Apresentação do Livro “Quando as Estrelas Acordam”, Armando de Sousa e Silva

Apresentação do Livro: Quando as estrelas acordam, da autoria do professor e filósofo António Macedo Teixeira

Boa noite! O meu nome de batismo é Armando Sousa e Silva e sou professor aposentado dos ensinos secundário e superior. Conheci o meu amigo António quando ambos lecionávamos em Espinho.

Conheci também e hoje a honra e a responsabilidade inerente de apresentar o seu último livro a seu convite: «Quando as estrelas acordam» é o seu título e é por mais esta feliz iniciativa do António que estamos aqui hoje.

Desde o princípio dessa estimulante, sólida e crescente amizade com o António aqui ao meu lado que eu me fui inteirando do genuíno interesse que ele nutre pelos assuntos e negócios do espírito, nomeadamente, pelos problemas filosóficos que, diga-se em abono da verdade, interessam, de facto, e diz-me a experiência, pouca gente, embora todos e cada um de nós passemos boa parte do nosso dia a filosofar….

Assim, as nossas animadas e muito discutidas conversas incidiram e detiveram­‑se, não poucas vezes, nas chamadas perguntas da vida: Quem somos? Porque estamos aqui? De onde viemos? Para onde vamos? As famosas perguntas que Savater adianta dentre outros mestres…

Num meio intelectual absurdamente e surpreendentemente rotineiro como é o da escola, ele e eu tentamos, com pouco sucesso, diga-se, elevar o tom e o nível das conversas quotidianas. Dei por mim a pensar que, mesmo quando temos o hábito e a faculdade de pensar não utilizamos esse bem inato.

Passamos o dia inteiro consumindo o corpo e a mente em tarefas triviais e ontologicamente menores: levamos os filhos à escola, o carro à oficina e o relógio a conserto.

Pensamos substituir a lareira da cozinha, relvar o espaço exterior, mudar de emprego, jogar sem esperança nos jogos da Santa Casa esperando em vão mais um desaire.

No fim do dia interrogamo-nos: o que fizemos? Nada, digo eu. Melhor dizendo: acrescentamos ou retiramos ao que tínhamos antes, mas não ao que somos.

Melhoramos o Ter e sacrificamos o Ser no altar da posse, do desfrute material e do consumo sem limites.

É nisto que consiste a nossa condição humana, como escrevia Arendt. Tornamo­‑nos mais uma peça da enorme engrenagem que criamos para nós quando colonizamos o mundo pensando candidamente, que um dia ele seria nosso nem que não «quisesse».

Por isso temos travado historicamente uma batalha sem regras contra ele mas seremos um dia derrotados sem apelo nem agravo. Tornamo-nos menores, menos humanizados, com menor dignidade existencial, muito menos homens: cedemos, fugimos não nos dando conta de que a um relógio novo se seguirá outro e outro «ad æternum» sem que isso nada nos acrescente do ponto de vista ontológico. Teremos mais, mas não seremos mais.

Este livro que ora tenho a subida honra de apresentar e comentar com muito gosto, reflete por parte do meu amigo, esse interesse cosmogónico, tão ancestral quanto o próprio homem.

Quando folheei as suas 90 páginas, que, nele, o Macedo percorre sabiamente, com mestria, utilizando diversos caminhos, e um deles que é essencial e que se encontra plasmado em parte do título deste seu último livro, dei-me conta do porquê do título escolhido pelo António. Refiro-me à palavra «Estrelas». E porquê? Porque, literalmente, proviemos das estrelas.

Há aproximadamente 13,5 mil milhões de anos, diz-nos a Astronomia Física, deu-se aquilo a que a ciência chama o «Big Bang» ou seja, a explosão inicial. Nessa altura, o universo que conhecemos hoje estava reduzido a um ponto de densidade infinita e dimensão nula. Tudo era o Nada.

Acontece que em alguns milissegundos (!) a expansão dessa explosão inicial foi de tal ordem espetacular e simultaneamente dramática que ela definiu e configurou praticamente o Universo que conhecemos hoje e que nos parece infinito mas que se expande ainda e continuamente pelos confins do espaço sideral, presa fácil de uma desordem entrópica que é responsável, entre outras coisas, pelo nosso envelhecimento e morte, di-lo a Ciência.

Milhares de milhões de milhões de objetos com as mais variadas formas, aspetos e funções ocupam esse espaço, controlados por leis que desconhecemos e que a matemática é por enquanto incapaz de definir, prever e controlar ou mesmo conhecer criando, assim, vazios imensos e gelados, apenas povoados por gases e buracos. Dentre esses objetos, as estrelas parecem desempenhar um papel fundamental na criação da Vida.

