios de produção para construir estradas onde já os carros não passam; hoje o nosso eterno ódio floresce no jardim da alma; na noite sem lua e sem estrelas, a terra da Pátria destila raiva, indignação e ódio. Somos um povo doente. Acontece sempre que se recua na Civilização. É como se voltássemos a não compreender como e porquê o fogo nos queima as mãos.

Não somos um povo de corruptos, diz uma procuradora adjunta ao catequizar pela bíblia da pobreza mental os jovens da juventude do seu partido. Fico perplexo. Então o círculo não é quadrado, a água corre a negar a gravidade, e a poderosa banca da Suíça está na falência! Pasmo. Que o meu deus da lógica me acuda! Então a banca Suíça só é alimentada pelos depósitos dos corruptos gregos? Então e os corruptos portugueses, os espanhóis, e tantos outros? Bom, se uma pessoa importante diz que não existe, quem sou eu, um simples ignorante, para desdizer?

E desta noite tenebrosa que se adensa, os vapores do ódio entram-nos pelos poros da pele, pela respiração que vai sendo lenta à medida que o cansaço nos atira para o regaço do sono…

E O VERMELHO

Acordei na manhã tépida, quando a luz do dia me feriu os olhos. Luz estranha. Luz vermelha. Olho as mãos e estão vermelhas, escorrem um líquido pegajoso que provo com a ponta da língua. É sangue. O quarto, a cama, a companheira, o chão, tudo escorre sangue.

Vou à janela. Os prédios, os passeios, o asfalto, as árvores e até o Céu escorrem sangue. No jardim vislumbro o nosso saudoso Mário Viegas, esse Génio da Cultura Esquecida que joga à bola com cabeças ensanguentadas. Vejo o Dantas, os Cavacos e as Cavacas, os Seguros e os Sócrates, os Coelhos, os Relvas, e tantos, tantos outros, cujos nomes, por insignificantes, há muito que esqueci.

Estou calmo, eu, que não posso ver sangue. É então que percebo. Sonho ou realidade, aquele sangue é remédio que acalma, que faz sossegar o espírito atormentado pela dor minha e dos outros. Volto para a cama, cobro-me com o lençol ensanguentado e, enfim, acalmo e refugio-me nos braços do sonho…

José Solá

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PARABÉNS, ANTÓNIO SARDINHA !

António Sardinha nasceu em Monforte no dia 9 de Setembro de 1887 e viveu até 10 de Janeiro de 1925.

Foi poeta, historiador e político.

Nesta homenagem no dia do seu aniversário, o poema:

 

 

      MEMÓRIA

 

Meu coração de lusitano antigo

bateu às portas de Toledo, a estranha.

Mais roto e ensanguentado que um mendigo.

só a saudade as passos lhe acompanha.

 

Pois a saudade ali me deu abrigo.

ao pé do Tejo que a Toledo banha.

Levava os dias a falar comigo,

como um pastor com outro na montanha.

 

Em todo o mundo há terra portuguesa,

desde que a alma a tenha na lembrança

e a sirva sempre com fervor igual.

 

Talvez por isso, em horas de tristeza,

eu pude à sua amada semelhança

criar p’ra mim um novo Portugal!

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QUANTO A PROFESSORES

QUANTO A PROFESSORES

Não são os professores que estão a mais, meu caro senhor ministro, mas sim os meios de produção de que dispomos que estão a menos, para que Portugal possa pagar um sistema de ensino de qualidade.

Se temos alguns professores de má qualidade, ou impreparados, ai é outro assunto, mas mesmo que seja essa a questão, nunca a vamos conseguir resolver sem mais (e melhores) meios de produção, para os colocar nas áreas em que sejam úteis; as pessoas querem simplesmente viver e ser úteis, o que me leva a concluir que são Vossas Excelências que estão a mais, na medida em que tentam, por todos os meios, impedir este povo de produzir, ter futuro, e, assim, viver e ser feliz.

Sabe que, em determinadas sociedades, os alunos com maiores dificuldades de aprendizagem, assim como os que mais se distinguem, podem ter direito a professores individuais?É, (pode crer), a melhor maneira de excluir da sociedade os frustrados e os relvas…

Conhece a frase: “branco é galinha o pôs?) Significa a evidência das coisas; eu pergunto-lhe, quem endividou desta forma o País? As pessoas que trabalharam uma vida ou os políticos de consciência “minúscula”? Essa a questão…

Porque não esclarecem o Povo que tem passado a vida a pagar, (sem saber) as vossas dividas e os vossos maus negócios? A primeira banca rota não foi no tempo do ouro do Brasil? São séculos de incompetência, meu caro senhor, séculos…

No entanto, em muitas questões, (como no caso dos exames), estamos de acordo; mas, quanto ao resto, não…

José Solá

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PARABÉNS, CAMILO PESSANHA !

Camilo Pessanha nasceu em Coimbra no dia 7 de Setembro de 1867 e viveu até 1 de Março de 1926.

Foi o poeta mais importante do Simbolismo português.

Nesta homenagem no dia do seu aniversário, o poema:

 Estátua

Cansei-me de tentar o teu segredo:

No teu olhar sem cor, de frio escalpelo,

O meu olhar quebrei, a debatê-lo,

Como a onda na crista dum rochedo.

Segredo dessa alma e meu degredo

E minha obsessão! Para bebê-lo

Fui teu lábio oscular, num pesadelo,

Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, alucinado,

Esfriou sobre o mármore correto

Desse entreaberto lábio gelado…

Desse lábio de mármore, discreto,

Severo como um túmulo fechado,

Sereno como um pélago quieto.

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PARABÉNS, PEDRO HOMEM DE MELLO !

 

Pedro Homem de Mello nasceu no Porto no dia 6 de Setembro de 1904 e viveu até 5 de Março de 1984.

Foi professor, poeta e um estudioso do folclore português.

Nesta homenagem no dia do seu aniversário, o poema:

Povo

 

Povo que lavas no rio,

Que vais às feiras e à tenda,

Que talhas com teu machado

As tábuas do meu caixão,

Pode haver quem te defenda,

Quem turve o teu ar sadio,

Quem compre o teu chão sagrado,

Mas a tua vida, não!

 

Meu cravo branco na orelha!

Minha camélia vermelha!

Meu verde manjericão!

Ó natureza vadia!

Vejo uma fotografia…

Mas a tua vida, não!

 

Fui ter à mesa redonda,

Bebendo em malga que esconda

O beijo, de mão em mão…

Água pura, fruto agreste,

Fora o vinho que me deste,

Mas a tua vida, não!

 

Procissões de praia e monte,

Areais, píncaros, passos

Atrás dos quais os meus vão!

Que é dos cântaros da fonte?

Guardo o jeito desses braços…

Mas a tua vida, não!

 

Aromas de urze e de lama!

Dormi com eles na cama…

Tive a mesma condição.

Bruxas e lobas, estrelas!

Tive o dom de conhecê-las…

Mas a tua vida, não!

 

Subi às frias montanhas,

Pelas veredas estranhas

Onde os meus olhos estão.

Rasguei certo corpo ao meio…

Vi certa curva em teu seio…

Mas a tua vida, não!

 

Só tu! Só tu és verdade!

Quando o remorso me invade

E me leva à confissão…

Povo! Povo! eu te pertenço.

Deste-me alturas de incenso,

Mas a tua vida, não!

 

Povo que lavas no rio,

Que vais às feiras e à tenda,

Que talhas com teu machado,

As tábuas do meu caixão,

Pode haver quem te defenda,

Quem turve o teu ar sadio,

Quem compre o teu chão sagrado,

Mas a tua vida, não!

 

 

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