ADEODATO BARRETO – O Génesis da Mulher

ADEODATO BARRETO

ADEODATO BARRETO (Margão, Goa, Índia, 1905 – Coimbra, Portugal, 1937).

Poeta e escritor, expoente da cultura luso-indiana, foi o introdutor do verso irregular na literatura goense.

Com 18 anos partiu para Portugal, onde se formou em Ciências Histórico-Filosóficas.

Civilização Hindu é considerada a mais relevante obra em prosa de Adeodato Barreto.

O Génesis da Mulher

Deus, logo que fez as flores,
Parou e pôs-se a cismar…
– Falta a flor dos meus amores.
Vou outra flor inventar.

Colheu lírios e boninas,
Rosa… cravo e malmequer,
Mogarins, zaiôs e cravinas…
E fez de tudo a mulher.

Viu, porém, que a nova flor
Era a que mais graça tinha
Disse, então, cheio de amor:
– Não és só flor, és rainha!

Pôs-lhe na fronte a pureza,
Na boca um terno sorriso,
No coração a firmeza…
Esqueceu dar-lhe… juízo.

Adeodato Barreto

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HENRI MURGER – A Balada do Desesperado

HENRI MURGER

Henri Murger (Paris, França, 1822 – 1861).

Foi poeta e romancista.

Na sua obra mais conhecida, Scènes de la vie de Bohème, Murger baseia-se nas suas experiências como escritor pobre vivendo em Paris nos meados do século XIX. A maioria das personagens foi inspirada nos seus amigos e conhecidos.

A Ópera La Bohème, de Puccini, foi composta a partir da obra de Henri Murger.

A Balada do Desesperado

– Quem bate à porta a tais horas?
– Abre, sou eu. Quem tu és?
Não se entra na minha casa
Tão tarde assim, bem o vês.

– Abre. – Teu nome? – Há geada,
Abre. Teu nome? – És tardio!
Qual é teu nome? – Ai, na cova
Um morto não tem mais frio.

Eu caminhei todo o dia
Do sul ao setentrião,
Ao pé da tua lareira
Quero sentar-me – Inda não!

Diz teu nome… – Eu sou a glória
E aspiro à posteridade…
– Passa fantasma irrisório…
– Ó dá-me hospitalidade!

Eu sou o amor e a esperança
As duas porções de Deus…
– Segue a estrada… A minha amante
Há muito me disse adeus!

– Eu sou a arte e a poesia,
Proscreveram-me… Abre! – Não!
Já não canto minha amante.
Nem sei que nome lhe dão!…

– Abre, que eu sou a riqueza,
E trago do ouro o fulgor,
– Posso dar-te a tua amante…
– Podes dar-me o seu amor?

– Sou o poder, tenho a púrpura.
Abre a porta! – Anelo vão!
Podes trazer-me a existência
Daqueles que já não sâo?!

— Se tu não abres teus lares
Senão a quem diz seu nome
Sou a morte! trago alívio
P’ra cada dor que consome!

Podes ver, trago na cinta
Ruidosas chaves fatais…
Abrigarei teu sepulcro
Do insulto dos animais.

– Entra, estrangeira funérea…
Perdoa à mendicidade,
Porque é no lar da miséria
Que tens hospitalidade.

Entra; cansei-me da vida
Que nada tem que me dar…
Há muito eu tinha desejos
(Não força) de me matar!

Entra no lar, bebe e come,
Dorme, e quando despertares,
Para pagar tua conta
Hás-de levar-me aos teus lares.

Eu te esperava, eu te sigo…
Vamos… arrasta-me… assim…
Mas deixa o meu cão na terra
P’ra eu ter quem chore por mim!

Henri Murger
Tradução: Castro Alves
Imagem: retrato de Henri Murger pintado por Chambery.

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ANTÓNIO RAMOS ROSA – O Silêncio não Existe

antonio ramos rosa

António Ramos Rosa (Faro, Portugal, 1924 – Lisboa, Portugal, 2013).

Poeta, ensaísta, tradutor, desenhador e crítico literário é um dos nomes cimeiros da literatura portuguesa contemporânea.

Organizou a importante antologia de poetas portugueses, Líricas Portuguesas.

Palavras de António Ramos Rosa:

“Não há segredo mais supremo nem mais simples do que esta relação vital entre o corpo e o espaço, entre o alento e a paisagem, entre o olhar e o ser.”

