A SANTA VIRGEM DOS MILAGRES

A SANTA VIRGEM DOS MILAGRES

CONTO

 

 

Mariana Bom Trabalho acalentava um sonho na sua cabeça cheia de coisas pequenas, de ideias simples e modestas. A maior ambição da sua vida passava por vir servir numa casa boa na grande cidade, seguindo os exemplos e os passos da sua falecida mãe, que por sua vez seguira o destino da sua avó, que, (pelo que as histórias contadas pelos mais velhos nos longos serões de inverno, presos ao borralho da lareira,) contavam, que era precisamente o que fizera a mãe da sua mãe, sua avó portanto, e que este tipo e modo de vida se transformara, (com o passar das gerações), na saída, na solução, na tradição e no garante da continuidade da família; servir em Lisboa, em casa de uma senhora de recato das boas famílias lá da terra, arranjar namoro com um rapaz conhecido lá do sítio, a quem as sortes lhe tivessem calhado um quartel na capital, antes de zarpar em paquete grande com destino às áfricas ou às índias, com direito a choros e lenços brancos no cais, como é de direito garantir aos bons soldados portugueses sempre que vão em demanda da glória, e daí, com o decorrer dos anos, resultar uma de duas coisas: ou Mariana Bom Trabalho daria uma viúva solteira entrapada de negro para o resto da sua vida, (assim mandavam as boas práticas) ou resultava um casório quando ele terminasse o serviço militar, com um amialhanço de anos do seu ordenado pequeno de serviçal, mais uns trocos que o moço juntasse do pré de soldado imigrado na guerra dos outros, e com mais uns ajustes arranjados pelas famílias, umas cabeças de gado, uma vaca leiteira comprada na feira do gado, uns trastes velhos que para começo de vida serviam na perfeição, e todo aninhado na choupana lá da terra, iria resultar na tradicional casa portuguesa onde o pão e o vinho está sempre em cima da mesa.

Mas Mariana, com a ingenuidade dos catorze anos, embora moça opulenta de carnes, morena trigueira mas com olhos de um azul misturado de cinzento, possante de forças em virtude dos trabalhos no campo, em tempo roubado à escola, a ajudar o pai a fazer carvão, – coisa que já rendia muito pouco – esquecia-se que o tempo tinha passado sobre a vida com os inevitáveis estragos que o passar do tempo tem o mau hábito de provocar no casulo das pessoas; é que já não existia Índia, a África era uma quimera do passado, e os rapazes de hoje já não vão às sortes. Existia ainda, isso era certo, as senhoras finas e recatadas das boas famílias da terra, com casa posta em Lisboa, mas até essas tinham mudado muito os seus costumes; hoje todas tinham, – por obrigação da modernidade, – empregadas tailandesas ou filipinas, porque se mudam os tempos e as vontades também, as modas são outras, e as senhoras finas têm sempre que acompanhar as coisas da moda, a par da economia que representa o baixo salário de uma serviçal filipina ou tailandesa quando comparado com o salário de uma serviçal arranjada na terra. E também se tratava de uma questão de princípio, se não, vejam o que diriam as amigas mais chegadas: Tu empregaste a Mariana? A mocinha filha do Augusto dos carvões? Já viste bem onde te meteste, agora como a vida está? Olha, desculpa que te diga mas não foste lá muito inteligente! Então tu conheces o Augusto, os irmãos, os primos, os avós da parte da falecida mãe, que ainda são vivos, e assim estás obrigada a proteger a moça, que é uma bronca, coitadita, vais ter de lhe dar vestidos teus, assistência médica se adoecer, pô-la na caixa por causa da reforma, pagar dois meses pelas férias e dois meses pelo natal, como a vida se está a pôr! Mulher, ser da província não quer dizer que se seja parva, vai com Deus que assim não te safas! Olha, eu tenho uma empregada tailandesa e estou como quero! Posso chamar-lhe todo o tipo de nomes que ela não percebe português, se for preciso dar-lhe umas palmadas também não faz mal que ela já veio acostumada a isso, e se me adoecer vai embora e vem outra, que eu cá não quero chatices! Só tenho que estar a pau com o marido, que essas tipas são umas putas, e os nossos homens comem de tudo!

E assim Mariana Bom Trabalho, por mais diligências que fizesse, por mais que procura-se, por muito que pedisse, ainda que chorasse, implora-se, se pusesse de gatas ou ajoelhada e de mãos postas, não havia maneira, jeito, ou o que quer que fosse, (mesmo as mesinhas da bruxa lá da terra tinham falhado), que resultasse em trabalho de serviçal numa casa de senhoras sérias na cidade de Lisboa. Como encarar a tristeza de uma vida assim, sem sentido, com um futuro perdido sempre lá para as bandas do impossível, inalcançável, e com a idade a passar, constante de velocidade, um ritmo frenético de dias que se sucediam aos dias, e um lar que não havia maneira de se começar a construir.