Há cerca de cinco mil milhões de anos formou-se, devido a sucessivos impactos exteriores, o nosso planeta. A Lua é uma das provas desses impactos. E com esses impactos, surgiu a vida que se instalou na Terra, provinda do espaço. Não é verdade, como dizia a ciência antiga, que a vida proveio da Terra: proveio do Espaço. Nós somos literalmente filhos do espaço.

No princípio, a Terra foi colonizada por animais unicelulares e supõe-se que o seu berço foi o mar. Milhões de anos depois, fiéis ao Darwinismo, essas unicélulas foram-se transformando em peixes, mais tarde em anfíbios, mais tarde em répteis, aves e depois em mamíferos e, dentre destes e, muito mais tarde, em primatas dos quais somos descendentes e herdeiros diretos.

Algumas espécies, pura e simplesmente, desapareceram da face da Terra devido à voragem cósmica. Falo naturalmente dos dinossauros, que desapareceram há cerca de 160 milhões de anos. Outras transformaram-se e são hoje outra coisa.

Retomo, pois, que de facto, o homem é (mesmo) filho dileto das estrelas, do espaço. E, pergunto-me agora: é Deus também filho do Espaço ou é simplesmente o seu Pai criador? É a Natureza Deus? Será Deus a Natureza? Será a Natureza simplesmente….Natureza? Deixo isto para registo, reflexão e memória futura…

Felicito o Macedo, aqui ao meu lado, por esta intuição genial que se observa na leitura crítica, racional e atenta do seu livro. Depois, ele interroga-se sobre o que é feito da humanidade do homem.

Afinal, ao contrário dos restantes animais, que deixam tudo como encontraram, o homem é um ser eminentemente cultural no sentido em que transforma o seu meio ambiente, algumas vezes de forma dramática, tentando, simultaneamente, que este se adapte ao homem e que o homem se adapte àquele.

Pode dizer-se mesmo que o homem tem tido de si próprio e ao longo do tempo, a ideia peregrina de que se domina a si próprio e, por extensão, domina o mundo que o rodeia, não se dando conta nem notícia de que o mundo que ele próprio criou que está paulatinamente a dominar o próprio homem, julgado por si mesmo, um ser superior.

O homem criou ao longo do tempo utensílios, ferramentas, ideias, objetos, intenção e vontade de submeter as leis da natureza às suas próprias leis, hábitos, costumes, expectativas, necessidades, dificuldades e desejos egoístas.

É assim que o mundo humanizado que conhecemos hoje, conheceu, conhece, e continuará a conhecer certamente, o impacto dramático dos efeitos benéficos e maléficos da ciência e da tecnologia que foi capaz de criar e que ele supôs que ficariam sempre ao seu serviço. Mas não ficaram: a criatura traiu o Criador…

O domínio do homem pela ciência e pela tecnologia está paulatina mas inexoravelmente a tornar-se uma evidência sócio-histórica e cultural, um facto, como facto é o domínio destas pela política e assim como o domínio desta pela economia, assim como desta última pela alta finança que, e me parece que em definitivo escravizou o próprio homem, tornando-o num ser acrítico, sem volição, tecnomórfico.

Quer tudo isto dizer que o homem, ao contrário daquilo em que acredita, está a ser mais objeto de mudança do que agente de mudança, está apagando-se, desumanizando-se, entregando-se à realidade que não domina porque esta, e por definição, impõe-se por cima de tudo e apesar de tudo.

Para constatarmos isto basta ligar o aparelho de televisão e ver de que modo o homem se tornou escravo e servidor vil da criatura que criou…Em definitivo, o homem traiu a bondade das estrelas, berço do seu sopro vital, da sua criação…

Por isso, o meu amigo Macedo parece entender mal e aceitar pior a extrema arrogância e prepotência humanas que julgaram tudo submetido e dominado quando, na realidade, são dominadas pela Natureza, não tudo querendo, tudo pode, tudo submergindo sem apelo nem agravo à sua evolução e passagem, ignorando ostensivamente a presença incómoda da nossa frágil espécie….

E bem: O homem é mais uma espécie entre milhares que foram estimuladas pela criação estelar fundamental. Um dia desaparecerá da face do planeta e o planeta também, bem como o Criador. E depois? Francamente, ninguém sabe.

