O consultório do dr Zezinho

Primeiro, – e logo que desci da camioneta de passageiros, – fui procurar o largo da morada do consultório do médico que me tinham recomendado. Foi fácil, pois havia dois largos separados por uma pequena igrejinha, mais propriamente uma ermida dessas que às vezes se avistam nas paisagens nos campos, ou porque por ali viveu alguém a quem chamavam santo, ou porque se passam de pais para filhos histórias de milagres que não foram esquecidos, batalhas que se deram, ou outros acontecimentos que, sem se saber bem porquê, ficaram vivos na memória colectiva das pessoas. E lá estavam os dois largos, ligados entre si como se fossem irmãos gémeos por aquele pequeno templo. Um deles não era o que eu procurava, tinha um coreto do século dezoito ou dezanove, não sei bem, pintado de verde na cobertura em cúpula, com um soco de protecção em pedra branca, alva, reluzente, e tinha árvores firmes em caldeiras de terra vegetal contidas por uma lancilagem curva. Eram plátanos, naquele mês despidos de muitas folhas, mas ainda verdes, e outras no fim do ciclo da vida estiradas no chão, já amarelas. O largo que me tinham indicado era o outro, praticamente sem árvores, mas eu identifiquei-o facilmente porque havia uma farmácia, a única da terra, estabelecimento pequeno com uma balança electrónica quase a impedir a entrada, uma dessas maquinetas que pesa, mede, fala e dá sinas, tudo ao mesmo tempo e por troca de uma simples moeda de cinquenta cêntimos. Ao lado havia uma loja modesta que era um misto de drogaria, venda de electrodomésticos, filial da camionagem onde se compravam os módulos das viagens com desconto, retrosaria e venda de garrafas de gás butano, com garrafas colocadas à porta perfiladas em duas bichas de pirilau, encostadas uma à outra, roubando espaço ao passeio pouco largo. Um cão deitado levantou o focinho cor de café com leite com uma mancha branca, e tentou ladrar, ou para me intimidar ou para me cumprimentar, ou simplesmente para perguntar “Quem és?” mas porque a canícula do dia ainda abrasava não conseguiu mais do que um modesto: Auuuuuu!, projectado com esforço por uma garganta seca. Vi o prédio, o da esquina, o do gaveto, o maior do largo, e para me certificar entrei na casa Ferreira, a das garrafas, dos módulos das camionetas e da venda dos nastros e perguntei: O consultório do senhor doutor Ferraz, por favor, onde fica? E uma voz ensonada chegada do lado de lá do balcão, saída da garganta rouca de um velho senhor, respondeu-me: Amigo, se o consultório fosse bicho já o tinha mordido! Você anda para aí há uma porção de tempo e já passou por ele três vezes, é ali, santa criatura de Deus, mas o Zezinho ainda não chegou, que eu tenho estado a ver. Olhe, aqueles que estão dentro do carro devem de vir também à consulta, portanto estão primeiro! Presumi pelas palavras do discurso que o Zezinho fosse o médico, agradeci a informação e saí porta fora, passei pelo carro onde um par de possíveis namorados se chegavam um ao outro no banco da frente, cabeças encostadas e alguns beijos na boca, talvez com a intenção de ficarem ambos doentes, ou já o estariam, não sei, e fui ver de mais perto a porta de entrada, que estava entreaberta, e então percebi que não havia luz no interior. Olhei os ponteiros do relógio de pulso, já passa meia hora da hora marcada e ainda nem sequer abriram a porta! É mesmo à portuguesa, valha-nos Deus! Entrei no café ao lado e escolhi uma mesa que me permitia ver a porta de entrada do consultório. Pedi um café fraco e comecei a ler as gordas do jornal lá da terra, um olho no burro outro no cigano, como quem diz, na porta e no jornal, e o tempo passou e eu desesperei. Quarenta minutos, irra! É demais! Se dizem que navegámos e descobrimos o mundo devemos ter demorado um século a chegar a Cabo Verde que fica ali, ao virar do primeiro mar, e isto já depois de conhecermos o caminho de cor e salteado! Mudei de posição na cadeira pela milésima vez, fechei o jornal, abri o jornal de novo, olhei uns bolos mirrados dentro de uma vitrina minúscula, voltei a mudar de posição na cadeira, e foi então que o homem do café, olhando de cima para baixo por detrás do balcão, possivelmente pisando um estrado que lhe emprestaria respeito e liderança em momentos de aperto, provocados por algum copito que caiu mal, condoído, protegido por um avental acinzentado, outrora possivelmente branco, se dignou perguntar: “O amigo vem para a consulta do Zezinho, é?”, Ao que eu anuo movendo a cabeça para cima e para baixo. “Pois, – continuou o homem, – é que ele às vezes atrasa-se um pouco. É a primeira vez que vem à consulta?”, Disse de novo que sim com a cabeça. “ Então vai ver que vale a pena, ele é muito bom médico, ele e os irmãos, o dentista e o farmacêutico, são os que nos têm valido aqui na terra!” “Pois, – disse eu, mas desta vez sem acenadelas de cabeça, – é um pouco demorado. Tinha consulta marcada para há cerca de duas horas atrás e ainda nem sequer abriram a porta!” “Não abriram? Olhe que abriram sim senhor! A porta está aberta e o amigo pode entrar quando quiser!” Fiquei atónito. “ Abriram a porta como se a luz não está acesa?”, ao que o outro respondeu:”É para ficar mais fresco! Então não sente o calor? Se quiser entre e acenda a luz!” Reflecti na oportunidade de ler umas revistas no recato do fresco, longe daquela montra quente, e pensei: ainda bem que também sou um portuga, para entender um portuga só outro do mesmo género e tipo.
Sai do café, passei ao lado do carro, um Fiat de meia-idade, pintura a começar a ficar queimada pelo Sol, com uma música suave a sair pelas frinchas das portas e das janelas, enchendo o pedaço do largo onde estacionara na pouca sombra que o prédio projectava quebrando o Sol de esguelha, e sumi-me pela porta entreaberta para o interior do consultório. A seguir à porta havia outra porta, de vaivém, um guarda-vento, e passado este vi-me numa saleta com um sofá antigo, umas dez cadeiras e uma mesa redonda no centro. A claridade infiltrava-a chegando do exterior pela nesga das portadas de madeira pintadas de verde que estavam encostadas. Sobre a mesa uma lista de papel começando pelos dizeres: consultas marcadas para as dezasseis horas, e seguia-se uns números de ordem com nomes apostos à frente. O primeiro nome era o meu, seguido de um outro nome de homem, presumivelmente o rapaz do carro, e havia um terceiro nome de mulher que eu ainda não vira. Ao lado da lista, um pouco em cima desta, um envelope branco com letras garrafais que dizia: O doutor está atrasado. As consultas com marcação para as dezasseis horas passam para as dezoito e trinta. Pedimos desculpa pelo transtorno. Um rabisco à laia de assinatura legalizava o pequeno manuscrito. Senti-me satisfeito com o fresco criado por aquela penumbra, olhei as paredes na procura de um interruptor e não descortinei uma só caixinha fixada na parede que se assemelha-se a um interruptor, e por isso fui entrando, abrindo a porta seguinte, passando a uma sala mais ampla, com uma mesa de reuniões de pequena dimensão rodeada de cadeiras e colocada no centro. Ali sim, havia dois interruptores. Não há fome que não dê em fartura – disse, – não havia nenhum e agora tenho dois! Carreguei no botãozinho para baixo e voltei à sala anterior. Nada, não era aquele. Voltei de novo ao local, cliquei no mesmo interruptor para cima e pus o que estava ao lado para baixo. Voltei de novo à sala que seria de espera e agora sim, uma luz modesta de néon escapava-se de dentro de duas lâmpadas compridas metidas dentro de uma armadura de plástico presa ao tecto. Fiquei feliz com o prazer da vitória, sentei-me espalhado no sofá velho dando um hã de satisfação, escolhi uma revista dessas que só os bonecos das fotografias interessam e pus-me a folheá-la sem lhe prestar atenção.
À terceira ou quarta página um ruído de vozes altas na entrada, uma risada e a porta de vaivém rodando para cá no seu silencio de dobradiças bem oleadas e um vulto de mulher grande de meia-idade que empresta a vida dos bem-dispostos à sala, e vinha seguida do rapaz do carro e da rapariga que se me meteu na cabeça que fosse a namorada. Boas tardes, então está sozinho, é? Fiz que sim com a cabeça. Pronto, agora já tem companhia! É que o senhor doutor atrasou-se, é o trânsito na ponte, sabe… O rapaz novo também deu a sua opinião, disse: É, ele atrasa-se sempre!
Aquelas pessoas não se sentaram logo, continuaram de pé com a algazarra da cavaqueira que me foi impossível entender, por um lado porque não sabia o fio da meada, por outro, a pronúncia cerrada daqueles ribatejanos, quando eles não falavam num tom baixo e pausado, não dava para entender népia.