Pobre Mariana Bom Trabalho, rapariga de virtudes inquestionáveis, para qualquer jovem trabalhador agrícola, fazedor de carvão ou especializado em outra qualquer actividade, que encontraria nela a companheira ideal para fazer uma vida de canseiras, criar filhos e vê-los crescer, a desabrochar de dia para dia, alimentados com as sopas da mãe fervidas no carvão feito pelo pai.

Mas um dia, aí pelas bandas da tarde, que se via pelo rodar do Sol, astro da luz e relógio do povo pobre, andava Mariana na apanha da uva pelos socalcos rasgados nas fraldas da serra, naquela Beira Baixa rasgada de sombras e de cordas de Sol escapulidas por entre os cachos das uvas pretas, a abrilhantar o chão eivado de uvas soltas e de torrões de terra, cesto de vime equilibrado no alto da cabeça, apoiado na rodilha de pano entrelaçado, mão na anca, outra a amparar o cesto a meio, correndo célere pelo carreiro em direcção ao atrelado preso ao tractor, nas terras do seu padrinho de baptizado, o padre Humberto Zagalo, quando este, – o padre, – montado na sua bicicleta de vinte velocidades, veio chegando pelo carreiro, com a sotaina a roçar pelas parras das videiras, um par de molas a prender-lhe as bocas das calças, umas gotas de suor a ser a seiva do seu esforço, cabelos brancos soltos à pouca brisa da tarde, afogueado pela urgência da notícia, e meio desequilibrado, parou precisamente atrás dela.

– Mariana! – Chamou o padre Zagalo, um pé posto em terra, as mãos segurando o guiador, outro pé metido ainda na cinta do pedal, deixando que as golfadas do ar fizessem o seu trabalho de arrefecimento dos seus pulmões arfantes de pieiras vindas da asma.

– Padrinho! – Exclamou Mariana, colocando com cuidado o cesto no chão, amparado em parte pelas pernas, para que não tombasse, em consequência do relevo do carreiro. – Padrinho, a sua bênção! – E Mariana pegou naquela mão esguia e cuidada, como convinha a uma mão dedicada aos santos ofícios dos infindáveis mistérios. O que se passa, padrinho, para que venha com essa pressa toda? Alguma coisa de mal com a saúde da sua governanta, a senhora dona Conceição?

– Nada… nada disso, rapariga, está tudo bem, deixa-me só respirar mais um pouco, sem falar!

Ficaram ali parados os dois, enquanto os outros apanhadores de uva, de cestos equilibrados nas cabeças, os ultrapassavam como podiam, por ambos os lados do carreiro.

Por fim, o padre Humberto Zagalo, respiração controlada pela última golfada de ar, pulsação aquietada, desmontou-se por completo da bicicleta, acercou-se para um lado do carreiro, para dentro da vinha, e disse-lhe: Vem para aqui e trás o cesto, para os outros passarem melhor!

Mariana assim fez, ajeitando o cesto pelas duas asas, para que ficasse firme no chão, em parte também em consequência do peso.

– Queredo, padrinho, que me assusta com tanto mistério!

– Sabes, já consegui arranjar-te trabalho!

Os olhos azulados cinzentos da boa da Mariana arregalaram-se, e as pestanas negras piscaram duas ou três vezes, como que exaltadas com a novidade.

– E é como serviçal, padrinho?

– Sim, rapariga, é como serviçal!

Quem porfia sempre alcança, e Mariana, farta de porfiar, não cabia dentro do seu contentamento.

– E é para servir em Lisboa, na casa de uma senhora cá da terra?

– Não, rapariga, não é para servir em Lisboa, nem em casa de nenhuma senhora cá da terra, mas sim num sítio muito melhor! – E nesta parte da conversa o padre Zagalo fez um amplo sinal da cruz sobre o seu peito de velho e ainda robusto servidor do Altíssimo.

– Mas vais ter de ir comigo amanhã bem cedo à vila, bem arranjada, com o bilhete de identidade e o número de contribuinte, para assinares o contrato.

– Vou ter contrato, padrinho?

– Claro, minha filha, estas pessoas são pessoas muito sérias, e por isso as coisas têm de ser tratadas como deve de ser, tudo de acordo com as leis! Vai ter com o teu pai e conta-lhe esta conversa, e amanhã, por roda das seis horas… ou então, olha, que a vila ainda é longe, é melhor aí quando o galo cantar a segunda vez, que será aí pelas cinco, ainda que é um bom bocado, daqui até lá, vais ter a minha casa, combinado?

– Sim, padrinho, combinado. E quanto ao dia de hoje, padrinho?

– Olha, tens o dia ganho! Agora vai-te lá à tua vida, vá!

