mão, e a bucha presa pela mão do braço em que levava o toro, o Joaquim Silva transportava a pedra com algum esforço e o Jaime Narciso, mais prático, só transportava a comida porque escolhera o chão como assento.
Instalaram-se de novo em círculo, mas desta vez um círculo mais apertado, e o Jaime Narciso disse: “Olhem que temos de estar atentos à estrada, não vá o filho da puta vir aí.” E o Joaquim Silva retorquiu: “ Eu estou virado para lá, não se preocupem que o cabrão não se escapa desta vez!”
Fez-se silêncio. Os dois homens olharam fixos para o companheiro, enquanto as cabeças se aproximavam o mais que era possível.
– Pois, sabem, de nós três sou o mais velho, e até já tenho uma netinha. É uma senhorita, com doze anos, mas já uma moçoila que parece ter uns quinze ou dezasseis, e foi essa a desgraça!
– Então não nos diga que alguém fez mal à mocinha!
– Pois então é mesmo isso! Vossemecê acertou em cheio, compadre, o malandro do professor! Andou, andou, seguiu a moça e acabou por conseguir desgraça-la!
– E como foi que vocês descobriram? – Inquiriu o Joaquim Silva, enquanto mastigava a última sardinha a cavalo na fatia do pão escuro. O Jaime Narciso pescava com um miolo do pão um dos últimos pedaços de bacalhau cru, de mistura com um fio de azeite, no fundo da vasilha de plástico, e o António Manuel, o homem da saca, antes de responder à pergunta sobre a desdita que acontecera à neta, olhava para ele a dizer: “ Com este calor é mesmo uma punheta de bacalhau desfiado que sabe bem, desde que não esteja muito salgado”… – e logo depois continuava com o assunto da neta.
– Foi a minha filha que deu pelo sangue da miúda. Sabem, o meu genro está emigrado em França a bem dizer desde que a miúda tinha dois anos, o meu compadre, o pai dele, está entrevado porque lhe deu uma coisa má já lá vão uns quatro anos, assim o homem que veste as calças na família toda sou eu…
– Então e a catraia disse que tinha sido o professor?
– Acabou por contar à mãe!
– E a guarda? Não foram à guarda?!
– Não querem lá ver, a ir fomos, mas o que é que vocês pensam? O homem é professor, tem estudos, é da cidade, anda sempre com os grandes, ora com o presidente da Câmara, o gerente do banco, o cabo da guarda, até há quem diga que é oficial da legião portuguesa! E nós? Quem somos nós? Uns pobres coitados que não temos eira nem beira. Às páginas tantas tive de o apanhar sozinho, e quando o consegui enfiei-lhe a navalha no bucho duas vezes, e à ultima fiz assim, olhem, – e o António Manuel fez o gesto com a mão de quem torce um cabo…
– E fez vossemecê muito bem feito. Desde que se tenha a certeza, não à que saber, é arrimar-lhe com a naifa no bucho! – Falou o Joaquim Silva, com os olhos brilhantes; – Eu tenho filhos e por isso sei o que custa, são carne da nossa, e nesta terra se não somos nós a fazer a justiça…
– Pois claro, – disse o Jaime Narciso, – eu fazia exactamente o mesmo. E o tipo, foi-se?