                                                      O Silêncio não Existe

O silêncio não existe porque é o constante rumor de uma inexistência. O que se ouve, para além do movimento da cidade, é o monótono murmúrio do nada. Apenas sombra de nada, quem nele procura um apelo ou uma resposta não os encontra ou encontra um sinal negativo. Nada diz esse murmúrio nulo, que é o eco inalterável do vazio do mundo, mas quem o ouve sente a radicalidade da sua negação como se a cada momento nos dissesse: Não há.

António Ramos Rosa, in “Relâmpago de Nada”

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LUÍS DE STTAU MONTEIRO – Angústia para o Jantar

luis sttau monteiro

 

Luís de Sttau Monteiro (Lisboa, Portugal, 1926 – 1993).

Foi dramaturgo, encenador, jornalista, romancista e tradutor.

O seu humor corrosivo em relação à ditadura e à Guerra Colonial, fê-lo estar na mira da polícia política, sendo preso pela Pide quando publicou “A Estátua” e a “Guerra Santa”.

Angústia para o Jantar é um texto de grande força dramática, no qual o autor denuncia, firmemente, o ambiente social e político vivido durante o Estado Novo.

Excertos do romance: Angústia para o Jantar:

(…) “Nunca vi nada que não fosse lógico. Tudo tem uma lógica, muito embora esteja por vezes escondida. É a isso que chamamos o segredo das coisas. O que distingue os homens lúcidos dos inconscientes é que os primeiros procuram descobrir a lógica das coisas, ao passo que os segundos julgam que as coisas surgem por si próprias e procuram, não a sua lógica, mas a sua rima.” (…)

(…) “A cidade, vista à noite, é estranha. Já pensou no que farão em casa todos esses tipos que a gente vê na rua, com emblemas do Benfica na lapela? Uns emblemas feitos de pedrinhas?

– Sou um deles.

– É? E que faz você à noite, em casa? Hoje era capaz de responder. À noite, em casa, repetimos o que fizemos durante o dia: nada. À noite, em casa, continuamos a esperar pela morte e, quando ela se aproxima, compreendemos que devíamos ter feito mais qualquer coisa.” (…)

Luís de Sttau Monteiro

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CANCIONEIRO POPULAR – Fado da Severa

cancioneiro popular - severa

 

    Fado da Severa

Chorai, fadistas, chorai,
Que uma fadista morreu.
Hoje mesmo faz um ano
Que a Severa faleceu.

Chorai, fadistas, chorai
Que a Severa já morreu.
E como ela
Nunca no Mundo apareceu.

O Conde de Vimioso
Um duro golpe sofreu
Quando lhe foram dizer
Tua Severa morreu.

Corre à sua sepultura
O seu corpo ainda vê:
“Adeus, ó minha Severa,
Boa sorte Deus te dê.”

“Lá nesse reino celeste
Com tua banza na mão,
Farás dos anjos fadistas
Porás tudo em confusão.”

Até o próprio S. Pedro
Às portas do céu sentado
Ao ver entrar a Severa
Bateu e cantou o fado.

Ponde no braço da banza
Um sinal de negro fumo,
Que diga por toda a parte
O fado perdeu seu rumo.

Morreu já, faz hoje um ano
Das fadistas a rainha.
Com ela perdeu o fado
O gosto que o fado tinha.

Chorai, fadistas, chorai,
Que a Severa se finou.
O gosto que o fado tinha
Tudo com ela acabou.

Nota: Este fado está incluído no “Cancioneiro Popular” de 1867, no qual estão coligidos, por Teófilo Braga, fados, canções de rua, orações, profecias, etc. É atribuída a Sousa do Casacão, a autoria do “Fado da Severa”.

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CHRISTINA ROSSETTI – “Remember”

christina rossetti

Christina Rossetti (Londres, Inglaterra, 1830 – 1894).

A sua poesia distinguiu-se pela originalidade, simplicidade e religiosidade. Versou temas como: amor, morte, vida além-túmulo, renúncia, etc.

Destaque para um dos seus mais notáveis livros de poesia: Mercado dos Duendes e outros poemas.

Palavras de Christina Rossetti :

“O silêncio é mais musical do que qualquer canção.”

“Remember”

Recorda-te de mim quando eu embora
for para o chão silente e desolado;
quando não te tiver mais ao meu lado
e sombra vá chorar por quem me chora.

Quando não mais puderes, hora a hora,
falar-me no futuro que hás sonhado,
ah! de mim te recorda e do passado,
delícia do presente por agora.

