Vida, Um Pão e Um Sorriso

Vida, Um Pão e Um Sorriso

Macedo Teixeira

Ao romper da manhã, acordara com o som magnífico do chilrear dos passarinhos, sentira-os naquele momento um pouco mais intensos do que era habitual, até parecia que no seu frenesim queriam também chamá-lo lá para fora.

Sondara no seu silêncio de encanto e fora desinteressadamente concluindo: “Sossega, homem, que é a primavera, ela com os seus sinais. Olha que não é outra coisa, não é mais do que isso, apenas sinais!…” Às vezes, sem sabermos porquê, prega­‑nos uma tal discórdia e ficamos tão tontos que já nem a beleza das estações do ano nos traz alegria para vivermos melhor nem consolo para superarmos as nossas angústias na diminuição do sofrimento.

Mesmo assim, um pouco indiferente à curiosidade, não resistira em abrir as janelas na direção daquela melodia harmoniosa, apesar de um pouco mais persistente do que o habitual, pois ainda antes de se ter arranjado e feito a sua higiene matinal, sentira-se desafiado pela surpresa que entretanto o inspirava, para ir ver sem ter desejado nem saber que ficaria tão de repente encantado com o ambiente que observava e que, naquele momento, despertava em si a diferença da certeza de estar a viver uma felicidade para além da simples rotina.

O ruído pela abertura das janelas afastara os pássaros em alvoroço, que, voando num torvelinho, fizeram uma tangente à vidraça, fora um movimento tão singular no significado, que se traduzira como se lhe quisessem agradecer por ter atendido ao pedido.

Mas quem dera que ao menos soubessem eles que o estavam a presentear com uma das mais belas surpresas da nossa existência: acordar para a vida e vivê-la para além das nossas vidraças.

Quedado no silêncio da quietude que vislumbrava, sentira-se por instantes atraído para longe; depois, tocado pelos raios solares, pudera ver ao perto entre o espaço verdejante as tonalidades da manhã, que também acordavam consigo. Ainda pudera, por algum tempo, distinguir naquele quadro natural, algumas árvores que se agitavam para o nascimento das folhas e das flores, que, entretanto, em pequenos berços se vão formando entre as pernadas e, ao prepararem-se, vão-se alegrando para receberem os frutos que delas hão de nascer.

Mas os passarinhos, que naquela manhã procederam no alvoroço com mais insistência, não quiseram senão que ele visse também uns cordeirinhos que, ladinos, iam correndo atrás das mães, que sem canseiras procuravam alimento para comerem. Que também visse que eles não só as não deixavam livres nos movimentos como lhes tocavam sempre com as patitas para as fazerem parar e assim poderem mamar até à satisfação.

Que quadro maravilhoso, que sinais tão evidentes! A Criação e as criaturas, como são fascinantes as belezas da relação maternal na fartura das dádivas de Deus.

Neste esplendor momentâneo, imaginara imenso, recordara-se de si e dos outros, recordara-se das criaturas e do Universo; descobrira como no imprevisível da mente, perante a pobreza do infeliz, há sempre forças inexplicáveis que a transformam e a levantam.

Desejara ter ficado por ali, aquele quadro natural enchera-o de luz e de força para se erguer de novo e voltar a dar conta da beleza do Tempo e das Formas; acordar para a vida e vivê-la para além das vidraças.

Mas naquele chamamento de primavera, havia também algo de estranho e doloroso, o sinal de carinho daquelas aves fora de preparação para uma realidade que contrastava com a paz que sentira, e que haveria de ver com amargura uns minutos depois no caminho que entretanto continuara a peregrinar; o caminho da existência e das suas contradições.

Folheara as primeiras páginas duma revista de notícias e dera de caras com uma criança que levava uma braçada de tijolos, trabalho infantil, trabalho para matar a fome de famílias pobres. Andara um pouco mais e, em evidência, na terra árida sobre o pó, elevavam-se uma malga de alumínio e um tacho empastado de terra para cozinhar sabe-se lá o quê. Junto deles e naquela solidão, prostravam-se duas crianças com uns olhitos que olhavam perdidos no fundo da escravidão; pois daquela terra só as lágrimas poderiam fecundar. E ainda antes de chegar ao fim da leitura, já quase a soluçar, deparara-se com uma mulher ainda jovem que, sentada sobre uma lixeira, lia um livro, a prenda que fora rejeitada e que ela recebera como prémio de sufocar entre o lixo com as roupas sujas de lama para poder procurar o pão.

Dali em diante, agradecera em silêncio àqueles pássaros que o fizeram acordar de novo para a Vida, gritara por auxílio e socorro de todos e pensara no que haveria de levar para o Caminho.

Solicitara aos Ricos de todo o Mundo: “Uni-vos! Socorrei os pobres e famintos, que a sua vida é o vosso suor do rosto.”

Prometera, desde então, levar consigo a Vida, um Pão e um Sorriso.

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Sobre macedoteixeira

Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. É professor do ensino secundário (aposentado), tendo leccionado em várias escolas ao nível do ensino secundário público e cooperativo. É autor das seguintes obras literárias e filosóficas: Sementes da Verdade, Entre o Sol e as Ocupações, Crescendo Constroem-se os Sonhos, Quando as Estrelas Acordam e Caminho de Luz e Sombra. É também autor da obra dramática: Uma Dança na Escuridão. Colabora com jornais, fóruns e revistas, e é autor do blogue: www.partilharsaberes.webnode.pt
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Uma resposta a Vida, Um Pão e Um Sorriso

  1. Ana Maria Gonçalves Campelos diz:

    admirável. adoro ler-vos, mas é tão complicado fazer algum comentário, e dizer-vos com é importante terem este blogue.

    Bem hajam!
    AC

    Gostar

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