CANCIONEIRO POPULAR – Frutos

CANCIONEIRO POPULAR - FRUTOS

Frutos

Tanto limão, tanta lima,

Tanta silva, tanta amora;

Tanta cachopa bonita,

Meu pai sem ter nora!

Tenho uma maçã doirada

Ao canto do meu baú,

Para dar ao meu amor,

Queira Deus que sejas tu.

Dá-me da pêra parda,

Da maçã um bocadinho;

D´esses braços um abraço,

D´essa boca um beijinho.

Trago dentro do meu peito

Cidra, laranja, limão;

Para trazer toda a fruta

Falta-me o teu coração.

Nem toda a árvore dá fruto,

Nem toda a erva dá flor;

Nem toda a mulher bonita

Pode dar constante amor.

O limão tira o fastio,

A laranja o bem querer;

Tira de mim o sentido

Se me queres ver morrer.

Oh figueira dá-me um figo,

Oh figo dá-me um agraço;

Oh menina, dê-me um beijo,

Que eu lhe darei um beijo.

Teófilo Braga – Cancioneiro Popular

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Lançamento do livro “Contrastes – Natureza vs Urbano”

012 (500 px) 18/04/2015

“Em “CONTRASTES”, Modesto Viegas junta duas formas da sua paixão fotográfica – a natureza, na sua mais vasta representação, através de locais e espécies bem diferentes, e o urbano, em que cada esquina conta uma história e onde cada estrutura edificada mostra, através da técnica, o desequilibrado reflexo do equilíbrio das formas. A relação entre as duas ficará, de forma natural, ao alcance da imaginação do leitor.

Rúben Neves”

contrastes_3D_ok (blog)http://www.modestoviegas.com

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ECOS DO SALÃO DO LIVRO DE GENEBRA 2015

A Suíça é um país de que gosto muito, e quando a Suíça me abre os braços, eu levanto asas e voo até lá. E assim aconteceu de novo durante o recente Salão do Livro de Genebra, em que estive presente e a autografar no estande do Varal do Brasil, por amável convite da Jacqueline Aisenman.

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O evento voltou a ser um êxito, e foi maravilhoso rever outros autores e agentes culturais que conheci pessoalmente em anteriores salões do livro e cuja amizade tem perdurado através da distância no tempo e no espaço…

Os dois novos livros infanto-juvenis que apresentei foram:

Há Festa no Céu, publicado em Portugal pela editora Sinapis
Le Ciel est en Fête, publicado em França pela editora BoD

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Apresentação do livro Oceano o Rapaz Golfinho

A autora Vanda Marques Uma autora ja conhecida por Fazer historias juvenis, apresentou o Livro “A História do Oceano, Rapaz Golfinho” eo vídeo PODE Ser visto em Baixo :

Mais Acerca do autor e do Livro em http://www.rapazgolfinho.blogspot.com

ou em http://www.clemente.pt

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Gente da Terceira Classe

José Rodrigues Miguéis (Lisboa, Portugal, 1901 – Nova Iorque, EUA, 1980). Pertenceu ao grupo Seara Nova.

Palavras de José Rodrigues Miguéis:

“Quando erro – e tenho errado muito – pergunto sempre: Poderia eu ter errado melhor?! 

 Gente da Terceira Classe

  “ (…) É preciso ter viajado num destes transatlânticos para se fazer uma ideia das fronteiras que separam os homens e as classes, mesmo dentro duma casca de noz. E somos poucos, aqui, não mais de cinquenta: que faria se fôssemos os duzentos ou quatrocentos da lotação, só Deus sabe, amontoados na imunda gafaria que é a terceira dos emigrantes. (…)

Ao partir, levavam consigo ao menos uma esperança: agora nem isso lhes resta. Muitos deles, com o sonho, seu único luxo, perderam por lá a saúde e a força de trabalho, que era toda a sua riqueza.

Com estes, os de torna-viagem, embarcaram na Madeira e agora comigo, em Lisboa, alguns portugueses que vão, como eu, à Inglaterra tomar o paquete para os Estados Unidos.

