Crónicas da Brilha: Primavera! Onde estás?

 
 
 
Passamos metade da vida a ansiar por liberdade. Queremos, no fundo, crescer, sair de debaixo da asa dos pais, usar a roupa que quisermos, ter os amigos que adoramos e toda a gente diz que são má companhia.
 
O horizonte do adolescente é esse futuro aparentemente longínquo em que ninguém nos dirá o que devemos fazer, que obrigações cumprir, a ilusão da total liberdade e a ânsia do que virá depois: tirar a carta, copos a perder de vista com os amigos, um carro de meter inveja e uma casa acabada de sair de uma revista de decoração.
 
Quando os anos passam, podemos até ter esse carro e essa casa, mas o gato arranhou o sofá, o miúdo sujou as paredes, há loiça por lavar e pó para aspirar e parece que nunca nada se mantém limpo como naquela imagem da revista.
Se calhar até já tiramos a carta mas talvez não possamos ir a todos os destinos que tínhamos em mente. Falta tempo, dinheiro, companhia ou vontade?
 
Os amigos (não, os Amigos, que os outros são meros conhecidos) vão-se contando pelos dedos das mãos. Já casaram ou estão por casar e, afinal têm mais deveres do que quando nos rebelávamos contra a tirania dos professores.
Nós também deixámos de usar o 34, mudámos insensivelmente o guarda-roupa para o que não era nada fixe, que sempre desdenhámos vestir, não é confortável e, sem tempo para fazer desporto, não nos fica bem.
Começamos invariavelmente a pensar na liberdade, na luta contra a tirania: mas de quem?
 
Se já não podemos culpar os pais pela imposição de regras e deveres, culpamos o governo ou o estado (consoante a preferência), os patrões, a sociedade ou, se nada tivermos a dizer, o estado de coisas.
A liberdade torna-se um mito que se confunde com política, religião, economia (vulgo, dinheiro) ou constrangimentos sociais.
 
Era bom que fosse primavera outra vez, pensamos, mas sem fazer a mínima ideia do que faríamos diferente.
 
Essa angústia sem nome é facilmente resolúvel: agir para mudar o que queremos que seja diferente e nunca perder de vista esse objetivo.
 
Afinal, mesmo que chova, não se pode culpar a primavera.
 
Ana Brilha
 
 
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