A mulher grande de meia-idade que hoje sei tratar-se da mãe do médico, acabou por ir tratar da vida e o casal jovem sentou-se nas cadeiras à minha frente. Ficámos em silêncio, eles cochichando baixinho, em inconfessados segredos, eu meticulosamente folheando a mesma revista para e unicamente encontrar fotografias de mulheres bonitas, até que, já muito perto das dezanove horas, entrou um homem quarentão bem vestido, atarefado, pasta de cabedal na mão, uma roupa branca debaixo do braço, e o rapaz novo disse: “Boa tarde senhor doutor,” ao que o homem respondeu com voz agradável, “então como tem passado?”, e com ele a fugir já pela outra porta, o rapaz novo respondia: “bastante bem, senhor doutor!”
Passados uns escassos cinco minutos, – o que, para quem espera e já desespera parece uma eternidade, – o homem apareceu na ombreira da porta, com uma bata branca desabotoada, perguntando: “Quem está primeiro? Faça o favor de entrar!” Ergui-me logo, não fosse o rapaz adiantar-se, e entrei para a tal sala com a mesa de reuniões ao centro. Disse: “Boa tarde, doutor.” E de mão estendida o médico cumprimentou-me, e disse-me: “Faça favor de se sentar,” e quando eu puxei por uma cadeira na sua frente, ele, sorriso a abrir-lhe o rosto, disse-me: “Aí não. Venha aqui sentar-se ao meu lado! Fica mais próximo para eu o observar.” Assim fiz. “Então meu amigo, o que o trás por cá?” E no mesmo instante, sem que tivesse tempo de abrir a boca, alguém bate à porta e de imediato abre-a e entra, uma jovem loura de cabelos curtos, cortados à garçone, como nos anos trinta ou quarenta, modas que vão, modas que voltam, uns olhos que piscam sem parar, olhando-me pede desculpa, sorri com ar gaiato, e diz:” Zezinho, afinal estavas certo. Obrigado, ele melhorou muito mas ainda não está a cem por cento.” E o doutor, com ar satisfeito, quis saber:” Fizeste bem o que te disse, abriste um buraco no nabo, encheste com açúcar mascavado e obrigaste o teu catraio a enfiar o dedo lá dentro, foi, e agora o panarício, melhorou, não foi?” “Sim, de que maneira, rebentou durante a noite e a bem dizer que saiu tudo, que alivio, finalmente deu uma boa noite de sono! Vinha saber quanto te devo…” Deixa estar isso, moça, pagas para a próxima, deixa estar que eu aponto!” A loura dos cabelos à garçone voltou a sorrir para mim, com ar contrafeito, e lá abalou porta fora.
Enfim, ia finalmente ser consultado. “Abra a boca, ponha a língua para fora e diga Há!” Disse-me com uma pequena luzinha, um foco que me parecia insignificante, seguro pela mão direita. “Isso, isso, abra mais, diga Há com mais força, isso, isso mesmo, pronto, pode fechar!” E enquanto ia falando espreitava-me para dentro da boca, o focozinho jogado para a garganta e quando eu ia a contribuir para o diagnóstico com a descrição pormenorizada dos meus males, mais um toque-toque seguido da aparição, desta vez, de um velhote magro, com idade indefinida mas muito acima da média, boné de pala na mão, colete preto sobre camisa já sem cor, olhos tristes, e que diz, sem me encarar sequer:” Zezinho, acode-me pela tua santa mãezinha, são as dores das minhas cruzes, calcula tu, que já andava tão bonzinho”, “Ainda tens comprimidos?”, “Não, acabaram ontem, vê lá tu, uma desgraça nunca vem só!”, “Não te preocupes que eu já resolvo o teu problema!” O doutor levantou-se e foi a um armário metálico com porta em vidro, pintado de branco, primeiro espreitou para o interior, uma confusão de frascos e de boiões, caixas com compressas e ligaduras, embalagens de medicamentos e uma profusão de outros objectos que, do ângulo em que me encontrava não consegui identificar, e finalmente introduziu a mão, hesitou entre dois pequenos frascos, escolheu um que retirou e estendeu ao homem, “ Aqui tens, daqui por quatro dias quero-te cá!” “marco consulta com a tua mãezinha?” “Não. Espreitas à porta para eu saber que estás cá que eu depois te mando entrar na tua vez! As melhoras, e não toques no álcool enquanto andares a tomar os comprimidos, olha que é muito importante…” “Eu já não bebo, Deus te abençoe, Zezinho…” “ Há, pois não, que não bebes” Disse o clínico enquanto o velhote saía.
“Você desculpe estes pequenos atrasos, mas estes velhotes, todos eles, andaram comigo ao colo, levaram-me a ver os toiros, fomos à pesca quando havia peixe neste tão mal tratado rio, no tempo em que o meu falecido pai era vivo, é gente boa que anda para ai à espera da morte e eu sinto-me na obrigação de dar uma ajuda. Bom, vamos então tratar de si.” Sentou-se de novo ao meu lado. Auscultou-me, mediu a tensão arterial, e quando eu ia a abrir a boca para contar das minhas mágoas, fez-me sinal com a palma da mão para me calar. De novo com o focozinho em punho, tipo pacifica arma de arremesso, quase que, voltado para mim, metia as suas pernas entre as minhas, e dizia-me para abrir os olhos o mais que pudesse sem pestanejar. Com o foco e uma pequena lupa espreitou-me para as pupilas, ora vendo uma, ora vendo a outra, uma e outra vez, num exame silencioso e prolongado, e também um pouco, para não dizer muito, difícil de suportar, devido ao incómodo da luz ampliada pela lupa durante tanto tempo.
“Há quanto tempo é que você anda assim?” Questionou-me. “Assim como?”- Perguntei. – “ Com essa tremenda prisão de ventre. Você não vai à casa de banho há quantos dias?” Disse-lhe que havia quatro dias mas estava a mentir, sem saber bem porquê, na verdade havia cinco e aquelas cólicas estavam a tornar-se insuportáveis. Era desesperante, passava horas sentado na sanita e nada, e as cólicas que não passavam, parecia que o Carmo e a Trindade caiam do céu sobre a minha frágil cabeça. Explicou-me o tratamento escrevendo uma guia para me ajudar a seguir a sequência e a ordem dos medicamentos, e quando, de esferográfica em punho, se preparava para passar a receita, um novo e ligeiro toque na porta. Ninguém entrou, até que o médico disse entre. Uma velhota de idade avançada e antiga como o tempo assomou na ombreira, aquela face de avó encarquilhada, um rir sem dentes, um cabelo enrolado em carrapito no alto da cabeça.” Boa tarde!” Disse. “Zezinho, dás-me licença?” “ Claro, dona Mafalda, diga de sua justiça!” “Passas-me umas receitazinhas, passas?” O médico encarou-me e perguntou-me se tinha muita pressa. Tive vergonha de dizer que sim, que já estava farto, e a tia Mafalda lá foi passando à minha frente.
