O grande fenómeno nacional:

O grande fenómeno nacional:

POLITICOS COM O CÉREBRO DO TAMANHO DE UMA AVELÃ

Antes os mistérios da mãe natureza chegavam-nos via Entroncamento; coisas fantásticas e do fantástico, como batata em forma de pénis equipada com os respectivos testículos, tudo apresentado em tamanho natural, melros brancos, galinhas minorcas poedeiras de ovos com oitocentas gramas, vegetais e frutas tamanho extra-largo, tipo “casa de família numerosa,” pés de feijão para subir até ao castelo do gigante, e por aí fora, num nunca acabar de mistérios aparentemente inexplicáveis.

Mas hoje, a sempre pródiga natureza, (talvez porque, enfim e finalmente, somos uma “democracia”), ou porque a misericórdia do Divino se compadece cada vez mais das nossas agruras, eis que, dos insondáveis mistérios do profundo Universo, ou das linhas tortas por onde Deus Escreve Direito, no nosso regaço caiu o mais inexplicável dos mistérios: POLITICOS DOTADOS DE PODEROSOS CEREBROS DO TAMANHO DE UMA AVELÃ, cujo poder, (ainda por nós desconhecido), será já objecto de aturados estudos por parte dos nossos mais brilhantes e distintos cientistas.

Assim é maravilhoso viver neste século vinte e um português, período histórico onde, todos os dias, um nunca acabar de surpresas nos temperam e dão cor à vida.

Antes de enveredar pelos dois ou três assuntos que me levam hoje a escrever estas modestíssimas linhas, permitam-me, amigos, que convosco compartilhe cá um “espírito santo de orelha” que me tem feito cismar; é este remédio santo aplicado em pachos criteriosos, os óleos de linhaça que, em dosagens estudadas, nos vêm arrancando a tosse cavernosa que nos amedronta e à qual, por falta de sabedoria maior, damos o nome de CRISE. Pois, para os nossos “doutores” especialistas nestas doenças do século, o tratamento, (infalível), passa pela privatização de tudo quanto mexa ou não mexa, esteja fixo e bem fixo à mãe terra, ou, em bravata de se mostrar, ufano e imponente, circule pelo ar. É assim, a terra é de alguns e o resto é paisagem, ou então Deus enganou-se, (acontece aos melhores), e não fez todos os homens à sua exacta imagem e em escala natural; uns são mais iguais do que os outros, uns são tamanho extra-largo e comem muito, os outros, minorcas, comem apenas o que Deus dará quando não anda esquecido. Como dizia Salazar, “quem pode manda e quem deve obedece,” como diz a cantiga, “uns comem tudo e não deixam nada,” como digo eu e diz o Povo, “quando o mar bate na rocha quem se amola é o mexilhão.”

Portanto, e voltando à vaca fria do assunto em questão, o diagnóstico da cura passa pelo emagrecimento de uns, (a maioria), e pela repartição da riqueza por todos gerada, em lotes que são pertença inquestionável dos mais bem nutridos, logo, mais aptos para tomar as decisões importantes. Por mim, um simples ignorante destas matérias, tudo bem, quem sabe, sabe!

Caminhamos finalmente para o tão esperado “Paraíso na Terra.” A cada qual segundo as suas necessidades.” Os palácios para os chefes, e a choupana para os obreiros; e que bela que é a choupana, que poesia, que visão do universo quando, nas noites de lua cheia, se vê as estrelinhas a brilhar no céu, sem nos apercebermos que as cobras nos circulam por entre os pés e escutam tudo quanto dizemos!