Tudo o que vemos, tocamos, cheiramos, ouvimos e sentimos se transformará um dia numa outra forma de energia. A desordem entrópica vencerá a necessidade de equilíbrio planetário e o espaço entrará num caos evolutivo ordenado cujos contornos não sabemos prever.

É este o significado ontológico da nossa morte: morremos para que algo sobreviva sob mais uma ou mais formas de energia. Na verdade, perduramos e permanecemos. De facto, continuamos a viver.

De uma outra forma, paradoxalmente, romântica, mas crua ao mesmo tempo, o amigo Macedo, tal como eu, acreditamos no que a ciência nos diz sobre o homem e o seu devir.

Um dia, esta espécie desaparecerá tão depressa como surgiu, dando lugar a nada ou a outra espécie. Nesta dimensão, nada nos indica que o homem escape a Darwin.

A ciência estabelece que um dia, a nossa estrela maior, o Sol, enfraquecerá e, fatalmente, caminhará em direção à sua própria extinção. Fenecerá e, com ele, a Terra tal como a conhecemos, e naturalmente, nós mesmos.

É precisamente isto que significa a palavra morrer no nosso infantil universo de crenças religiosas. De facto, somos filhos diletos do conteúdo da herança judaico-cristã e grega. Porém, foi-nos dito pela religião que abandonássemos o ideal grego de existência. Pelo contrário, foi-nos inculcada a ideia tremenda de que devemos temer a morte: e tememos.

Traímos Platão, Epicuro, Sócrates, Kant, mas elevamos ao altar da nossa necessidade de viver, sendo hipócritas, Santo Agostinho. Já não temos nem podemos dispor do génio de um Mozart ou de um Miguel Ângelo, no meio desta voragem civilizacionada que nos faz sermos escravos da tecnologia.

Apesar disso tudo, ainda houve e há mestres que isso reconhecem humildemente: «Sei o que sei porque caminho aos ombros de gigantes», terá dito um dia Einstein.

O medo de morrer, de nos apagarmos faz de nós escravos de crenças absurdas, alimentadas pela ideia de que sobreviveremos a nós mesmos. Só as estrelas nos sabem dizer se isso é verdade como sabiamente interroga Macedo no seu magnífico ensaio filosófico. Afinal são elas que nos deram o primeiro sopro de vida. Milhões delas observam a sua Obra Maior: o Homem.

Assim, merecem que lhes outorguemos protagonismo: criaram-nos, intui Macedo com acerto. Arrependeram-se disso, com certeza. Mas nada há a fazer senão aceitar o erro. Um dia, quando acordarem, e vendo em que se transformou a criatura que criaram, talvez se zanguem, talvez não.

Talvez admitam filosoficamente que afinal o homem tem perdão porque no fundo é um ser que, por ignorância e preguiça ontológica, traiu o Seu Criador, foi ingrato com ele, foi frágil, foi infeliz. Mas não o fez por mal, mas porque não sabia nem sabe mais.

E a magnanimidade das estrelas é tal que perdoaram o homem há imenso tempo, tempo geológico. Mas, lá no fundo de si mesmas talvez se envergonhem por terem criado uma tal criatura…

Sabemos que, e em definitivo, o homem é filho do espaço, e o que acontecer com o espaço, acontecerá com ele. Talvez seja este o sentido da vida e talvez seja esta a razão da nossa existência, da nossa proveniência e de nós mesmos. E mesmo que o não seja, é esta preocupação motivo do magnífico livro que ora Macedo Teixeira nos apresenta.

Excelente livro que condensa, pois, e em menos de 100 páginas, algumas das nossas principais preocupações onto-cósmicas e que nos têm ocupado desde o Princípio, desde o momento em que o homem começou a utilizar o cérebro, não somente para comer e para sobreviver mas, sobretudo, para pensar.

Obrigado, Macedo, por esta tua magnífica contribuição para o incremento do conhecimento humano. E obrigado a todos pela vossa atenção.

Armando de Sousa e Silva

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Sobre macedoteixeira

Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. É professor do ensino secundário (aposentado), tendo leccionado em várias escolas ao nível do ensino secundário público e cooperativo. É autor das seguintes obras literárias e filosóficas: Sementes da Verdade, Entre o Sol e as Ocupações, Crescendo Constroem-se os Sonhos, Quando as Estrelas Acordam e Caminho de Luz e Sombra. É também autor da obra dramática: Uma Dança na Escuridão. Colabora com jornais, fóruns e revistas, e é autor do blogue: www.partilharsaberes.webnode.pt
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