O Vício do Artesão Orlando Nesperal

Continuação;

                                                 As experiências

 

 

                A aprendizagem tinha que começar, e começou duma forma muito natural e espontânea, depois de escolher o que pretendia fazer, criando sempre um desenho, mesmo tosco, mas era importante ter as medidas idealizadas para o acabamento final, assim era aposto no desenho as indicações necessárias ajeitando o desenho às necessidades ou alterava consoante algo que não se conjuga-se.

Tendo por princípio, que o Artesão não se torna artesão, apenas pelas ideias ou gostava de ser, mas sim no seu íntimo, algo de diferente ou extraordinário existe, e quantas vezes é empurrado para esse destino, como meio de sobrevivência, descobrindo que existe uma falta que ele bem pode completar. Mas estou crente que existe uma aptidão nata, como princípio destas coisas.

Um autodidacta de excelência, provoca a admiração de muitos pelas suas obras isentas de conhecimento das leis geométricas ou da física, existindo apenas o seu gosto, muitas vezes mais pelos materiais que usa do que da peça em si. È por aqui que me caracterizo, a madeira os ramos das árvores e muito em especial os efeitos que produzem as mesmas ao serem trabalhadas. Neste âmbito após ter terminado é como que nada tivesse feito. O pensamento corre em busca de outra ideia, mesmo que seja a exploração de outras ideias na mesma madeira.

Foi-me colocado o desafio de fazer um tabuleiro de Xadrez, imaginei que não seria fácil mas não seria de todo o impossível, e pouco a pouco fui reunido, numa primeira fase as ideias e colocando tudo num papel, desde o tamanho do mesmo e como iam nascer as peças, para logo a seguir em que materiais isso ia acontecer. Mais ou menos um ano, até o produto final pudesse ser visto. Mas foi tal o gosto que ia sempre adicionando ideias, aquilo que era um simples tabuleiro de xadrez com as peças, nasceu a caixa para as guardar, mais um conjunto de pedras, para o jogo das damas, chegando mesmo a construir um manual básico das regas destes jogos. Mas como em tudo é sempre fazer uma manutenção, nasce um pano para limpeza, com um monograma, bordado a ponto cruz, com o desenho do peão.

Com esta experiência, cresce o interesse em desenvolver a grande descoberta: O que podemos fazer, com as madeiras e quais são as suas potencialidades, nascendo muitas ideias, sendo uma a mãe de todas as coisas, antes de chegar ao artesanato, era meu desejo de recuperar objectos que na minha infância existiam, e tendo como sentido prático recriar todos em especial os que já entravam em vias de extinção. Assim nasceu o chicote, e a bengala rudimentar, suportes coisas muito banais e comuns.

Nesta onda nasceu a ideia de recuperar algumas tradições, comos os chafarizes e outra coisa que ainda não está em prática, mas que lá irei que é escrever poemas e grava-los na madeira em especial dedicados a Cernache do Bonjardim. Tudo porque em determinada altura verifiquei que não existe nada do género, na Vila e quem a visita não tem nada para levar que simboliza-se a sua presença e a leva-se para alguém, como lembrança que naquele local se lembrou dela. Ainda não está em prática somente porque os materiais e as gravações ainda não se encontraram no ponto certo. Mas creio que o problema está apenas por falta de tempo, para poder fazer mais uns ensaios e alterar o tamanho da letra, para que este assunto encontre o seu espaço conforme já foi idealizado. Uma primeira serie de poemas já estão escritos e alguns até bem conseguidos.

Esta lacuna que existe, talvez seja uma motivação em me fazer compreender, ou ser compreendido com as gentes, de Cernache do Bonjardim. No meu entender falta uma verdadeira marca, isto é, um conjunto de amostras e expostas com forte simbolismo local e de marcadamente regional.

As experiências com as madeiras começou a ser uma aventura, tanto pelas suas texturas como pelos veios de crescimento, umas muito rijas outras, mais moles ao ponto que se chega a verificar uma grande dificuldade em escolher madeiras para construir objetos. Neste sentido, uma necessária familiarização com as madeiras é a base para um maior conhecimento, para quem queira fazer parte deste mundo dos artesões que trabalham directamente com madeiras, ou pelo menos fazem questão em querer aprender. Reside neste conhecimento uma verdadeira atração, que é a busca destes materiais. Já referi que para levar acabo alguns trabalhos ir às estâncias de madeiras, muitas vezes não é a solução.

Como se pode apreciar, qualquer que seja o produto final a escolha das madeiras são o resultado mais evidente, como se a montra do produto tenha um impacto de maior visibilidade. Não será demais insistir em se aprender muito sobre madeiras tanto as suas qualidades, como o seu comportamento enquanto são trabalhadas.

Há outra referencia, que se tem que fazer que é necessário mencionar, que é as ferramentas que se deve utilizar para cada trabalho como para cada tipo de acabamento, tendo sempre presente o comportamento das madeiras durante as operações de corte ou desbaste, sendo de importância relevante ser sempre adequado ao tamanho do corte ou à dimensão da peça. Daí uma grande variedade de ferramentas muito iguais mas de dimensões diferentes está muito do segredo desta aprendizagem. O seu manuseamento tem sempre a ver com o seu jeito nato, o qual este não se ensina, porque cada pessoa adquire a sua forma própria de execução. Também conhecido pelo seu talento.