“Até que enfim que o amigo está despachado! Quero vê-lo na próxima quarta-feira da semana que vem, se até lá tiver problemas é só dar-me uma apitadela. Mas logo que tome o laxante você vai conseguir resolver o caso. Não vai demorar muito. E desculpe estes atrasos por causa dos velhotes. A culpa disto é de uma tipa que é a presidente da junta a quem pusemos a alcunha da Rebiteza, até para a semana, meu amigo, até para a semana.” Apertei-lhe a mão e quando estava a sair a porta lembrei-me que não pagara a consulta. Voltei para trás de imediato, puxando da carteira e pedindo desculpa. Disse-me que não fazia mal, enquanto tirava a mão do bolso segurando um maço de notas, e me dizia com o seu sorriso rasgado: “Eu hoje já estou bem aviado!” Na sala de espera o rapaz novo estava acomodado na cadeira junto da rapariga que se me tinha metido na cabeça que era a namorada, não sei bem porquê, são ideias fixas que entram e depois teimam em não sair…
Sai a porta, deixando-a encostada no batente, como pelos visto estava sempre durante o dia, e senti na face uma brisa leve que seria a responsável por ter afugentado a canícula para longe. No centro do largo o cão quase cor de café com leite, com uma mancha branca no focinho, estava sentado nos quartos traseiros, focinho erguido avaliando os cheiros vindos pelo ar, e quando reparou em mim abanou a cauda como quem diz, desculpa aquela atrapalhação de há bocado, eu na mais pura das verdades estava a sonhar! À porta do café encontrei o balconista e perguntei-lhe a que horas tinha camioneta, respondeu-me que havia uma às vinte horas e trinta, e outra depois a seguir, às vinte e uma horas. Agradeci, olhei o relógio que marcava dezanove horas e cerca de quarenta minutos, reparei na porta da igrejinha que estava aberta e entrei. Não sou crente, nem nada que se pareça, acredito apenas na lógica da vida e descreio ostensivamente dos mandriões todos que nos governam, esses e Deus para mim são os maus da festa, mas reconheço que a religião faz parte da nossa cultura, é unha e carne com o nosso passado, e considero que o recato de uma pequena ermida, desde que não esteja apinhada de gente, é um óptimo local para meditar ou para simplesmente não pensar em nada. Entrei. No interior agradável um banho de sossego molhou-me o corpo. Duas ou três velhotas ajoelhadas rezavam sem ruído, e o padre, homem de raça negra, rezava num sussurro perto do altar, possivelmente para não incomodar Deus que estaria no sótão, sobre a galeria do coro, sentado exactamente do lado em que estava o pequeno órgão, num cadeirão de veludo, vendo nos raios de Sol ainda um pouco alto no horizonte, vindos da vidraça fechada, a iluminarem o baile das nuvens de pó, enquanto tentava adormecer. O padre não incomodava Deus e este não incomodava o padre. Sentei-me num daqueles bancos corridos com a tábua corrida na frente onde as pessoas colocam pequenas almofadas quando se ajoelhavam para orar. Possivelmente para pedir uma graça. Muito pedincham os homens, neste caso mais as mulheres, as velhotas, pois as novas começam a acreditar em coisas mais terra a terra. No pequeno altar, estava o Cristo. Nos altares laterais via-se a imagem de santos, qual era qual não sei, sempre os achei todos iguais, com excepção do Santo António, por causa do hábito com os cordões, do menino ao colo e daquele ar que por vezes me parece pagão, na sua simplicidade de franciscano, os frades modestos da terra, que se preciso for trabalham a terra com as mãos calejadas para prover ao sustento. Mas dizia que consigo identificar este santo, pois é alguém que tem a minha simpatia, mexe comigo cá dentro, aos outros não os conheço, nem bem nem mal. Pura e simplesmente não sei quem são. No altar, de mãos postas, o padre era de ébano, com muita idade, com pouca idade? As pessoas de ébano têm esse condão, só muito tarde se percebe se já viveram muito, mas naquele caso a carapinha salpicada de branco dizia-nos que já teria alguma experiência de vida, e a sua figura ficava bem, não destoava, era pertença que estava de mãos postas no altar tal como a argamassa solidifica as paredes, condizia com a pequena capela. Na torre sineira o badalo pariu as pancadas das horas marteladas contra as paredes do sino, pancadas com sabor a bronze sonorizadas ao longe levadas pela brisa. Persignei-me, – não sei se por vergonha, para ocultar ou esconder a falta de fé, se por simples hábito chegado de dentro puxando a minha infância, passada, apertado entre igrejas e escola, o menino não faz, o menino não mexe, o menino não diz, o menino não olha, tudo é pecado, tudo é disciplina, e a disciplina quando somos muito novos trás a tristeza, e por isso os olhos de muitos gaiatos do meu tempo eram parados e tristes, como pérolas pretas sem Sol vindo de dentro. Nem em todas as esferas da sociedade era assim. Recordo-me de invejar miúdos de rua correndo descalços, chutando bolas de trapos metidos dentro de meias, marcando golos, defendendo balizas, apanhando eléctricos que corriam nas linhas como cavalos domados no frenezim da desfilada, varrendo Lisboa de ponta a ponta, sem parar nunca, sem cansaço, mas com o calor do amor dos que levavam lá dentro. E os moços corriam, pulavam, ficavam firmes nos estribos, olhos jogados no cobrador, tronco inclinado para trás, pé direito pronto a receber o chão se o cobrador viesse. E o cobrador vinha, não vinha logo, claro, esperava que o eléctrico vagasse nas subidas, avaliando a velocidade em que devia entrevir pelo tamanho do moço, sentindo-lhe a agilidade dos músculos elásticos, dizendo entre dentes: “Este já é grandito, este salta bem, tem pé leve.” E ia então, com calma com sossego, sem pressas, e o malandrete lá fugia, esguio, fluido, bizarro na aventura. Rapaziada sem futuro, criados ao Deus dará, diziam-me. E eu? Teria futuro? Que é isso do futuro? Se a Deus pertence Ele que decida na altura, mas agora deixem-me brincar em paz. Deixem-me crescer, deixem-me viver, deixem-me ser feliz.
Já passa das vinte horas, aí quê? Olhei o relógio. Dez minutos. É altura de ir a caminho da paragem, que na próxima semana por aqui estou de novo, intrigado nesta terra pequena onde no tempo quente os cães ladram deitados e as donas Rebitezas são badaladas pelos cantos.
Quando saí da igreja e pisei de novo o largo o café com leite veio de pronto a abanar o rabo, – “Este já me adoptou,” – pensei. Fiz-lhe uma festa na cabeça e ele sorrio para mim, talvez pensando, à falta de osso, pelo menos ganho um prémio de consolação, e lambeu-me a mão à guisa de agradecimento, ou porque me viu como padrinho protector dos cães.
O balconista continuava à porta e eu passei por lá, em caminho para a paragem do autocarro e perguntei:” Vocês servem refeições?”, “Arranja-se sempre qualquer coisa, porquê? Vai voltar?” “Sim, na próxima quarta feira volto à consulta!”, “Então venha almoçar, é bom e é bem servido. Gostou do médico?” “Sim, fui bem atendido, o senhor, passo os atrasos, é uma pessoa simpática.”
Disse até quarta-feira e encaminhei-me para a paragem, intrigado com aquela terra parada no tempo, com gente simples dessa que já não se usa, tal como a roupa antiga, como os ferros de engomar a carvão, como as bicicletas pasteleiras, como as modas, como o tempo antigo já gasto, como as horas que se viveram e como as outras, as que se desperdiçaram jogadas no fosso do tempo, como a alegria que não se teve, como a mulher que se devia ter amado e que não se amou. Fiquei parado a observar, de pé junto do banco de plástico preso por hastes metálicas no interior da caixa envidraçada com anúncios colocados nos vidros. No centro do rectângulo do largo o café com leite com o espanto nos olhos meigos a querer dizer: então porque te vais embora, não estás aqui bem? Vá, faz-me outra festa e vem lanchar comigo ali à do café, pelo menos experimenta. No outro largo os plátanos meio despidos em pé, cansados por esperar pelas folhas novas, ainda não se haviam livrado de todas as antigas, e na porta do consultório a figura do rapaz novo que aparecia, com a rapariga que seria a namorada, presumia eu que fosse a namorada, sei lá, talvez que fosse a mulher, talvez que fosse a prima, a irmã de certo que não, porque se tinham beijado nos lábios. Acenou-me com a mão, a fazer adeus, não sei porquê, não nos conhecíamos, nem sequer tínhamos falado. Acenei também, questão de educação, sei lá. A camioneta que chia na curva, que se adivinha a dar a curva, vinda de Lisboa, da capital, que trás gente, que leva gente, que faz girar o mundo, com o mesmo motorista da vinda agarrando a roda do volante sem a sentir, virando para a direita, virando para a esquerda, travando, metendo a primeira mudança porque as outras não é preciso, são automáticas, e tudo isto sem pensar, guia sem pensar, curva sem pensar, trava sem pensar, boceja sem pensar, cobra os bilhetes e faz os trocos com gestos automatizados pelo hábito, ri por habito, fala por hábito, vive por hábito. Entrei pela porta da frente, paguei o bilhete e escolhi lugar. Deixei-me levar embalado pelas curvas, adormecido pela velocidade, intrigado pela terra que existe parada no tempo onde a loja do Ferreira vende garrafas de gás butano, nastros, porcelanas, módulos para a camioneta, com as garrafas postas à porta em duas filas de pirilau sem estarem presas com corrente, e não fogem, não se mexem, não mordem, não pedem festas como o café com leite que lancha no café do largo, não falam, apenas existem.