Mariana Bom Trabalho beijou pela segunda vez a mão do padrinho, levou o cesto até ao atrelado, contou ao encarregado pela vindima que tinha de abalar, e foi, repleta de felicidade, descendo dos socalcos das vinhas para a planura em baixo, onde ficava o amontoado de casitas brancas cobertas com telhados de telhas vermelhas, a dar a boa nova à família.

Pelo caminho que serpenteava durante certa distância ao longo do ribeiro das Boas Águas, Mariana desfrutava da felicidade das pessoas simples. Trabalhar numa boa casa, como serviçal, como acontecera ao longo da história da família, às mulheres do seu sangue, ainda por cima em uma casa arranjada pelo padrinho, era mais do que alguma vez tinha imaginado. Agora só faltava arranjar um namoro com um rapaz sério, mesmo que não fosse magala, como o pai tinha sido, – calhara-lhe nas sortes, ser magala nas guerras de África, a honrar a Pátria, – mas os tempos mudam e já não se usam magalas desses, temos de nos adaptar às mudanças do tempo, se queremos ser gente desta época, e Mariana queria ser gente desta época, olá se queria, que bem via as outras quando vinham às festas da terra, as festas do lugar do ribeiro da Boa Água, com aquelas roupas novas e diferentes, os carros que às vezes se atulhavam nas lamas dos regatos, as notas a saltarem das carteiras, as pinturas dos rostos, os lábios sempre vermelhos, as unhas crescidas quanto baste, pintadas e brilhantes, os cabelos com arranjos artísticos, de cabeleireiros da cidade, e não aquelas coisas que a Sãozinha fazia na vila, tiradas das fotografias sempre da mesma revista. Olhe este aqui, Sãozinha, não acha que me ficava bem?

– É possível, mas, sabe, esse, eu ainda não aprendi a fazer. Fica para a próxima oportunidade!

E ficava sempre para a próxima oportunidade, e depois passava para a seguinte. A pobre da Sãozinha, que só aprendera a fazer dois ou três penteados…

Mas onde ficaria a tal casa? Aquele padrinho, sempre cheio de mistérios, porque não lhe disse logo onde era o trabalho, porque tinha de haver tanto segredo em relação a uma coisa tão simples como aquela? Seria no Porto, a tal casa, ou talvez em Coimbra? Em Coimbra para ela era um sítio óptimo, melhor do que em Lisboa. Coimbra ficava mesmo ali, no máximo duas horas de caminho, no comboio das beiras, – isto a contar com os atrasos, – porque, se o comboio viesse à tabela, aí, uma hora seria muito, mesmo um exagero! E Coimbra era uma cidade bonita de se ver, que já lá estivera uma vez, em miúda, quando fizera a comunhão solene, ainda em vida da mãe. Que cidade tão grande, com aquelas colinas onde as árvores estavam presas naquelas coisas redondas, cheias de terra, para as árvores não morrerem, mas as coitadas nunca podiam sair dali, ao invés do local do ribeiro das boas águas, onde as árvores podiam muito bem ficar ali ou mais adiante, acolá ou noutro lugar mais à frente, havia terra boa para as árvores ficarem em todo o lado da terra, as pobres não tinham que ficar só onde os homens quisessem. Neste propósito de pensar em coisas importantes, (como as árvores, as videiras e o Sol, o gado solto a pastar as ervas verdes entre as colinas, o maioral a orientar os bois, e as couves tenras da horta), Mariana sentou-se a descansar, num pedregulho aflorado na margem do ribeiro, descalçou os tamancos e deixou que o bálsamo das águas frias lhe lambesse as palmas dos pés.

 

 

 

Mariana Bom Trabalho não pregou olho em toda a noite, nem ela nem o pai, que depois de perder a mulher só lhe restava aquela filha, isto de gente mesmo chegada, e ia a ficar sozinho, com os irmãos e as irmãs casados ali ao lado, é certo, como vizinhos. Na verdade metade do lugar do Ribeiro das Boas Águas era gente da sua família, irmãos, irmãs, primos e primas, até a sua falecida ainda era sua prima em grau distante, e de tanta consanguinidade nem sempre resultava boa cepa, que aprendera isso nas falas que tivera com um furriel lá na guerra, há tantos anos que tivera essas falas, e agora ia-se-lhe a filha, esperta e boa de cabeça, a alegria da casa e a razão da sua vida, mas se era para o bem dela, que tinha o direito a fazer pela vida dada pelo Senhor, não lhe restava mais do que compreender e rezar por ela.