Como sabemos, especialmente quem já tarimbou muito, verifica que muitos cidadãos, por mais que se ensine, nunca são capazes de ir mais além, nunca toma uma iniciativa nem tão pouco são capazes de fazer mais ao que lhe talham. Isto foi por mim constatado, muitas vezes nos diferentes trabalhos que realizei.

Como profissional de uma arte estou certo que o ensino conta duma forma possível de progresso. Mas para um artesão tem haver uma mistura de sentimentos profundos que muitas vezes não existe uma explicação plausível, porque determinada pessoa vagueou pela vida fora e muitas vezes acaba por encontrar o seu destino, quase como oposição ao que toda a via executou. Não querendo ser um exemplo, mas a família mais próxima já foi interrogada se eu sempre estive ligado às madeiras. É com este sentimento de querer fazer, que emergi duma forma apaixonada abraçar estes trabalhos, e de certo modo encantam-me depois de os ver acabados. Mas não fico ligado a eles, uma grande maioria os tenho oferecido.

As novas tecnologias, deram a possibilidade de conhecer um leque alargado de pessoas que procuraram na madeira a sua forma de expressão. Graças à internet tive contacto por este meio com outras realidades. Neste aspeto os brasileiros, são um povo o qual admiro pela diversidade e sobretudo a sua capacidade de explicar pela forma escrita como pela oral através de vídeos. Foi por estes meios que me familiarizei, com os entalhes nas madeiras e me levaram a dar conhecimento como devemos utilizar a madeira com as ferramentas.

Felizmente que tudo se aproxima, neste lema creio que aprendi muito sobre as ferramentas e em especial à sua qualidade, e bem assim o conhecimento que para apreciar um trabalho, para além da madeira, a ferramenta com que é executada tem muito valor, também é por aqui que se pode avaliar o artesão. No meu entender muito dos trabalhos em especial os mais minucioso a sua qualidade e apresentação, tem a ver com a qualidade da ferramenta e a madeira escolhida. Sobre ferramentas para além do comum que se pode encontrar, nos mais variados sítios, posso dizer que não sendo um fã das casas do chinês, primeiro pela qualidade, mas a sua diversidade, pouco a pouco me foram conquistando, a pontos que hoje vou frequentando para saber o que mais existe, sobretudo nas nini, que desconhecia a sua existência em tão profunda gama. Sabemos da sua qualidade e resistência, mas veio a demonstrar que também existem fábricas que fabricam muito destes utensílios de alta qualidade e precisão, de marcas de grande relevo, mas confesso para um artesão o seu preço é incomportável. Mas claro que eram essas de que eu gostava, não tendo vergonha em o afirmar.

Com estas experiências, é a forma de aprender mais rapidamente, porque estou utilizando as madeiras e ao mesmo tempo as ferramentas, as quais vou adaptando á textura das mesmas. Começando com trabalhos mais simples, podemos sempre evoluir para outros de maior complexidade. Sempre que queiramos iniciar uma obra devemos testar, tanto a ferramenta como a madeira numa sobra, para apreciarmos estes dois comportamentos, que é de vital importância, para que logo na “primeira cavadela não sai minhoca”.

Tenho que confessar que qualquer ser humano deve estar sempre num regime de aprendizagem, nunca será um produto acabado, a não ser aquele que chegou ali e pronto, sente-se realizado. Um artista artesão é sempre alguém que está em constante busca da perfeição, a dado momento cheguei a declarar na minha “Declaração de Princípios”, o meu grande objectivo é a perfeição, contudo hoje reparo que existe muita gente que não faz nada porque não sabe, e outros não fazem porque sai mal. …Mas já aprendi que vale mais fazer alguma coisa do que não fazer nada, só com a prática nos vamos aproximando do objectivo.

Mas como é possível haver tanta gente que não faz nada, a minha pergunta será que não se sentem incomodadas? Ou estão bem com elas! Certamente que a sua passividade será tanta que nem se deram ao cuidado de pensar nisto. Graças que nem todos os humanos são iguais, senão, não havia evolução, e tudo iria entrar a determinada altura num mundo estático.

Para findar, parecendo que me afastei do tema de experiências, também deixo uma achega do muito da massa do ser humano, para se enquadra num estilo de arte ou numa personalidade que o possa definir. Não terei nenhum problema em responder ao chamamento de Artesão, tendo já si conhecido pelo, Senhor Gaspar, o Orlando e durante o serviço militar, o “Cartinhas”, ao ponto que em determinado momento de minha vida me baptizei com o pseudónimo Orlando Nesperal, e por último os meus trabalhos começam a ser conhecidos como produtos da “House Nesperal”. A tudo isto não passa dum acumular de experiências esquecedoras, e fazem parte das maravilhas do meu interior, que não passam dumas simples experiências.

Continua!

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Sobre orlandonesperal

Autodidacta, futurólogo, tendo como o principio, que a mente é o local donde nasce o mundo novo. Ao controlar os pensamentos está a controlar o seu destino.
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3 respostas a O Vício do Artesão Orlando Nesperal

  1. Mais capitulo do Livro “O Vício do Artesão”, o livro está muito proximo ao final na sua feitura contudo ainda vai demorar mais algumas semanas, a totalidade dos assuntos. Boas leituras!

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  2. silvino ramos diz:

    fico aguardar a leitura desse exemplar que conto ler para aprendes.boas leituras…

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  3. Tenho a informar que ” O Vicio do Artesão” já está publicado neste blouge em varios capitulos q em datas diferentes.

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