A semana passou rápido, repartida entre o prazer de escrever, o tomar dos remédios, o comer, o viver a vida da família, e a leitura de dois ou três livros em simultâneo sentado com o computador ao lado. Os remédios fizeram o seu efeito e eu senti-me bem, fresquinho da silva, regalado no prazer de me sentir leve, vivo, não alegre porque sou por natureza macambúzio, talvez bota-de-elástico, antiquado, não sei, e na quarta-feira seguinte, mais cedo, por volta das onze horas da manhã, embarquei de novo à descoberta da terra perdida, mais para viver outra vez aquele lugar, para saber mais, para aprofundar e descobrir o que não sabia. A mesma camioneta, senão o mesmo motorista, agarrado sem sentir ao mesmo volante, dando as mesmas voltas, falando com os clientes antigos de anos, marcando-me pelo canto do olho como quem pergunta, olha, este é novo por cá, será que vai passar a ser cliente certo, e o que fará na vida, trabalha, não trabalha, quem é, é pessoa de fora, pelo aspecto, pelo falar, prenuncia de alfacinha que eu bem conheço…
No largo o café com leite mais activo do que no outro dia, joga com uma bola e com um garoto de calções cinzentos com um peitilho com um picapau desenhado num estampado cheio de cores, não me olha, nem sequer vê, só vê a bola e o amigo correndo de sandálias calçadas deixando ver as meias brancas caídas. Estão ambos activos e concentrados na tarefa de jogar futebol, coisa de que até os cães gostam, e faz delirar os homens. Na farmácia uma senhora gorda que mete a moeda de cinquenta cêntimos na ranhura da balança e fica quieta, imóvel, com a mala e um embrulho em cima de uma cadeira perto, mais o casaco por cima de tudo, e com os sapatos colocados no chão, ao lado. Espera. Uma eternidade, um inferno, aquela espera. Depois a voz mecânica que diz: já pode tirar a sua senha, obrigado. A senha que sai de outra ranhura, a senhora gorda que desce para o chão, que calça os sapatos, que tira a senha e fica com olhos tristes de senhora que queria voltar a ser menina. O sobrolho que arqueia, os lábios que se fecham num ó de tristeza, um corpo que aceita o casaco, a mala e o saco das compras, e é como se embrulha-se tudo, o peso, a senha, o saco das compras, e então sai, desiludida.
No largo aconteceu uma pausa no jogo. Um intervalo, um minuto para combinar tácticas, para rever métodos, para ver se o público está a ver. E o público que é composto por uma senhora jovem que parou para descansar do peso do avio que leva para casa dentro de sacos de plástico, com o nome do supermercado estampado a letras vermelhas, e eu próprio, parado do outro lado, junto á paragem das camionetas, e a senhora que diz para o miúdo: Vamos, anda, temos de ir fazer o almoço, e o miúdo com o focinho do café com leite encostado ao joelho, lambuzando-lhe a perna, que fica mudo de tristeza e olha para o cão, como quem diz, agora que eras tu a ficar à baliza e eu a avançar, e o cão que responde através dos olhos meigos que parecem feitos de mel, tens medo ou quê, fala com ela, pede-lhe, são só mais dez minutos para veres quem joga melhor, quem remata mais certeiro, e o miúdo triste de fazer mágoa que puxa o casaco da mãe e diz, só mais um bocadinho, eu estava a ganhar, não vês? E a mulher a pensar no almoço que ainda não fez, a pensar na roupa para lavar logo a seguir, na casa para aspirar, nas contas para pagar, no marido que chega do trabalho e se senta sem ajudar, talvez porque anda cansado, talvez porque não quer, talvez porque não sabe, vai andando indiferente aquele sentir pequeno vindo de quem está a despertar para a vida.
O café com leite pergunta-me se quero jogar, eu hesito, não me apetece mas não quero que lhe pareça mal, e o miúdo que resolve o problema porque leva a bola, e eu que olho o café com leite e encolho os ombros, como quem diz, eu dava uns toques, mas com o quê, se não temos bola?
Na loja do Ferreira o velhote à porta, olhando as garrafas que não fogem, olha para mim, reconhece-me e faz-me adeus. Eu aceno-lhe também. Parece que me tornei filho da terra, já sou conhecido, fui adoptado pelo café com leite cão e pelo Ferreira homem da loja das garrafas de gás butano colocadas à porta em duas filas de pirilau encostadas no passeio que não é muito largo, e também o homem do avental cinzento que já terá sido branco e que assoma agora à porta do café que também é restaurante e me faz sinal com a mão, a dizer-me venha, ainda é cedo para o almoço mas é boa hora para uma cavaqueira, e eu, porque não, foi para isso mesmo que eu cheguei a esta hora matutina, para uma cavaqueira e para ficar a saber como é isto por aqui. Atravesso a faixa de rodagem alcatroada que envolve o rectângulo do largo. O café com leite está distraído subindo a perna ao tronco de um plátano que aguarda as folhas que hão-de chegar, mas pelo rabo do olho vê-me afastar e fica triste.
À porta do café aperto a mão ao homem do avental, que me diz veio bastante cedo. Entro. O café está sem clientes e algumas mesas estão prontas para receber os comensais. O homem diz-me o que tem para se almoçar, guisado, enguias fritas, cozido e entrecosto grelhado na brasa. É de novilho, o entrecosto, acompanhado com umas batatas cozidas da minha quinta que não desfazendo das quintas dos outros são de truz. Então venha o entrecosto, com uma pinga da região. Os olhos do homem brilham. Eu sou um deles, gosto da pinga da região e do entrecosto com as batatas cozidas, gosto do cão e dos moços, gosto do futebol e do sossego, gosto do médico e das receitas caseiras, gosto do Sol, gosto da Lua.
Numa dependência lá para os fundos do estabelecimento vislumbro pela porta não fechada uma mulher que se atarefa entre o fogão e os tachos. É a minha senhora que prepara o almoço. Esclarece-me o homem. Fiquei a saber que se chamava Damião e que era um livro aberto quando lhe perguntavam as coisas com jeito e calma. Fiquei a saber que na terra ninguém tinha simpatia pela presidente da junta da freguesia, e quando lhe perguntei: então porque a elegem, recebi uma única e simples resposta: não sei, ninguém sabe. Já é o segundo mandato. Estes segredos inconfessados que a nossa gente tem e que ninguém sabe como acontecem. Imaginei uma senhora ainda nova, mandona, omnipotente e omnisciente tal como Deus, parecida com outra que apareceu no meu tempo de tropa, estava eu acamado no hospital militar de Tomar, instalado na altura em uma ala do convento de Cristo. Uma boneca ataviada, pintada e envernizada, com um casaco de peles verdadeiras desses a três quartos, cheia de argolas, pulseiras e brincos, lábios rechonchudos que só não apeteciam beijar porque não se sabia bem como iria terminar o beijo. Talvez mordesse, talvez não. Caçada por um movimento nacional feminino arrastado nos saberes ideológicos que na altura andavam na moda, despertando vontades entre a tropa farta de guerra, de discursos aldrabados de vitórias sem fim, com os nossos rapazes mortos lá ao fundo, na capela, na igreja, a caminho da tumba, lançados na voracidade da tumba, no esquecimento, já esquecidos porque a morte é isso mesmo, o esquecimento, o vazio e o frio do escuro, com dois ou quatro camaradas montando guarda junto à urna, a nossa bandeira a protege-los, a aquece-los, a amá-los, as estátuas dos camaradas hirtos, firmes, os rostos crispados, os capacetes com o PM estampado a branco, parecendo que lançavam faíscas de Pátria no espaço sem fim, os olhos vivos que são a guia da alma preparados para a vingança, para o grande sacrifício, para o fim ultimo de enobrecer a Pátria, de viver a Pátria, de amar a Pátria, de chorar pela Pátria, ela que tudo pede e a quem tudo se dá, sem reservas, sem dúvidas, sem medos. Nas enfermarias aquelas donas ofereciam aos rapazes pequenas e estúpidas revistas de cowboys representados de chapéus de abas largas, calças protegidas por perneiras de cabedal e coldres com pistolas com coronhas que deviam ser de madrepérola, e os rapazes que sentiam crescer o volume entre as pernas, e o movimento nacional feminino, esse estúpido movimento nacional feminino, dando arrotos de orgias passadas com os generais, com os bispos protegidos por Deus, agarrados à morbidez do Império, que se lixe o Império, o Império não é a Pátria, o ditador não é a Pátria, a Pátria somos nós. Imaginei um movimento nacional feminino reinventado, renovado, nazi ficado, servindo interesses inconfessados de partidos que, por mais voltas que se dê, não se consegue perceber o que servem, se servem o país ou se se servem do país. Quis saber porque afinal não gostavam da senhora. Está a preparar casas lá em baixo para receber imigrantes, diz que nos devemos apertar um bocado para arranjar espaço para os outros, que é uma questão de humanidade. E vocês, o que pensam. Pensamos que o que temos, mal chega para nós, não dá para repartir, não há empregos para mais gente, isso é desvalorizar o trabalho das pessoas, é aumentar a miséria. Só os tipos das duas fábricas da região são os que estão satisfeitos, mais ninguém.
Até à hora da consulta andei por ali, falei com o homem da casa Ferreira, fiz festas ao café com leite, debaixo do focinho, como descobri que ele gostava.