Assim se juntam aqui, embora com destinos e em estados de alma opostos, duas correntes da mesma miséria: uma delas, ainda quente do sol da ilusão, parte para a zonas mais temperadas e prósperas do Leste americano; a outra regressa lá do equador e do trópico, fria de desapontamento, amolambada e escrofulosa, para se dispersar por todos os cantos deste nosso mundo cristão e ocidental.
Correntes humanas, num inquieto e perpétuo corrupio em torno destoutro mar de Sargaços, a vida. (…) ”

Imagem: pintura de Eileen Agar (Buenos Aires, Argentina, 1899 – Londres, Reino Unido, 1991)

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Carta de Florbela Espanca ao seu irmão Apeles

CARTA DE FLORBELA ESPANCA

Meu querido irmão

Certamente te irá surpreender e penalizar a minha carta, mas entendo que é melhor dizer-te eu própria tudo o que há de novidade, em vez de deixar que aos teus ouvidos cheguem malevolências que te podem dar de mim uma ideia errada e injusta.

Eu deixei que tivesses da minha vida uma certeza de felicidade que ela de forma alguma possuía, nunca me ouviste uma queixa, nunca ninguém me viu uma lágrima, e no entanto a minha vida de há dois anos foi um calvário que me dá direito a ter razão e a não me envergonhar de mim.

Sofri todas as humilhações, suportei todas as brutalidades e grosserias, resignei-me a viver no maior dos abandonos morais, na mais fria das indiferenças, mas um dia chegou em que eu me lembrei da vida que passava, que a minha bela e ardente mocidade se apagava, que eu estava a transformar-me na mais vulgar das mulheres, e por orgulho, e mais ainda por dignidade, olhei de frente, sem cobardias nem fraquezas, o que aquele homem estava a fazer da minha vida, e resolvi liquidar tudo simplesmente, sem um remorso, sem a mais pequena mágoa.

Estou a divorciar-me e para me casar novamente, se a lei mo permitir, ou para viver assim, se a moralidade do Código o exigir. Dois anos lutei em vão para fugir a um amor que estava a encher-me toda, e este que encontrei agora orgulho-me dele pois é um ser único, como eu esperava encontrar, enfim, na vida. Tudo quanto me digas não é a décima parte do que eu me tenho dito.

Pensei na sociedade, pensei na família, nos amigos, e principalmente em ti, mas que queres? Eu não podia sacrificar-me a isso tudo que é muito, mas que nada é comparado a isto que eu sinto e que eu antes queria morrer do que perder. Por isso não me digas nada, para quê?

Pensa de mim o que quiseres, que eu estou disposta a aceitar tudo contanto que uns olhos me vejam sempre a melhor, a única entre todas as outras.

Que importa o resto? Para ti serei sempre a mesma, a irmã muito amiga de quem podes dispor em toda a minha vida; para os outros morri; que me enterrem em paz, que não pensem mais em mim e é tudo o que eu desejo.

Gostava de saber de ti, mas se tu não quiseres mais lembrar-te que eu existo, adeus até um dia que tu queiras, pois serei sempre a mesma,

a tua Bela

29 de Dezembro de 1923

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CANCIONEIRO POPULAR – Sou varina, sou varina

CANCIONEIRO POPULAR - SOU VARINA

Sou varina, sou varina

Oh, ai!
Sou varina, sou de Ovar;
Se eu sou varina ou não
Oh, ai!
Reparem no meu trajar.

Reparem no meu trajar
Oh, ai!
Raparem pr’á canastrinha;
A andar de porta em porta:
Oh, ai!
Quem compra a bela sardinha?

Quem compra a bela sardinha?
Oh, ai!
Quem compra a bela pescada?
A vida de uma varina,
Oh, ai!
É ‘ma vida amargurada.

José Leite de Vasconcellos – Cancioneiro Popular Português

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DECLAMADORES – JOÃO VILLARET

JOAO VILLARET

João Villaret (Lisboa, Portugal, 1913 – 1961).

Estreou-se profissionalmente no Teatro Nacional D. Maria II, integrado na Companhia Amélia Rey Colaço/Robles Monteiro.

Representou Gil Vicente, Shakespeare, Eugene O´Neill, Bernard Shaw, Almeida Garrett, entre outros dramaturgos.

