Crónicas da Brilha – Venturas e desventuras de uma noite de S. Pedro

 
 
 
Há quem diga que não acredita em coincidências. Bem, não sei se me inclua ou não nesse grupo, mas é certo que atraio as mais caricatas situações, sejam elas ou não coincidência.
 
Apanhei o barco, precisamente àquela hora, por um sem número de atrasos que me deixavam na antecipação de já não ter transportes para regressar a casa em dia de extrema agitação em Lisboa por causa de um cantor pimba qualquer que aí tinha ido dar um ar da sua graça.
 
Sentei-me, recostada nos pensamentos do livro que me esquecera de trazer, quando reparei numa rapariga muito bonita, sentada junto à janela. A rapariga bonita estava a chorar.
 
Primeiro fiquei desconfortável e pensei que talvez devesse fazer alguma coisa. Olhei em volta, em busca de socorro, mas não só ninguém dizia nada, como pareciam tão adormecidos que nem sequer reparavam no que se passava. Era noite de S. Pedro e o ambiente de festa sentia-se em cada bairro de Almada, mas não naquele rosto, não naquele instante.
 
Tocou-me aquela nota dissonante, não tanto do ambiente festivo em torno mas sobretudo pelo desespero da respiração entrecortada de lágrimas em catadupa daquele rosto quase mármore.
 
A rapariga aproximou-se da janela do barco, estendendo a fronte para o ar tépido da noite que não lhe acalmava os soluços. Mexi-me mais uma vez na cadeira, ajeitei a alça da mala e tornei a mudar para a posição inicial.
 
Olhei para ela e pensei com os meus botões que ia arriscar-me a uma valente chapada. Olhei em volta mais uma vez e depois outra mas tudo estava como se nada se passasse.
 
Suspirei, antecipando uma cena, e aproximei-me dela. Peguei-lhe na mão, que afinal se deu sem resistência, enquanto a outra mão tapava o rosto húmido de vergonha. Não fez qualquer gesto para me afastar.
 
– Está bem? – Perguntei – Quer falar? Olha que às vezes é mais fácil falar com um estranho.
A rapariga abanava a cabeça e os longos canudos loiros.
– Não há solução! – Repetia ela – Não há solução!
 
Bem, que se dizer a isto quando não se sabe qual o problema? Limitei-me a dizer que a melhor forma de olhar para as coisas não é atermo-nos aos problemas mas tentar encontrar soluções, e que fosse o que fosse nada seria mais forte do que nós próprios.
 
Presa no choro e na respiração interrompida a rapariga começou a falar em catadupa, com soluços de permeio, quase sem fôlego, durante os 10 minutos que durou a travessia. Dei-lhe o meu número, dei-lhe alguns caminhos e sobretudo a força de que nada a poderia demover.
 
Por fim disse apenas: – Quero voltar a ver o meu filho.
 
Saiu do barco com o rosto amenizado. Já não soluçava, já não olhava para o rio como se fosse uma saída e pensava no que faria seguir centrada no próximo passo.
 
Quando nos separámos pedi a um polícia que a acompanhasse aos transportes, crente de que tinha feito não o meu melhor mas o que podia. E mais, sem ter levado a dita chapada.
 
Quando me virei para trás uma última vez ela tinha feito o mesmo, atirando os longos canudos sobre o ombro, disse:
– Obrigada. Amanhã vou fazer isso.
 
E eu deixei-a ir, já certa do caminho que haveria de tomar, embora consciente das pedras que encontraria para lá chegar.
 
Voltando aos meus pensamentos perguntei a mim própria porque é que uma rapariga tão bonita haveria de chorar na noite de S. Pedro. E porque é que ninguém haveria de fazer nada?

 

Ana Brilha
 
 
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