A civilização dos inúteis

EXÉRCITO – É um luxo que a sociedade civil, nos tempos que correm, não pode pagar. É certo que às nossas forças armadas se deve a Revolução de Abril. É uma realidade incontornável, que devia de envergonhar toda a sociedade pela manifesta falta de coragem, (que nunca teve,) para se libertar do jugo ditatorial.
As guerras de hoje, (tudo o indica), são essencialmente travadas no campo económico; talvez porque o equilíbrio bélico das armas modernas amedronte as nações, ou porque, de certa maneira, as armas atómicas aos poucos se estejam a transformar no “armamento dos pobres;” a verdade é que, no meu entender, os mercados e a força do dinheiro são mais do que suficientes para, no presente, subjugarem com pleno êxito as nações mais fracas, e num futuro quiçá não tão distante quanto se pense, conseguirem dominar alguns dos grandes blocos económicos.
Na verdade, a um exército que me parece ainda não completamente liberto de complexos de grandeza imperialista, (isto quanto ao ainda elevado numero de altas patentes que subsiste), e quando se desbloqueiam as justíssimas progressões das carreiras, ainda por cima quando escasseiam cada vez mais as “ferramentas bélicas,” (refiro-me aos aviões mais sofisticados, navios de guerra, modernos carros de combate e outros tipos de armamento de alta tecnologia), as nossas forças armadas, que tantos relevantes serviços ao longo da nossa velha História nos prestaram, o sangue que derramaram em defesa desta velha pátria, acabam por se tornarem inviáveis quanto ao seu custo elevado. Uma mão-de-obra altamente qualificada, ainda por cima sem entraves na progressão das carreiras, uma ausência de meios de defesa, (as acima referidas ferramentas), e o empobrecimento galopante das condições de vida das classes trabalhadores, (que neste País tudo pagam), o estrangulamento da economia por via dos cortes constantes impostos de fora para dentro, sistematicamente agravados por um governo, quanto a mim de manifesta tendência germanófila e ultra direita, são o machado que decepa em definitivo as nossas veleidades de defesa do território pela via militar, e nem o principio de que as forças armadas são o garante da Constituição da Republica, (principio que eu contesto, a meu ver, apenas e só a educação do povo nos garante a lucidez suficiente para perceber os graves desvios feitos à Constituição), é o bastante para justificar à população civil mais sacrifícios para salvaguardar o bem-estar e a continuação do exército, tal como hoje o entendemos.
Lamento concluir, considerando que o actual governo omite a verdade, quando diz compreender e aceitar as justas aspirações dos nossos militares, vá-se lá perceber porque o faz…
SIS, E FORÇAS DE MANUTENÇÃO DA ORDEM PUBLICA – Entendo que não se limite a progressão das carreiras dos agentes que corporizam estas forças, pois é nelas que assenta a segurança do Estado. Mas não entendo certos pressupostos que são referidos perante as câmaras de televisão por políticos que pertencem aos partidos da área do Governo.
Foi a inquérito, ordenado pelo senhor ministro da administração interna, a actuação das forças da ordem a quando da ultima manifestação dos indignados. O processo correu célere, e a conclusão desculpabiliza, e de certo modo até elogia, a conduta no geral das forças de segurança, e apenas aponta pontuais comportamentos condenáveis, que, (por serem contrários às boas normas de conduta,) vão sujeitar-se a averiguações.