Depois atrevi-me mais longe, mais além, no outro largo, a ver se as gentes eram iguais, e vi que eram, sem tirar nem por, igualzinhas de fazer dó, de meter pena, de se sentir orgulho, não sei bem. Percebi a dona Rebiteza do alto do brilhantismo do seu intelecto, olhando as casas pintalgadas de Sol e de sombras, amodorradas de calor e de tédio, pensando que a terra não saí da cepa torta porque não tem gente nova, gente diferente, sangue trazendo vida de outras paragens, outras alegrias, outros modos, outros assuntos. A dona Rebiteza que pensa que sabe pensar, que se convence que sabe pensar, que nem sequer pensa se sabe pensar, e o senhor Ferreira que vê tudo da porta da loja que vende electrodomésticos, módulos para as carreiras das camionetas, nastros e porcelanas, talvez lutarias que podem muito bem ter prémio, ou que podem muito bem não ter, lutarias que são sonhos onde se escondem as dores do mundo. O café com leite que, esse sim, sabe viver mesmo sem pensar, com aquela mancha só de leite no alto da cabeça, entre as orelhas, mesmo no cocuruto, os olhos ternos de mel que lhe mostram para fora o sossego de dentro, o gosto pela bola, o jeito para fazer amigos, para adoptar pessoas, para lanchar no restaurante café do largo, fazendo publicidade ao senhor Damião, dormindo sabe-se lá onde, de certo que não é na rua, ao relento, de certezinha que tem mais de uma casa onde dormir, onde jantar, onde almoçar, e quando se sente doente vai ao Zezinho, pede festas, pede receitas, abana o rabo, lambe as mãos, um cão bonito como ele só pode ter amigos.
Chegou a hora, vou para a consulta, passo lento, sem pressas, este mundo é lento, é calmo, medita, contempla. Como da outra vez sou o primeiro a chegar. Entro, acendo a luz pois já sei onde está o interruptor, pego na revista, vejo as fotografias, os bonecos, as fantasias das belezas que escondem o íntimo, a alma, o ser. Na lista quatro nomes, o meu primeiro, depois outro de homem, a seguir a ordem duas mulheres, o mesmo envelope que desmarca a hora da consulta e remarca outra hora para a consulta, e apenas uma novidade, um gato enorme amarelo listrado de cinzento que se espetou de rabo para cima para se espreguiçar quando me viu entrar, língua jogada para fora da boca, uns bons dez quilos de gato. A mulher grande que chega trazendo gargalhadas sonoras junto com outra mulher mais nova, entram e ela diz: então está outra vez sozinho? Eu que respondo sem palavras, abanando a cabeça para cima e para baixo, mas desta vez com um sorriso de sossego nos cantos da boca, Depois a mulher grande que saí, depois de ver se estava tudo em ordem, se eu já teria acendido a luz, deixando a outra sentada numa cadeira na minha frente, embaraçada por estar sozinha com um homem, não sei porquê, não entendo dessas coisas das mulheres que passam a vida a corar. O doutor que chega, atrasado, pasta numa mão e bata branca na outra, – agora sei que é uma bata, – e desta vez sou eu que digo, boa tarde senhor doutor, e ele que responde, jovial, cortês, esgueirando-se pela outra porta, como tem passado? E eu que digo: muito bem, senhor doutor, e depois ele que volta, passados cinco minutos, bata vestida desabotoada, e diz, quem está primeiro faça favor de entrar, e eu que me levanto, desta vez sem pressas, lento, tranquilo, calmo, me esgueiro para dentro do consultório e me sento ao seu lado, na pequena mesa de reuniões, o consultório que de repente ganha vida, como que por artes de magia, o toque-toque na porta, uma cabeça de mulher que espreita, que pede desculpa, que sorri, que diz como estás Zezinho? Que conta a história de um familiar que está melhor, que pede conselhos. Outra que vem, que pede receitas, outro que volta, que leva amostras de remédios, que vem depois para a consulta, o médico que fala dos velhos e passados tempos, do pai que faleceu, da ida com as gentes da terra aos toiros, dos namoricos, dos ciúmes, dos despeitos, das pancadas, das violências, dos crimes, das mulheres que choram, dos homens que acalmam, dos pescadores que foram ao rio e que ficaram num pego qualquer, das mulheres que voltam a chorar, desta vez sem ciúmes, do ter e do ver, do ser e do sentir, do povo e da vida, da morte e da dor.
No final o médico diz-me que está tudo bem, as análises, a tenção arterial, os reflexos, a auscultação, tudo, não novinho em folha mas razoável para uma segunda mão bem conservada, e eu que já sabia que estava tudo bem, pois claro que estava, o meu mal tinha sido um mero desarranjo intestinal, que dá em toda a gente, desde que se esteja vivo, desde que se coma, desde que se sinta. Apertei-lhe a mão e despedi-me. Quando estava no guarda-vento escutei a voz do médico que dizia: Dona Mafalda faz-me um favor? Fecha-me a porta porque a minha mãe saiu e eu tenho muita pressa, tenho de sair já, e a dona Mafalda que dizia: não tenho chave, Zezinho, e o médico que respondia: não faz mal, basta fechar no trinco, aqui não há ladrões! E eu que finalmente saí, os dois pés pisando o passeio, lembrando-me que desta vez não me tinha esquecido de pagar a consulta, a escapulir-me rápido em direcção ao largo, não fosse o médico a chamar-me e a dizer-me: ó amigo, meta-me estas cartas no correio, faça-me esse favor, que eu estou atrasado para outras consultas, para ir a ver os toiros, com o chapéu preto de abas direitas e largas, de pôr aos domingos, em dias de toiradas, em dias de festa, quando a filarmónica toca no coreto e os moços correm no adro da pequena igreja, quando o padre de ébano saí à rua a comandar a procissão e deixa Deus em casa fechado.
Estou no largo e o café com leite não me liga. Chato, trambalazanas de cão, que falta de educação para com os amigos, apenas abre um olho, um simples e mísero olho, não os dois, o focinho descansando no regaço da pedra apoiado nas patas da frente, o rabo estendido ao comprido, como um desafio, vá, experimentem a pisar, quem os avisa vosso amigo é, e o senhor Ferreira que espreita a freguesia que não entra, e o homem chamado Damião que limpa o tampo metálico das duas mesas que ladeiam a porta no exterior, à laia de esplanada. E eu que escuto o chiar da camioneta na curva da estrada a entrar na terra, e o mesmo motorista que segura na roda do volante, que pisa os pedais, que afasta o sono da tarde com um riso rasgado para os clientes, tudo por gestos mecânicos, instintivos, comandados pelo hábito, e a camioneta que já vem no primeiro largo, travando por instinto para não embater nos carros mal estacionados, rangendo molas carunchas de tempo, pensando que está quase, a paragem é já ali, passada a curva do rectângulo do largo. E eu que entro pela porta da frente, compro o bilhete e escolho o lugar, que me sento na certeza de que já não volto. E o sono do fim de tarde que embala os plátanos com poucas folhas verdes, e os arremedos de amores-perfeitos que espreitam de dentro da terra, e as plantas trepadeiras que sobem pela pequena latada da casa pequena que estão na mesma, e as ramas dos coentros semeados nos vasos postos no parapeito de pedra da janela ao lado que continuam sem crescer. É o tempo de partir, de mudar, de não esquecer, de ver para recordar.
Passaram anos. Mais exactamente sete, ao todo e contando bem, sete anos. E um dia, desses espalhados pelos acasos da vida, distraídos pelo tempo, trémulos porque a vida escoasse na futilidade de nada fazer, nada mudar, nada tentar, vem-me à lembrança a terra perdida a dois dedos de distância, e, não percebo porquê, sinto que devo de a ver. E vou. Numa manhã ensolarada dos fins de Setembro, dentro de uma camioneta que já não é a mesma, conduzida por um motorista diferente.
E chego ao largo que na aparência é o mesmo, desço, dou uns quantos passos e olho; houve mudanças, sim senhor, a casa Ferreira já não existe, agora são montras partidas e portas fechadas, presas por uma corrente com um cadeado grande segurando duas argolas, as garrafas do gás butano enfileiradas em duas filas de pirilau desapareceram, o restaurante café do Damião ainda está lá mas parece outro, com aquele toldo amarelo a fazer sombras e a enfeitar passeios, sem mesas cá fora, mas continua a ter uma montra grande com vidro sujo, e o Damião anda na sua vida de um lado para o outro, sem avental cinzento de anos, que antes foi branco. Do café com leite nem sombra, escapuliu-se na voragem dos anos, agora será um senhor cão adulto, casado e com filhos, bem instalado na vida e com prestígio na terra, isto julgo eu, de concreto nada sei. Atravesso a faixa de asfalto e entro no café restaurante e vejo o homem Damião conversando com outro, ambos sentados a uma mesa. O outro não me parece estranho, já vi aquele rosto, aquele traço de perfil e aquele fio de voz não me parecem estranhos; ambos olham para mim, e eu que digo: Você é o Damião, não é? E o homem do avental que já foi branco que se levanta e me encara e que diz: Sim, sou o Damião, então e o amigo? Não se lembra? Respondo. De facto já passaram sete anos. Olha, é o amigo que em tempos veio à consulta do Zezinho, lembras-te? Disse o outro homem que continuava sentado na mesa. De repente veio-me à memória, perguntei: Você não é o senhor Ferreira da loja? Claro, homem, claro que sou! E os três trocamos apertos de mão e damos pequenas palmadas nas costas como fazem os amigos de anos quando se reencontram. Sentei-me. O Damião foi arranjar umas tapas e umas cervejas e o Ferreira perguntou-me: então as suas novidades, não diga que vem para uma consulta, o Zezinho já não dá consultas, vendeu o consultório! Então? Quis saber. Homem, isto têm sido só desgraças, você nem imagina, nem sonha sequer! Agora somos uma terra de fome e de miséria. É verdade que nunca fomos ricos, mas comer tínhamos, ao menos isso, agora nem isso, somos uma terra de desemprego, de tristeza, de abandono. Sim, – confirmou o Damião, – aquela tipa só fez mal a esta terra! Presumo que se referem à tal Rebiteza? Pergunto. Sim, essa gente.