Mariana, às três e meia da manhã, já andava vestida e calçada, frenética nas lidas da casa, para passar rápido o tempo, sem pensar mais no passo que estava prestes a dar. E, faltava exactamente vinte minutos para as cinco da manhã, já o galo das horas estaria a afinar a garganta, aconchegado ao quente das galinhas, preocupado, não fosse atrasar-se ou adiantar-se nos seus deveres matutinos, de crista espetada como convém a um bom galo responsável nos seus deveres, olhos abertos de cautelas, mirando para os dois lados do seu bico, quando Mariana, aconchegando o xaile de fofa lã sobre os ombros, para afastar a friagem do fim da noite, hábito herdado da sua falecida mãe, metida no fato domingueiro de saia e casaco azul-escuro, sapatos novos comprados três anos atrás na feira da vila grande, com aqueles berloques prateados a dar graça aos peitos dos pés, mala de mão segura no ombro forte, lenço posto sobre a cabeça a ver-se apenas uns tufos de cabelos sedosos a espreitarem de ambos os lados, acercou-se do pai parado na sala de fora, bem junto da porta da rua, a espreitar a noite pelo vidro do postigo, e disse-lhe:

– Bem, meu pai, dê-me a sua bênção que está chegada a hora.

Num gesto de hábito, o velho Augusto estendeu a mão à filha, para que ela a beija-se, e respondeu-lhe:

– Eu vou contigo até casa do senhor padre Humberto, teu padrinho…

– Não deixe os seus afazeres por minha causa, meu pai, que eu estou em boas mãos com o padrinho…

– Eu sei, eu sei, mas faço questão, é uma filha, a única, que me vai sair pela porta fora!

Augusto abriu a porta e ambos saíram para o cinzento medroso do dia, já mais adiante, da casa do primo António, que escolhera ser boieiro, ele e os bois vinham saindo para o serviço do dia, nas terras do senhor padre Zagalo, e Francisco, o galo, sacudindo as suas penas vistosas, cor de tijolo, a modos que a ajeitar a sua casaca de mestre das horas, ia caminhando para junto das malhas da rede, um olho de um lado e outro do outro, a ver se os costumeiros espectadores estavam nos seus lugares, a rebuscar dentro de si a hora exacta para a sublime cantoria das aleluias do novo dia.

 

 

 

 

Na casa do bispado na vila grande, sentada a uma mesa de madeira preta, numa cadeira de espaldar alto de assustar, tendo do seu lado direito o seu padrinho, o padre Humberto Zagalo, e na sua frente o secretário do senhor bispo, e outro senhor a quem chamavam de senhor doutor, por detrás das costas do secretário do senhor bispo, fixado na alvura da parede, um crucifixo de grande dimensão, mostrando um Cristo lacrimejando sangue dos seus olhos de redentor do mundo, Mariana ia tomando conhecimento, pela leitura do contrato que ainda não assinara, das condições que lhe eram propostas; ordenado mínimo nacional, alimentação, alojamento em quarto individual, todo o tipo de cuidados médicos, subsídios de férias, décimo quarto e décimo quinto mês, roupa de serviço, formação profissional adequada às exigências do serviço, cinco anos de trabalho garantidos por contrato, e todas as restantes garantias previstas na lei.

No final perguntaram-lhe se estava de acordo com as condições salariais e as restantes garantias, e, perante a sua anuência, teve lugar a assinatura do contrato, assinando o padrinho na sua qualidade de representante do seu pai, em consequência da sua menor idade. Faltava apenas conhecer o local da casa onde iria a prestar os seus préstimos como serviçal doméstica.

O secretário do senhor bispo, elevando as mãos ao alto quando foi por ela questionado, apenas respondeu uma simples e curta palavra, disse: Lá!

Mariana Bom Trabalho pasmou com tão simples resposta; apesar da sua modesta instrução, percebia na perfeição que a palavra lá, nada esclarece, e foi o seu padrinho que, em auxílio, lhe disse com toda a simplicidade que caracteriza os homens bons da Beira Baixa:

– Mariana, tu foste a escolhida para trabalhar no céu!

– Onde?!

– No céu, minha filha, tu vais servir para o céu!

– Mas, meu padrinho, em que terra fica esse lugar?

– Na nossa terra, Mariana, não sabes que todas as terras têm o seu céu?

– Mas como se vai para esse lugar, que comboio, que autocarro, tenho de apanhar só um meio de transporte, ou são mais?

– Minha afilhada, para se chegar ao céu temos de subir, não há outra maneira. Depois o padrinho explica-te tudo como deve de ser. Agora vamos voltar para casa.

– E quando começo eu a trabalhar nesse… céu?

– No principio do mês, tal como se começa em qualquer outro emprego!

– Mas isso é já para a próxima semana!

– Pois é, minha filha, tens toda a razão!

Mariana e o seu padrinho despediram-se do senhor doutor e do secretário do senhor bispo, na rua, entraram para o dois cavalos do senhor padre Zagalo, e logo que colocados os cintos de segurança, o carro arrancou e rápido alcançaram a estrada que conduzia ao lugar do Ribeiro das Boas Águas, por estrada em parte de macadame, em parte de terra batida, dado as insuficiências económicas da câmara para garantir acessos de qualidade a todos os lugares do concelho.