Contudo, no meu espírito subsiste uma pequena dúvida, tal como um daqueles pressentimentos que, sem explicação racional, nos vêm à mente. O que leva pessoas com um bem-estar, ainda que relativo, a apedrejar as forças de manutenção da ordem pública? Pura selvajaria, ou antes um acto de desespero? É que, se são gente em desespero, ou porque têm fome, (realidade que já existe no país), ou porque são desempregados a quem o patronato aponta como única solução empregos a recibos verdes, aí, o caso muda por completo. Se o Estado não corresponde minimamente às urgências das pessoas, se não lhes garante o indispensável das suas necessidades básicas, como o direito à alimentação e ao trabalho com direitos, é racional dizer a esse Estado que, “quem anda à chuva”, molha-se! É que não me parece que um ou dois casos de apedrejamento justifiquem cargas policiais violentas, e não compreendo que este nosso povo, tradicionalmente pacífico e ordeiro, se volte em massa contra a polícia, (também ela por norma urbana e civilizada), armado de pedras e cadeiras. É um contra censo. Dois ou três agitadores estrangeiros metidos na manifestação, com pessoas com o nosso temperamento, que tudo aguenta e tudo consente, é impossível que arrastem a nossa gente para a barbárie. Talvez se o Estado com algum tempo, possa, nuns breves segundos furtados aos seus imensos afazeres, meditar na maneira como procede com o povo que trabalha, e assim o sustenta, a ele Estado, e assim verificar se tem algumas “pedras” a pesarem-lhe na consciência, de modo a evitar males maiores, no futuro próximo.
Em França, (vai para muitos anos) uma manifestação de agricultores originou confrontos extremamente violentos com as ditas “forças da ordem.” A quando de uma segunda manifestação, quando a policia avança, abrem-se alas entre a imensa massa humana dos agricultores, e do centro surge a passo de carga, um contingente de agricultores munidos de máscaras de protecção contra gases, viseiras, escudos de vime, tacos tipo de basebol, protecções das partes mais sensíveis do corpo, e desse confronto resultaram baixas em ambos os lados.
Julgo conveniente dizer a quem de direito, que, nestes assuntos das manifestações, é um pouco como no futebol; é com os erros e as experiências que se formam os melhores treinadores, e nas equipas que ganham nunca se mexe, o que cada vez mais aumenta a experiência dos que vão a jogo. É tudo também uma questão de amor à camisola, e podem crer que os famintos e os desesperados se entregam de corpo e espírito à sua justa causa!
JUSTIÇA– Ver e crer como S Tomé e aprender até morrer, são máximas do povo que afinal, nesta nossa vidinha feita do dia-a-dia, demonstram uma profunda sabedoria.
É o caso. Pensava eu que minimamente conhecia o termo ilícito, que o mesmo se aplicava à prática de actos lesivos, assim como roubo, burla, vigarice, trafulhice, fraude, contrair dívidas que nunca se pagam, deliberadamente prejudicar o próximo, e por aí a fora. Para melhor exemplificar, dizer que um tipo assim estilo Vale Azevedo é um sujeito que enriqueceu de forma ilícita, e que se teria evitado muita trafulhice ao fiscalizar as suas contas bancárias, (as do país e as do estrangeiro), seria sempre uma boa prática. Pobre de mim, como andei errado todos estes anos! Afinal, os doutos doutores do nosso Supremo elucidaram-me de maneira cabal e definitiva, tanto a mim como também a muita boa gente por esse país fora. Bem-haja pelo vosso brilhante esclarecimento! Agora compreendo como fui injusto sempre que critiquei, (a torto e a direito), pessoas de bem. Brilhantes bem feitores da Pátria e honestíssimos homens de negócios, (banqueiros, entre outros), e ainda deputados da Nação, ou mesmo Conselheiros de Estado. A todos aqui deixo um abraço de solidariedade e, daqui em diante, o meu profundo respeito e gratidão!
Afinal sou parte deste Povo que sempre estende a mão à palmatória quando erra!
Mesmo assim, não lhes parece que aqueles excelsos doutores têm um certo ar bafiento, assim como se os tivessem retirado de dentro de uma arca com bolas de naftalina?
CIVILIZAÇÃO DOS INÚTEIS – Parece-me um título adequado ao que hoje acontece pela Europa, onde, (no caso da Grécia), um exército espera sentado nas bancadas de um qualquer estádio, a ver quem ganha o jogo, para no fim estender a mão ao vencedor, a dizer: “Não se esqueçam dos nossos ordenados,” e por cá, nesta terra velhinha de séculos, o povo é esganado de impostos, por uma gente com profundas características de esquizofrenia, que nos obriga a pagar as dívidas que não contraímos.
E o que dizer desse senhor doutor Mário Soares, que até pretende que o povo lhe pague as multas de trânsito? É pena este modesto escrito já estar longo…
José Solá

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Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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