“JUNTOS PARA SEMPRE” – (23)

Celeste, com voz alegre, apresenta a nova inquilina:

Tia, esta é a tal menina rabugenta de que lhe falei e que, veja bem, não gostou de viver nem no Orfanato nem na Casa de Acolhimento. Julga-se uma princesa. – brinca.

Maria beija a Tia Amélia com ternura.

– És uma garota engraçada, mas a tua cara ainda está marcada pelo sofrimento, minha filha. Sei tudo sobre a tua infeliz vida, porque a Celeste me tem contado. Fico muito contente se fores tão boa pessoa como ela, que tem sido um anjo para mim. O meu Anjo da Guarda, como gosto de lhe chamar. Se fosse minha filha não podia ser melhor. E tenho a certeza que ela será a tua melhor amiga. Não calculas as vezes que me falou de ti, para te tirar da Casa de Acolhimento e vires morar connosco. É uma mulher de coração de ouro, incapaz de prejudicar seja quem for. Está sempre pronta para ajudar quem precisa.

– Oh! Tia Amélia, eu não mereço tantos elogios. Não faço mais que a minha obrigação. Graças à Tia Amélia, eu hoje sou o que sou. Tenho trabalho, casa e acima de tudo a sua protecção, que me tem dado ânimo para enfrentar alguns desgostositos que surgem de vez em quando.

– Celeste, toda a gente tem problemas na vida, mas se tivesse os teus, o mundo era um paraíso. Mas pronto, por agora acabou-se a conversa. Temos muito tempo para dar à língua. Maria, vai passear, apanhar ar, andar, correr, mas tem cuidado, não caias. E olha, quero que me trates por Tia Amélia. A partir de hoje tenho mais uma sobrinha. Estou muito contente por seres a minha companheira. Se eu me puser para aqui a choramingar e a lamentar-me das minhas doenças, não ligues, está bem? Sabes, desabafar alivia as nossas mágoas e quando temos alguém para falar, não perdemos a oportunidade. Estar só, para algumas pessoas como eu, é como perder pedaços da nossa vida, é como sentirmos que não existimos para ninguém. É horrível, é como se o mundo todo, inteirinho, nos desprezasse, e acredita, minha filha, que o desprezo é a mais humilhante afronta. Pensamos em tudo o que foi mau na nossa existência e as lágrimas são afinal a nossa companhia. E quando não temos mesmo, mesmo ninguém, que importância temos em estar vivos? Voltaire, um escritor e filósofo francês escreveu: “Tudo se pode suportar, excepto o desprezo”. É uma grande verdade. Mas não te preocupes que eu sou um pouco dada à tristeza, mas de repente ponho-me para aí a rir com as coisas mais banais. Depois conto-te algumas coisas da minha vida. Vamos ter muito tempo para conversar, se Deus quiser. Agora vai, vai tomar ar e logo falamos mais.

Maria agradece com beijos repetidos tanto à Tia Amélia como à Celeste, brotando-lhe dos seus olhos brilhantes, lágrimas de alegria e felicidade.

E sai, respirando sofregamente, o ar da liberdade. Apetece-lhe saltar, gritar, gritar, para que toda a gente saiba que ela é uma pessoa livre. Livre! Livre!

José Eduardo Taveira

 

 

 

 

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