Pelo caminho Mariana continuava perplexa, incrédula, perante a resposta do padrinho. Para o céu! Mas como? E perguntou de novo, com voz de aflita, medrosa, temente da reacção do padrinho perante as suas constantes dúvidas:

– Mas, padrinho, onde fica esse céu?

– Espera que eu já te explico tudo, deixa-me só escapar ao trânsito.

Passados bastantes quilómetros, já a rodarem pela faixa de terra batida, a velocidade muito reduzida, para evitar danos no eixo do carro, escolhendo um sítio onde a faixa era mais larga, padre Zagalo parou em cima das ervas que ladeavam o caminho e desligou o motor do carro. Então olhou Mariana, com o seu olhar de bom pastor, a orientar as ovelhas tresmalhadas do rebanho do seu Senhor, que Lho confiara com a promessa de o conduzir incólume através dos desertos e dos espinhos da vida, protegidos de todo e qualquer dos males, e, vendo-lhe os olhos cheios de dúvidas e de temores, fez-lhe uma simples pergunta.

– Mariana, diz-me, onde fica o céu?

E Mariana, na sua simplicidade de moça do campo, voltando o rosto para cima, apontou um dedo da mão direita, e disse:

– O céu fica ali!

– Pois, e é para ali que tu vais trabalhar!

– Para… ali?!

– Sim!

– Mas para ali só se vai depois de ter morrido, isto no caso de se merecer ir para o céu!

– Tens razão quanto a uma coisa, minha filha, na verdade a maioria das pessoas desce, não sobe, mas estás errada quanto a outra, para o céu sobe quem Deus quer, esteja vivo ou morto, são os seus desígnios que decidiram que tu vais servir em vida para o céu, e depois voltas, por altura das férias, conforme te leram no contrato.

– E como vou eu subir para o céu?! Deus vai-me dar asas?

Não Mariana, tu vais subir por um caminho secreto, que eu na devida altura te vou indicar, e sem receios de qualquer espécie, pois Deus providenciará para que não tenhas medos ou receios.

Mariana ficou assim a saber, sem a menor sombra de dúvida, que o seu Destino tinha sido traçado para que ela fosse uma serviçal viva no céu. Claro, como é evidente, no céu português, porque, assim como cada povo vai tendo os governos que merece, também cada país tem o seu próprio céu. Uns têm céus melhores, outros têm céus piores, talvez em consequência da riqueza de cada um, ou da qualidade intelectual e da competência dos sucessivos governantes. É tudo uma sequência de ses quando toca a estas coisas dos céus e das qualidades dos deuses.

É evidente que, por cima de tudo isto, está a conveniência dos políticos, os interesses de cada estado, as cedências, os pareceres dos sábios, dos conselheiros de estado, dos mestres que definem as regras do jogo. A política e a religião, em certa medida, tocam-se e completam-se. E as regras do jogo dos caminhos até Deus são infinitas, repletas de situações onde a aceitação dos dogmas são a negação da inteligência, do espírito criativo, do intelecto humano; o Deus bíblico reflecte a aceitação dos mais bárbaros actos desumanos atribuídos a um criador prepotente, maléfico, e tremendamente desconfiado quanto à hegemonia do Seu puder sobre os humanos, pretensamente uma criação Sua. Será o homem uma propriedade do Divino, tipo brinquedo, marioneta suspensa de paus e guitas, ou um ser ligado ao universo pelas matérias que lhe formam o corpo?

Para Portugal, portanto, um céu bem português, a bem dizer feito à medida, de dimensões adequadas à sensibilidade nacional, equipado com um Deus tradicional, provido de mau feitio quanto baste, que tanto aceita que se maltratem animais como fecha os olhos a quem abuse de crianças, um Deus sem perdões adequados às malfeitorias dos homens. Um Deus com as tábuas da Lei segura na mão direita, inexpressivo, escudado no discutível livre arbítrio dos homens para nunca intervir. Um dia seremos todos julgados a seguir à morte! E nesse dia, nós, os que somos as ovelhas do rebanho do Senhor, e como o próprio nome indica, ovelhas que vão para onde as levam, carentes de esmolas e nunca de direitos, sofridas pela falta de afectos do seu Pastor, empurradas de matadouro em matadouro, com balidos de ingenuidade e de sofrimento vindos de uma mente desordenada e sem nexo, nunca carente dos conhecimentos que não tem, porque os desconhece ou porque os afasta por preguiça e por erros culturais trágicos, vamos entrando e aceitando a emulação no altar dos sacrifícios inúteis. Mas temos um Deus. O nosso Deus, igual aos outros na aparência, mas com certas e imperceptíveis diferenças, que o torna bem nosso, um Deus pessoal e intransmissível, como marca digital, inconfundível e impresso no âmago do nosso folclore.

