OS HOMENS SEM PÉ NO SEU TEMPO

“Neste trágico século vinte, sem qualquer sério conteúdo ideológico, sem nenhuma espécie de grandeza fora do visceral e do somático, todo feito de records orgânicos e de conquistas dimensionais, que serenidade interior poderá ter alguém alicerçado em valores religiosos, estéticos, morais, ou outros? Nenhuma. Entre o abismo da sua impossibilidade natural de deixar de ser o que é, e a muralha que o separa inexoravelmente do plaino onde se move e se justifica a multidão circundante, o desgraçado é como aquelas algas desenraizadas que o mar atira impiedosamente à terra, e que a terra devolve impiedosamente ao mar. É claro que na maior parte das vezes a pobre alga protesta. Todos se devem lembrar de Romain Rolland* a erguer a voz impotente contra a guerra de 14. Sabemos o que valeu o seu grito. Foi só o tempo de disparar o primeiro canhão. O protesto, como um gemido inútil, ficou à retaguarda, abafado pelo estrépito dos que passavam. É a eterna e triste lei das realidades. Tão eterna e tão triste, que até passando do individual para o colectivo ela é verdadeira.
Veja-se o caso em relação a dois continentes, a Europa e a América, por exemplo.
Teima a Europa, culta, velha, experiente, mas anacrónica, em que a vida dos povos é sobretudo história. Que, por isso, o facho da autêntica civilização é seu, e só na sua posse deve caminhar. Tudo verdades como punhos. Mas o certo é que o facho lhe está dia-a-dia a morrer nas mãos e a passar para as mãos selvagens dos seus colonos. Com a mesma luminosidade? Evidentemente que não, mas que importa? A vida não se move por acções lógicas. Move-se por imponderáveis, e sobretudo pela força dos factores. O homem que o nosso século pede não é o que lê, o que se aprofunda a cavar em si. É um ser biológico perfeito, no sentido corpóreo e psíquico duma abelha. A natureza dos favos é variável, claro está, conforme as necessidades de cada hora. Há pouco tempo ainda era um simples e inofensivo automóvel; neste momento o casulo é um tanque ou um avião. Por isso, a que propósito seria qualquer céptico em matéria de parafusos um representante actual da nossa civilização? Ver uma Grécia escrava de Roma é tão natural como ver um Unamuno** perdido na Espanha de 36.

Miguel Torga

Notas:

*Romain Rolland foi um escritor francês, Prémio Nobel da Literatura de 1915.

**Miguel Unamuno, escritor e filósofo espanhol, reitor da Universidade de Salamanca. Viviam-se os primeiros meses da guerra civil espanhola. Franco e seus aliados ocupavam as principais cidades, torturando os intelectuais e realizando um trágico massacre de civis.

Na abertura solene do ano académico no dia 12 de Outubro de 1936, no Salão Nobre da Universidade, estava presente a cúpula franquista.

Em resposta ao discurso do general Millán Astray, Unamuno, de pé, profere as seguintes palavras:

 – “Me conhecem bem e sabem que não sou capaz de ficar em silêncio. Às vezes, ficar calado é o mesmo que mentir, pois o silêncio pode ser interpretado como aceitação”. (…) “Este é o templo da inteligência! E eu sou o seu supremo sacerdote! Vocês estão profanando o seu recinto sagrado. Sempre fui, apesar do que diz o provérbio, profeta em meu próprio país. Vencereis, mas não convencereis. Vencereis porque possuem a força bruta de sobra. Mas não convencereis, porque convencer significa persuadir. E para persuadir precisam de uma coisa que lhes falta – razão e direito na luta. E parece-me inútil pedir-lhes que pensem na Espanha”.

2 comentários

Entrevista sobre Pagwagaya n’A Rede da Radio

Capa do Livro PagwagayaAmanhã, dia 9, a partir das 23h (Madeira a partir das 20h), vou estar n’A Rede da Rádio, um programa da Antena 1.
Vou falar sobre o meu novo livro Pagwagaya e sobre o que mais a Madalena Balça, a apresentadora do programa me perguntar.
Como ainda não foi gravado não sei exactamente o que vai sair.

Website do livro: http://pagwagaya.armandofrazao.com
A Rede da Rádio no facebook: http://www.facebook.com/arededaradio
E o site próprio: http://www.rtp.pt/programa/radio/p4689
E as frequências: http://www.rtp.pt/antena1/index.php?t=Frequ%EAncias.rtp&article=124&visual=10&headline=14&lyt=21&sk=9

Até lá
Armando Frazão

Deixe um comentário

PORTUGAL ESTÁ A ATRAVESSAR A PIOR CRISE !

