AS NOSSAS PALAVRAS

Faz dois ou três dias, fui visitar um amigo que se encontra acamado em Almada. Durante a travessia do rio Tejo, no sentido de Montijo Lisboa, são perto de quarenta minutos de navegação, e dei por mim sem pensar em nada. Caso inédito, para gente do meu tipo! Bom, mas, se nada saiu acabou por entrar alguma coisa, que classifiquei mais tarde como material suficiente para redigir esta modesta crónica.
Na minha frente, com uma coxia de permeio, estava um grupo de jovens com jeito de serem estudantes universitários, sentados de frente uns para os outros, sobraçando livros e cadernos. Falavam das suas questões na vida académica. E quando dei por mim, (coscuvilheiro impenitente), apanhei, com o meu jeito peculiar de me meter na vida dos outros, o “fio à meada” da sua conversa. Falavam da disciplina de português, segundo a versão do tão falado acordo ortográfico luso-brasileiro. Dizia uma das moças: “Lá quanto aos cês, vá que não vá, até que não se lêem! Mas quanto ao resto, não é a nossa maneira de falar, não são os nossos termos; aquilo, afinal, não passa de um disparate pegado! É um frete ter de estudar aquilo!”
Fiquei sensibilizado. É, de facto, um disparate que lesa e amarfanha, que faz doer a Alma de um Povo. Mesmo que renda dinheiro quando não se tem dinheiro, mesmo que facilite negócios, ainda que alguns possam bem ser honestos, outros, quiçá a maioria, não, a língua materna, meus amigos, é o que na sua essência melhor define uma Pátria, uma Gente, um Coração com muitos corações que batem com ritmo e a compasso igual. É certo e sabido que internacionalizámos a nossa fala quando calcorreamos o Mundo em busca do Outro e oferecendo pedaços de nós a troco de tudo, ouro ou comida, Poder por armas conquistado ou vindo por mor de misturas de sangues, de palavras e de amor, porque de tudo, estou convicto, aconteceu na Grande Aventura! Mas a Língua, meus senhores, a Língua não, porque as mães não se vendem, não têm preço! A Língua veio de longe até ao nosso berço, libertou-se dos lábios da nossa mãe, saiu de dentro dela, do seu ventre, do seu cérebro, dos seus Antigos e dos Antigos deles, e também ela cresceu, desde o seu choro de criança até à sua Cátedra de Cultura, construída com as emoções dos nossos Grandes, Poetas e Escritores, Camões, Bocage, Herculano, Camilo, Vergílio, Saramago, Régio, Pessoa, e muitos mais, tantos que nos vigiam desde a Eternidade da Gente que Somos até estes nossos tristes dias, em que os vendemos a troco de uma esmola, uma insignificância, um barril de grude, uma mão – cheia – de – nada, uma palmada nas costas, um não pode ser, tenha paciência, Só se nos derem a vossa Língua, é que nos faz falta, para sermos gente!
Se os nossos aliados antigos, os ingleses, negociassem a sua Língua, Shakespeare perdia a Alma, que esvoaça na grandeza do seu Ser a continuar a Pátria Inglesa! E nós, os de cá, não temos respeito por nós, não temos História, não vertemos Sangue em batalhas tantas para nos continuarmos? Que gente somos? Em que porcaria amoral nos transformamos? Que respeito temos por nós? Apenas vegetamos, indignos dos Nossos Maiores por este pobre e mísero mundo sem grandeza e sem mérito, a mendigar o que não conseguimos ter por mérito próprio?
Levantem-se, Compatriotas! Ergam-se de Punho Erguido, por uma vez que seja na vossa História, e façam de Portugal de novo o Sonho que já foi!

Sobre jsola02

quando me disseram que tinha de escrever uma apresentação, logo falar sobre mim, a coisa ficou feia. Falar sobre mim para dizer o quê? Que gosto de escrever, (dá-me paz, fico mais gente), que escrever é como respirar, comer ou dormir, é sinal que estou vivo e desperto? Mas a quem pode interessar saber coisas sobre um ilustre desconhecido? Qual é o interesse de conhecer uma vida igual a tantas outras, de um individuo, filho de uma família paupérrima, que nasceu para escrever, que aos catorze anos procurou um editor, que depois, muito mais tarde, publicou contos nos jornais diários da capital, entrevistas e pequenos artigos, que passou por todo o tipo de trabalho, como operário, como chefe de departamento técnico, e que, reformado, para continuar útil e activo, aos setenta anos recomeçou a escrever como se exercesse uma nova profissão. Parece-me que é pouco relevante. Mas, como escrever é exercer uma profissão tão útil como qualquer outra, desde que seja exercida com a honestidade de se dizer aquilo que se pensa, (penso que não há trabalhos superiores ou trabalhos inferiores, todos contribuem para o progresso e o bem estar do mundo), vou aceitar o desafio de me expor. Ficarei feliz se conseguir contribuir para que as pessoas pensem mais; ficarei feliz se me disserem o que pensam do que escrevo… José Solá
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