Mas voltemos à nossa Mariana, que, coitada, na ingenuidade dos seus catorze anos não percebe nada de deuses, a não ser que tem um medo pavoroso de tudo o que é desconhecido, e Deus é afinal um ilustre desconhecido, do qual passou a vida a ouvir falar, mas que, em abono da verdade verdadinha, nunca teve oportunidade de o conhecer. Na verdade, Mariana ama ou teme Deus? Quem o pudera dizer, se ela própria não o sabe. Mariana só sabe que o ser supremo manda e nós obedecemos, tal como Abraão, quando o Senhor o mandou matar o filho, para que por essa via lhe demonstrasse o seu amor por Ele, o fez, sem discussão, sem dúvidas, sem atrasos. Mariana foi chamada, Mariana comparece. Está sanada a questão, se é que alguma vez ouve uma questão.

 

 

 

 

O dia aprazado aproxima-se, e Mariana Bom Trabalho já vai adiantada nas suas preparações para a tão temida viagem. Mariana arranjou um saquito de plástico, desses que as farmácias fornecem para o transporte dos remédios, e preparou um conjunto de medicamentos, não que a sua forte e robusta saúde lhe inspirasse cuidados, mas sim porque, quando se viaja para muito longe, – e o céu não fica ali ao virar da esquina, – temos que obedecer a certos e determinados cuidados, temos que nos precaver, de acordo com o provérbio que diz que quem vai ao mar aviasse em terra; ele é uma imprevista tontura, por via das alturas, um dente cariado que provoca dores, uma má disposição de barriga, uma aberrante angustia que não nos deixa. Uma pessoa nunca sabe o que vai ter. Na farmácia da vila, o senhor Crispim, farmacêutico diplomado, homem de muitos saberes, profundo conhecedor das pessoas, a páginas tantas, disse-lhe:

– Mas para que queres tu coisas para essas má disposições todas, Mariana? Tu vais subir ao Everest para te prevenires para essas coisas todas?

Mariana, encabulada, disfarçou quanto pode a questão.

– Não são coisas para mim, mas sim para uma amiga!

– E essa tua amiga é de cá?

– Não, senhor Crispim, é de fora!

A coisa assim ficou. O senhor Crispim aviou os produtos que considerou adequados para todos aqueles males, e Mariana lá foi à sua vida.

Na véspera do dia da viagem, Mariana estendeu um lençol velho no chão da sala e pôs-lhe em cima as roupas que lhe pareceram indispensáveis, cuecas e meias, blusas, camisolas e calças, atou os quatro cantos do lençol, arranjou um cajado para transportar a trouxa sobre os seus ombros robustos e foi-se deitar cedo.

 

 

 

 

 

 

O Francisco não acordou bem-disposto, naquela madrugada do primeiro dia do mês, ou porque uma das suas esposas galinhas dormira excessivamente encostada às suas penas, ou porque tinha um mau pressentimento, ou ainda porque no mundo dos galos cantadores das horas a competição é feroz, e o galo da capoeira mais próxima cantara as suas horas certas dois segundos em relação à sua cantoria. De determinada maneira o galo Francisco ia a cumprir a sua função com a pontualidade que o distinguia. Molhando o bico na tigela de barro vidrado cheia de água, Francisco sacudiu as suas penas, afinou a garganta, e cantou três vezes. Eram portanto as cinco horas da madrugada.

Mariana despediu-se do pai e foi para o carro. Logo o padre Zagalo pôs a máquina em movimento e foi pelas veredas a caminho do local secreto onde Mariana ascenderia ao céu.

Já pela manhã dentro chegaram ao cimo de uma colina onde uma nuvem cinzenta de tom claro mostrava uma bola gigantesca, supostamente de vidro, e o padre Zagalo ajudou-a a transportar a sua trouxa e a introduzir-se dentro da bola.

– Mas para que é necessária esta bola?

– Só perguntas, Mariana! Essa bola contém ar poluído da terra para que tu o possas respirar no céu, uma vez que o ar rarefeito e puro do céu te mataria se o respirasses! Adeus Mariana, e boa sorte.

Sobre a nuvem e protegida dentro da bola, Mariana começou a ascender ao céu, a uma velocidade estonteante; subiu, subiu, até que começou a ver nuvens dispersas onde pessoas caminhavam com um certo ar sensaborão, pensou que se trataria das alminhas santas dos homens e mulheres de boa vontade, e, passada uma eternidade, a bola finalmente imobilizou-se, encostada a uma porta de madeira com uma aldraba de ferro forjado; Mariana bateu duas vezes com a aldraba na madeira e a porta entreabriu-se. Mariana chegara, enfim, ao céu. Desceu da nuvem e saiu de dentro da bola e entrou, e a porta fechou-se de imediato.