Então as coisas passaram-se mais ou menos assim: para ocupar as casas novas destinadas a habitação social não foram seleccionados os pobres da terra, pois esses já tinham casa, degradada, com chuva a infiltrar-se pelos telhados, com madeiras apodrecidas pelos anos, com chão em saibro batido a maço, não importa, casa é casa e pronto, casa dá-se a quem merece, a quem é pobre, a quem precisa, ponto final parágrafo, e quem pensa assim é porque não é gago de fala e muito menos de ideias, e então apareceram umas famílias estrangeiras, umas, outras ciganas, coitados, que nunca pagam nada porque não podem, não têm, não são como os velhotes que amanharam o chão para semear o pão, ou que foram ao rio toda uma vida na apanha do peixe, esses aforraram dinheiro metido debaixo dos colchões a crescer, sempre a crescer, e passam a vida a queixar-se, de tudo e de todos, só se queixam, já quando trabalhavam era a mesma coisa, a mesma ladainha de choros e de queixumes, só tristezas, só desgraças, mas aqueles não, são gente de sangue na guelra, gente que vive, gente que afasta as tristezas, gente que dança, gente que canta, gente que vale a pena ter, agasalhar, proteger, gente que faz falta à terra, a esta e a todas as outras terras, gente que trás a diferença dentro do sangue, gente que merece.
E a senhora presidente da junta de freguesia enfeitada de ideias vindas de um movimento nacional feminino renovado, pertença de um partido qualquer, o nacional-socialistas, o nacional social-democrata, o nacional bloquista, o nacional comunista, o nacional verde, o castanho, o assim-assim, o cor de burro quando foge, a senhora presidente da junta de freguesia que podia ser o senhor presidente machista da junta de freguesia, enfeitado de ideias entornadas de um livro qualquer, daqueles que ninguém lê, nunca ninguém leu mas todos sabem o que diz, que podia muito bem ser o livro das regras do clube de futebol, ou um livro de culinária, ou qualquer outra coisa, tanto faz, e a senhora presidente da junta de freguesia que distribuiu as casas novas, novinhas em folha, a cheirar a pinturas e a estuque fresco, canalizações à vista pintadas de verde, intercomunicador para abrir a porta lá em baixo, com ecrãnzinho para ver quem chama, pelas famílias ciganas e pelas famílias estrangeiras, em festa de arromba com secretário de estado e tudo, e o homem que até tinha gravata, e a música que tocava, e o coreto que brilhava de tão limpo que estava, e as altas individualidades da terra e as do concelho em cima de um palanque, com cobertura de lona e tudo, e a guarda de honra prestada pelos bombeiros voluntários perfilados, em sentido e tudo, tocando a Maria da Fonte e dando vivas à republica. E assim foi. Segundo me disseram passaram uns dias, para aí uma ou duas semanas, talvez nem tanto, e numa noite de calores fortes, pelas três ou quatro da madrugada, quando o mundo dormia, no largo em frente à igrejinha, uns violões que estremecem o ar, que sobem a caminho do céu, e umas vozes que pretensamente cantam em português, com palavras abertas, com sotaques novos, e a terra que desperta, as janelas que se abrem, os olhos que vêm, as bocas que dizem: mas como é que eu vou trabalhar amanhã? E aquela gente diferente com o sangue a sair das guelras que canta e as gentes que se espantam, como é que eu vou conseguir levantar-me amanhã para ir trabalhar? E isso que importa? Porque dormir, porque se deve dormir, porque não se dança enquanto o corpo descansa, enquanto as gargantas secam, enquanto os olhos choram, enquanto a alma dorme?
No dia imediato começaram os despedimentos nas fábricas, porque os produtos não se estão a vender lá fora, porque os salários são altos, porque esta gente não produz, não trabalha, não quer, não faz, só dorme, não estão vivos, estão mortos, já os pais coitados estavam mortos, são tristes, são modestas, como é que estas bestas conquistaram tanto mundo? Nós devíamos andar a dormir ou então éramos muito parvos na altura! E os impostos, como vamos pagar estes impostos, antes, os outros, não falavam muito de impostos, estes falam todos os dias, pagamentos por conta, onde já se viu? Esta gente sim. Trabalham por um preço justo, metade, às vezes até menos um pouco, é isso, com o ordenado de um português empregam-se três estrangeiros, e eles trabalham mais, é uma maravilha. Agora só falta os impostos, temos de parar as fábricas, fechar as portas, desligar as máquinas, tudo por causa dos impostos. Abaixo os impostos! Até o cãozito, coitado, lembra-se? Fala-me o Ferreira com o coração ao pé da boca. Aquele a quem eu chamei café com leite, que andava ali pelo largo? Esse mesmo! O que lhe aconteceu? Mataram o pobre do bicho! Porra! Cabrões! Filhos da puta! Não consegui conter-me, saiu-me, caramba, que querem, um homem quando é filho de boa gente tem o direito de se sentir, ou não tem?
Lembrei-me dos camaradas que contavam histórias de guerra na caserna, em frente de um naco de presunto trazido da terra ou de um pedaço de bacalhau desfeado dentro de uma tigela gamada na cozinha da unidade, regado com azeite e alhos partidos, cortados às rodelas, tudo para fazer boca a uma garrafa de vinho que dava para os três ou quatro do grupo, a cabeça do camarada espetada num pau ao virar da picada com os órgãos genitais metidos na boca à laia de charuto, o preto atingido de morte com olhos vítreos carregados de ódio estendido no chão, a arrancar o capim com as mãos no esgar da morte, o alferes que grita não atirem, é um miúdo! E o fedelho que sai a tremer do meio do capim, três palmos de gente, que olha assustado, e eu que pergunto ao narrador, e então, quando este se cala, gargalo da garrafa dentro da boca, e ele que continua: que fazemos com o miúdo, meu alferes, olha, pra já passa a ser a mascote do pelotão, vai connosco, é um garoto, caramba, depois logo se vê, e o miúdo que veio para Lisboa trazido pela companhia, que teve cento e vinte pais, outras tantas mães, que foi mais esperto do que muitos dos nossos filhos, que estudou, é arquitecto, fez-se gente, e quando lhe perguntam queres voltar, a ver se descobres a tua família, não, a minha família são vocês, os meus pais são vocês, esta é a minha terra, este é o meu país. E muitos desses pais agora velhos, e os filhos desses pais que não têm emprego, as fábricas só empregam estrangeiros, é o que está a dar, com o ordenado de um empregam-se três, agora só falta não pagar impostos, e a dona Rebiteza que quer sangue novo na terra para mudar a gente, para mudar a vida, para salvar a terra. Às tantas já as minhas garrafas do gás butano tinham pernas, – conta o senhor Ferreira, – mas só andavam de noite, veja só, as noctívagas, e por ultimo até de dia davam um giro, nem presas as conseguia ter quietas! Então como era isso, senhor Ferreira? Pergunto eu, mais para fazer conversa, e o velhote que diz, olhando o copo da cerveja quase vazio, com uns restos de espuma nos bordos, os quadradinhos de queijo dentro do pires, com os palitos espetados, de mistura com os quadrados do presunto e as rodelas da morcela, e a cerveja que já lá vai, Damião, quando te der jeito traz-me outra, ou então diz-me onde estão que eu vou lá buscar. Podes ir ao frigorifico quando quiseres, hoje é por minha conta, e voltando-se para mim, então e o amigo, vinha a saber da consulta, era? Não propriamente, mas já que fala nisso, como é o médico novo? É de cor, o gajo. Diz o Ferreira por troca com o Damião que foi a reabastecer as bebidas. E não sabe o que são as cruzes, veja só, os velhotes falam-lhe nas dores nas cruzes e o gajo fica a ver navios, não sabe népia, coitado. Olho através da montra suja e vejo um miúdo mulato que passa a fugir enquanto uma velha grita de uma rua lá para trás, traste!
