“A mensagem do crisântemo” Crónicas da Brilha

 
 
Nasci nas ruas de Cascais, só como todos os seres quando nascem, o futuro de miséria escrito no rosto. Tinha pouco mais do que a vida que alguém me dera e sabia já de cor que me esperava ou a funesta liberdade de não ter poiso certo ou a prisão das grades numa janela mais ou menos doirada e que é tudo o que somos forçados a fazer para construir um lar ou uma casa – conforme se entenda, porque um lar não se faz de tijolos, argamassa, ou outras coisas que tais.
Tive a sorte de, um dia, me levarem para um albergue, quase contra minha vontade. Habituado à chuva seca no corpo enlutado e ao orgulho de não ter outro agasalho, pareceu-me salgado esse saber de dever a alguém o tecto que tinha sobre a cabeça.
Depois levaram-me para outra jaula maior, menos austera, com crianças pequenas, escadas a perder de vista e um sem número de objetos pequenos por descobrir.
Havia luz nessa casa encaixada num jardim com árvores e pássaros nos galhos. E havia amor.
Tentei fugir várias vezes. Queria-me livre outra vez, para sentir no corpo dolorido essa marca de ser sempre só, mas deixei-me cativar por esta gente estranha de modos e costumes que me amava tanto quanto me importunava com o querer a minha presença.
Fui ficando preso nessas malhas que eram os dedos fofos da criança mais pequena e o abraço quente da mãe. Fui ficando e deixando crescer no meu coração essa força que nos liga às pessoas e aos lugares. Criei raízes como as árvores e cresci, envelheci, seja o que for, no seio dessa família que era agora minha também.
Um dia, adormeci a custo. A menina mais velha e a mãe velando o meu sono. Ela adoecera. Sentia-lhe as mãos fracas e frias de quem se despede. Soube nessa instante que lhe daria o meu corpo, a minha vida, se isso a fizesse sorrir outra vez. E procurava-a sempre, adormecida num canto qualquer, para a abraçar.
Um dia, pouco depois da menina mais nova deixar a casa, a menina mais velha voltou a erguer-se nas suas patas e a caminhar. O perigo passara.
Mas com essa preocupação sobreveio-me um cansaço sem fim. Comecei a evitar a companhia daqueles que amava. Entristeciam-me os seus gestos de ânsia em me abraçarem, o gritarem o meu nome rompendo o silêncio que há tanto se instalara naquela casa.Estava cansado da vida, dos ossos que me doíam até à alma e só queria que me deixassem dormir.
Um dia parti, sem dizer para onde ia, mas sabendo que não iria regressar. Fechei lentamente os olhos e sonhei.Para trás deixei a saudade, o rosto das meninas, da mãe, do pai austero que afinal também me sabia amar.Eles ficariam sempre assim, tal como estavam, na minha memória. Não haveria nunca morte ou decrepitude que nos separasse.
Aqueles instantes, que afinal foram toda a minha vida, seriam eternos.
 
Ana Brilha
 
 
 
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Nota | Esta entrada foi publicada em Opiniões, testemunhos. ligação permanente.

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