o desfazer da melhor das minhas recordações

Meu pai recusava-se a ir às festas da minha escola. Ficava sentado em casa, com o jornal que lhe enviavam da terra, A Palavra de Vila Lameirã.  Dizia que não tinha pachorra para o calor – estávamos em Julho -, para os pais das crianças, em calções e boné, filmando, com câmaras japonesas, as habilidades dos seus filhos, nem para aquela exibição exaustiva  de miudagem a cantar, a dançar, a fazer ginástica.

Nada disso me importava. Eu não sabia cantar nem tocar, mas queria lá saber. E nos exercícios, caía de cima do pelinto, ou trocava os passos, ou virava para a esquerda quando os outros meninos viravam todos para a direita, ou vice-versa, mas não interessava. Bastava-me estar ao lado da Anita.

Anita era a predilecta da professora Joana. Cantava o fado, com requebros encantadores na voz, era uma exímia bailarina, muito loira e de olhos azuis. Tirando o pormenor do aparelho dos dentes (e até disso eu gostava), Anita era perfeita.

Cabiam-lhe sempre os melhores papéis. Num certo sentido, todos nós éramos uma espécie de serventes de Anita: as nossas humildes entradas ou saídas serviam unicamente para a fazer brilhar mais – ela cantava, dançava, era o centro e a luz. Os pais aplaudiam-nos a todos, no final – mas sabíamos que, no fundo das suas palmas, havia uma parte especial para Anita.

No ano seguinte mudei de escola, de modo que me afastei de Anita. Fomos para Vila Lameirã, onde o meu pai andava feliz como me não lembrava de o ter visto nunca. Mas todas as noites sonhava com Anita.

Mais tarde, de passagem pelo antigo lugar, fui assistir à festa da minha antiga escola. E depressa dei de caras com a preferida da professora Joana. Ainda era a figura central: cantava, dançava, corria. A professora continuava a seguir-lhe, com os olhos húmidos de orgulho, os menores movimentos. Mas Anita estava alta de mais. Magra de mais. Crescera. Usava óculos. Os seus joelhos eram pontiagudos, a sua voz não me parecia a mesma. Mais tarde, ao pé da banca onde ofereciam gelados, e nos cruzámos, e lhe falei, Anita não me reconheceu. E, sinceramente, não me fez grande diferença. Nunca mais voltei a lembrar-me dela. Nem tornei a desperdiçar paixões. Sou agora um homem, tenho dez anos, sei que as pessoas mudam – e não vale a pena fixarmo-nos a ninguém.

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Uma resposta a o desfazer da melhor das minhas recordações

  1. helena diz:

    Boa, gostei!!!

    Gostar

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