– Acho que não; parece que o cabrão safou-se, mas eu não fiquei para saber… Então e vocês? Ainda nem sequer sabemos os nomes uns dos outros; só aqui o amigo de Moura é que disse alguma coisa…
– Pois, eu sou o Joaquim Silva, como acho que já lhes disse, e puseram-me a alcunha de Pirralho, como sou assim franzino e magro, a rapaziada lá de Moura é assim que me chama, e ando a ver se ganho algum para mandar para a mulher e os filhos, coitados, que estão a sobrecarregar os meus sogros que são velhotes. Agarro-me a tudo o que aparecer, o que é preciso é ganhar dinheiro…
– Eu sou o Jaime Narciso e não tenho assim nada de importante para lhes dizer. Chamam-me o tocador de concertinas, porque lá em Cuba toco nos bailaricos pela noite dentro; não ganho dinheiro com isso, toco porque gosto, e também canto no grupo da casa do povo; e também eu ando por aqui por causa da maldita crise. Em Cuba está tudo parado, até a água falta, neste tempo…
– Por falar em água, – disse o António Manuel – já repararam no calor que faz? Devem de estar perto dos quarenta graus! E depois esta poeira constante, cada vez que passa um carro ou um camião, eu agora tomava era um banho, se pudesse…
– Também eu, compadres, se pudesse, já ontem não me consegui lavar… não consegui arranjar poiso; e hoje vai pelo mesmo caminho, estava a contar com o alojamento na camarata da obra, mas esse gajo não à meio de aparecer.
Na estrada os homens já tinham retomado o trabalho. Os cilindros avançavam com a lentidão própria dos lentos caracóis, os pinches águadeiros de cântaro ao ombro não tinham mãos a medir, acorriam ao chamamento dos homens, com o púcaro de alumínio preso por uma pequena corrente ao braço dos cântaros, o suor misturava-se com a poeira que dançava no ar, constantemente levantada pela circulação dos camiões, carregados de pedras ou de saibro grosso, a quietude dos pinheirais mostrava a calmaria do tempo, os homens improvisavam chapéus com os lenços com as pontas atadas, colocados por baixo dos capacetes amarelos, a cor dos operários não qualificados, ou utilizavam-nos para proteger a boca, tipo máscara. Na distância via-se um jipe parado na berma e um homem de capacete branco a espreitar pelo óculo do aparelho nivelador montado num tripé, enquanto o porta miras corria com a mira para os pontos indicados pelo topógrafo, uma bolsa com estacas presa na cintura e uma pequena marreta pendurada no cinto. Outro homem segurava um amplo chapéu-de-sol sobre o aparelho, nada preocupado em proteger o topógrafo da canícula.
– Olhem aquele ali deixa o coitado do homem destapado! – Exclamou o António Manuel.
– É mesmo assim. – Esclareceu o Jaime, – o aparelho é que tem de ser protegido porque custa uma pipa de massa e não pode desnivelar para não errar os pontos!
– Vossemecê percebe da poda!
– É que já trabalhei de porta miras…
– Pois, então vossemecê é gente instruída!
– Qual quê, homem de Deus, aquilo é fácil, é só ter a mira direita, estar sempre com os olhos na bolha da água do nível, que tem de estar sempre no centro, e estar também com atenção aos sinais que o mestre faz, bater a estaca a direito e depois pregar o prego, com as indicações do mestre… É uma vida descansada comparada com a nossa.
– Olhe o compadre que, com essa complicação toda, da mira, da estaca e do prego, não era serviço que prestasse para mim; eu sirvo para as coisas mais simples, guardar rebanhos com o meu gabiru a ajudar…
– Gabiru, compadre António? – Perguntou o Jaime.
– É o meu cão que é um bicho esperto… – e o António Manuel ajeitou melhor o corpo encostado ao tronco do pinheiro, – guardar o gado com aquele cão é ter vida sossegada; vou talhando uns bonecos em madeira, falo com as árvores, cheiro o mato, vejo as horas pelo virar do Sol e bebo uma pouca de água que tirei do meu poço e, olhe, durmo às vezes uma pequena cesta porque o diacho do cão é tão bom que trabalha para mim…
O Pirralho afastou a vista do grupo e olhou para trás, para os homens caminhando em equilíbrio sobre as pedras grandes, colocando-as acamadas, o melhor possível, umas de encontro às outras, ou então vergados com o peso das pás, espalhando o saibro sobre as camadas de enroncamento da base.
O calor da tarde era tanto que parecia que do chão vinham vapores, o Sol reflectido no branco das pedras até fazia chorar os olhos de alguns, e os pinches, rapazolas à roda dos doze ou treze anos metiam dó, vergados ao peso dos cântaros de alumínio contendo água.
O Pirralho
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