Nem verdade, nem coragem

aviao

Na primeira fileira do avião lá estava ele e não tinha quem não olhasse. Devidamente alinhado na poltrona com as suas duas pequenas mãos sobre os joelhos, trajando um shortinho azul, camiseta branca e um colete, sem lembrar de um adorno elengantérrimo: um suspensório.

Com o cinto de segurança afivelado, percebi que faltava-lhe uma gravatinha borboleta, o que ficaria perfeito, embora tenha que considerar um certo preciosismo nesta minha crítica. Por outro lado, irretocável mesmo era o gel no cabelo. Aqueles cabelinhos lisinhos e um rostinho de bochechas rosadas complementavam o visual do menino lindinho.

O bruguelinho, ou melhor, guri, piá, fedelho, como queira o nosso regionalismo, aparentava ter o seus sete ou oito anos. O  avião era aquele das fileiras de 2 e 3 lugares. Ele estava na de três lugares ao lado de alguém que parecia ser, respectivamente, mãe e irmã, ocupando as poltronas do centro e do corredor, as famosas D e E.

Sentamos logo atrás e o assunto foi inevitável: a elegância e o “jeitão” do menininho que já fazia papel de adulto, como quem estava ali para proteger a sua família ou, até mesmo, querendo dizer que “estava tudo sob controle”, até porque, mãe e irmã retribuíam o sorriso a todo aquele que admirasse a postura do pequeno exemplar de ser humano.

Enquanto o avião fazia os preparativos de embarque., com passageiros entrando, escolhendo as poltronas, arrastando suas bagagens com rodinhas ou sem; as malas enormes (como deixam entrar com aquelas malas que mais parecem barracas de camping!) etc, tudo absolutamente normal. Entretanto, quando o comandante deu a famosa informação que diz “tripulação, preparar para o fechamento de portas”, é que começou uma reação na fileira à nossa frente: a fileira do molequinho.

Era possível espiar por entre as poltronas e perceber que algo não estava indo bem lá na frente. Era um tal de “fica aí”, misturado com “não quero” e um ou outro “calma” e “peraí”. Ficamos à espreita pois a curiosidade suplantava qualquer tipo de elegância. Chegou um momento em que o avião começou a andar, movimento chamado de “taxiamento” e não deu outra: a mãe do garotinho apertou o botão e chamou a comissária:

– Posso ajudar?

– Pode sim, é que o meu filho… – já quase sussurrando a mãe estava “polindo” o que iria dizer – sabe como é…. ele tem….

Nisso, a comissária se apressa em dizer:

– Ah sim, entendi, mas o que deseja que eu faça? – disse a Comissária, no mesmo instante em que o menino toma a frente da conversa e diz para a comissária:

– Eu não tenho medo, sou grande – esbravejou.

A mãe aparentemente não sabendo o que fazer dispensou a comissária, enquanto ela, juntamente com os outros comissários,  deram início aos procedimentos de segurança habituais: “Em caso de despressurização, máscaras cairão do teto. (…) use o assento inferior para flutuação (…) Leiam o cartão que está no compartimento (…)”.

O avião continua seu trajeto de taxiamento até que ele se ajusta ao início da pista e o comandante dá o aviso: “tripulação, preparar para decolar”.

Neste exato instante, percebe-se uma movimentação silenciosa nos bancos em frente aos nossos, e a criança, até então com toda aquela pinta de corajoso, pula sobre o banco da sua mãe passando por cima de sua irmã e agarra como se fosse um filhote de bicho-preguiça e começa a fazer um barulho com a boca que mais parecia um sussurro misturado com grito de dor “aiiiiiiiiiiiiiiiiiiii” enquanto o avião subia.

A cena daquele menininho no colo da mãe – embora fosse um problema sério de segurança pois ele não estava afivelado  – era muito curioso, pois misturava o carinho de mãe, a fragilidade do filho e a arrogância masculina, presente até nos machinhos.

Após estabilizar a aeronave e desligar o aviso dos cintos de segurança, percebe-se que a comissária vem se aproximando, pois possivelmente já previa que algo poderia acontecer com a fileira 1. Pouquinho antes, o guri saltou do colo da mãe e voltou para seu lugar, afivelando o cinto e colocando suas mãos no joelho como antes estava.

Ao chegar, a comissária olhou e percebeu um certo sinismo no trio e perguntou:

– Olá, tudo bem por aí?

A mãe deu uma piscada para a comissária e o garotinho respondeu:

– Eu não disse que era corajoso?

Nota do autor: Trecho do livro de CONTOS PARA NÃO SE LER NO AVIÃO de Jacques Miranda, autor com livros publicados no Sitio do Livro.

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Sobre jacques miranda

Jacques Miranda é professor universitário, palestrante, empresário e escritor.
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