Encaro os dois homens e pergunto: então vocês agora não têm emprego, não há dinheiro, não há consumo, não havendo consumo o comércio pára, a terra ficou sem vida, e o que é feito dessa tal Rebiteza? Ela não aprendeu nada? No fim, bem, julgo que sim, que percebeu alguma coisa, que compreendeu a lição, quando viu o desenho e sentiu que era a chacota da terra. O desenho, qual desenho? Perguntei. Há, ele ainda não sabe, não lhe contamos, pois não? Eu não contei. Respondeu o Damião. Pois, eu digo, quando houve o incêndio na igreja, – incêndio, perguntei, qual incêndio? – O incêndio na igreja, no ano passado por alturas do Natal, pregaram fogo ao presépio, mas dias antes já as paredes estavam todas escrevinhadas, cheias de asneiras, de obscenidades, o pobre padre não sabia o que fazer, e uma das asneiras era o desenho de um pássaro, um falo com umas asinhas, percebe? Disse que sim abanando a cabeça, pois, – continuou o senhor Ferreira, – e o bicharoco com as asinhas e umas pendurezas entrava para dentro da boca de uma mulher, e a mulher do desenho, que até estava muito bem feito, dava todo o ar da Rebiteza, e eu lembro-me da tipa parada dentro do carro a olhar para aquilo, e foi a partir de aí que o padre começou mais a ser ouvido. Pois foi, corroborou o Damião, mas já não foi a tempo, o homem já não foi a tempo, por muito que falasse nos sermões da igreja.
Imagino a senhora especada a ver a pintura, o falo que pela descrição devia de ser enorme, do tamanho do pequeno mundo daquela gente, e a dona Rebiteza com raciocínios inconfessos a ganharem vulto na sua cabeça de mulher que globaliza o mundo na palma da mão com um simples estalar de dedos, a pensar e a pensar coisas, talvez a chamá-los de parvos, ou a dizer para consigo, atrevidos, mas na verdade não estou assim tão mal como tudo isso, não estou muito favorecida mas também não está mau de todo, a apreciar-se, a ver a sua grandeza que sobe e se valoriza, afinal de contas até já a representam pintada pelas paredes, daí até ao parlamento é um pequeno passo, já não é um passo de gigante, é antes um passo de bebé, de recém-nascido, um passo trémulo, com as mãos ao alto seguras por um pai ou uma mãe embevecidos. E no parlamento, bem, no parlamento seria uma oradora fantástica, desmedida, uma tribuna de projecção universal, com discursos arrebatadores que convenciam o povo, que norteavam o povo, que salvavam o povo, que electrizavam o povo. A Rebiteza de hoje era a Rebiteza de ontem, quando oferecia revistas de vaqueiros com perneiras de protecção e pistolas com coronhas de madre pérola, aos soldados estropiados pela guerra, oferecendo a face para um beijinho sempre que notava nos jovens um volume a crescer-lhes entre as pernas, com o casaco a três quartos de pele verdadeira entreaberto a mostrar o volume dos seios salientes, a chegar-se, a chegar-se sempre um pouco mais. No canteiro na frente da igrejinha havia roseiras e gerânios, reparei agora, e as rosas eram vermelhas mas também as havia amarelas, e os gerânios estavam crescidos e estas flores contrastavam com as paredes do templo cobertas de barbaridades, e isso denotava insensibilidade, mais de quem tem o poder do que de quem chegou e se instalou, porque quem chega vem de longe, tem outros saberes e outra cultura, ou não tem saberes nenhuns, e a teoria do apertar um pouco para caber mais cinco, mais dez, mais cem, mais cem mil, não resolve os males do mundo, há, se resolvesse, como muitos eus nesta terra não estariam dispostos a apertarem-se, a chegarem-se aos cantos, ou não seria assim, olharíamos uns para os outros e depois encolhíamos os ombros, não tenho nada a ver com o assunto, a terra é minha e eu gosto de estar à larga, assim tantos tapam-me a vista, vamos lá, fiquem ai fora, não cabem. As empresas que despedem, a fome que se instala, que cresce, que toma forma. Antes uma fominha, um rato que rói o estômago, a pele que de ano para ano fica mais perto do osso, mas não se nota, o processo é tão lento que não se nota, hoje uma fome que chega de dentro da alma, que avassala a terra, uma fome que é de todos e para todos, vamos igualar para fazer justiça, que merda, essa mania das superioridades, somos todos iguais ou não somos, se somos que se faça um decreto, que esse decreto diga, preto no branco, em letras garrafais, fica decretado que a fome é para toda a gente que trabalha, operários e doutores, cavadores de batatas ou limpadores de latrinas, todos iguais, mas iguais em quê, iguais na fome. Excluem-se deste direito todos os outros, os dirigentes, os banqueiros, os bancos directores, os bancos mundiais, as comissões de inquérito, as comissões de avaliação, as comissões de estudo. Sim, porque o que seria de nós sem estas comissões, como nos havíamos de proteger dos perigos, dos medos do mundo, como se pode viver sem esta imensa panóplia de protectores, sem estes conselheiros de estado, sem os tribunos, sem os movimentos nacionais femininos renovados e sem as organizações machistas, seria vida?
No largo, na porta da igreja, a silhueta do padre cor de ébano que sai do templo e que fecha a porta com as voltas todas da lingueta da fechadura. O som do badalo do sino que pare as horas por via de um sistema automático que ainda funciona. No sótão, na cadeira de veludo encostada perto da janela, Deus amodorrado entre as velharias, vendo a eterna dança do pó iluminado pelos raios de Sol que se escoam pela vidraça.
Na porta da farmácia uma mulher gorda que, descalça, com os embrulhos e o casaco pousados na cadeira próxima, introduz uma moeda de cinquenta cêntimos na ranhura e depois retira o papelinho com o peso e a sina, que olha com os olhos da esperança de voltar a ser menina, que não diz nada, calça os sapatos, veste o casaco, retoma os embrulhos e sai. Perto de um plátano uma mulher jovem que poisou no chão os sacos de plástico e que descansa, enquanto o catraio solto pontapeia uma pequena bola, a fralda da camisa a saltar para fora dos calções, presos pelos suspensórios coloridos, mas o largo sem cão café com leite está mais pobre. Lá ao longe, consegue-se ver pela montra não muito limpa, uma bandeira desbotada, queimada pelo Sol de muitos anos, a indicar a sede da junta de freguesia, um edifício térreo com janelas de madeira pintadas de branco, e lá dentro, – imagino eu, – a dona Rebiteza que prepara o discurso para ler no parlamento quando for grande, quando for crescida, ela que faz o sacrifício de prescindir do direito de não ter fome, que se sacrifica pelo bem comum, o colectivo, o movimento nacional feminino renovado que bem lhe disse, que bem lhe chamou à atenção, dizendo-lhe: Rebitezazinha, tu podes optar, tu tens o direito de optar, tu não te prejudicas na tua progressão política pelo facto de optares pelo direito de seres igual aos outros, pelo direito de teres fome como os outros têm, muito pelo contrário, tens liberdade de expressão, é uma questão de consciência política, de disciplina política, de sacrifício e de combate político. E tu sabes bem que assim é, tudo pelo povo, nada contra o povo. E a jovem senhora que divaga no lirismo dos sonhos, tão nova ainda, uns meros trinta e poucos anos, uma criança com o futuro todo pela frente, a comandar pessoas, sentada na secretária a delinear estratégias, a gerir intrigas de corredor, a granjear amigos, a globalizar o povo com os olhos sempre postos no futuro. À manhã seremos muitos e seremos os melhores, os mais bem preparados, os mais aptos.
Olho os meus amigos e colegas de tapas, sentados ali, os três juntos, copos de cerveja na mão, palitos com quadrado de queijo na outra, e noto que decididamente não somos o futuro. O pessoal está velho e gasto, o país é um país de velhos que viveram de guerras e de certezas, as certezas da guerra, que viram os colegas morrer ou viver, que mataram porque os mandaram matar, só e apenas por isso, tão simples e tão fácil quanto isso. O senhor Ferreira já está como há-de ir, como se costuma dizer, eu vivo porque se tornou uma questão de hábito, tanto faz estar aqui como lá, é igual, as pessoas têm de estar em algum lugar, ou em cima ou por baixo da terra, neste país vem a dar no mesmo, o Damião é o mais novo do grupo, mas viver naquela pasmaceira a servir meia dúzia de copos e de petiscos, cada vez menos, porque o dinheiro cada vez abunda menos nos bolsos das pessoas, também não lhe invejo a triste sina. E o que resta para além de nós? Os outros, os que chegaram há uns dias e que fazem serenatas de violões em riste às três horas da madrugada quando as pessoas dormem? Mas esses não são a nossa gente, nunca os vimos, não percebemos bem o que dizem, e os nossos filhos? Bem, esses são dos nossos, mas esses imigram, como sempre, ao longo dos séculos, ao virar das esquinas da história, lá está um, a trabalhar nas obras, ou porque fugiu da guerra ou porque fugiu da fome, viver longe é preciso, longe da pátria que é um mito, a bicha de sete cabeças que nos engole se ficarmos, o martírio de não sermos ninguém se ficarmos, a tristeza de não vivermos se ficarmos.
