O Vicio do Artesão Orlando Nesperal

Continuação:

                                                                      As vendas

       

Quando se fala em vendas, é preocupante porque alguém precisa de sobreviver, isto é, tanto de verdade, com real. Se alguém trabalha, perante a luz divina, terá direito ao pão, quem o vai recompensar, muitas vezes se desconhece, mas este ser humano, não está excluído do mundo, pois para além de ir alimentando o seu ego, pelo gosto que faz as coisas, também ele-artesão, vai alimentando muitas sensibilidades dos que gostam de arte, mesmo simples que seja, mas muito autêntica e original.

O problema das vendas, é a exposição física que o artesão se expõe quando por necessidade própria vai para a rua e se torna o vendedor dos seus próprios trabalhos. Todos sabemos que as vendas acarretam uma enorme carga psicológica, que muitas vezes incomoda, aqueles de uma personalidade introvertida. Mas creio que nada deve passar por esse buraco da agulha, visto que o pacato cidadão que é o artesão, deve mostrar a sua arte e que a mesma deve ser compensada, mesmo que o seja, existem custos que nunca serão pagos, daí que ao olharmos para um produto final, termos em conta o valor dos materiais, custo de ferramentas, a mão-de-obra é apenas, hipótese de algum valor acrescentado dado o tempo que o trabalho manual leva a executar, cujas horas são razões impossíveis de calcular.

Sabemos que o artesanato, alimenta muitas pessoas no seu percurso de vida, tanto para quem fabrica como para quem compra. Quem compra é quase inevitável que desde o mais pacato cidadão se desloca a certa região ou país, compra lembranças para os amigos, como ele próprio faz questão de trazer a sua recordação que muitas vezes a vão mostrando quase como um trofeu, para se afirmar, eu estive aqui!

A razão das vendas existe, em especial quando vamos a uma Terra específica, e queremos trazer um símbolo do local e ali nada existe ou se o há não sabemos onde o ir comprar. É aqui que o artesão pode ter sucesso ou não, é saber recolher do meio que o rodeia factos interessantes para o seu trabalho, ao mesmo tempo preencher o espaço vazio da procura. Quando estas duas questões se conjugam estamos certos que a lei da oferta e procura se completam, os preços se regulam e a economia cresce, e o bem-estar das pessoas é mais evidente.

O interessante é não ter medo da existência da necessidade da venda, as coisas assim tornam-se mais simples e não desgastantes, porque a necessidade da venda existe, logo ao aceitar, que para se poder ter continuidade, temos de repor os materiais e as ferramentas que se vão desgastando, e nada é viável se não encontramos os fundos necessários para que seja sustentável qualquer atividade mesmo que de artesão que seja.

Ninguém tem o caminho aberto, quando inicia uma marcha, é sempre necessário desbravar preconceitos e tornar os carreiros em caminhos e estes em estradas, para que possamos movimentar, neste mundo conturbado e cheio de dúvidas e incertezas no dia do amanhã. Só uma personalidade forte é capaz de se impor, mas deve ser sempre pegando na parte vista na necessidade dos outros e não a nossa. Neste aspeto o artesão tem sempre a sua dificuldade acrescida, porque tem sempre dúvidas de si, logo também das outras pessoas de vergar a outras ideias, porque o seu ideal não pode ser afastado do rumo que tomou.

As vendas passaram a ser um mal necessário, todos têm dificuldades em as realizar, mas afinal elas são a parte integrante do processo. A existência do artesão fazendo trabalhos e acumulando-os e fazendo o seu museu próprio sem que algum público o veja, acaba de ser egoísmo, dado não dar a possibilidade de partilha. Mesmo assim atrevo-me a dizer que o artesão, o criador de excelência acaba sempre por se impor, acabando quase sempre haver uma alma que o compreenda.

Nas vendas quase sempre se cai numa rotina, em que o vendedor quer acabar em mester, ensinado. Logo quando vamos à procura de saber mais, vamos encontrar uma grande gama de formadores à espera de formandos, ninguém presta ajuda, sem que o seu conhecimento não seja objeto de oferta, mas renumerada, dai que as vendas em qualquer fase do processo são o elemento catalisador para a existência duma atividade, seja um simples artesão ou um alo cargo de uma grande empresa.

Eis a razão do artesão ser o elemento que conheço com mais motivação, porque ele começa a sua marcha em troca do nada. A sua preocupação consiste em apresentar um modelo criado por si e muitas vezes esquece-se do custo, levando consigo todas as suas economias, mesmo sem saber quais os resultados que vai ter.