Na sua frente um senhor de idade sorriu-lhe. Tu és a Mariana? Sim! Aquiesceu ela. Venho apresentar-me ao serviço! Eu sei, eu sei! Disse o velho. Eu sou o porteiro do céu! Entra, Mariana, entra e vem comigo, a saberes dos cantos da casa e saberes onde fica o teu quarto. Mariana seguiu-o, e foi reparando que, por mais que olha-se o rosto do velho, não conseguia perceber as suas feições. Talvez fosse da imensa idade, pensou, ao reparar que aquele rosto tinha rugas tão vincadas e cavas que através delas se percebia os contornos do outro lado da cabeça. Os olhos eram inexpressivos e brilhantes, mas sem vida.

Os dias restantes, logo que convenientemente esclarecida das suas responsabilidades, passaram a ter um ritmo frenético, sujeita a uma carga de trabalho que não lhe permitia ter um segundo de tempo parado. De quando em vez um querubim de faces rosadas dava-lhe uma ajuda, sempre medroso, não fosse apanhado a ajudar uma modesta serviçal, e só à noite, depois do jantar, no aconchego do seu quarto, Mariana tinha tempo para reflectir sobre o céu. Uma autêntica casa de doidos – pensava nesse tempo de pausa – o velho Senhor passava o tempo à procura das tábuas da Lei, e volta e meia Mariana, inadvertida, pisava-lhe a barba branca de eternidades, – que estava espalhada por todas as salas do céu, e ele virava os seus olhos desconfiados, irados, mas logo sorria. Tiveste sorte, Mariana, o Senhor simpatizou contigo! Dizia-lhe o porteiro. – E durante o dia havia aquela barulheira constante do basquete que o menino jogava sem parar, sempre com os fones postos nos ouvidos, a escutar músicas metálicas, ou o zzzzzz dos seus patins em linha a riscarem o chão dos salões nobres, onde nos dias de tempestade, o Senhor conferenciava à porta fechada com o Diabo, e através das frinchas da porta, os relâmpagos e os trovões amedrontavam as poucas almas do céu, e quando a conferência terminava, o Senhor saía, invariavelmente a abanar a cabeça e a repetir: Aquele gajo! Mas que grande sacana que me saiu! E fui Eu que criei uma besta daquelas! Só a senhora era uma querida, atenciosa e bondosa, carinhosa, de olhos ternos e rosto sereno, inebriada com a música dos cantores celestes.

Mariana trabalhou seguidos, no céu, precisamente cinco anos, sem férias, que lhas compravam pagando a triplicar, e como em contas o céu era o melhor dos patrões, coisa que compreendia todos os meses quando o saldo da sua conta bancária chegava pelo correio interno, Mariana, como boa beirã que se prezava de ser, aproveitava para engordar o seu pé-de-meia.

Passados que foram os cinco anos, Mariana pediu férias. Tinha saudades do Ribeiro das Boas Águas, do pai, do padrinho, dos amigos, e até do seu galo Francisco, abrilhantado de vaidades pelos seus cantos sonoros a horas certas. E, pela primeira vez na sua vida, Mariana queria ter umas férias, senão ver o mar, pelo menos passar uns dias numa praia fluvial, perto da sua terra, ter um namorado, e gastar algum dinheiro, pouco, do seu já gordo pé-de-meia.

Mariana voltava virgem, tal como fora, e isso começava a desequilibrar a sua natureza.

Voltou à terra Mariana, metida dentro da bola colocada sobre a nuvem, com a mesma trouxa com que partira, mas mais rica umas dezenas de ordenados mínimos nacionais, postos a render com juros no banco, gentileza dos bons conhecimentos do Padre Eterno.

 

 

 

Na terra, – perto de uma maravilhosa praia fluvial, num pedaço de Paraíso feito de flores e de verdes, – Mariana foi entregue aos cuidados do senhor padre Tomé, (coisas das burocracias do céu) que por sua vez a colocou em casa da dona Zélia, a Zélinha, como lhe chamavam as amigas mais chegadas, e Mariana só ao final de três dias passados em banhos refrescantes e namoricos ocasionais passados com este ou com aqueloutro moço, dos muitos bons cristãos que frequentavam a praia, só ao fim de três dias, ia eu a contar, é que a simplória da Mariana Bom Trabalho, reparou o pandemónio e a falta de limpeza que havia na casa daquela senhora, basta dizer que, logo que acordava, a dona Zélia espreitava de baixo da cama, a ver se um dos seus gatos não teria, na brincadeira, com os outros gatos, ou mesmo para a arreliar, quem sabe quais os desígnios que vão pelas cabeças dos gatos, levado para ali a cafeteira do café, e o senhor Zé do Bicarbonato, trabalhador agrícola esposo da dona Zélia, homem de poucas falas, tinha constantes dores de estômago no final do jantar, que o levavam a tomar diariamente bicarbonato para puder dormir descansado algumas horas que fosse.