Então vocês agora dos velhos tempos o que é que lhes resta? Pergunto mais para quebrar o silêncio que neste revés de tempo se estabeleceu entre nós. Ora, amigo, ainda temos a praia! Confessa o senhor Ferreira, enquanto o Damião corrobora, dizendo enquanto abana a cabeça para cima e para baixo, isso mesmo, temos a praia! A praia, vocês têm praia? Claro, você nunca veio cá para ver as vistas, homem, só veio para ir ao médico. Temos Tejo, temos praia, e com fama, sim senhor. Se tivesse carro ia consigo lá a baixo para você ver. Diz o Ferreira, olhando de soslaio para o Damião, em jeito de desafio. Que não seja por isso, tenho ali a lata e com o negócio parado é possível dar um giro por aí, a ver a praia. Há bem uns dois anos que não vou lá a baixo, veja você, Ferreira, o que é a vida, há dois anos que não ponho a vista em cima do melhor que temos cá na terra. Olha que eu também há uma porção de tempo que não desço à areia, a molhar os pés na borda da água, responde-lhe o velho Ferreira.
O Damião num instante recolheu a loiça, meteu-a num tabuleiro de alumínio, em conjunto com os copos dos finos, apagou as luzes e cerrou as persianas metálicas, enquanto me dizia, nunca precisamos destas tretas cá na terra antes da chegada desses gajos, ora porra, como a vida era e como é agora! Foi assaltado, é isso? Dez vezes, meu amigo, dez vezes, isto tem sido um inferno! Porque é que pensa que eu fechei o negócio? Falou o velho Ferreira. E você também foi? Ora bem, meu amigo, ora bem, não foi só por as garrafas do gás terem começado a andar, que com o andar dessas podia eu bem, era uma questão de caçadeira e de tempo, e a caçadeira tinha e o tempo também, o que não me faltava era tempo, não tanto como agora, mas era o suficiente, pode crer.
Logo que o Damião fechou a porta do estabelecimento, com todos os alarmes ligados e com as voltas todas das duas fechaduras, acomodamo-nos os três no interior de um carro antigo, um Renault com manchas de ferrugem a salpicarem o capô, como se fossem medalhas, os estofos protegidos por capas com a cor comida pelos anos, e o homem começou a torcer a chave de ignição enquanto o pé dava sapatadas no pedal, o sujeito é como o dono de manhã, nunca está disposto a acordar a horas, e o Damião insistia, insistia, até que um arrancar lento começou a chegar lá da frente, do motor, já está quase, vá, vá lá, chicha, Damião puxou mais o manipulo do ar, e o carro deu finalmente as boas intenções de estar disposto a andar. Pronto, cá vamos nós! Este tem música e tudo, quer ver? O som cheio de interferências saiu de um rádio metido no tablier, enquanto o homem se atarefava a mudar de posto com uma mão, enquanto com a outra conduzia. Há, cá está, vai um fadito? E porque não? Diz o Ferreira acomodado no lugar do morto.
Saímos da terra e contornámos através de uma estrada com as casas da terra no lado esquerdo e no direito árvores dispersas e terras cultivadas. Andamos para aí perto de quilómetro e meio, dois quilómetros, e por fim um largo com a praia em frente, um areal extenso porque a maré estava vazia. Está longe, o magano! E o Ferreira começou a descalçar os sapatos. Pudemos deixá-los aqui no carro, não pudemos? À vontade, homem, mas se os surripiarem não venhas dizer que tenho a culpa! E eu, metendo a minha colherada, que digo: não me digam que vão arrombar o carro para roubar três pares de sapatos velhos, pelo menos os meus são velhos…
Homem, esta gente é capaz de tudo! À cautela eu vou guardá-los no porta bagagens. E com isto o Damião deu sossego ao grupo.
O rio tapava-se de pequenas ondas deitado ao longe, ao fim de um areal perdido para a frente, salpicado de arbustos no inicio, depois areia, charcos, lodo, mais areia e mais charcos, e a água profunda encostada ao casario de Lisboa, e na esquerda o rectângulo das salinas banhadas pelo Sol, umas quase libertas da água, outras não, e uns quantos homens na distância curvados sobre o areal, escavando a areia com as mãos, em busca de isco para a pesca, e para a direita, perto da terra, os sapais cheios de vida, aves e peixes, pequenos, minúsculos, como crianças num infantário, e as silhuetas de chalupas de proas levantadas esparsas, fundeadas sobre a areia, pequenas âncoras vistas no chão, algumas com pedras pequenas amarradas a cordas, com os remos recolhidos no bojo, todas inclinadas, dormindo no afago do Sol, esperando a vida com a chegada da faina. Do lado esquerdo uma ponte metálica pintada de vermelho, do lado direito outra ponte perdida para dentro da terra, mais alta perto de Lisboa, onde o rio era mais fundo, do outro uma sucessão de pilares cor de cimento a perder-se para o sul.
Você dizia-me que esta praia é conhecida, por alguma razão especial, é? Pergunto ao senhor Ferreira, que caminha ao meu lado direito, saboreando o prazer da areia na sola dos pés, sentindo o fresco dos charcos.
Sim. É boa para os ossos, dizem os antigos, e olhe que eu quando era miúdo e tinha as mazelas vinha para aqui e ficava bom, alguma verdade existe no que dizem!
Sim, – confirmou o Damião, – a minha avó contava-me histórias de pessoas do tempo da sua infância que encontravam alivio para as artroses tomando banho nesta praia.
Não seria impressão das pessoas, uma vez que a água do Tejo chega a inúmeras praias pluviais ao longo dos quilómetros do rio?
Sabe, – respondeu-me o Ferreira, – deve de ser questões de sal, de quantidade de sal na água, como sabe o rio é uma mistura de água salgada com água doce, a salgada julgo que chega até Vila Franca de Xira, e aqui, neste sítio, a quantidade de sal existente na água seria a precisa para fazer bem ao reumático. Uma vez o Zezinho lá no café explicou-nos isso, não te lembras, Damião?
Sim, de facto…
Adiantei-me, avançando inadvertidamente, e os pés que se enterram numa mancha de areal mais escura, um lodo viscoso, desagradável, e as pernas que desaparecem à medida que me mexo, num ápice o lodo que chega aos joelhos, e quer subir mais, até que quatro braços fortes me começam a puxar para trás, devagar mas com firmeza, e consigo pisar de novo areia limpa e seca.
Calma, homem, se quer regressar inteiro não se afaste muito da gente!
Então, aquilo é?
Um poço que chupa tudo lá para baixo, – responde-me o Ferreira.
Areias movediças?
Eu não diria isso, é um poço, compreende? E há mais, por ai, a gente já os conhece bem, agora quem é de fora…
Mais meia dúzia de passos e chegamos à água. As calças arregaçadas pelas canelas, uma aragem suave que se entorna vinda de este e que sabe bem quando nos roça a pele. A água está ali, tépida, mesmo morna, e a cidade grande está mesmo na frente, no outro lado, a curta distância. Molhamos os pés, de vagar, mais um pouco, mais fundo, até aos tornozelos, e olho aquela massa de água que vista no sentido da nascente parece um fio de prata benzido pelo Sol. Tenho medo. E se a água sobe de repente, já viram a distância, a terra lá longe, desdobrada ao longo da margem, a terra que é a margem, e aquilo ali que é o mundo do rio, da água, da areia e do lodo.
Os meus companheiros que ali são mais ribatejanos que antes, não sei porquê, porque penso assim, mas amam o rio e o rio sente amor por eles, percebe-se pela água, pelas minúsculas ondas que se desfazem na areia com uma língua de espuma que mal se nota. Eu não, eu não pertenço ali, mas entendo, consigo sentir porque sou desta terra, deste ninho de gente que se aninha no rectângulo de Sol e mar, de verdes prados e de altas e monolíticas montanhas. Eu sim, eu sou, eu vivo. Os outros, os que chegam de fora, as Rebitezas dos movimentos nacionais femininos renovados de um qualquer partido que foi inventado à noite ao serão, que almejam fantasias velhas na decrepitude da moral, que escrevem discursos falando do que não entendem, que sobem na vida destruindo terras, essas não, não entendem, não sabem nada do que é o amor…

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Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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