Muito se fala sobre este grupo de cidadãos anónimos, que no entender de muitos, estão a ser cada vez menos, claro que esta observação tem o seu ponto de vista lógico e decerto com grande grau de probabilidade de acontecer. Só não o é, mais rápido porque vai aparecendo sempre novos, que não estão a substituir outros na sua área, mas criam outros pontos de vista. Como a ausência de interessados nos artigos feitos à mão, estes vão satisfazendo as suas necessidades, por outros, mais em conta de ídolo industrial.

O que de imediato se reflete tudo nas vendas, todos sentem o desejo de reclamar, mas unir esforços para ultrapassar este fenómeno, do falar no deserto, todos aplaudem e louvam, mas no momento da verdade, aquilo que era sentimento e admiração não é um bem essencial, e o supérfluo fica em prateleira do artesão, esperando por aquele que gosta de ostentar na sua residência uma identidade, baseada nos valores da arte, da criatividade e sobretudo valoriza aquilo que não sendo seu, mas tem orgulho em divulgar o seu carinho, por quem ousou ser diferente.

A grande inovação nas vendas nos produtos produzidos pelos artesões, tem que passar por uma nova técnica de vendas, que me parece ser a mais proveitosa, mas muito arriscada. Sabemos que produz grandes efeitos em determinadas consultas de curandeiros, em que eles colocam o seu saber e deixam à merce a vontade do paciente, a importância que devem pagar pelo serviço que prestaram. É muito usual dizerem: – é o que poderem dar!

Não vejo grande mal ao mundo se em determinadas situações colocarmos a seguinte questão: – Como os trabalhos intelectuais são difíceis de determinar um preço, creio que o mesmo devia passar pela consciência de quem compra, deixando o preço de venda, não pelo valor do custo real, mas pelo valor que pode ser atribuído pela oferta do comprador, um pouco à imagem do preço de leilão, não teríamos uma maior oferta para aceitar, mas aceitar o que nos queiram dar pela peça em questão. Podemos correr risco do preço nem chegar para pagar o custo dos materiais, mas estou muito convicto, quem goste de arte, terá sempre uma importância mais justa à sua bolsa, e o artesão acaba por realizar o negócio, porque muitas vezes as pessoas fazem juízos de valor muito errados quanto o que se ganha nestas pequenas coisas. Também estou convicto, que muitas peças estão tão carregadas de valor sentimental, quando lhe atribuímos um custo, esse valor não está incluído, mas podemos a elevar a um preço que ninguém irá comprar.

A esta nova linha de pensamento que batizei de “inovação”, cujo conceito não é singular, mas será certamente uma forma necessária para desmistificar o valor real das coisas, para as quais não existe uma folha de obra, onde se escriture todas as despesas inerentes, para nos aproximarmos dum valor real. Mas tenhamos isso sim, uma possibilidade de vender e levar a quem goste de arte as coisas pelo preço equilibrado entre o destinatário final e o produtor.

Mesmo que encontremos o valor real, iria ser sempre um preço incompatível, pela razão de estarmos em presença dum artesão e não um escultor ou pintor conceituado em arte, até mesmo os locais onde cada um expõe são bem diferenciados. Enquanto o artesão tem a sua oficina, rustica, que por vezes batiza de Atliê, a sua exposição é mais visível nas feiras ou em mercados populares. O escultor tem a seu Atliê, mais bem organizado e meios mais sofisticados, e as suas exposições se enquadram em locais, de elite social que são as galerias de arte.

Assim o artesão é remetido para o seu próprio espaço, e aprendeu a viver com ele, essa é, e será a sua essência, e vai alimentando o seu vício, esquecendo-se de si, muito do que dá, na preservação de certas atividades ou fazendo perdurar no tempo, algo que por vezes recupera e não deixa morrer

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Sobre orlandonesperal

Autodidacta, futurólogo, tendo como o principio, que a mente é o local donde nasce o mundo novo. Ao controlar os pensamentos está a controlar o seu destino.
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Uma resposta a O Vicio do Artesão Orlando Nesperal

  1. Boas tardes …mais um capitulo do livro “O Vício do Artesão”, quero lembrar que falta apenas mais dois, que no meu entender, são a explicação da razão que leva um artesão fazer e escrever.
    O.ne/2012

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