ANJO GORDO

Azael sentia-se infeliz – o que é um sentimento humano.
E com um princípio de ressentimento azul, que tenderia a provocar chispas de raiva avermelhada e, mais tarde, poderia abrir janelas a um ódio púrpura – tudo sentimentos humanos que, quando penentram em almas angélicas, as alimentam de uma força que nem os homens terão alguma vez experimentado.
Azael, o anjo, não podia compreender por que Deus o teria concebido como um «anjo gordo». Os anjos são puro espírito. Não têm carne. Os seus corpos espirituais, etéreos, são de uma elegância perfeita, luminosa, leve, no limiar da translucidez. Que sentido faz um anjo gordo!? Um anjo gordo para quê??? Que diabo pensava Deus – passe a expressão -, que tinha Deus na sua mente omnisciente quando o concebera e criara assim?

Por um estranho e perverso efeito, apesar de ser todo espírito, como os demais, essa sua espiritualidade gorda assumia algumas das características da gordura física: lentidão, cansaço, vergonha de si.
Sentou-se sobre uma pedra.
Gostaria de ver Deus. Não de o enfrentar – não teria coragem para se rebelar, bastava a trágica história de Lúcifer para o dissuadir. Mas perguntar-lhe. Porquê, Meu Deus? Que querias tu provar? Para que te sirvo assim?

Viu passar um menino gordo. E, por um instante, pareceu-lhe que compreendia a sua missão, a sua qualquer coisa. Não? Por um instante pensou que talvez se tratasse de o aproximar de um certo grupo de seres humanos – complexados, doentes, tristes – e de lhes mostrar que até entre os anjos pode haver gordos, que o aspecto não tem qualquer importância, que…
Em suma, talvez Deus o tivesse criado por uma intenção «politicamente correcta».

E pôs-se de pé. Diante do menino atónito. Em toda a extensão das suas asas e da sua gordura descomunal.
E sorriu ao menino. Luminosamente.
E a tristeza passava-lhe, agora que se imbuía da sua missão.
Afinal.

Até que o menino, o próprio menino, ele próprio gordo, exclamou, de dedo humilhantemente apontado:
– Ena pá! Um gordo com asas!

E, então, a irremediável tristeza de Azael regressou por inteiro.
E o anjo gordo sentou-se de novo sobre a pedra.
E suspirou.

[Do autor deste conto, Gil Duarte, existe um romance publicado, Nada Mais e o Ciúme, que pode encomendar pelo Sítio do Livro.]

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