Reflexões

Reflexões
Escrevendo sobre livros e autores:
Do romance “A Conjura” de José Eduardo Agualusa:
(…) Conta-se também da confusa rixa que, pelos finais de 1881, teve por protesto as eleições para a Câmara Municipal, e dos sucessos que levaram um rico agricultor de Malange a mandar assar uma escrava para a servir aos cães…
E outra nota:
(…) E se não há relações entre a anatomia do crânio e a capacidade intelectual e moral, porque há-de ensinar-se a bíblia ao gorila e ao orango, que nem por não terem fala deixam de ter ouvidos, e hão-de entender quase tanto como entende o preto, a metafísica da encarnação do Verbo e o dogma da trindade? (…)
Oliveira Martins, “A Civilização Africana” Lisboa 1880
E ainda das citações escolhidas por Agualusa a iniciar os capítulos:
(…) O negro não é o ser típico e por vezes elegante que havíamos visto até aqui: é um provocante chimpanzé a quem chamaram calcinhas, imitando o branco, tomando-lhe as maneiras tão exageradamente que a gente põe-se a recear de, antes de regressar a bordo, ter de aponta o pé às grandes, às enormes nádegas destes animais dengosos e domesticados (…) Assim efeminados e de porte duvidoso estes senhores têm associação e jornal e fomentam nada menos que a campanha da… autonomia de Angola! (…)
Gastão Souza Dias “No Planalto de Huíla” Porto 1923

A Conjura, é um romance onde se lembram os patriotas que corporizaram a luta pela emancipação e independência de Angola. Uma obra onde se põe a descoberto a opressão e a violência exercida, inclusive, sobre os filhos produzidos pelo cruzamento das duas raças, os mulatos. Os empregos e os cargos de maior relevância destinavam-se, em exclusivo, para os portugueses de primeira, ou seja, todos os que nasceram na metrópole; os outros, (os portugueses de segunda), na verdade, nasciam para vegetar, ou dar cor à paisagem…
Neste romance se fala como alguém, pelo único facto de ser branco, é competente; uma simples questão de cor da pele significa um cérebro privilegiado, dotado, superior. Afinal, uma mente brilhante.
Também se relata e se dá conta do amor que muitos senhores ricos atribuem aos seus animais de estimação, (esses queridos entes dotados de quatro patas), quando os alimentam com nacos de carne humana, assada com todo o preceito inerente às melhores práticas culinárias, para em pleno agradarem ao fino paladar dos cães…
Se Agualusa escreveu este pequeno romance para homenagear as gentes do seu povo, que, com coragem, souberam lutar contra o atraso imposto pelo branco esclavagista e opressor, na verdade, ele fez muito mais. Construiu uma ponte de entendimento entre as duas raças. Eu penso que o livro desmistifica e desmonta toda a invenção de uma História Pátria feita pelas conveniências das classes opressoras, que se apoderaram deste tão massacrado, e humilhado País. O justo, seria considerar ou, (no mínimo), aconselhar em Portugal a sua leitura nos liceus e nas escolas secundárias. Por essa via, (a discussão do livro nas salas de aula), talvez que esta ideia da grandeza da História lusa fosse remetida para o seu exacto lugar na História Universal dos Povos; não que eu enjeite ou apequene o lugar justo que o meu país deve ocupar no mundo real dos homens, não; rejeito sim as fantasias paridas em cabeças ocas que, inventando mitos e lendas, contribuem para perpetuar a ignorância, o atraso, a indecente submissão de milhões às fantasias que lhes concedem feitos próximos e atribuíveis às divindades narradas nas fábulas…
Que diabo! Fomos e somos apenas Homens e, ainda por cima, nos situamos num patamar de ignorância pouco apetecível para os mais comuns dos mortais deste nosso planeta…
José Solá

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Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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