Reflexões

Reflexões
A comparação dos custos perante a História
Somos terra de gente quietinha, quase parada, amorfa, perante a rudeza da vida que nos impõem, nas fatias largas de sofrimento, servidas em “bolos de vidro,”barrados de fel, parecidos ou iguais aos que os larápios de quintas atiravam aos cães de guarda para os matar.
A propósito das coisas dolentes, alguém descreveu o nosso Alentejo durante o estio: “Uma terra tão ardente, onde, para fugir às brasas do céu, a moleza dos corpos é tanta, que até os cães ladram deitados.”E eu (numa breve introdução no romance que publiquei), escrevi:
(…) é uma paródia ao País que fomos capazes de construir, uma paródia triste. Uma vontade de bater nos ingénuos que fomos e ainda somos. Gente aventureira que facilmente se espalha pelo mundo e sabe trabalhar; mas também gente de paixões fáceis, mesmo fanáticas. Presas indefesas nas mãos dos ricos que tiram o mais que podem a este mundo pretensamente globalizado. Somos, afinal, o resultado do passado que tivemos. Um povo eternamente sacrificado pelos seus maus gestores, um povo que mais do que nunca precisa de moral. Um povo conservador, avesso à cultura, avesso à mudança, um povo que, de noite, verte lágrimas de sangue no travesseiro, e de dia sorri, sem perceber porquê… (…)
Apesar da gritaria que vai pelas nossas cidades, o mal sorri todos os dias, numa relação de indiferença perante as grandes misérias. Na verdade, continuamos a ser “terra pequena,”porque, para a maioria deste nosso povo, as maleitas que hoje nos enfermam são sempre, (não entendo o porquê), menores do que as que sofremos num passado não muito distante. Eu não entendo assim. Antes, na minha juventude, quando era um rapaz operário, algumas vezes me deitei em jejum para no dia seguinte ir trabalhar na obra; mas nesse tempo existiam obras, fábricas, searas de trigo, meios de produção onde um pobre ganhava um pão para meter na boca. Hoje, (ainda que num dia de sol), vivemos numa perpétua noite negra, roçados pelos demónios que nos atemorizam por todos os lados.
É certo que contamos com a protecção de um Presidente da Republica que fala com o Divino, parece-me que quase numa relação “tu cá tu lá;” ele é a Nossa Senhora, São Jorge nos intervalos das batalhas que trava com o senhor das trevas, enquanto o Santo encharca o lenço com o suor do Rosto, ou talvez um segredinho de “pé de orelha” com o Divino e Supremo Mestre. Eu sei lá. Quanto a mim, falar com Deus é coisa comum para todos nós portugueses. Somos filhos de um País onde, ao longo dos séculos, se professa a fé católica, e todos nós dizemos “valha-me Deus”perante as desgraças da vida; agora, falar para Deus é uma coisa, o pior é Ele nos responder, quer em palavras, quer em acções. A isso eu, prosaicamente, chamo esquizofrenia, (para não dizer coisa pior) e, pela lógica e o bom senso, deve o Povo substituir um Presidente que manifeste indícios de tão medonha maleita, a ser o caso, que eu, um modesto e incipiente iletrado, destas coisas nada sei, a não ser o que leio no meu jornal da vida.
Com tantas anedotas que por aí se contam sobre os que governam, seria justo influir que somos um povo prazenteiro e alegre; mas não, somos tristonhos e macambúzios, não por nossa natureza, mas sim por imposição dos ditames ininterruptos desta governança. Hoje sabemos que vivemos muito acima das nossas possibilidades e, para aumentar mais a lástima que já sentimos de nós com o destino que Deus nos deu, ainda sabemos que somos como as latas de sardinha fora de prazo. È que passámos todos os limites da decência ao viver por tantos anos, como velhos imprestáveis ou miseráveis desempregados, incapazes de moirar nos campos onde os ricos têm as suas colheitas, auferindo o patriótico vencimento de dez réis mal coados, quando sabemos que é mais provável um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Céu, ao passo que nós, os desamparados da terra, os famintos, os iletrados, os pobres de espírito, temos de direito adquirido um Paraíso (ou condomínio fechado), garantido para toda a eternidade.
Pois, eu por vezes tenho certos desvarios que me levam a pensar por outras vias; penso que esta longevidade deve-se sim ao avanço do conhecimento que nos chega pela via da Ciência, da Arte, da boa Literatura. Somos acima de tudo o produto da educação, do estudo, da reflexão, da leitura; legados herdados do progresso que resulta do esforço dos que nos antecederam. Somos a humanidade que quer viver cada vez com mais qualidade de vida. Viver até aos oitenta, até aos noventa, até ao limite possível do céu. Aceitando com consciência as inevitáveis consequências: trabalhar durante mais anos, produzir em conformidade com as necessidades inerentes. Para isso necessitamos de mais conhecimento, mais Ciência, Investigação, Arte, enfim garantias de continuidade dos nossos direitos, enquanto pessoas que deram o seu contributo para a melhoria da vida de todos. E o que temos? Perca constante do valor das reformas atribuídas, desemprego, doença, fome, aviltamentos sem precedentes, inimagináveis; crianças famintas, analfabetas, corte nas verbas do ensino que acarretam supressão de cursos académicos, desmotivação, doenças mentais, suicídios. E tudo isto sob a batuta de um maestro que fala e escuta Deus, o que seria se o senhor se entende-se com o Diabo, a par de um governo de economistas incompetentes e patéticos, que retiram do OE verbas para os partidos, milhões e mais milhões, que elegem deputados que em simultâneo trabalham nas empresas do regime e na Assembleia da Republica onde, (não sei mas presume-se), defendem em simultâneo os interesses do País e das respectivas empresas, como se tal possível fosse!
Meus amigos: penso chegada a hora de ponderar custos perante a História. Num dos pratos da balança a projecção no tempo e no futuro deste doloroso caminho. No outro, o peso da revolta e da penosa dor das perdas de vidas e da destruição da propriedade, tanto individual como colectiva. Um dia o julgamento dos nossos vindouros, os seus olhos morais, a sua dignidade da nossa herdada, vai condenar-nos ou absolver-nos, e a Consciência da História irá condenar-nos ou ilibar-nos. O futuro a Deus pertence. Mas a nossa Consciência, a nossa decência, a nossa moral, essas, hoje nos vergam os ombros. Levantemos a cabeça e encaremos o futuro com Dignidade e Honra!
José Solá

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Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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Uma resposta a Reflexões

  1. José Eduardo Taveira diz:

    Muito bom. Abraço

    Gostar

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