Extraído do conto:”O combatente com sonhos” (na guerra civil de Espanha)

AINDA NÃO PUBLICADO NEM REVISTO

Num dia normalíssimo deste mundo, cheio dos odores do costume nos campos, do mesmo correr das águas pelos ribeiros a caminho de crescerem e se tornarem rios, com as aves do costume cruzando no céu da mesma maneira de ontem e de antes, a notícia entrou pelo povoado como um tornado desses que sorvem tudo por onde passam, e quem a trouxe foi o moleiro chegado do seu moinho no topo da colina mais próxima; Amigos, a guerra já vem andando para cá. São os nacionalistas que a trazem ai pelos caminhos que dão para o sul, e vêm porque a comuna de Madrid parece que lhes mostrou os dentes, e também esses se estão chegando para cá, a barrar-lhes o caminho! Quem puder que fuja, que vá para o pé da fronteira com Portugal, aí ao menos salta para o lado de lá se chegar a necessidade a tanto! E depois, do que é que vamos viver do lado de lá? Dizia o que o ajudava a aliviar o burro dos sacos de farinha acabada de moer, Salvas a vida, ao menos isso, o depois logo se vê! Seria bom se os portugueses fossem boa gente. Então e não são? Fizeram-te algum mal? Falava o moleiro ao descarregar a última saca. Bons é que eles não são! Metem-se com tudo o que veste saias! Quanto lhe devo, mestre? O moleiro fez as contas molhando na boca o bico grosso do lápis que trazia seguro na orelha esquerda, fez umas contas numa folha de papel áspero que vinha presa na aldraba do animal, e disse, são dezasseis pesetas! Que sobes agora os preços quase todos os dias, conho! Já percebeste o que a vida tem subido! Mesmo assim, mesmo assim!
Aliviado o animal do peso das sacas, orelhas arrebitadas como acontece com todos os burros, independentemente dos sítios, das localidades e dos países, tanto assim que é universal a sua fala, não precisa de esperanto para os burros se entenderem uns aos outros, de pronto se pôs a andar à frente do moleiro, descendo do povoado na direcção do seu moinho, forma esférica com velas brancas gritando paz aos ventos da terra.
Dom Fernandez, à porta da bodega escutou todas as falas, e depois foi, calmamente, subindo para sua casa, a ultima no cimo da colina, espreitando a suave descida para a planície, desenhada como se mapa fosse, ao fundo, e pelo caminho foi pensando na insegurança dos tempos que estavam correndo. Ao chegar parou na cancela vendo a horta e o pomar, mais ao fundo, já a pender para a descida da colina, reparou no cavalo folgando umas horas em descanso merecido, deitado de quatro patas dobradas sobre o ventre, olhos espertos de cavalo andaluz, reparou no redil onde as poucas cabeças de gado, atentas à aproximação de gente que as levasse ao pasto, se juntavam apertadas encostadas na cancela, e, ao fundo, já na planície, a figura do moleiro caminhando atrás do burro, batido pelo sol do fim da tarde, raios doirados encharcando a terra de oiro, aquele sossego parado sem século fixo, tanto podia correr o vinte como o dezassete, seria igual, o sol, o moleiro e o burro, o fim da tarde e as casas brancas, semeadas com os granitos escuros, perdidas sem simetria por entre pequenas penedias e umas tantas árvores, de quando em vez ajoujadas de frutos, fazendo arquear as ramadas, projectando sombras de folhas molhadas pelo brilho do sol filtrado por entre elas, qual semeadora de pétalas auríferas a pasmar os homens. Reparou nas velas brancas do moinho rodando no alto, ao ritmo das brisas que varriam o cimo da colina chegadas dos vales, quando mais fortes fazendo ligeira ondulação nos ribeiros, e a silhueta de um cavaleiro andante carregado de sonhos, um dom Quixote saído das páginas do grande e eterno Cervantes, vendo donzelas para salvar das garras dos dragões. Aquela era a sua Espanha profunda, onde um dia iria a descansar no sopé da colina, tal como todos os seus ancestrais.
Dona Maria Luísa Ruiz Fernandez com a filha de oito anos pela mão, parou, olhando o marido parado do lado de fora da cancela.
– Então tanto tempo para entrares, o que se passa?
– Faz as tuas malas e a mala da menina, vocês as duas, ou as três, disse, olhando a barriga da mulher que ia crescendo todos os dias um pouco mais, vão a voltar para Cuba!
– Porquê?
Porque ela já ai vem!
– Quem?
– A guerra civil!
– Nós as duas não vamos a parte nenhuma sem ti, não é Maria Luísa?
– Sim, mãe!
– Em Cuba, em casa dos teus pais, vocês ficam bem. Eu vou ter com vocês quando tudo tiver terminado!
– Não posso nem devo abandonar a minha terra só por causa de uma guerra civil, que não vai chegar a este fim do mundo.
– Não deves abandonar a tua terra?!
– É evidente que não. Eu sou espanhola desde que casei contigo, homem, ou já não te lembras?
– Muito teimosas são as cubanas! Vocês têm de ir e está o caso arrumado. Não sonhas sequer o que vai ser o rebentamento deste barril de pólvora! De um lado os nacionalistas, do outro os vermelhos, atirados uns contra os outros na arena, enquanto os de fora admiram o espectáculo comodamente, nas bancadas. A Espanha vai ficar sem carne e depois ainda lhe vão roer bem ruídos os ossos. Ala. Ala, que se faz tarde. Eu vou levá-las à primeira terra da fronteira com o teu passaporte cubano, e de lá seguem para Cuba, quem decide sou eu.
NOTAS
QUE PORTUGAL FAÇA OS POSSIVEIS E OS IMPOSSIVEIS POR EVITAR O DRAMA DA GUERRA CIVIL! OS POLITICOS RESPEITEM O DIREITO DO POVO; PELO MENOS A TER COMIDA E TRABALHO!

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Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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