UM CRIMINOSO COM UM JOELHO MUITO MAU [III]

Tratava-se, então, de proceder como?
O senhor X tinha uma hora de absoluta solidão para agir: levantaria a tampa da caixa infernal em que o fechavam e, mesmo em cuecas (porque ninguém o veria nessa figura: o bairro era praticamente um deserto àquela hora, e a única pessoa que, às vezes, por ali passava, era um cego), ou em cuecas e, quando muito, uma camisola de lã que enfiasse num instantinho, para não adoecer com a brusca mudança de temperatura, saltaria pela janela que a secretária do Henriques deixava entreaberta, correria até sua casa, entraria, aproximar-se-ia de sua mulher, pegando, de caminho, numa faca de cozinha e, apanhando dona X desprevenida, talvez até de costas (sonhara tantas vezes com a cena), esfaqueá-la-ia até à morte. Simples. Básico. Perfeito. Partiria vasos, desarrumaria um pouco, roubaria dinheiro de gavetas de modo a que as culpas pudessem recair num intruso qualquer, um ladrão. Depois, sairia de casa em corrida, subiria pela janela do Henriques, reentraria na sala da sauna, por fim na caixa do inferno, certamente suado – o que não fazia a menor diferença porque, na sauna, era justamente suado que esperavam vê-lo quando o fossem desligar.

Na décima sessão, quando o tempo urgia porque só faltavam mais duas para concluir o tratamento, tomou a decisão.
Havia riscos no seu plano. Mas os riscos resumiam-se à possibilidade de alguma coisa não suceder como sucedia habitualmente.
Por exemplo: a secretária chinesa, até por causa das suas artrozes, nunca aparecia a não ser que ele gritasse por ela. Mas não poderia, por qualquer razão, naquele dia, aparecer e não o ver na sauna?
As ruas estavam sempre vazias. E, se passava alguém, era, como sabia, um senhor cego. Mas não poderia nesse dia, por azar, passar outra pessoa, um rapaz, uma senhora…?

Tinha de avançar. Não podia preocupar-se agora com os riscos. Era pegar ou largar a única oportunidade de uma vida horrível. Abriu a tampa. Correu, nas suas cuecas de ursinhos, até à cadeira onde pousara a roupa. Tentou vestir uma camisola. Mas os braços daquela espécie de embrulho de lã estavam como que amarrados um no outro. Desistiu da camisola. Enervava-se com o tempo a passar. Calçou uns sapatos de borracha. E, em cuecas, tronco nu e sapatos, sentou-se à janela, com as pernas voltadas para o exterior, prontas para o salto.

Para o salto, escrevi bem. Porque, repentinamente, apercebeu-se de que a altura era enorme. Foi deslizando como uma serpente, os dedos enclavinhados no parapeito, o corpo descendo pelo lado de fora, desenrolando-se, encostado à parede…! Mas, mesmo assim, todo esticado, os seus pés não tocavam no passeio. Longe disso. Estava pendurado, com os dedos a tremer pelo esforço para o manterem preso à janela. Considerou tornar a subir: impossível. Não tinha forças nos braços para puxar por si até lá acima de novo. Estava arrependido de toda aquela loucura. Ele não era um assassino. Era um cobarde. Por que razão um homem que não tem sequer coragem para se divorciar da mulher que odeia, haveria de ter coragem para matá-la?
Temia largar-se, saltar, aterrar no chão. Não podia gritar por socorro. Não podia, em suma, fazer coisa alguma. Estava perdido.

Nesse momento, quando a situação parecia tão complicada que nada seria capaz de a tornar pior para si, o joelho, o seu joelho, o seu joelho mau, principiou a doer. Mas a doer tanto, tão inimaginavelmente como já quase não lhe voltara a doer desde que iniciara a série de massagens…
E sob efeito da dor atroz, os dedos abriram-se-lhe todos, como cabelos eriçados.
E o seu corpo tombou.

O senhor X caía, pesada e dolorosamente, sobre um cão: era o cão do cego que costumava passar por ali àquela hora, rente à parede, ligando-se ao muro pela bengala branca.
O cão não ganiu, uivou de susto e dor.
O cego, em pânico, sentindo-se assaltado, percebendo vagamente que lhe roubavam o cão, seu único amigo nesta vida, espadeirou com a bengala em todas as direcções. E acertou regularmente em quase todo o corpo do senhor X.

Quando a secretária chinesa ouviu tocar a campainha e veio abrir a porta da rua, deu de caras, com um pequeno grito de surpresa, com o mesmo homem, o mesmo senhor X que, ainda não havia meia hora, tinha deixado a marinar no caixote.
O senhor X estava de tronco nu.
Vestia as suas cuecas de ursinhos, mas muito rasgadas.
Num dos pés, um sapato de borracha. O outro, descalço, era um pé de esqueleto, era um conjunto de ossos arrastando-se.
Respirava com dificuldade. Encurvava-se ligeiramente, só ligeiramente, como se quisesse manter um último e improvável resto ou rasto de dignidade.
Havia sangue em toda a parte. No peito, no rosto, no joelho.
Disse:
– Caí da janela!
A secretária do Henriques, Henriques esse que também aparecia lá ao fundo, a mastigar como de costume, não podia crer.
– Como? – perguntou ela.
– O que foi? – mastigou o Henriques.
– A sauna estava muito quente – explicou o senhor X, ensaiando um sorriso. Mas era o sorriso mais dorido da sua vida. – Tive de ir respirar à janela. E caí.
Imaginou a sua chegada a casa, onde a mulher também lhe perguntaria, com a sua voz ríspida:
– Que é que te aconteceu?
E desatou a chorar.

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