Tudo ia bem neste meu mundo pequeno, se não fosse esta mania de pensar e de ver. Não é que tive a má ideia de olhar para o lado? São as tentações do Demo, de mistura com o progresso da nossa Civilização. Que ninguém diga que o dito Demo só nos apoquenta no deserto, onde a sede obriga às miragens. Não. O dito mafarrico anda aí pelas cidades tal como qualquer um de nós, simples mortais que nada sabemos destas coisas; usa jeans, sapatos de ténis, brinquinho na orelha, mastiga pastilha elástica e fuma charros, discute bola e fala de gajas, chama “pasma” ao polícia e transporta uma botija de gás na mala do carro que não é dele, como ferramenta para ganhar no dia-a-dia o pão para a boca. Mas também se enfarpela e faz de doutor, ou é doutor, ou é qualquer coisa do género, com diploma e tudo, nos trinques, segundo a legalidade democrática e a lisura que sempre deve presidir aos bons hábitos e costumes da boa gente. Outras vezes, com o seu chapéu alto e preto, (já se vê), luvas brancas e casaca lustrosa, é banqueiro, e também há por aí quem já o viu fardado de general, presidente de câmara, deputado ou, imaginem, Presidente da Republica; o dito demo, afinal, é tudo o que bem entenda e mais lhe apeteça, é democrata, liberal, palhaço faz de conta, pobre ou rico, faz chorar e faz rir, mente e fala verdade, é socialista, (em liberdade, já se vê), democrata cristão frequentador assíduo da missa ao domingo, nunca à primeira hora por via do descanso ordenado por Deus, é sacerdote e sacristão, é social-democrata, actor e poeta, enfim, é tudo quanto nós queiramos ver, mas, por mais que se esforce, ainda que os bofes lhe saiam pela boca, que o galo tussa e a galinha mie, por mais que represente a cena na frente do espelho, e treine as “deixas” e os passos, as poses e as expressões, nunca vai conseguir ser humano; isso, essa cena e as “deixas,” o desgosto, e a alma que nunca se sente, mas que nos torna o coração pequenino e apertado, sangrando misérias num peito que sofre e nunca finge, uns olhos humildes que marejam lágrimas de sal, o sabor a fel, os pulmões que se desfazem em golfadas de sangue, a inocência dos filhos que não têm o que deviam, as mãos das crianças estendidas e os seus pequenos olhos que não percebem porque estão famintas e carentes, os animais escorraçados que arrastam os ossos visíveis sob a pele suja, os olhos do mundo que são sempre, eternamente indiferentes, as mães que choram os filhos que pereceram de fome, as bombas que caem do céu, teleguiadas pela mais moderna tecnologia que o mundo da ciência concebeu, e caem invariavelmente em cima dos pobres, o gozo dos discursos da ONU que escandalizam os Hipócrates que são donos dos milhões que geram mais milhões fabricando as bombas que, (dizem eles), são o garante de uma paz duradoura, mesmo eterna, o conluio dos mais fortes para oprimirem os mais débeis e fracos, as suas roupagens de pompa e circunstancia, as suas conveniências, os seus rostos patéticos, as suas alianças, (hoje são socialistas, amanhã sociais democratas, logo democratas cristãos), isto porque o mundo real é mais de conveniências do que de convicções; o tal dito de Demo é tudo isto e muito mais, mas humano, capaz de ver as ondas do mar encharcarem as rochas e ficar por ali, horas sem fim a sonhar, amar o Sol e a Brisa, gostar do outro, compreender a vida e intuir a grandeza e os mistérios do Universo, isso, meus amigos, cabe-nos a nós, os humanos, acarretar para sempre sobre os nossos fracos e cansados ombros; a consciência que advém da lucidez é o maior dos fardos que a natureza nos impõe; isso, e ver, ver com olhos críticos, com olhos de ver e de compreender.

Vamos entrar um pouco no mundo fantástico das confidências? Já agora, que poucos perdem tempo a ver estes escritos, porque não compartilhar com esse punhado de gente um pouco dos meus delírios? No dia da Independência assisti pela televisão ao desfile militar. Sabem o que imaginei? Uma cobra vestida de homem, com um aspecto vampírico, a passar revista a um soberbo exército de mercenários bem nutridos, perante os olhares de uma população vencida e resignada a um fim trágico e miserável.

Prometi que ia abordar nestas linhas dois ou três assuntos que julgo de interesse; na verdade, acabei por escrever o que tinha em mente e o que não tinha.

Um abraço a todos vocês, amigos de cá e do Brasil, que tanto estimo, o meu muito obrigado por me aturarem e, até breve!

José Solá

 

 

 

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Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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