No entanto, se algum dia me olvidares
e depois te lembrares novamente,
não chores: que, se em meio aos meus pesares,

um resto houver do afeto que em mim viste,
– melhor é me esqueceres, mas contente,
que me lembrares e ficares triste.

Christina Rossetti
Tradução: Manuel Bandeira

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POESIA INFANTIL – MARIA ALBERTA MENÉRES – Timidez

maria alberta

Timidez

O bicho-de-conta
Faz de conta, faz
Que é cabeça tonta

Mas lá bem no fundo
Não é mau rapaz.

Se a gente lhe toca,
Logo se disfarça:
Veste-se de bola.

Por mais que se faça
Não se desenrola.

Lá dentro escondendo
Patinhas e rosto
É todo um segredo:

Se eu fosse menino
Comigo brincava
Sem medo sem medo.

Maria Alberta Menéres, in “Conversas com Versos”

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CARTA DE FERNANDO PESSOA A MÁRIO SÁ-CARNEIRO

fernando pessoamario sa carneiro

Carta de Fernando Pessoa a Mário Sá-Carneiro    

Lisboa, 14 de Março de 1916

Meu querido Sá-Carneiro:

Escrevo-lhe hoje por uma necessidade sentimental — uma ânsia aflita de falar consigo. Como de aqui se depreende, eu nada tenho a dizer-lhe. Só isto — que estou hoje no fundo de uma depressão sem fundo. O absurdo da frase falará por mim.

Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá, e é esta a razão intima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.

Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Marco, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.

No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.

Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do «Marinheiro» ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.

Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as cousas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena — cheia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.

Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar. Pode ser que se não deitar hoje esta carta no correio amanhã, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no «Livro do Desassossego». Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.

As últimas notícias são estas. Há também o estado de guerra com a Alemanha, mas já antes disso a dor fazia sofrer. Do outro lado da Vida, isto deve ser a legenda duma caricatura casual.

Isto não é bem a loucura, mas a loucura deve dar um abandono ao com que se sofre, um gozo astucioso dos solavancos da alma, não muito diferentes destes.

De que cor será sentir?

Milhares de abraços do seu, sempre muito seu

Fernando Pessoa

  1. P.S. — Escrevi esta carta de um jacto. Relendo-a, vejo que, decididamente, a copiarei amanhã, antes de lha mandar. Poucas vezes tenho tão completamente escrito o meu psiquismo, com todas as suas atitudes sentimentais e intelectuais, com toda a sua histeroneurastenia fundamental, com todas aquelas intersecções e esquinas na consciência de si próprio que dele são tão características…
  2. Você acha-me razão, não é verdade?

Fernando Pessoa, in “Arquivo Pessoa”

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ANTÓNIO MANUEL COUTO VIANA – Madrigal

ANTONIO MANUEL COUTO VIANA

António Manuel Couto Viana (Viana do Castelo, Portugal, 1923 – Lisboa, Portugal, 2010).

Foi poeta, dramaturgo, ensaísta, empresário teatral, director artístico, actor, encenador, tradutor.

Palavras de António Manuel Couto Viana:

“A homenagem a um poeta que morreu é decorar-lhe os versos!”

 

         Madrigal

Ainda é possível este amor
Como um regresso ao paraíso?
Aroma apenas de uma flor?
O beijo apenas de um sorriso?
Ainda é possível este amor?
Qual a resposta que preciso?

E nada digo! E nada dizes!
Tudo nos basta num olhar
E que tu, mão, lisa, deslizes
Por sobre a minha, devagar…
Com pouco somos tão felizes
Que é já demais pedir luar!

E é já demais esta poesia
Se há cada vez menos valor
Nas tais palavras que diria
Para dizer-te o som e a cor
De um coração em harmonia
Que só se diz, dizendo: Amor!

António Manuel Couto Viana

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CAFÉS DE TERTÚLIA – Marrare

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                                                                    Café Marrare

Inaugurado em 1820, o Café Marrare era o mais requintado e famoso estabelecimento comercial de Lisboa do Romantismo.

A luxuosa decoração de madeira polida, valeu-lhe o sobrenome de “Marrare do Polimento”.

Tinha sala de bilhar e um pátio coberto.

O café era servido, por criados de libré, em cafeteiras de prata.

Frequentavam o Café Marrare, entre outros, Almeida Garrett, José Estevão, Alexandre Herculano, Passos Manuel.

Encerrou em 1866.

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