Exultação do direito à Indignação, ao Ódio e à Revolta

Exultação do direito à Indignação, ao Ódio e à Revolta

O PRETO E O VERMELHO

O PRETO

Na tarde solarenga do Outono, ali por altura do inicio da avenida da Liberdade, na esplanada, um velho amigo poeta escrevinhava versos num pedaço de papel; pelo “rabo do olho” espreitava a insistência do jovem esguio que não lhe tirava os olhos de cima, e da jovem bonita e magra, mesmo escanzelada, de olhar choroso, que a seu lado falava baixinho, tipo súplica, e que, de igual modo, também não lhe tirava o olhar de cima. O jovem passeou-se uns tempos de cá para lá, afastado da companheira, e continuava a olhar. Depois, num rasgo de decisão, pediu licença e, sem esperar permissão, sentou-se na mesa, à sua frente. De olhos encharcados de água das lágrimas, disse-lhe: “O amigo parece-me uma pessoa decente, por isso o escolhi. Eu e a minha mulher estamos desempregados e não comemos há cinco dias. Não nos resta outra decisão: Ou isto ou a morte à fome. Não quer ir para a cama com ela, a troco de algum dinheiro ou de comida?”

O Zé remoeu para dentro de si um nó que lhe apertou na garganta; por segundos, apenas olhou o moço. O Poeta não é um fingidor. Tem dignidade e sofre com a dor dos outros. Por vezes até se mete na pele da dor alheia, se é que a dor não é de todos. Disse-lhe: “Nunca, meu amigo! Eu não me aproveito do infortúnio de quem sofre! Fazemos assim, – continuou o Zé, – dou-lhe metade do dinheiro que trago comigo. Vai dar para algumas refeições. Apareça por aí se não conseguir resolver o seu problema, continuarei a ajudar no que puder.” O outro respondeu-lhe: “Obrigado, meu amigo: O senhor nem parece português!”

Isto aconteceu pouco tempo passado o fim da noite escura dos nossos tormentos; faz umas dezenas de anos, quando, num rasgo de despertar da consciência, o Sol drapejou os seus raios dourados sobre a terra portuguesa, como se Deus nos pedisse perdão por nos ignorar tantos e tantos anos. Foi quando o Altíssimo percebeu enfim, que quem Invocou o Seu Nome em Vão, não foi o Povo, mas sim quem mandou no Povo.

Por esse tempo eu calcorreava terras alentejanas, com este meu mau feitio, este jeito (que ainda me sobra), de querer endireitar o Mundo à força de pernas; ainda hoje não entendo porque não pode ser assim, desta maneira. Cavalga-se o Mundo e, pronto, com força de pernas, e mesmo sem estribo onde a gente se firme, dá-se um torçãozinho para a esquerda e pronto, a coisa lá se compõem a contento…

Existiam desaforos lá em baixo, não é exagero ou mentira dizer; e muitos, de mistura com o vento Suão a chegar cansado dos desertos do Norte de África; desaforos de arrepiar a espinha a qualquer um.

O boi de cobrição que a comissão de trabalhadores da herdade ocupada considerou um “facho” de primeira, que passava a vida sem trabalhar e só pensava em vacas. Quando lhe assentaram a canga no lombo lustroso, pouco tempo durou; terá sido um AVC? Quem sabe, os maus hábitos são como as disciplinas, ou vêm de longa data, ou são intragáveis. Vinham ciganos espanhóis para receber rendimentos mínimos, e os ciganos portugueses e os seus primos da Espanha dedicavam-se ao desporto da ocupação de casas, mesmo habitadas por velhotes que toda a vida trabalharam, e até nós, os da brigada técnica, demos às de” Vila Diogo” com o taquímetro às costas, quando uma vasta mão cheia de populares nos saiu ao caminho, quando trabalhávamos junto à muralha do Castelo, a gritar que “estávamos a tomar decisões nas costas do Povo” que é sempre quem mais ordena, (à época, claro). Pois, tudo isto deu má nome à terra e ao Povo. Gente danada, a gastar à “barba longa” o dinheiro que a ditadura levou tantos anos a amealhar, deixando o Povo na miséria. E até nas herdades da Reforma Agrária os trabalhadores se insurgiam contra as comissões de dirigentes, porque lhes pagavam muito menos do que recebiam com os antigos proprietários. De tudo eu dou conta e considero como certo. Foi assim, meus caros, sem tirar nem pôr, verdade verdadinha!

Nunca alguém pensou na imbecilizarão forçada imposta pela ditadura; o ensino, meus caros, o ensino em que se aprendia o nome de Salazar antes de saber escrever pai ou mãe, a história aldrabada das grandes vitórias, as tretas dos heróis que matam todos só com o mostrar dos dentes, (podres, claro, como marca registada da imensa Pátria portuguesa); minha gente, eu ficava sim espantado se, na altura, naquele pedaço do Alentejo profundo, suado de Estios escaldantes, os homens fossem mais esclarecidos e mais humanos; os homens de então eram o que deles fizeram, e ainda hoje as coisas se passam dessa maneira!

Até que, no princípio das manhãs quentes, trazidas pela luz primordial do Sol, àquela terra selvagem chegou a razão das MENTES BRILHANTES; vieram no silêncio pouco importante de quem se mostra de mansinho, de quem se insinua, de quem prega certezas indiscutíveis, mas nunca provadas.

Hoje, passados que são trinta e cinco anos de domínio a bom dizer perto do absoluto, dessas mentes, (e ainda que reconheça a crise que afecta o mundo), é chegado o momento de fazer o ponto da situação.