Uma noite, Mariana, mangas arregaçadas e avental posto, meteu mãos à obra, não sem primeiro cuspir nas palmas das mãos, esfregá-las uma na outra, e dizer entre dentes Vamos a isto! Hábito que lhe ficara dos tempos em que trabalhava a acartar lenha para o pai fazer carvão.

Na manhã seguinte, quando a dona Zélia acordou, estremunhada, depois de uma noite a rezar o terço na capelinha das Sortes a pedir alguma coisa à santa Virgem, – os portugueses têm sempre alguma coisa a pedir a alguém, – e sentiu aquele estranho cheiro a soalho lavado e esfregado, a aragem da madrugada cheirosa de alecrim, os sapatos arrumados juntos no mesmo sítio, os móveis sem pó, e quando entrou na cozinha e viu os tachos a brilharem, as lajes do chão lavadas, o ralo do lava louças desentupido, os três gatos bem lambidos, a um canto da vidraça à espera do sol, a zélinha – que conseguiu evitar o chilique, – ainda hoje está para saber como, e já passaram tantos anos, saiu ao pó da rua a gritar a plenos pulmões: Milagre! Milagre! Venham ver que é Milagre! Milagre! E foi até casa do senhor padre Tomé, num alvoroço e num escarcéu de tal tamanho, que a vila inteira veio à porta de casa, alarmada, a saber se seria incêndio na mata, coisa que ainda não acontecera nesse ano, e por isso andavam tristes – as tradições são sempre para manter – e um mar de gente, capitaneados pelo padre Tomé, de sotaina ao vento, foram em demanda do milagre, a caminho da casa da Zélia.

E lá estava o milagre da limpeza e da arrumação, na frente de todos, para quem quisesse ver com olhos de gente, destes que a terra há-de comer quando chegar a hora. O padre Tomé ajoelhou-se e rezou, com toda a gente de joelhos atrás dele, de mãos postas e a rezar, pois o milagre era por demais evidente para se puder ignorar.

No dia seguinte vieram os doutores da igreja, muitos, com ar circunspecto, como convêm em semelhantes ocasiões, e também que não eram assim muitos, uns três ou quatro, contando com o bispo, e vasculharam a casa toda, de luvas brancas calçadas, passando-as pelos móveis, em busca de pó. É que, nestas coisas da fé e dos milagres, é indispensável, antes de se avançar para as altas instâncias, ter certezas absolutas, mas tudo terminou no momento em que dona Zélia apareceu ao fundo do corredor, com um par de chinelas na mão, a gritar: Milagre! Milagre! Ela até achou as minhas chinelas, que eu tinha perdido há três anos! Milagre! Milagre!

Mariana Bom Trabalho foi, a partir desse dia, considerada como a primeira Santa Virgem dos Milagres viva!

 

 

A MORAL DESTA HISTÒRIA

 

Se tamanho é o disparate de dizer que é possível ascender ao céu uma gaiata serviçal de limpezas viva, maior é admitirmos que temos um Deus feroz, de barbas brancas e tábuas da Lei na mão, que pede aos seus crentes que assassinem os filhos para lhe demonstrarem a fidelidade que por Ele têm. Além de que, um céu destes, carregado de pesos que contrariam as leis da gravidade, já nos teria desabado em cima da cabeça. Disparate que não vale a pena manter por mais tempo, a amedrontar as pessoas, dado que a ciência, faz todos os dias descobertas que nos levam a acreditar num Deus bem mais decente do que este, um Deus bom, o Deus da natureza, que de humano no bom sentido tem tudo, e de selvagem não tem nada.

Quanto à casa da dona Zélia, é uma caricatura do país que os nossos governantes foram capazes de construir no decurso destes anos a que, com pompa e circunstância, à quem chame de democracia, (isto não nega a existência anterior de uma férrea ditadura) muito pelo contrário, mas sim, diz-nos que as pessoas que ocupam os lugares de relevo, ou por medo, ou por simples cobardia, não foram convenientemente expurgadas. A desfaçatez com que as várias sensibilidades políticas representadas no parlamento passaram a simples grupos de interesses económicos, a bem dizer máfias justificadas pelos votos do povo, faz-me encarar a Assembleia da República como se fosse um maravilhoso e caro restaurante panorâmico, cercado de monumentais e belos jardins; no seu interior os chamados deputados da Nação regalam-se com opíparos jantares, enquanto as crianças do povo colam os rostos aos vidros, salivando a sua eterna fome. Fome de tudo, de comida, de instrução, de afectos. Bem ajam todos aqueles que, por razões de consciência, votam em branco!

 

José Solá

 

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Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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