Esboços (Estudos para romancear)

EXTRAIDO DE TEXTO EM PREPARAÇÃO AINDA POR REVER
João trava um monólogo com a sua consciência. Recuando ao tempo da Lisboa risonha de cravos ao peito, é como se percebesse hoje as quimeras inocentes de um Povo criança que sempre quis o que não tem, que inventa feitos para encobrir a sua triste cobardia. Um Povo de fanfarronices inventado como herói por meras e inconfessas conveniências de quem dele se alimenta, qual planta parasitária que o sufoca na ignorância dolorosa do seu mundo quietinho de vontades. Aqui estamos, nesta língua de terra que nos aperta e nos estrangula de encontro ao molhe, à força bruta, de um continente que nos ignora porque, não espreitando, uma vez que seja, o chão a baixo, nem sequer percebe que existimos. De um lado o mar dos nossos medos, do outro, a terra que nos rejeita; porque ignorar por mais tempo que somos um zero à esquerda do mundo grande, apenas porque não nos conseguimos libertar do nosso tão exíguo tamanho?
Do encontro fortuito com o Miguel, (uma cavaqueira amigável por entre os cravos da liberdade), muitos conceitos novos se aconchegaram no seu pensar. Não propriamente um mundo prenhe do homem novo, ou antigos homens velhos recauchutados em uma imaginária fábrica para reaproveitamento de humanos em desuso, por termo da sua data de validade, (como se na vida – e por decreto, – um indiscutível e celestial dirigente determinasse a validade para as filosofias que regem as nossas lógicas), não; mas antes homens disciplinados em carreirinhos, acarretando coisas úteis para dentro de um mundo formigueiro, imenso, um planeta inteiro, conquistado para servir como modelo de inteligência e de lucidez ao Universo. Não. A inteligência não se limita a ter uma face, a inteligência veste-se de muitas roupagens, de muitas verdades, de certa maneira se pode dizer que inteligência é divergência, confronto, recuos e avanços, certezas e incertezas, erros e cálculos; na fórmula matemática com que os homens ciência, atarefados, procuram Deus, se pode dizer que tem lugar um raciocínio abrangente, onde têm lugar todas as variáveis. É este o muro onde esbarram as ideologias, os raciocínios apegados aos conceitos de apenas e somente igualdade; é que sem diversidade nunca se chega à igualdade. É o mesmo que ambicionar um mundo de certinhos e libertos do mal. E qual, então, o ponto de partida para a avaliação? Os homens, então, lutam, não para alcançarem o progresso, mas sim pelas suas utopias irrealizáveis. Um homem é bom ou mau pela sua natureza e pela educação que o molda e aprisiona. Somos o que somos por via de muita coisa, na verdade, por via de tudo. É esta, afinal, a força, a âncora, a amarra que firma e torna indestrutível a Democracia. É que dentro dela, tudo cabe, tudo o que compõe o Homem, e isso é uma enormidade de coisas, uma avalanche de contradições, de mistura com uma insatisfação que resulta da constante certeza que lhe advêm de sentir que, por muito preenchido que se sinta de Conhecimento, nunca vai conseguir anular a revolta de se sentir vazio. Para mim é esta a verdade. Ninguém vai conseguir nunca cavalgar o mundo com as pernas, ferrar-lhe as esporas ou sequer feri-lo de morte, pela pura e simples razão que, se o mundo sucumbir todos nós vamos perecer com ele. A ilusão é só e apenas cada qual olhar o seu umbigo, sem ao menos, de quando em vez, ter necessidade de dar uma espreitadela ao do seu parceiro do lado. O infortúnio é saber que o tempo urge. Percebemos que o relógio do Universo vai parar para nós. Nada fazemos para travar-lhe a paragem. Somos, afinal, não somente um Povo, mas sim uma Humanidade quietinha que se afoga por gosto no mar de lama da sua estupidez, e mesmo quando o ar já falta e o sol se ofusca no breu da morte, num último sopro, ainda assim desafiamos o outro.
João escuta o silêncio do quarto. É como uma toada monótona e sem fim. Do lado direito da cama adivinha um quadro com uma Virgem sofredora a receber nos braços o corpo de um filho morto. Um Filho a quem o mundo que o matou Chama Deus, ou Filho também de Deus, que o Fez sem o pecado da carne. Como se o amor consentido fosse pecado. É esta a moral dos homens. Alguma coisa ou alguém virá por aí para nos salvar. Mas salvar do quê, de quem? Salvar de nós próprios, pois claro. Num raciocínio de bom senso, isto é como se ninguém não fizesse ideia do que afinal anda por aqui a fazer. Afinal, tudo o que a Humanidade quer é simplesmente impunidade. Impunidade entre nações e crenças, impunidade porque se apropria um vizinho daquilo que é do outro vizinho, porque rouba, porque escraviza, porque destrói, porque humilha, porque espezinha, porque assassina, porque desonra. Impunidade e perdão. Afinal a Humanidade quer tudo e, para sua cómoda vantagem, quer tudo dado por Alguém não humano a quem atribui as culpas de a ter, (por desvario de um momento de solidão), Criado. Olhando em redor, esta Humanidade de conveniências e de interesses, lembra-se das suas crenças. Pois, está ali o culpado. Deus, que ainda por cima cometeu o “pecado” de fazer o Homem, (este estafermo facilmente corruptível), à sua Imagem. Ali está então quem vai pagar as “favas” todas, Ele e o Diabo, numa conflitualidade onde se chocam os interesses do Bem e do Mal. Mas que rica prenda é esta Humanidade, beatifica por fora, maldosa por dentro, ardilosa, conflituosa e interesseira, e ao mesmo tempo extremosa pelos seus filhos povos, que a apaparicam e a mimam, lhe afagam os cabelos e lhe chamam mãe. Em verdade vos digo que estes povos são mesmo filhos da mãe, ou saem a esta mãe porque nela se revêem. Que forma tão bem engendrada que esta Humanidade arranjou para se desculpar, afinal, daquilo que na verdade é, uma espécie que calha está sozinha no Universo, se calha não é única, por muito que o queira. Uma espécie que tudo indica atingiu a inteligência em consequência da evolução. Por esta via de raciocínio somos apenas destrutivos. Mas isso não é verdade. Todos nós o sabemos. Ajeitámos a Natureza ao nosso modo; nem sempre bem, é certo. Combatemos e vencemos doenças e saímos para o Cosmos, ainda de passos medrosos, trémulos, com a tenra idade, com o medo de continuarmos eternamente a perceber que quanto mais conhecimento conquistamos, mais entendemos que nada sabemos…

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Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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