Esta Noite Choveu Prata, peça do brasileiro Pedro Bloch, foi, talvez, o maior êxito da sua carreira teatral.

Participou em várias revistas, género teatral pelo qual tinha grande apreço, conquistando grandes sucessos, tais como: Fado Falado, Procissão, Esta Vida é um Corridinho, Santo António.

Dotado de uma excepcional capacidade de comunicação, dignificou a difícil arte de dizer poesia.

Esteve várias vezes no Brasil, onde é conhecido pela declamação de poemas de Fernando Pessoa.

Através da televisão, apresentou os grandes poetas ao público português.

Palavras de João Villaret:

“Não digo versos; procuro reproduzir o momento de angústia, de alegria, de revolta que o poeta sentiu ao escrever o seu poema. Recitando, encontro a plena libertação, pois dou-me esse infinito gosto de interpretar aquilo que amo e que me tocou profundamente.”

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MULHERES PIONEIRAS – ILDA AURORA PINHEIRO DE MOURA MACHADO

ILDA AURORA MACHADO

Ilda Aurora Pinheiro de Moura Machado (Porto, Portugal, 1918 – 2000).

Licenciou-se em Matemática, Engenharia Geográfica e Ciências Pedagógicas.

Foi membro do Sindicato dos Engenheiros Geógrafos e trabalhou na Empresa Nacional de Estudos Técnicos.

Frequentou aulas de meteorologia na Faculdade de Ciências de Lisboa.

Participou na formação da Estação Meteorológica de Pedras Rubras, Porto.

Foi chefe de divisão de Meteorologia Marítima.

Escreveu vários livros sobre temas da sua especialidade.

Ilda Machado foi a primeira meteorologista portuguesa.

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CONTOS TRADICIONAIS DO POVO PORTUGUÊS – O caldo de pedra

contos -a sopa de pedra

O caldo de pedra

Um frade andava ao peditório; chegou à porta de um lavrador, mas não lhe quiseram aí dar nada. O frade estava a cair com fome, e disse:

— Vou ver se faço um caldinho de pedra. E pegou numa pedra do chão, sacudiu-lhe a terra e pôs-se a olhar para ela para ver se era boa para fazer um caldo. A gente da casa pôs-se a rir do frade e daquela lembrança. Diz o frade:

— Então nunca comeram caldo de pedra? Só lhes digo que é uma coisa muito boa.

Responderam-lhe:

— Sempre queremos ver isso.

Foi o que o frade quis ouvir. Depois de ter lavado a pedra, disse:

— Se me emprestassem aí um pucarinho.

Deram-lhe uma panela de barro. Ele encheu-a de água e deitou-lhe a pedra dentro.

— Agora se me deixassem estar a panelinha aí ao pé das brasas.

Deixaram. Assim que a panela começou a chiar, disse ele:

— Com um bocadinho de unto é que o caldo ficava de primor.

Foram-lhe buscar um pedaço de unto. Ferveu, ferveu, e a gente da casa pasmada para o que via. Diz o frade, provando o caldo:

– Está um bocadinho insosso; bem precisa de uma pedrinha de sal.

Também lhe deram o sal. Temperou, provou, e disse:

– Agora é que com uns olhinhos de couve ficava que os anjos o comeriam.

A dona da casa foi à horta e trouxe-lhe duas couves tenras. O frade limpou-as, e ripou-as com os dedos deitando as folhas na panela.

Quando os olhos já estavam aferventados disse o frade:

– Ai, um naquinho de chouriço é que lhe dava uma graça…

Trouxeram-lhe um pedaço de chouriço; ele botou-o à panela, e enquanto se cozia, tirou do alforge pão, e arranjou-se para comer com vagar. O caldo cheirava que era um regalo. Comeu e lambeu o beiço; depois de despejada a panela ficou a pedra no fundo; a gente da casa, que estava com os olhos nele, perguntou-lhe:

– Ó senhor frade, então a pedra?

Respondeu o frade:

– A pedra lavo-a e levo-a comigo para outra vez.

E assim comeu onde não lhe queriam dar nada.

 

Contos Tradicionais do Povo Português coligidos por Teófilo Braga

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