Bill Clinton pôs o “dedo na ferida” quando, em defesa de Obama, fez uma simples pergunta aos americanos: “Hoje, estamos a viver melhor ou estamos a viver pior?” Esta a questão que é primordial fazer aos cidadãos eleitores; sim, porque, no meu entender, quando somos chamados às urnas, e, (independente das crises), o objectivo dos eleitores são sempre melhorar de vida, e nunca escutar uma ladainha infindável de choramingas a reclamar vingança contra os que governaram na anterior legislatura. Aumento de impostos e carestia de vida, pela simples razão que recebemos, sem o saber, um País endividado até ao tutano do osso. Como é possível? Então eles, como oposição por obrigação bem informada, não sabiam minimamente o estado das contas? E como é possível que, de eleição para eleição, o argumento de quem sobe ao poder é sempre o mesmo? Afinal, o brilhantismo dessas mentes, que se consubstanciam nos partidos hoje ditos da área da governação, os Socialistas, os Sociais-democratas e os Centristas, ou está embaciado e anquilosado pela estupidez, ou se baseia apenas e somente na necessidade que resulta da incompetência, de, na sua qualidade única de sanguessugas, viverem sempre à custa do trabalho árduo do Povo, através das suas Parcerias Publicas Privadas, das suas Fundações, das esmolas que recebem pelos favores feitos aos bancos, da venda do património nacional ao estrangeiro, dos jogos na bolsa, e de todo tipo de alarvidades que ao seu espírito doentio ocorrem.

Hoje somos governados por um ASNO que é entendido em NADA, e que se apoia num bando de IDIOTAS que exibem títulos académicos que não têm; vivemos a noite tenebrosa da nossa mediocridade.

Lembro-me de, tempos atrás, numa conversa de rua, quando dizia a uma cidadã que, para ter mais disto era preferível não votar, ela responder-me: “como não votar? Se não voto nos meus os outros votam nos deles!” Bom, esta mentalidade primária, demonstra que em Portugal se vê nos partidos, não sistemas ideológicos diferentes mas com um objectivo comum, o bem da sociedade, mas sim clubes de futebol e, pior, o clube lá da terra a que se pertence por mera tradição!

Quantos mais rapazes, (que podem bem ser os nossos filhos ou netos), se vão chegar ao Poeta pobre a oferecer-lhe a mulher a troco de moedas, (trocos) ou de pão? E quantos poetas Ricos não vão aproveitar-se da miséria alheia?

A tenebrosa noite da nossa miséria moral começou quando alguém, (hoje sem dúvida importante), vendeu os nossos meios de produção para construir estradas onde já os carros não passam; hoje o nosso eterno ódio floresce no jardim da alma; na noite sem lua e sem estrelas, a terra da Pátria destila raiva, indignação e ódio. Somos um povo doente. Acontece sempre que se recua na Civilização. É como se voltássemos a não compreender como e porquê o fogo nos queima as mãos.

Não somos um povo de corruptos, diz uma procuradora adjunta ao catequizar pela bíblia da pobreza mental os jovens da juventude do seu partido. Fico perplexo. Então o círculo não é quadrado, a água corre a negar a gravidade, e a poderosa banca da Suíça está na falência! Pasmo. Que o meu deus da lógica me acuda! Então a banca Suíça só é alimentada pelos depósitos dos corruptos gregos? Então e os corruptos portugueses, os espanhóis, e tantos outros? Bom, se uma pessoa importante diz que não existe, quem sou eu, um simples ignorante, para desdizer?

E desta noite tenebrosa que se adensa, os vapores do ódio entram-nos pelos poros da pele, pela respiração que vai sendo lenta à medida que o cansaço nos atira para o regaço do sono…

E O VERMELHO

Acordei na manhã tépida, quando a luz do dia me feriu os olhos. Luz estranha. Luz vermelha. Olho as mãos e estão vermelhas, escorrem um líquido pegajoso que provo com a ponta da língua. É sangue. O quarto, a cama, a companheira, o chão, tudo escorre sangue.

Vou à janela. Os prédios, os passeios, o asfalto, as árvores e até o Céu escorrem sangue. No jardim vislumbro o nosso saudoso Mário Viegas, esse Génio da Cultura Esquecida que joga à bola com cabeças ensanguentadas. Vejo o Dantas, os Cavacos e as Cavacas, os Seguros e os Sócrates, os Coelhos, os Relvas, e tantos, tantos outros, cujos nomes, por insignificantes, há muito que esqueci.

Estou calmo, eu, que não posso ver sangue. É então que percebo. Sonho ou realidade, aquele sangue é remédio que acalma, que faz sossegar o espírito atormentado pela dor minha e dos outros. Volto para a cama, cobro-me com o lençol ensanguentado e, enfim, acalmo e refugio-me nos braços do sonho…

José Solá

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Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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2 respostas a Exultação do direito à Indignação, ao Ódio e à Revolta

  1. Li-o a galope, exactamente com a rapidez com que respondo aos sonetilhos-comentários do meu blog, sem tempo, sem me dar ao luxo de interiorizar o que lia porque o texto gritava por uma leitura asolutamente inadiável. Vou ter de o reler. Comento apenas o resultado de uma leitura feita de pele e nervos…

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  2. jsola02 diz:

    Obrigado! É que dizem por aí que eu só falo mal de tudo. Obrigado por perceber que não é assim!

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