Que fazer? Que esperar?
Portugal tem atravessado crises igualmente más: – mas nelas nunca nos faltaram nem homens de valor e carácter, nem dinheiro ou crédito. Hoje crédito não temos, dinheiro também não – pelo menos o Estado não tem: – e homens não os há,
ou os raros que há são postos na sombra pela Política. De sorte que esta crise
me parece a pior – e sem cura.

Eça de Queirós

2 comentários

O cinco de Outubro

O cinco de Outubro

Habituei-me desde muito novo a gritar vivas à República, no dia 5 de Outubro; ia pela mão de um velho republicano, (o mesmo que, nesse dia, em 1910, escalou a fachada da câmara municipal de Vila Real de Santo António, derrubou o símbolo monárquico, a coroa, e içou a nova bandeira da nossa Pátria); uma terra feita pelo querer do POVO, que as mulheres e os homens de ontem, fizeram para nós, os de hoje, novos ou velhos, todos irmanados pelos princípios sagrados da revolução de ontem: FRATERNIDADE, IGUALDADE, LIBERDADE.

Acontecia nos Restauradores, ou junto à estátua do António José de Almeida, ali para os lados do Técnico. E não eram um grupo de velhos decrépitos quem ali se juntava, sobre o olhar tenebroso dos esbirros à paisana da polícia política, os pides. Existiam crianças, como eu, levadas pelas mãos pelos avós, para receberem o testemunho dos sagrados direitos dos Homens de Bem, para mais tarde, os transmitirem às gerações seguintes. Por isso chorei, neste cinco de Outubro, eu, hoje também um velho. Chorei porque, de novo, nos querem submeter às grilhetas da escravatura, nos sufocam o espírito, nos tratam como lixo porta a dentro da nossa casa, a Pátria.

Chorei quando vi uma Cidadã, no pleno uso do exercício dos seus Direitos Constitucionais, que quis questionar o seu Presidente, ser expulsa pelos novos esbirros desta emergente ditadura reaccionária, e o homem de estatura insignificante, e moral duvidosa, que jurou a Constituição da nossa República, nem se dignou interromper o seu discurso oco e sem sentido lógico, totalmente desligado das realidades dramáticas deste injusto presente. O mesmo homem pequeno que nunca se agiganta para proteger o POVO e a Sua Constituição, muito antes pelo contrário, se acobarda e se esconde, perante a crescente e justificada ira do POVO PORTUGUÊS, ferido no mais íntimo do Seu Ser, a Dignidade do seu Bom nome, e o seu legitimo direito a uma vida com felicidade.

Amigos e camaradas: a nossa República morreu. Humilharam-nos. Temos o sagrado direito à Indignação e à revolta!

Abaixo os tiranos! Viva a República!

José Solá

 

Deixe um comentário

PARABÉNS, MARIA LAMAS !

Maria Lamas nasceu em Torres Novas no dia 6 de Outubro de 1893, e viveu até 6 de Dezembro de 1983.

Foi activista política, jornalista, escritora, poetisa, contista e tradutora.

Nesta homenagem no dia do seu aniversário, excertos do livro infantil: “A Estrela do Norte” publicado em 1934.

“Uma vez, estava a tarde muito serena, não se sentia uma aragem, e as flores do jardim pareciam ter mais perfume do que nos outros dias. O mar era tal qual um lago com os tons da madrepérola, e, em vez de ondas, tinha rolozinhos de espuma que vinham correndo, uns atrás dos outros para a praia. (…)

(…) O espírito, porém, inclui a inteligência, o pensamento, faz-nos sentir, compreender, querer bem ou querer mal a alguém e desejar o que nos agrada e tudo o mais que se passa no nosso íntimo. Ninguém o vê, nem nós próprios, mas é uma parte tão importante do nosso ser, que dele depende a nossa personalidade.(…)

(…) Quem não tiver estrela do Norte, terá o espírito às escuras e andará, neste mundo, à toa, como um barco sem leme, ou como um ceguinho que não pode ver a luz.”

Deixe um comentário

HINO NACIONAL – VERSÃO INTEGRAL

I
Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal,
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal! Entre as brumas da memória,
Ó Pátria sente-se a voz
Dos teus egrégios avós,
Que há-de guiar-te à vitória!

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões
marchar, marchar!

II
Desfralda a invicta bandeira
À luz viva do teu céu!
Brade a Europa à terra inteira:
Portugal não pereceu
Beija o solo teu jucundo
O oceano, a rugir d’amor,
E o teu braço vencedor
Deu novos mundos ao Mundo!

Às armas, às armas!
Sobre a terra e sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões
marchar, marchar!

III
Saudai o Sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal de ressurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injúrias da sorte.

Às armas, às armas!
Sobre a terra e sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões
marchar, marchar!

Letra: Henrique Lopes de Mendonça                              

Música: Alfredo Keil                           

Deixe um comentário

 

 
 

Quando Portugal joga.

