vista de um certo ângulo, uma derrota é uma vitória

O Lucas comprara finalmente o seu sonho: um barco com um motor potente e uma divisão coberta, onde tinha uma cozinha minúscula, uma casinha de banho e duas camas.

Por algum cinismo astrológico, como se os astros o invejassem, assim que se viu no barco, a sua vida afundou: Manuela, ao fim de trinta anos de casamento, saiu de casa com os filhos; a seguir, Lucas perdeu a própria casa. A maioria dos amigos, não imediatamente, mas aos poucos, foi-se fragmentando; foram desaparecendo paulatinamente da sua vida, talvez porque ele lhes pedisse muitas vezes dinheiro.

Sempre se imaginara disparado, no seu barco, pelas águas da Côte d’Azur ou do Mónaco. Ou mesmo do Algarve. Sempre imaginara o iate atracado em marinas de aspecto internacional, entre línguas estrangeiras que se cruzariam no espaço. Ao invés, só podia frequentar praias poluídas e baratas, cheias de banhistas gordos, suados e com celulite. Apetecia-lhe deslizar sobre as águas numa velocidade vertiginosa. Mas os banhistas gritavam-lhe imediatamente, da água para onde estavam a fazer chichi: «Eia lá! Cuidado com isso. Agora até na praia um gajo pode ser atropelado!?»

Sarmento, um dos poucos amigos que lhe restavam, disse-lhe um dia, fazendo rebrilhar o dente de ouro. (O dente de ouro fora, por sua vez, o sonho realizado do Sarmento):

«Se fosse a ti, pá, vendia o barco. Para andares com ele por praias feias e reles, em vez de viajares até aquelas praias que estão nos teus postais, sim, os que afixavas na porta do frigorífico (quando tinhas frigorífico), mais te valia venderes o barco…»

O Lucas não pensava assim.

Em primeiro lugar, sem casa (e sem frigorífico, de facto), começara a viver no barco. E, só por si, ter por habitação um barco, como em certos filmes, era um outro sonho materializado.

Em segundo lugar, dentro do seu barco, confortavelmente sentado ou deitado, balançando ao de leve sobre o ondear das águas, podia sonhar que estava em qualquer lugar: na limpidez de um paraíso.

E isso bastava-lhe. Fazia da sua derrota algo por que valia a pena viver: e o seu barco merecia isso. E ele merecia isso.

Além de tudo, continuava a jogar no Euro-milhões.

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