Crónicas da Brilha – A concorrência desleal

 

A concorrência desleal

A escassas semanas da entrada em vigor das novas regras quanto à emissão de faturas, corri já duas ou três lojas portuguesas onde, pela mísera quantia de € 1,00, o desgraçado do lojista panicava em frente da registradora por causa desta nova incumbência e pela responsabilidade acrescida da aprendizagem e da novidade que ela acarreta.
 
Há que saber emitir as novíssimas “faturas” – nome pomposo que vem resolver a discórdia quanto aos documentozinhos que nos entregavam ao balcão com um “bom dia” ou “boa tarde” de “adeus oh vai-te embora” – o que nem a mim, nem aos meus alunos de língua portuguesa, deixaria dormir à noite por não sabermos, afinal, o que a diferenciaria do talão.
 
Por outro lado, entrei também em outras duas ou três lojas onde a registradora é a mesma que estava em uso há dez anos, que é como quem diz que são achados arqueológicos que ainda funcionam, dessas que dão talões – os tais que foram extintos pela lei -, e onde não aceitam pagamentos por multibanco. E, ainda assim, calmamente a lojista se esqueceu de me dar o talão.
 
Concluo o seguinte: Nós, povo de brandos costumes, somos demasiado zelosos com as nossas obrigações fiscais. Cumprimos, porque nos ensinaram a cumprir, e tememos este Estado, que é o nosso, e o seu poder soberano, diga o que disser a comunicação social.
 
Porém, à laia do que dizia Nietzsche, é esta vontade compulsiva de cumprir que nos castra, nos impõe limites, e que nos coloca em clara desvantagem face aos que não cumprem a lei.
 
O português do comércio tradicional, de família, coloca vassouras ao contrário atrás da porta para espantar a ASAE, mas se conhecer a lei que se aplica ao seu estabelecimento comercial cumpre, cumpre sempre.
 
Por outro lado, esses que não cumprem, ganham com jogadas mirabolantes nas guias de transporte que, segundo me contaram, magicamente se multiplicam, em armazéns com material escondido e em recurso à recusa da entrega de recibos, talões e afins, quanto mais às famosas “faturas”.
 
É desleal, verdadeiramente desleal, para o desgraçado do dono da papelaria que sua sobre o novo sistema que não entende, e que teve de pagar para poder cumprir a lei, para poder emitir este moderno documento que vai resolver todos os problemas da economia nacional, quando esses outros, calmamente, nem sequer registam a venda.
 
Ana Brilha
11.01.2013
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