Parece a chegada do Homem à lua e todo o mundo pára defronte de uma televisão com a cervejinha, os cacahuetes e as bandeiras zelosamente colocadas no alpendre ou na janela.
Um marco, definitivamente, na retoma da crise que nos tem assombrado a todos. Esquece-se, dança-se, come-se, bebe-se e tudo cai na penumbra de uma felicidade ociosa de um ópio moderno e legal. É o sucedâneo das emoções que se viviam nas antigas batalhas em que se lutava pela sobrevivência e pelo território, à falta de outras que não deixem o cérebro e a alma num sono narcoléptico de indiferentes.
Houve, pelo menos, uma pessoa que não se deixou influenciar por esta histeria colectiva. Foi o espectador solitário, que, naquele dia de jogo, preferiu ir ao teatro.
Entristece-me ouvir a nação parada mas aos gritos, vibrando com um espetáculo no qual não participa nem nunca vai participar, na cultura da evasão, um jogo de milhões que, a par da discussão política de taberna, é uma das formas de alienação e de descompromisso com o que está lá fora e com o que está, ou devia estar, dentro de nós.
Falo das pessoas que deixaram de criar, de ter espírito crítico, que se aniquilam ao deixarem imprimir, conduzir, pelo que fazem os outros nas suas vidas públicas, que gerem as modas, as roupas que vestem, os temas que discutem e, por fim, os sonhos que sonham.
Não falo de gostos, falo da nossa tristeza, da nossa nostalgia desse passado que nunca mais volta e que é o subterfúgio do nosso eu despojado. Cada um tem a liberdade de gostar do que quer, quer de música clássica quer de música pimba, ou de outra qualquer, mas não podemos deixar de ver a diferença entre as duas e das mentalidades que as escolhem.
O tema de partida não é o futebol, é qualquer coisa, porque o cerne da questão é, na verdade, o facilitismo, o materialismo, o consumismo desenfreado de ver fazer e não de fazer.
Respeito quem gosta de música clássica, pimba ou outro dos milhentos estilos que existem e quase nascem todos os dias, há espaço para todos, mas vai custar-me sempre a massificação. Vai continuar a custar-me esse espectador solitário, incompreendido, que se calhar há de perder a sua individualidade, como alguns outros já o fizeram, porque parece mal não saber o que se passa no mundo e porque o que se passa no mundo, o mainstream, o que vende, é a uniformização dos Homens. E mais me custa por conhecer de perto esse espectador solitário, que teve o azar de não gostar de futebol, no dia em que o mundo parou em frente de uma televisão, quando lá fora existiam os bosques, o vento e os pirilampos.
 
Ana Brilha
Publicado em por Intermitências da escrita | Deixe um comentário

Já em Novembro…

Para quem gostou de “A Paixão que Veio do Frio”, irá ter em breve a oportunidade de viajar no tempo e sentir nas palavras o que alguém sentiu, se é que se pode sentir na pele algo tão intenso e impensável naqueles tempos….Novembro é o mês em que será desvendado o meu novo romance, assim como o respectivo lançamento! Uma obra que marca uma clivagem…o princípio de um fim, que não se quis….este tema “Run Away” fala um pouco deste meu novo livro…


José Guerra

1 Comentário

PARABÉNS, JOSÉ CARDOSO PIRES !

José Cardoso Pires nasceu em São João do Peso no dia 2 e Outubro de 1925 e viveu até 26 de Outubro de 1998.

Foi escritor, cronista, tradutor, professor, colaborador literário em diversos jornais e revistas.

Nesta homenagem no dia do seu aniversário, um excerto do livro: “O Delfim”, publicado em 1968:

“Tomás, o Avô, deitou contas às cinzas e pôs-se a construir a casa sobre as velhas cavalariças que tinham escapado ao incêndio. Teve de fazê-la mais pequenas, imagine-se o desgosto. Dois andares, escada de pedra no pátio de entrada, varanda corrida, hoje sem grades e apenas três potes gigantescos a guardá-la. “Grades para quê, se não há crianças?” perguntava o Engenheiro quando decidiu transformar a sala grande num estúdio de longas vidraças, aberto sobre o terraço. E assim a casa ficava mais ligada ao vale, mais devassada por ele. Mais triste no inverno, quando a chuva saltitava no cimento da varanda, fustigada pela ventania.
O estúdio. Tudo disposto como na noite das apresentações: cobres nas paredes, uma espingarda antiga em cima da lareira. Eu, caçador em visita, Maria das Mercês no lugar que lhe é próprio (sentada no chão, entre revistas – Elle, Horoscope, Flama), o marido estendido no maple e com um braço pendurado para a bebida que repousa em cima do tapete. Música de fundo, e do gira-discos.”

Deixe um comentário

Se o céu soubesse…

1 Comentário